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A direita virtuosa

por henrique pereira dos santos, em 13.05.18

Há um pequeno grupo de pessoas que se reclamam da direita, mas de uma direita ideal e pura, não da que existe, que insistentemente malharam e malham (a propósito e a despropósito) em Passos Coelho, muito mais que nos seus adversários.

Um dia, espantado por tanto empenho em malhar em Passos Coelho, e tantas cautelas na crítica a Costa e outros defensores da alternativa à austeridade, perguntei a Nuno Garoupa, talvez o mais preparado e sólido dos integrantes deste pequeno grupo, por que razão se encarniçava tanto com Passos Coelho ao mesmo tempo que convivia tão discretamente com as inacreditáveis fraudes políticas de Costa e afins, explicando eu que me parecia que este grupo estaria a desempenhar o típico papel do "idiota útil" tão frequente nas frentes populares da esquerda do século XX. Tive o cuidado de explicar que usava a expressão "idiota útil" nesse estrito sentido histórico porque idiota é seguramente coisa que Nuno Garoupa não é e, bem pelo contrário, quando sai do registo da canelada em Passos Coelho, tem muita coisa escrita bem interessante, incluindo diversas propostas úteis de reforma do Estado e das instituições que é pena que não sejam levadas mais a sério (penso ser a mágoa por essa desvalorização por parte de Passos Coelho que justifica essa militante necessidade de atacar Passos Coelho, seja qual for o pretexto para isso).

A resposta, sendo aceitável, esteve longe de me satisfazer: o que interessaria a Nuno Garoupa era contribuir para uma direita que tivesse qualidade política e desempenhasse bem o seu papel, e portanto não lhe interessaria discutir a esquerda e as suas políticas, que consideraria inerentemente más (ressalvo que sendo esta a minha interpretação da resposta, pode não traduzir exactamente a resposta, cordata e civilizada, de Nuno Garoupa).

Ontem tive a confirmação de que a fixação na crítica a Passos Coelho e afins era tão excessiva que acabava por levar este grupo, e Nuno Garoupa em concreto, a argumentações simplesmente absurdas de vez em quando.

Cinco deputados do PSD publicaram um texto, bem interessante, em que explicitamente pretendem enquadrar as responsabilidades políticas do socratismo para além de Sócrates. São claros no seu propósito: "o que dizer de nós, que mantivemos um regime durante anos a fio que padecia dos mesmos vícios graves – na intromissão na comunicação social privada, na instrumentalização das grandes empresas e banca para fins de domínio político de um partido, na manipulação do sistema judicial, e por aí fora – e, não obstante, com a impavidez moral e política dos cínicos nos colocamos para exemplo dos outros?".

E por isso defendem, ao contrário de Rui Rio, uma coisa bastante simples: "Neste caso, essa missão é simples: levar até às últimas consequências o apuramento das responsabilidades políticas de todos os envolvidos; contribuir para a regeneração da nossa cultura política rumo a mais responsabilidade, mais transparência, mais robustez institucional, mais resistência às sucessivas tentativas de infantilização e manipulação da opinião pública, com o recurso sistemático à mentira, à propaganda e à opacidade. Neste cenário, seria inaceitável e até suspeita a não recondução de Joana Marques Vidal na PGR."

Em nenhum momento do texto há qualquer defesa dos casos de corrupção no PSD (ou no CDS, ou no PCP, que com frequência esquecemos de existem nas autarquias), mas isso não impede Nuno Garoupa de se limitar a ler o texto como sendo um "animado o debate “o teu corrupto é mais corrupto que o meu” ou “o teu partido tem um ADN mais desonesto que o meu”...", concluindo, inacreditavelmente, com a defesa objectiva de que falta legitimidade aos outros partidos para discutir as responsabilidades políticas do PS no contexto político, mediático e administrativo que permitiu a Sócrates ser o que foi e fazer o que fez: " isto é circo puro.... a luta contra a corrupção começa sempre em casa, não na casa do vizinho".

Se uso Nuno Garoupa para ilustrar a profunda doença social do sectarismo que nos impede o verdadeiro escrutínio do uso do poder, é porque reconheço em Nuno Garoupa uma qualidade intelectual e uma independência de espírito que não me parece que exista em dezenas de outras pessoas que vão dando opiniões públicas sobre o país.

Mas essas qualidades não o impedem de, neste caso, para atingir Passos Coelho e o passismo, acabar a defender o indefensável: enquanto não houver uma putativa perfeição nos outros partidos, cada partido só pode falar de corrupção no seu próprio seio, mesmo que, como acontece com Sócrates, o problema só seja partidário na medida em que o PS fechou voluntariamente os olhos a todos os sinais evidentes do que se passava, ao ponto de António Costa ter sido o coordenador da moção de estratégia de Sócrates em 2011 no congresso em que Socrates foi eleito com 93,3% dos votos.

Em tese o que se passou com Sócrates e o PS poder-se-ia ter passado em qualquer partido, sendo disso um bom exemplo o cavaquismo, com a diferença fundamental de Cavaco não ser Sócrates e a esmagadora dominância estatista do cavaquismo, que durou dez anos, ter gerado situações de corrupção e captura do Estado relevantes, mas longe, muito longe da estratégia de captura do Estado executada por Sócrates.

Mas não distinguir o aproveitamento que Sócrates fez de um contexto, incluindo partidário, favorável à corrupção, do não aproveitamente que Passos Coelho fez do mesmo contexto, a pretexto de que, ainda assim, o passismo gerou situações de corrupção, é objectivamente estar do lado da corrupção, contribuindo para a diluição de responsabilidades sob o chapéu, errado e injusto, de que "são todos iguais".

Não, não são todos iguais. Todos têm defeitos, com certeza, todos, aqui ou ali, terão cedido onde provavelmente teria sido melhor não ceder, mas Costa não é igual a Sócrates que não é igual a Passos Coelho.

E, factualmente, do ponto de vista da captura do Estado por grupos de interesses, Costa está muito mais próximo de Sócrates que de Passos Coelho.

Distinguir isto deveria ser um consenso sólido entre todos os que se opõem à captura do Estado por grupos de interesses, isto é, ao caldo de cultura em que prospera a corrupção.


9 comentários

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De Anónimo a 13.05.2018 às 11:02

a garoupa nem sempre é legítima
e fede se não há armazenamento conveniente


considero cobardia bater em PPC e apoiar o pançudo antónio das mortes


ognuno pensi ai cazzi suoi  ou  stay out of each other's shit


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De pitosg a 13.05.2018 às 12:11

Muito bem, Henrique Pereira dos Santos
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De Anónimo a 13.05.2018 às 12:29

Muito, muito bom, talvez também porque frugal aonde poderia ser voraz.
Será que apesar disto -como aconteceu por essa Europa- o PS português continuará a ter a salvação das urnas?.
Isto de optar pelo aumento do número de eleitores -o funcionalismo- não será sintomático?.
Será já um gesto de desespero na boa tradição dos regimes comunista/socialistas?. Reinar mesmo que destruindo?.
A caminho de uma Venezuela europeia?. Já faltou mais.
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De Anónimo a 13.05.2018 às 15:26

 Um tiro muito ao lado. O Nuno Garoupa critica todos e as suas críticas obedecem a critérios de lógica, algo que em Portugal, a terra dos fadistas, é desconhecido. Estou mais preocupada com o pessoal que acha que o que aconteceu a António José Seguro no PS é comparável ao que aconteceu a Pedro Passos Coelho no PSD.
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De Opinantes a 13.05.2018 às 17:10

Caro, Henrique Pereira dos Santos


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De Isabel a 13.05.2018 às 19:06

Têm todos razão. Não é só desde a operação marquês, ou dos factos que estiveram na origem, que isto vai mal. Isto vai mal desde a 1a. bancarrota em 1978. E depois em 1983. E também com 14 governos nos primeiros 10 anos da eufemisticamente chamada “nossa democracia”.  Depois continuou mal com os abusos do FSE, com o começo das PPP’s, com a criação desvairada de institutos sem funções e outros organismos em duplicado só para aumentar os lugares para os boys. E foi indo por aí fora com o pântano, o défice, a dívida, mais PPP’s, mais obras e mais obras e mais uma bancarrota. E acham que o problema está no marquês, nos submarinos, no BES, no BPN, etc etc? Não está nos fundamentos do funcionamento desta coisa toda que vai permitindo tudo isto é continuará a permitir se nada for feito para pôr a máquina a funcionar noutros moldes. Porque é que nunca houve uma discussão a sério na sociedade sobre, por exemplo, sistemas eleitorais e regimes democráticos nos países da Europa onde quase não há corrupção? Haverá algum outro país da Europa onde hoje existam exactamente os mesmos partidos que há 40 anos existiam e quase nas mesmas proporções? 
Os males são conhecidos há muito tempo por todos; pelos que dizem que já sabiam e pelos outros. 
Quanto mais tarde se for mexer no fundo do problema....mais vai doer. À maioria, claro. Porque a minoria safa-se sempre.
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De Anónimo a 13.05.2018 às 20:52

Não aprecio textos muito longos, tornam-se pesados. Acho que escreveu muito e o seu último parágrafo resumiu suficientemente os contrastes.
Temos outro Maduro que quase ganhava por 100%. O dinheiro aparece como um poço de petróleo.
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De Ana Pereira a 14.05.2018 às 04:35

Subscrevo, acrescentando que muitos desses virtuosos (alegadamente de direita) que atacam PPC por tudo e por nada e até pelo que não tem de ser atacado é apenas porque de toda esta corja que já atingiu o poder e da outra que espera alcansá-lo, PPC demonstrou ser íntegro e isso não se perdoa facilmente neste país.
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De Anónimo a 14.05.2018 às 18:09

As pessoas mais inteligentes e intelectualmente mais sofisticadas têm a capacidade de desenvolver as mais elaboradas justificações para defender o indefensável, ou para esconder a azia que motiva o que dizem ou escrevem. Nuno Garoupa é claramente um deles e há muito que acredito no mesmo (sou tão bom e não querem saber da minha sábia opinião...).

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