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A codificação da morte covid

por henrique pereira dos santos, em 19.08.20

Evito escrever sobre questões muito técnicas relacionadas com a epidemia porque a probabilidade de dizer asneiras é ainda maior que o habitual.

Hoje, ao ler a notícia de que uma das duas mortes covid de hoje era uma criança de quatro meses resolvi ir tentar perceber melhor como se faz a codificação, tanto mais que a questão da codificação dessa morte foi explicitamente referida na conferência de imprensa da DGS.

No caso, a criança nasceu com um problema cardíaco complicado e a covid terá sido a gota de água de que resultou a morte da criança ontem.

Com a condição base da criança, esse desenlace era sempre o mais provável no curto prazo, com covid ou com outro detonador qualquer do processo final que acabou na sua morte.

A racionalidade da codificação por parte da DGS é a seguinte: "Sobre a forma como a contagem dos óbitos é feita, a Diretora-Geral da Saúde esclareceu que a mortalidade por COVID-19 é considerada como evento terminal. Ou seja, qualquer pessoa que morra com a infeção é considerada morto por COVID-19, independentemente da causa básica da morte".

Independentemente da opacidade do que está escrito, com a falta de definição do que é causa básica e do que é causa terminal, parece-me legítimo admitir-se que a codificação da morte se centra na gota de água que faz o copo deixar de conter a água, e desvaloriza o nível de água no copo.

Isto é racional e normal.

Seria bom ter estas ideias clarinhas, clarinhas quando dizemos que há 787 mil mortes por covid desde o início da epidemia: sendo isso verdade - não vou discutir a qualidade dos números, vou dá-los como bons - isso não significa que essas 787 mil mortes tivessem sido evitadas se não existisse covid, bem pelo contrário, os dados que existem apontam para que apenas cerca de 15% dessas mortes se devam realmente à covid como causa básica, para usar a terminologia da DGS.

Na esmagadora maioria dos outros casos, essas mortes ocorreriam igualmente em prazos relativamente curtos, a maior parte durante 2020.

Claro que é melhor morrer em Novembro de um ano em vez de morrer em Fevereiro do mesmo ano, mas quando temos de pôr no prato da balanço os custos e os benefícios das medidas que queremos adoptar para gerir melhor a epidemia, é bom que tenhamos bem a noção do que significam os números da mortalidade.

Olhar para os números desta forma não é nenhuma falta de consideração pela vida dos mais velhos, que temos a obrigação de preservar (e, para isso, mais que proibir venda de bebidas alcoólicas depois das vinte, é muito mais importante saber como podemos melhorar a forma como tratamos os mais velhos e doentes, com certeza conseguimos fazer melhor que o que temos feito), é apenas procurar ter a mesma consideração pela vida de milhares de pessoas, destruída por medidas absurdas que vão sendo tomadas ao sabor da gestão política das percepções públicas.

Em grande parte alimentadas pela incapacidade de entender os números que todos os dias aparecem em todo o lado.



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