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A emigração, a academia, os jornais e a demagogia

por henrique pereira dos santos, em 30.10.16

"Alguns dos nichos de actividade da sociedade portuguesa estão moribundos, o que fez com que houvesse outra vez uma emigração massiva de quadros qualificados. E aqui entramos na questão da confiança. São pessoas com uma massa crítica enorme. Isto é muito fácil de entender. Se temos 100 pessoas de alturas diferentes e eliminarmos os mais altos, a média baixa. Na massa crítica e no conhecimento técnico e académico, acontece exactamente a mesma coisa. Se os mais qualificados zarparem, os que ficam são pessoas com qualidade, mas a nossa média de capacidade técnica claramente vai baixar. E isso está a acontecer."

Isto dizia o então candidato do PS e actual Ministro da Educação. E, para a grande maioria das pessoas, é um dado adquirido que tem havido uma emigração de pessoas qualificadas que diminui a qualificação média da população portuguesa.

"Entre os portugueses emigrados em 2010/11 mais de metade (61%) continua a ter apenas o nível básico de escolaridade. Os portugueses com o ensino superior a procurar trabalho lá fora representaram 10% do total naquele período, quando dez anos antes representavam 6%. Considerando que a percentagem de diplomados na população portuguesa passou de cerca de 8% em 2001 para quase 14% em 2011, ou seja, aumentou cerca de 80%, o relatório sublinha que "a qualificação da população portuguesa mantém-se superior à da população emigrada, pelo menos à que reside em países da OCDE". Logo, "o aumento da qualificação daquela população emigrada é mais um resultado do aumento da qualificação portuguesa do que de uma maior incidência da emigração nos sectores qualificados". Uma constatação que não surpreende José Carlos Marques: "É verdade que os emigrantes altamente qualificados são hoje mais do que no passado, mas exagerou-se no destaque dado à emigração qualificada, porque a nossa emigração continua a ser marcada pela saída de pessoas pouco ou nada escolarizadas, o que se compreende porque um dos sectores que mais sofreu com a crise em Portugal foi a construção civil"."

E isto é o que dizem os relatórios do Observatório da Emigração, que não demonstra grandes simpatias pelo governo anterior.

Se é um facto que o aumento da qualificação dos que emigram é mais um resultado do aumento da qualificação da população de origem (na emigração o aumento de qualificação é menor que o aumento de qualificação na população de origem, no mesmo período de tempo), se esse facto está perfeitamente identificado nos estudos sobre o assunto, por que razão é tão fácil produzir tiradas demagógicas como a citada em primeiro lugar e se instalou a ideia de que as actuais correntes migratórias são maioritariamente constituídas por pessoas qualificadas e que Portugal está a perder qualificação por via da emigração?

É a combinação de dois velhos problemas do debate público em Portugal:

1) A academia produz informação científica em obscuros relatórios, mas demite-se de defender os factos que reporta quando no espaço público aparece um demagogo qualquer a vender uma banha da cobra que sirva as inclinações políticas da maioria da academia que intervém no espaço público;

2) Grande parte do jornalismo que deveria intermediar a passagem de informação dos produtores para os consumidores, demite-se de verificar os factos, seguindo o velho princípio de jamais deixar os factos influenciarem as ideias dos seus leitores, na medida em que isso servir as ideias certas, claro (basta ver a quantidade de vezes que resolvem verificar os factos contidos nas afirmações dos políticos de que gostam por contraste com o permanente escrutínio das afirmações dos políticos de que não gostam).

Portugal é, do ponto de vista da qualidade do debate público, o paraíso dos demagogos de esquerda (os outros têm mais trabalho, mas o ambiente também não lhes é desfavorável de todo).



3 comentários

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De Renato a 31.10.2016 às 11:07

Aproveitando que está a dar crédito ao Observatório, talvez queira aproveitar para comentar esta afirmação do Rui Pena Pires:

Quando o crescimento da economia baixa a emigração cresce, depois é interrompida entre 2008 e 2010, a primeira fase da crise. Como a crise foi global não havia oportunidades cá, mas também não havia noutros sítios. E depois volta a crescer a partir de 2010 com o resultado combinado da crise e das políticas de austeridade, que criam pouco emprego

http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/observatorio-da-emigracao/emigracao-portuguesa-esta-a-assumir-caracteristicas-estruturais (http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/observatorio-da-emigracao/emigracao-portuguesa-esta-a-assumir-caracteristicas-estruturais)

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De henrique pereira dos santos a 01.11.2016 às 07:16


Agradeço-lhe bastante a ilustração que faz do que eu digo no post: parte da academia produz uma informação nos obscuros papers que garantem as suas carreiras académicas, o que implica algum rigor, e depois faz afirmações politicamente orientadas no debate público que distorcem o que antes escreveram enquanto académicos.
É por isso que, ao contrário do que diz, eu uso os dados do observatório, mas não ligo nenhuma às declarações políticas dos investigadores envolvidos na produção dos dados, prefiro ser eu a interpretar os dados, ser manipulado é uma coisa que me chateia.
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De Renato a 01.11.2016 às 18:05

Também não gosto de ser manipulado, é por isso que gosto de ver as coisas bem explicadinhas, até à exaustão, género pica miolos 😉 O Henrique acha que os do Observatório são meio esquizófrenicos: desonestos naquilo com que não concorda, honestos naquilo com que concorda. Vamos então continuar nós? Diz que não é verdade que tenha havido o que normalmente se designa "fuga de cérebros", uma expressão comum. Mas isso é dito pelas próprias universidades, centros de investigação, etc. O mesmo para algumas classes profissionais, de que lhei apenas o exemplo dos enfermeiros (há mais...) Quem diz isso é também desonesto e manipulador? Ou estão, pelo menos, na sua fase desonesta e manipuladora, que surge com a lua cheia?

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