Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A conferência da despedida do presidente do Novo Banco

por Maria Teixeira Alves, em 25.02.16

Mais de metade do prejuízo de 2015 é "herdado" do antigo BES -- presidente

A conferência de imprensa do Novo Banco para apresentação dos resultados anuais de 2015 teve um sabor a fim de ciclo. Eduardo Stock de Cunha vai sair do Novo Banco. A decisão não é de agora. Desde que o ano de 2015 fechou que o banqueiro, que tentou recuperar o Novo Banco o máximo que pode, decidiu sair e voltar para Londres para a sua família. "Sou o porta-voz do Novo Banco, mas não sou o Novo Banco. Sempre o disse que estou aqui transitoriamente. Sou um empregado do Lloyds Bank. Estou aqui em comissão de serviço, em leave of absence. A minha comissão de serviço acabará dentro de algumas semanas. Tive o cuidado de perguntar no Lloyds, ao seu CEO, António Horta Osório, caso haja interesse das autoridades portuguesas, se o Lloyds me permitia ficar aqui até ao Verão, e tentar conciliar alguma novidade no Novo Banco que possa existir para os próximos meses (apesar de o banco poder sobreviver assim até 2017), e a resposta que obtive é que poderia ficar aqui mais alguns meses, e falámos no Verão. Mas para eu aqui estar é preciso ainda que o accionista queira. O Banco de Portugal tem total autoridade para decidir". Disse o banqueiro.

Nesta resposta intui-se também que a venda, que deverá ser acompanhada pelo ainda presidente em leave of absence, poderá ter o Santander como protagonista. Eduardo Stock da Cunha é um ex-Santander, como sabem. Penso que nalgum momento desta história se pôs a hipótese de o comprador potencial poder ficar com  Eduardo Stock da Cunha como presidente para o futuro do banco. Essa hipótese hoje é uma miragem. Os tempos mudam hoje rápido demais e se em 2015 havia a possibilidade de, por exemplo, o Novo Banco ser integrado no BPI, o que poderia levar Eduardo Stock da Cunha a deixar de estar cá em leave of absence e passar a ser um presidente definitivo, hoje já não há essa possibilidade. O mundo da alta finança mudou muito desde então. É o próprio Eduardo Stock da Cunha quem diz "não deve haver nenhum banco europeu que valha hoje o que valia em 2014". Por outro lado, Portugal é um país onde a banca promete ter alguns problemas nos próximos tempos. As fusões são inevitáveis.

Mas haverá outro facto a pesar na decisão de levar Eduardo Stock da Cunha a cumprir o prazo do seu leave of absence, ainda que com algum adiamento relativo: As surpresas que encontrou nos créditos do Novo Banco e que levaram o banco aos seus prejuízos de quase mil milhões de euros. Caramba! Imaginar que este banco era o Banco Bom do BES. O que seria se fosse Banco Mau?

Eduardo Stock da Cunha levou com o peso de créditos tão maus que pesaram, só por si, 764 milhões de euros nos resultados do Novo Banco. Ou seja, o mau crédito representou 78% dos prejuízos de 980 milhões registados em 2015. E esta carteira de crédito, ainda vai pesar nas contas deste ano. Ao certo só lá para 2018, estima o board, é que o banco bom do BES voltará a ter lucros.

 O elevado valor das provisões que atingiu 1057,9 milhões de euro, e foi influenciado por perdas em activos transferidos do BES. O reforço de provisões para imóveis e para as 50 maiores exposições ao risco, que já existiam à data da resolução do BES, totalizou 592,3 milhões, explicou o banco.

O prejuízo foi de 980,6 milhões depois da anulação da totalidade dos prejuízos fiscais reportáveis relativos ao ano de 2013 no valor de 160 M€.

Não fossem os créditos herdados do antigo BES, o banco teria tido um lucro de 125 milhões de euros. O banco liderado pela equipe de Eduardo Stock da Cunha tem para se gabar o facto de o produto bancário de 879,6 M€, ter o maior peso (51%) do resultado financeiro (margem). 

 

Disse então Eduardo Stock da Cunha: "Relativamente às imparidades dos trimestres e às 50 maiores exposições de risco [créditos], isto são situações que vêm do passado, a maior parte são créditos que não estão de acordo com o business modeldo Novo Banco. Relembro que o primeiro critério do BCE para avaliação de bancos para este ano é o business models. São situações que à data de 3 de Agosto de 2014 já existiam, mas não se conheciam em toda a sua extensão, porque se tivessem sido conhecidas em toda a sua extensão teriam sido relevados naquela data".

De facto, o crédito em risco representava 22,8% do total da carteira de crédito e a cobertura era de 68,2% e a carteira de activos não correntes detidos para venda tem provisões afectas correspondentes a 27,3% do seu valor bruto.

A maior parte dos custos relacionados com a herança do BES resultou da necessidade de registar crédito em incumprimento e a desvalorização de imóveis. No total as provisões para as 50 maiores exposições de risco e para a carteira de activos imobiliários ascenderam aos tais 592 milhões.

O mau legado do BES gerou 78% dos prejuízos do Novo Banco.E para além das imparidades, a anulação de juros contabilizados indevidamente retirou mais 172 milhões. Ao todo foi esse crédito (imobiliário, a accionistas entre outros)  que gerou os 764 milhões de euros de perdas para o Novo Banco no ano passado. Era uma coisa espantosa a carteira de crédito do BES!

Se a esta realidade somarmos a recente benesse (no capital) da retirada de quase 2.000 milhões de euros de dívida sénior enviada para o chamado BES "mau", podemos ver em que estado ficou o banco bom aquando da Resolução de Agosto de 2014. 

Uma opção de retirar obrigações séniores do BES para capitalizar o Novo Banco que foi muito criticada pelos instituionais internacionais, e que esteve a ponto de ser considerada um evento de crédito que poderia ter feito accionar os Crédit Default Swaps que cobrem o risco dessas obrigações. 

Eduardo Stock da Cunha diz que acharia simpático que os credores tivessem antes recebido ações do Novo Banco. Esta sentença é importante e revela o desprendimento do banqueiro em relação a essa decisão dos reguladores bancários.

Uma despedida com chave de ouro. 

A conferência de imprensa serviu também para esclarecer outra das manchas do mandato: a venda do Novo Banco Cabo Verde a José Veiga (que era dono da maior parte do dinheiro lá depositado). "Não me compete a mim avaliar a idoneidade de um comprador de um banco que não [está] em Portugal". Foi assim que Eduardo Stock da Cunha justificou o acordo de venda do Banco Internacional do Cabo Verde, através de concurso, a uma sociedade liderada por José Veiga, agora em investigação pela justiça portuguesa. 

Autoria e outros dados (tags, etc)



1 comentário

Sem imagem de perfil

De ali kath a 25.02.2016 às 10:38

sou do tempo em que havia projectos em vez de sonhos.
do tempo em que a minha família durante a II GM fazia hipotecas ao BESCL para se financiar em negócios que rendiam bom dinheiro.
com o acesso excessivo ao crédito iniciou-se o descrédito.
o dominó vai cair até ao fim.


como sempre um texto com conhecimento de causa e muito lúcido.
não faço elogios: observo

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Costa, Costa! Então já não há um pouquinho de verg...

  • Anónimo

    O Costa é Costa, o Costa é hipócrita e demagogo, o...

  • Anónimo

    O peixe oficial é mais raia que o parta.Henrique P...

  • Anónimo

    Caro senhor, o Henrique Pereira dos Santos tem vin...

  • Pedro Nunes

    Já tinha saudades de ler os textos do Henrique.


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2008
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2007
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2006
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D