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A escolha pela liberdade não é fácil

por henrique pereira dos santos, em 01.04.20

Sabemos muito pouco sobre o que querem dizer os números da covid em cada país (como são registados, que parte da realidade traduzem, que relações de causa/ efeito existem que não sejam meras correlações estatísticas, etc.).

Por isso todas as comparações entre países, devem ser muito, muito, muito cautelosas.

A ideia de que são as medidas que estão a ser tomadas que estão a ter os efeitos diferenciados que se possam ver nos números é um salto no escuro: podem ser, ou podem não ser.

Existem bastante artigos científicos e de opinião que discutem esta questão, mas todos os que li que demonstram o efeito das medidas de contenção social (muito longe de serem todos os que existem, claro) assentam em correlações estatísticas cuja interpretação se baeia num raciocínio circular: as medidas são eficazes, todas as diferenças entre os modelos teóricos e os números reais se devem às medidas, logo, as medidas são eficazes.

O que parece certo é que a partir da manobra de propaganda da ditadura chinesa - derrotámos gloriosamente o vírus com a nossa acção firme e decidida -, com a conivência do silêncio da OMS (que deveria ter dito que essa é uma hipótese, embora pouco provável, e que o conhecimento de cem anos de epidemiologia permite admitir que a curva epidemiológica tenha seguido o seu curso natural, tendo sido o vírus a derrotar-se a si próprio, com mais ou menos influência das medidas na contenção dos seus efeitos sociais), as opiniões públicas ocidentais exigiram aos seus governos que actuassem como ditaduras para derrotar este inimigo, antes que o inimigo nos derrotasse a nós.

O resultado é que em todo o lado, o medo e a emoção, a matéria base de que se sustentam as ditaduras, se têm sobreposto à racionalidade na definição do problema e na adopção das medidas razoáveis em cada momento.

"É possível, porque tudo é possível" que não fosse possível ter sido outra a forma de lidar com o problema dada a pressão das opiniões públicas, mas que isso nos vai custar muito, muito caro, isso é garantido.

O impacto da epidemia talvez não seja muito diferente do que seria o impacto de um ano mau de gripe, em número de mortos, com ou sem medidas, isso não é garantido, mas é cada vez mais provável.

O que me perturba nisto é a facilidade e rapidez com que as opiniões públicas ocidentais aceitaram prescindir da sua liberdade - uma coisa é apoiar os governos nas campanhas de distanciamento social, aceitar recomendações para diminuir contactos sociais, promover activamente o isolamento social de grupos de risco, outra coisa é apoiar a adopção de uma política coerciva do Estado para obter os mesmos resultados - para exigir aos seus governos e aos seus jornais que actuassem com os instrumentos das ditaduras: condicionamento da opinião, silenciamento social da divergência, estado de sítio, etc..

Sendo real, imaginária ou, ainda mais perigoso, com um fundo de realidade empolada por uma imprensa acrítica e elites muito informadas mas pouco cultas, bastou uma ameaça externa ser sentida como suficientemente grande para que tenhamos ido a correr para os braços das lideranças fortes, das medidas musculadas e para a ostracização social da divergência.

Uma boa demonstração de que as democracias não são um dado adquirido e muito menos o estado natural das comunidades, bem pelo contrário, a democracia e a liberdade são contra-intuitivas e exigem um esforço permanente de racionalidade que as defenda.



2 comentários

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De Anónimo a 01.04.2020 às 15:28

..." nunca antes fomos expostos a uma tal experiência e tão avassaladora como esta e cujo desfecho, por ser uma incógnita, se teme."



Esta é a frase paradigma dos tempos actuais: a História começou comigo; e quando digo nunca, refiro-me... a mim, claro.


Já cá andamos há um bocadinho mais de tempo. LEIAM!


Vasco Silveira
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De Anónimo a 02.04.2020 às 11:57

Interpretou mal.  Mas pode crer que não chegarei ao ponto de afirmar que se trata de um "ligeiro" problema de iliteracia... uma vez comprovada a sua capacidade de ironizar... Contudo, lamento dizer-lhe, caro Sr., que foi um desperdício do seu tempo, posto que se enganou "rotundamente": também leio, também conheço bem  a História, também sei  que a Humanidade já sofreu a devastação de muitas outras pandemias de dimensões e consequências catastróficas. É como diz, não começaram hoje, pois "já cá andamos há um bocadinho mais de tempo", de facto. 


Simplesmente referia-me literalmente a "nós", ao "nosso"  Tempo  colectivo. ESTA  é   "a"  nossa comum experiência  directa, nova e impreparada, que está a ser vivida neste exacto momento, conjuntamente no seu , meu, nosso tempo Presente conjugado por todos quase simultaneamente, porque no mesmo contexto histórico único e irrepetível . É  o    "aqui   e   agora"    da    SUA   e   da    MINHA   geração. Todos / na Totalidade / no Todo - ( Pan ).
 Quando afirmo  que (nós) "nunca fomos expostos a uma tal experiência" é, repito, no sentido literal: "nós"  na nossa comum actualidade e estupefacção.
Mas não considerei apenas o "tempo cronológico", e mensurável, que pode ser fraccionado em parcelas ou unidades menores. Referia-me, também, ao "tempo psicológico",  aquele cuja extensão é variável, porque é percepcionado subjectivamente e vivido por cada um de nós, de forma mais pessoal, na sua componente afectiva/emotiva.  Daí ter mencionado o momento "avassalador" e  a dimensão desconhecida do  desfecho, uma vez que ainda  estamos num processo  em curso, que pertence à esfera do nosso  "acontecer".  Ficará gravado na nossa  memória colectiva, sem dúvida, como TAMBÉM irá ser acrescentado na  História futura, como  "acontecido". Tal  qual as OUTRAS pandemias ... sobejamente documentadas, registadas e estudadas.
Por ora, cuidemos do Presente, mas... com olhos de Futuro!  Boa Sorte!
ST









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