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A esperança é mais útil que o medo

por henrique pereira dos santos, em 29.01.21

Em posts anteriores tenho procurado contestar a visão catastrofista - o que será o menos se corresponder à realidade - da evolução da epidemia, ontem expressa na estranha afirmação de Marcelo Rebelo de Sousa de que o que fizermos até ao fim de Março condiciona a evolução da epidemia até ao fim do Verão e, quiçá, no próximo Outono.

O que me separa radicalmente dessa visão é a ideia de que os surtos de doenças infecciosas têm uma dinâmica interna, condicionada por factores ambientais que frequentemente desconhecemos, que é muito mais poderosa que a dinâmica resultante dos contactos dos hospedeiros.

A minha convicção é que sabemos demasiado pouco sobre os processos naturais para ter a pretensão de que os conseguimos controlar a partir da forma como nos organizamos.

O que não me faz negar a utilidade de tentarmos usar o que sabemos sobre contactos e formas de nos organizarmos para nos defendermos das consequências negativas desses processos naturais, sempre que seja possível e razoável esperar que as medidas que nos parecem adequadas, não têm efeitos sociais e pessoais globais mais negativos que os eventuais efeitos positívos sobre o controlo do surto epidémico.

O fulcro, o centro do que tenho escrito, prende-se com a discussão dos efeitos negativos e positivos das medidas não farmacêuticas de controlo desta epidemia, com a recusa radical de aceitação da adopção de medidas cujos efeitos negativos são simplesmente ignorados na formulação de políticas.

O que me obriga a olhar para matérias que claramente não são a minha área de competência, como a discussão dos efeitos da epidemia.

Procuro por isso não me meter em matérias demasiado complicadas para o que sei, olhando para factores que consigo compreender, mesmo que sejam indicadores grosseiros ou que o que consigo saber sobre eles seja a partir de indicadores grosseiros.

O principal indicador para que olho é o da mortalidade e tendo discutido (na verdade, comigo mesmo) a hipótese de que a evolução das últimas semanas se explica melhor a partir da compreensão dos efeitos de uma vaga de frio excepcional que a partir dos contactos do Natal, resolvi melhorar um bocadinho um gráfico da treta que já apresentei antes.

Imagem1.jpg

Atenção à parte mais à direita do gráfico quer porque os dados da mortalidade total estão forçosamente subestimados, o sistema de registo da mortalidade tem dados provisórios nos últimos dias e vai actualizando os números, e ainda não sei, neste momento, os dados da mortalidade covid de hoje, que dizem respeito a ontem. Ainda assim note-se que a queda da mortalidade total de anteontem para ontem é apreciável, e o número provisório a esta hora é expressivamente mais baixo que à mesma hora dos outros dias. Veremos o que se confirma nos próximos dias.

O que vejo neste gráfico, em que representei a mortalidade diária total e a sua média de sete dias, a cor de laranja, a mortalidade covid e a sua média a sete dias a azul e percentagem desta sobre aquela, a verde?

Face às hipóteses que apresentei anteriormente este gráfico não as valida totalmente, especialmente no tempo, mas abre a possibilidade de não estarem totalmente erradas, se ajustar o que disse antes, corrigindo quer o tempo de ocorrência quer, provavelmente, a velocidade de evolução.

O que me parece clara é uma subida de mortalidade total a partir do dia 24 de Dezembro, com uma ligeira descida do peso da mortalidade covid num primeiro momento (princípio de Janeiro) e relativa estabilidade desse peso até ao fim da primeira semana de Janeiro, a que se segue um progressivo aumento do peso da mortalidade covid na mortalidade total, acentuado a partir da segunda quinzena de Janeiro.

A média dos sete dias da mortalidade total permite ver melhor o pico de mortalidade por volta de 26 de Janeiro e o início de uma descida, que eu espero que seja sustentável, mas para a validação da qual não existem, ainda, dados.

Se esta leitura estiver certa, eu diria que não está muito longe de validar, em traços gerais, não no pormenor, a hipótese que tenho vindo a procurar validar face à evolução da realidade.

A minha interpretação pode resumir-se da seguinte forma: após um primeiro momento do impacto direto da onda de frio na mortalidade (mais ou menos a semana de desafasamento que vi na bibliografia que li), faz-se sentir o impacto da onda de frio na evolução da infecção que tem uma evolução bem mais prolongada que a da gripe, o que aumenta o desfasamento em relação aos dados da meteorologia. Enquanto estes dois efeitos se sobrepõem, na primeira fase, a mortalidade total aumenta rapidamente, mantendo-se o peso relativo da mortalidade covid sobre a mortalidade global e à medida que o efeito directo da anomalia meteorológica se vai desvanecendo a velocidade de aumento da mortalidade global decresce e aumenta o peso relativo da mortalidade covid.

A ser assim, as boas notícias é que os impactos directos e indirectos da anomalia meteorológica estão em dissipação e nos próximos dias veremos o pico e posterior descida do número de casos covid, de internamentos e mortes, de letalidade e de positividade dos testes, embora com desfasamento entre eles e, provavelmente, a um ritmo mais lento do que eu pensava e gostaria.

Como entretanto foram tomadas medidas brutais de restrição de movimentos, não haverá falta de quem dirá que foram essas medidas que deram origem à evolução descrita (se ela se verificar), mas será bom ter em atenção que os efeitos dessas medidas só se podem atribuir a essas medidas a partir de hoje, e os indícios desta evolução são anteriores.

Até pode ser que essas medidas tenham algum efeito e acentuem a evolução descrita, mas não vejo como atribuir-lhe a causa de uma evolução que se inicia num momento que lhes é anterior.



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