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A construção de um mito

por Daniel Santos Sousa, em 02.09.24

Louis_XIV_of_France.jpg

 Luís XIV morre a 1 de Setembro de 1715. Embora nunca tenha proferido a máxima "O Estado sou eu", sem dúvida que esta curta e lacónica expressão elevada a aforismo concretiza muito do seu pensamento político. O monarca terá antes suspirado no leito de morte “Je m'en vais, mais l'État demeurera toujours.” Numa e noutra vem reflectida a herança do "Rei sol":  a edificação do Estado centralizado.

Este é um reinado dinâmico que abre portas para a transformação política e social. Ao lado de teorizadores do direito divino como Bossuet, surgem os teóricos do laicismo e do individualismo (como Montesquieu). Numa França amordaçada pelas guerras da religião consegue com habilidade subjugar a nobreza e, não hesitando em explorar esse sucesso, logra disciplinar e subordinar aquele grupo através de um minucioso cerimonial que concretizará a hegemonia da coroa.

A mesma nobreza que, prisioneira da redoma dourada de Versalhes, tornar-se-á refém desse esplendor, no fundo a sua própria decadência. Mas é dessa redoma que saem os ministros e os embaixadores do Rei Sol, e, um fenómeno curioso: a importância da mobilidade. Na alta burguesia, a 'noblesse de robe', começa a ascender socialmente, recebendo cargos no governo que a fazem gravitar para os píncaros da boa sociedade e rivalizar socialmente com a velha nobreza. São dois mundo em conflito: um medieval e feudal, do qual a hegemonia régia se liberta, e outro na dianteira do estado moderno, que os tratadistas procurarão identificar (Maquiavel, Hobbes). Esta é uma sociedade estratificada, fundada numa correspondência de funções e de direitos, de serviços e de privilégios (Mattei). Assim era em toda a Europa: um Estado constituído por ordens e corpos. Desde o ano 1000 até 1789 esta é a realidade dos povos, a sua destruição progressiva (em França até mesmo abrupta) abrirá caminho à barbárie.

O poder do Rei Sol é garantido pelos sucessos militares, nos seus canhões inscrevia a máxima "ultima ratio regis", no fundo a visão de um homem talhado para a consumação da política interna e para a procura de vitórias no exterior. Mas o "poder absoluto", que será tão glosado pela revolução de '89 para demonizar a monarquia, nunca significou poder ilimitado. Há aqui mais de folclore e ficção jacobina do que outra coisa qualquer. Talvez por leitura de Bossuet que teorizava a origem divina do poder a ideia tenha servido toda a propaganda "anti-monarquia". Bossuet jamais legitimou qualquer absolutismo arbitrário. Exprime sim os limites do poder do monarca à luz da doutrina tradicional. São visões diferentes do absolutismo e todas elas deturpadas pelas revoluções liberais. Jouvenel já o demonstrara ao referir que a monarquia absoluta estava nos antípodas do regime despótico, mesmo nessas monarquias acreditava-se que não era o rei mas a lei quem mandava (Jaime Balmes) e podia mesmo no século XX ironizar um pensador como K.von Leddihn ao afirmar que se Luís XIV visse o poder que o Congresso dos USA ou o Parlamento de França tem para aprovar leis morreria de inveja. No século XIX e XX aliás, ironicamente, os estados liberais (e os seus sucedâneos demo-liberais) seriam muito mais centralizadores (i.e., mais absolutistas) do que alguma vez fora o Estado do chamado "Antigo Regime".


3 comentários

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De Francisco Almeida a 03.09.2024 às 10:34

Tal como em Portugal. D. João VI, crismado pelos jacobinos rei absoluto, nunca o foi nem nunca o quis ser. Apelou sempre à convocação das Côrtes a que governos liberais fizeram sempre ouvidos moucos. Foi dos reis portugueses um dos com menor poder de facto. Desde o assassínio do seu conselheiro, o marquês de Loulé em Salvaterra de Magos, de que ordenou duas devassas que nada descobriram por motivos políticos à ordem de exílio para a rainha Maria Joaquina, que de todo  a ignorou, até ao facto da sua côrte em Lisboa reunir muito menos gente que as de sua mulher e filha.
O poder de referendar as leis, servia apenas para eximir de responsabilidade os ministros que as decidiam. Ele, rei, nada decidia.
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De Nelson Gonçalves a 03.09.2024 às 11:12


Curioso que veja o Ancien Regime como um espaço de mais liberdade que o que lhe sucedeu.


No podcast, "The rest is history", quando falam da revolução francesa, os dois historiadores falam muito da corte de Luis XVI como sendo de uma constante luta entre fações de nobres. Que patrocinavam panfletos cheios de mentiras e invenções sobre a outra fação, e principalmente a rainha.


Da interpretação que faço, foi o fechar nesta redoma dourada a corte que foi criando e acumulando o combustível que alimentou a violência da revolução francesa.


O Ancien regime pode ter sido um regime mais livre, no sentido de ser menos centralizador, mas a concentração da corte em Versailles foi fatal para a elite quando se viu confrontada com uma população esfomeada e esmagada por impostos.
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De vasco Silveira a 04.09.2024 às 21:16

Sou beneficiado com o rico ambiente cultural dos seus post: seja na Paris dos primórdios da moda cultural ( chique, delicioso, bonito, cultural, e toda essa maçadora lenga lenga dos ...), ou no Rio, de ensaístas políticos nunca ouvidos antes: um comentário desaprovador de um leitor surpreendido por " alguém sugerir que a liberdade de pensamento e cultura do antigo regime pudesse ser superior à do apocalíptico terror soviético pré sovietes, da revolução francesa, que foi talvez a maior desgraça humana dos tempos modernos; disputa a primazia com a revolução assassina de Moscovo de 17.


Cumprimentos e obrigada.


Vasco Silveira 

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