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A epidemia e nós

por henrique pereira dos santos, em 10.09.20

Quando se declarou a epidemia, formaram-se duas correntes de opinião, uma esmagadoramente dominante e outra ultra-minoritária.

A primeira, com base em previsões que ao tempo já eram absurdas - por serem feitas sem a informação necessária, que não havia, e por partirem de pressupostos nunca demonstrados - ocupou rapidamente o espaço público e acabou por impôr, não directamente, mas por via da manipulação emocional das opiniões públicas ocidentais, medidas sociais sem precedentes, com resultados negativos certos e de grande dimensão, e com benefícios incertos e com fundamento especulativo, essencialmente assentes nos tais modelos absurdos.

A segunda essencialmente contestava a validade dos tais modelos e, muito mais importante, contestou a razoabilidade de adoptar medidas socialmente devastadoras sem precedentes, e das quais não se sabia como sair com base na informação existente sobre a epidemia.

Necessariamente as duas correntes de opinião disseram coisas erradas e fizeram previsões que não se verificaram como é da natureza de uma epidemia provocada por um doença nova e sobre a qual não existe informação consolidada.

Por exemplo, a epidemia parece ter evoluído de forma mais prolongada e extensa daquela que a minoria poderia esperar do histórico das epidemias provocadas por doenças respiratórias - independentemente das dúvidas que possam existir sobre outra das originalidades da gestão desta epidemia: o foco em resultados de laboratório em detrimento da sintomatologia da doença - e, pontualmente, parece ter desencadeado uma mortalidade maior que a esperada.

Do lado da maioria, o foco na necessidade de proteger a capacidade de resposta dos sistemas de saúde levou à adopção de medidas - a transferência de infecciosos para estruturas recuadas, maioritariamente lares de terceira idade - que poderão ter tido um efeito maior na mortalidade que o esperado, por desvalorização da capacidade de transmissão da doença.

Aparentemente as duas linhas de pensamento terão errado nas consequências da capacidade da infecção da doença, a maioritária porque se terá focado na transmissibilidade na sociedade, em detrimento do foco na transmissibilidade dentro de grupos vulneráveis, a minoritária porque terá desvalorizado a capacidade de transmissão directa, de pessoa a pessoa.

Todos os erros e incertezas fazem parte dos processos de gestão de epidemias provocadas por doenças sobre as quais há muito pouca informação.

O que é inquietante não é isto, mas sim a aliança entre o fascismo sanitário e a dominância de lideranças muito fracas, a par da forma como o jornalismo se demitiu do seu papel fundamental, o que cilindrou qualquer divergência como as igrejas cilindram as heresias.

Quem ouça os videos de Filipe Froes anteriores à covid compreende facilmente a ideia que persegue: a saúde pública poderia ter desempenhos muito melhores se as pessoas se comportassem adequadamente.

É fácil encontrar referências de técnicos de saúde sugerindo que, mesmo que não seja pela covid, todas as medidas tomadas têm um efeito sanitário muito positivo para o conjunto das doenças respiratórias e é bom que todos estejamos mais conscientes das virtudes de uma higiene mais cuidada, dos riscos do contacto interpessoal próximo, de uma maior atenção à limpeza dos sítios que usamos, etc..

Se comermos menos sal, menos açucar, menos gorduras, se fizermos mais exercício, se vigiarmos melhor o peso, se não fumarmos, se não usarmos psicotrópicos, viveremos mais e em melhores condições (estatísticamente, claro, nada disto impede alguém de ser atropelado amanhã).

O fascismo sanitário consiste em achar que, havendo uma responsabilidade geral por garantir cuidados de saúde a todos e havendo uma grande pressão sobre os serviços de saúde por parte de patologias que poderiam ser mais bem tratadas e de forma mais barata adoptando padrões de vida e comportamente mais saudáveis, todas as opções anteriores deixam de ser questões de liberdade individual, para serem questões em que o Estado tem o direito de intervir, coercivamente, se for o caso, ou por manipulação emocional, como foi o caso.

Os exemplos mais frequentes dizem respeito às restrições sobre o tabaco, mas estendem-se a muitos outros campos.

Esta tensão entre liberdade individual e interesse público não é nova - a lei seca, as restrições aos jogos de azar, e muitas outras coisas do mesmo tipo têm essa raiz -, sempre existiu, o que é nova é a ideia de que o acesso universal aos cuidados de saúde conferem uma legitimidade acrescida ao Estado no controlo das nossas opções de vida e dos nossos comportamentos individuais.

O que a epidemia veio mostrar é que existe uma esmagadora maioria de pessoas que perante ameaças mal definidas à sua saúde e restrições concretas à sua liberdade, não hesitam e escolher a segurança sanitária e recusam qualquer discussão sobre proporcionalidade nas medidas a adoptar.

O que significa que temos sociedades maduras para aceitar caudilhos que sacrifiquem a liberdade às promessas de segurança.

A discussão do papel da Suécia, que lidou com a epidemia de forma quase solitária - não foram os únicos a recusar muitas das mais penalizadoras medidas de restrição das liberdades individuais, mas foram os que o fizeram de forma mais clara - é bem ilustrativa da sanha contra tudo o que pudesse pôr em causa a ideia dominante de que ou nos fechávamos todos em causa, ou haveria uma tragédia insuportável.

Ainda agora se insiste que a única maneira de nos defendermos dos efeitos negativos da epidemia são mais e mais restrições de contactos, apesar de haver inúmeras evidências - incluindo a Suécia, mas não só - de que não é bem assim.

Mesmo a mais completa ausência de relação entre mortalidade e dimensão do carácter restritivo das medidas de gestão da epidemia  - na verdade ela existe, mas é inversa, nos sítios em que a dimensão da mortalidade foi surpreendentemente grande, os governos tomam medidas restritivas atrás de medidas restritivas, sem que estas alteram grande coisa no facto de serem os mais afectados, mas isso acontece porque a dimensão da mortalidade obriga os governos a reagir assim, não porque haja grande utilidade prática nisso para o controlo dos surtos - nos leva a concluir que provavelmente as inovações que adoptámos na gestão desta epidemia eram de facto inovações, mas a sua utilidade na gestão dos surtos é muito limitada.

Nalguns países esta discussão tem vindo a fazer-se, embora de forma muito desequilibrada.

Em Portugal é muito pouco provável que esta discussão vá acontecer e um artigo hoje no Observador é uma boa indicação de que assim será.

Rodrigo Queiroz de Melo, que representa as escolas privadas, escreve "Quanto à diminuição das situações de risco de contágio, as soluções são as recomendadas pelas autoridades de saúde: lavagem frequente de mãos, não partilha de objetos, distanciamento social, etiqueta respiratória, evitar tocar no rosto com as mãos… ... o sucesso desta mitigação do risco vai, em grande medida, depender da capacidade de os alunos todos cumprirem as regras da escola: levar garrafa de água individual para se hidratar ao longo do dia (os bebedores estão desligados e as torneiras da casa de banho servem para encher a garrafa e não para beber diretamente água)".

É impossível que Rodrigo Queiroz de Melo não saiba que isto é conversa impossível de aplicar na prática (com excepção de desligar os bebedouros, que só aumentará o uso das torneiras, evidentemente), e adoptou o modelo português de discussão de coisas de interesse comum.

De maneira geral, nem acreditamos muito uns nos outros, pelo menos o suficiente para partirmos do princípio de que estamos todos de boa fé à procura das melhores soluções para todos, e menos ainda acreditamos "neles" os que fazem as regras, ou seja, nas instituições. Com certeza não vamos arranjar complicações com "eles", nem com os clientes, nem com os amigos, só para dizer que nada disto faz sentido.

Vai-se criar alguma complicação, fica mais caro, presta-se um pior serviço, mas o melhor é fingir que sim, que se faz isto tudo. Na prática, o que for será, porque seria muito mais complicado contestar o que os autoridades dizem, por mais que sejam tontices.

Era melhor se fosse tudo mais sensato?

Claro que sim, mas não serei eu a fazer o papel de dizer que o rei vai nú.



2 comentários

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De Carlos Sousa a 10.09.2020 às 19:53

O tempo que passou é suficiente para evidenciar que a gestão desta pandemia não tem nada a ver com saúde. 
É única e simplesmente manipulação de massas, com fins criminosamente especulativos. 
Em gestão há um principio que diz que para vender um produto primeiro tem de ser criada a necessidade. 
Primeiro espalhou-se o medo através do alarme social, depois criou-se a necessidade de obtenção de uma vacina para eliminar o vírus e agora, mesmo sem terem sido avaliadas as quantidades necessárias por país, e sem se saber quando as vacinas estarão disponíveis já há 8000 aviões jumbo preparados para distribuir a maravilhosa cura. 
Eu proponho que uma das correntes de opinião, os acérrimos defensores destas medidas draconianas, fossem todos vacinados obrigatóriamente com a vacina russa. 
Assim o rei pode ir nu, mas ao menos vai vacinado.
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De pitosga a 10.09.2020 às 21:06


Eu acredito que em pouco tempo as pessoas deste país vão furar todos os esquemas. Por cada patetice irão aparecer dezenas de espertalhices.
Escrevem as más línguas, a que não devemos prestar crédito, que chegará a ocasião de se resolverem as coisas à bala.
Quando se verificar que as electrónicas não irão dar vazão à crise (dado serem geridas por pessoas) será interessante observar o país de longe.
Abraço e paciência...

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