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A cínica e indecorosa montagem mediática a que o IPMA se prestou

por henrique pereira dos santos, em 22.06.17

Tenho procurado evitar, agora, a discussão de responsabilidades políticas no fogo de Pedrógão Grande: é cedo, tenho pouca informação e prefiro não correr o risco de ser injusto.

Mas o que é de mais é moléstia.

O Governo num primeiro momento ensaiou a clássica estratégia mediática de contenção de danos, desvalorizando o que se estava a passar. Até aqui está dentro do cinismo típico de quase todos os governos nestas circunstâncias. E a probabilidade de ter sucesso nesta operação de comunicação seria muito elevada, não se desse o caso de ser impossível desvalorizar a dimensão da catástrofe humana.

Rapidamente o governo virou a agulha e passa agora todo o tempo a procurar consolidar a ideia de que condições meteorológicas excepcionais e imprevisíveis ocorreram e ninguém pode estar preparado para o desconhecido.

Nessa tentativa de manipulação (infelizmente não há jornalista que pergunte "se assim foi, o governo está a dizer que quando houver outra vez condições extremas como estas, as pessoas comuns que se amanhem porque o Estado não sabe o que fazer?") desempenha um papel essencial a credibilização científica da teoria de que ocorreram condições meteorológicas absolutamente excepcionais e imprevisíveis ("um nevão no Algarve em Agosto", para usar o exemplo de João Miguel Tavares).

É absolutamente indecorosa a utilização de serviços técnicos do Estado, como o IPMA (António Costa fez parte de um governo que usou o mesmo esquema com o Banco de Portugal a calcular défices virtuais para abrir espaço político ao aumento do défice do primeiro ano dos governos Sócrates, portanto sabe muito bem como isto se faz e acha normal) da forma como está a ser feita, prestando-se o IPMA e o seu presidente a colaborar no embuste.

O que o IPMA tinha a fazer era simplesmente dizer o que é tecnicamente razoável, que sim, que houve condições meteorológicas extremas, relativamente raras, mas que sempre existiram e sempre existirão.

Ao prestar-se à pura manipulação política como a que foi montada, com o primeiro ministro a fazer perguntas formais retóricas e o IPMA a mandar respostas encenadas (quem não se lembra das encenações de Costa fingindo estar a negociar com a coligação que ganhou as eleições, ao mesmo tempo que montava uma solução alternativa que pressupunha a ausência de resultados dessas supostas negociações), o IPMA diminui-se a si próprio e mina a sua credibilidade, contribuindo para a desconfiança das pessoas comuns em relação a um Estado completamente enfeudado à conveniência política do governo.

O IPMA resolveu contribuir para a chuva dissolvente que cai sobre as instituições públicas em Portugal, infelizmente.

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2 comentários

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De pitÔ a 22.06.2017 às 15:01

A wiki está a ficar censurada mas ainda deu par consultar sites de ciência meteorológica.

O IPMA é de mentirologia pois até lhe falta esqueleto para se pronunciar. É uma coisa do Mar e da Atmosfera; falta-lhe a Terra para assentar os pés. No dia-a-dia, estes 'melros' (com o perdão dos melros) não acertam uma de previsão meteorológica na minha zona.
Há 2 anos vi de manhãzinha, na RTP, um aviso vermelho de temperaturas para o Algarve. Dez minutos depois, vieram as notícias e o 'boletim' meteorológico com bonecos e tudo: Faro 26 graus, Lisboa 28 graus...

A história do downburst está pessimamente contada.

Ver, para começar:
https://www.weather.gov/lmk/downburst
e, depois, em geral:
https://www.google.pt/search?q=downburst&ie=utf-8&oe=utf-8&client=firefox-b&gfe_rd=cr&ei=-IRLWbOcJJCt8wfFybrYDA
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De Renato a 22.06.2017 às 17:45

Mais um especialista multidisciplinar.

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