Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
Há um pequeno grupo de pessoas que se reclamam da direita, mas de uma direita ideal e pura, não da que existe, que insistentemente malharam e malham (a propósito e a despropósito) em Passos Coelho, muito mais que nos seus adversários.
Um dia, espantado por tanto empenho em malhar em Passos Coelho, e tantas cautelas na crítica a Costa e outros defensores da alternativa à austeridade, perguntei a Nuno Garoupa, talvez o mais preparado e sólido dos integrantes deste pequeno grupo, por que razão se encarniçava tanto com Passos Coelho ao mesmo tempo que convivia tão discretamente com as inacreditáveis fraudes políticas de Costa e afins, explicando eu que me parecia que este grupo estaria a desempenhar o típico papel do "idiota útil" tão frequente nas frentes populares da esquerda do século XX. Tive o cuidado de explicar que usava a expressão "idiota útil" nesse estrito sentido histórico porque idiota é seguramente coisa que Nuno Garoupa não é e, bem pelo contrário, quando sai do registo da canelada em Passos Coelho, tem muita coisa escrita bem interessante, incluindo diversas propostas úteis de reforma do Estado e das instituições que é pena que não sejam levadas mais a sério (penso ser a mágoa por essa desvalorização por parte de Passos Coelho que justifica essa militante necessidade de atacar Passos Coelho, seja qual for o pretexto para isso).
A resposta, sendo aceitável, esteve longe de me satisfazer: o que interessaria a Nuno Garoupa era contribuir para uma direita que tivesse qualidade política e desempenhasse bem o seu papel, e portanto não lhe interessaria discutir a esquerda e as suas políticas, que consideraria inerentemente más (ressalvo que sendo esta a minha interpretação da resposta, pode não traduzir exactamente a resposta, cordata e civilizada, de Nuno Garoupa).
Ontem tive a confirmação de que a fixação na crítica a Passos Coelho e afins era tão excessiva que acabava por levar este grupo, e Nuno Garoupa em concreto, a argumentações simplesmente absurdas de vez em quando.
Cinco deputados do PSD publicaram um texto, bem interessante, em que explicitamente pretendem enquadrar as responsabilidades políticas do socratismo para além de Sócrates. São claros no seu propósito: "o que dizer de nós, que mantivemos um regime durante anos a fio que padecia dos mesmos vícios graves – na intromissão na comunicação social privada, na instrumentalização das grandes empresas e banca para fins de domínio político de um partido, na manipulação do sistema judicial, e por aí fora – e, não obstante, com a impavidez moral e política dos cínicos nos colocamos para exemplo dos outros?".
E por isso defendem, ao contrário de Rui Rio, uma coisa bastante simples: "Neste caso, essa missão é simples: levar até às últimas consequências o apuramento das responsabilidades políticas de todos os envolvidos; contribuir para a regeneração da nossa cultura política rumo a mais responsabilidade, mais transparência, mais robustez institucional, mais resistência às sucessivas tentativas de infantilização e manipulação da opinião pública, com o recurso sistemático à mentira, à propaganda e à opacidade. Neste cenário, seria inaceitável e até suspeita a não recondução de Joana Marques Vidal na PGR."
Em nenhum momento do texto há qualquer defesa dos casos de corrupção no PSD (ou no CDS, ou no PCP, que com frequência esquecemos de existem nas autarquias), mas isso não impede Nuno Garoupa de se limitar a ler o texto como sendo um "animado o debate “o teu corrupto é mais corrupto que o meu” ou “o teu partido tem um ADN mais desonesto que o meu”...", concluindo, inacreditavelmente, com a defesa objectiva de que falta legitimidade aos outros partidos para discutir as responsabilidades políticas do PS no contexto político, mediático e administrativo que permitiu a Sócrates ser o que foi e fazer o que fez: " isto é circo puro.... a luta contra a corrupção começa sempre em casa, não na casa do vizinho".
Se uso Nuno Garoupa para ilustrar a profunda doença social do sectarismo que nos impede o verdadeiro escrutínio do uso do poder, é porque reconheço em Nuno Garoupa uma qualidade intelectual e uma independência de espírito que não me parece que exista em dezenas de outras pessoas que vão dando opiniões públicas sobre o país.
Mas essas qualidades não o impedem de, neste caso, para atingir Passos Coelho e o passismo, acabar a defender o indefensável: enquanto não houver uma putativa perfeição nos outros partidos, cada partido só pode falar de corrupção no seu próprio seio, mesmo que, como acontece com Sócrates, o problema só seja partidário na medida em que o PS fechou voluntariamente os olhos a todos os sinais evidentes do que se passava, ao ponto de António Costa ter sido o coordenador da moção de estratégia de Sócrates em 2011 no congresso em que Socrates foi eleito com 93,3% dos votos.
Em tese o que se passou com Sócrates e o PS poder-se-ia ter passado em qualquer partido, sendo disso um bom exemplo o cavaquismo, com a diferença fundamental de Cavaco não ser Sócrates e a esmagadora dominância estatista do cavaquismo, que durou dez anos, ter gerado situações de corrupção e captura do Estado relevantes, mas longe, muito longe da estratégia de captura do Estado executada por Sócrates.
Mas não distinguir o aproveitamento que Sócrates fez de um contexto, incluindo partidário, favorável à corrupção, do não aproveitamente que Passos Coelho fez do mesmo contexto, a pretexto de que, ainda assim, o passismo gerou situações de corrupção, é objectivamente estar do lado da corrupção, contribuindo para a diluição de responsabilidades sob o chapéu, errado e injusto, de que "são todos iguais".
Não, não são todos iguais. Todos têm defeitos, com certeza, todos, aqui ou ali, terão cedido onde provavelmente teria sido melhor não ceder, mas Costa não é igual a Sócrates que não é igual a Passos Coelho.
E, factualmente, do ponto de vista da captura do Estado por grupos de interesses, Costa está muito mais próximo de Sócrates que de Passos Coelho.
Distinguir isto deveria ser um consenso sólido entre todos os que se opõem à captura do Estado por grupos de interesses, isto é, ao caldo de cultura em que prospera a corrupção.
Caro, Henrique Pereira dos Santos
Vimos por este meio convidá-lo a participar na nossa comunidade e dar-lhe a conhecer "O site onde a sua opinião conta!"
Publique a sua opinião em www.opinantes.pt (http://www.opinantes.pt/) e ganhe um lugar de destaque perante a nossa comunidade e leitores. Os melhores artigos de opinião são partilhados com mais de 3 milhões de fãs no Facebook.
Ficamos a aguardar por um feedback da sua parte, o que antecipadamente agradecemos.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.