Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A capital

por henrique pereira dos santos, em 24.09.22

O meu post anterior, repetindo uma ideia, que não é minha, mas que carrego comigo há mais de trinta anos - mudar a capital de Portugal para Castelo Branco - teve muito mais reacções do que esperaria, umas a dizer que não pode ser porque faz muito calor em Castelo Branco, outras a dizer que Coimbra é a capital de Portugal e fantasias que tais, outras centradas na afirmação de que a minha terra é que é, umas vezes com argumentos, outras vezes nem isso, e ainda uma ou outra reacção sobre o fundo da questão: a capitalidade prejudica Lisboa, pode ser usada para contrariar tendências que não são favoráveis à gestão do território e é uma decisão estritamente política.

Primeiro ponto: mudar a capital é, antes de mais, uma questão simbólica, e os países foram encontrando soluções que pareciam boas e equilibradas em cada momento. Dessas soluções constam a criação de capitais novas praticamente do nada (Madrid, por exemplo), constam a sua localização em cidades intermédias, diferentes dos centros económicos, sociais, culturais do país ou mesmo soluções menos usuais, como a dos Países Baixos, que têm uma capital política e outra capital administrativa.

Por mim, se quiserem continuar a ter Lisboa como capital política, não é o que defenderia, mas enfim, não é o essencial, o que me interessa é a capital administrativa.

Segundo ponto: as minhas razões para escolher Castelo Branco são bastante simples: está mais ou menos a meio do país no sentido Norte/ Sul (Guarda fica a uma hora mais de Faro que Castelo Branco, só para responder à hipótese da Guarda), está desequilibrada para o interior, o que me parece melhor para atingir os objectivos que se pretendem, que é levar emprego para onde faz falta, e tem boas condições fisiográficas para a sua expansão urbana (o que não acontece, por exemplo, nem com a Guarda, nem com a Covilhã, nem com Abrantes).

Ou seja, é uma solução simples, baseada em razões de paisagem simples, daí que não me interesse nada a discussão sobre se é melhor esta ou aquela localização.

Também não percebo o argumento da mudança de capital, versus o argumento da descentralização: Lisboa é capital há um ror de anos e não há descentralização nenhuma de jeito, mais, quando a Administração Pública decide lançar um programa de estágios - estágios são oportunidades de formação para pessoas, não são mecanismos de resolução das dificuldades de contratação de pessoas - são criadas mais oportunidades para as pessoas de Lisboa que no resto de todo o país, no seu conjunto, e isso, aparentemente, não escadaliza quase ninguém.

Para mim, parece-me claro que mudar a capital para fora de Lisboa facilita a tomada de decisões relacionadas com a descentralização, não se lhes opõe.

Vejamos, a bazuca tinha lá pelo meio uns valentes milhões para a descarbonificação.

Havia duas opções muito claras (uma manifestamente mais fácil, a outra mais complexa): usar o dinheiro para gerir a sério o problema dos fogos e a utilização do solo como sumidouro de carbono, ou usar o dinheiro para transportes públicos nas grandes cidades (sobretudo Lisboa, e um bocadinho no resto para não ser demasiado acintoso).

Estas duas opções têm efeitos diferentes no país, independentemente da bondade intrínseca de cada uma das soluções, matéria que nem chegou a ser discutida: no primeiro caso leva economia para a parte do país que não tem gente, não tem economia, não tem dinamismo social, no segundo caso acentua a tendência de concentrar economia onde há gente, oportunidades, criação de riqueza, libertação de meios de investimento.

Se a capital não fosse Lisboa, a mim parecer-me-ia mais fácil forçar a discussão das vantagens e desvantagens de cada opção, assim, continuamos sempre na mesma lógica: Lisboa é que tem gente, portanto temos de dar resposta às pessoas, logo investimos o dinheiro de todos (note-se que não estou a falar do dinheiro dos lisboetas, esse acho muito bem que seja gasto em transportes públicos) a resolver os problemas das pessoas, e portanto fazemos residências para estudantes, transportes públicos, escolas, etc., tudo em Lisboa.

Por cada um desses investimentos, aumenta a macrocefalia do país porque a cada um desses investimentos há um reforço da diferença económica de Lisboa em relação ao resto do país, como se uma espécie de buraco negro atraísse todos os recursos, a começar pelo capital humano, para Lisboa.

Se me disserem que não se podem deslocar as cadeias para longe das pessoas, por razões sociais relacionadas com a visitação e a reintegração dos presos, de acordo, é uma argumento que percebo, mas qual é o problema de pôr a Presidência da República em Castelo Branco?

Ou a Assembleia da República?

Ou os estágios da Administração Pública?

Devemos pôr o dinheiro dos contribuintes a resolver o problema da escassez de habitação nas grandes cidades, ou devemos reservá-lo, pelo menos em parte, para a criação de emprego nas cidades em que a habitação não é um problema de maior?

Esta é a discussão a fazer, o resto, se faz calor em Castelo Branco, ou se Abrantes está mais perto do centro geométrico do país, ou se a Guarda tem mais estradas a passar por lá, e coisas que tais, não tem interesse nenhum.

Do que tenho a certeza é que se a capital fosse em Castelo Branco, a ligação ferroviária entre as linhas da Beira Baixa e da Beira Alta seria levada muito mais a sério, com benefícios para todos, incluindo os lisboetas.



15 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 24.09.2022 às 12:47

Nos Países Baixos (ou será Neerlândia?) a capital oficial é uma cidade e a capital política é outra cidade, ainda que sejam de facto cidades muito grandes e portanto a comparação com estas sugestões não seja a melhor.


Uma das melhores cidades para viver em Portugal é Viseu e só teve caminho-de-ferro de "interface" que foi encerrado em 1990.
Sem imagem de perfil

De Anonimo a 24.09.2022 às 14:11

O problema não é administrativo. A capital pode ser Lisboa, Porto, Vila Real ou Funchal, não há necessidade é de todos os serviços estatais (ministérios, secretarias de estado, observatórios, etc) estarem na capital.
Depois investe-se na Capital, quanto menos estruturas no resto do país, mais desertificado este fica. As empresas não querem ir "para o meio do nada", sem empresas não há pessoas, mas sem pessoas também não há empresas.
Investir a sério em ferrovia seria um modo de rapidamente espalhar pessoas pelo país, o Governo faria a sua parte colocando os "infarmeds" fora dos grsndes centros. Também podem ir vender o resto do país não como um mero destino turístico mas como espaço para empresas, com rh bem formados.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 24.09.2022 às 14:27

Permita-me a ousadia de transcrever o meu comentário de há dias, no seu post anterior que deu origem a esta discussão.


 " estas populações [do interior] pagam os seus impostos exactamente como as restantes. Não seria da mais elementar justiça que lhes fossem concedidos alguns benefícios _no mínimo _ uma compensação para rectificar estes desequilíbrios e desigualdades? (...) Obviamente há aqui um problema grave de falta de equidade e de justiça que deve ser corrigida".


Não podia estar mais de acordo com a sua ideia "revolucionária" de transferir a capital para outra localidade. Não só pelas razões fisiográficas que aponta, como também a da descentralização de facto. Tocou ainda noutro ponto com os melhores argumentos a que sou sensível : que não é justa a aplicação dos dinheiros de todos os contribuintes para resolver  problemas que beneficiam exclusivamente algumas regiões de maior concentração populacional, incluindo a capital (onde estão os votos!). 
E o resto da população fica a ver navios ao longe por um canudo (permita-me o termo popular).
Sem imagem de perfil

De balio a 24.09.2022 às 14:56

Eu acho que é bem importante que faça calor em Castelo Branco. As  pessoas querem viver lá onde o clima seja agradável; aliás, é por esse motivo que muitos estrangeiros se instalam em Portugal. E o ar condicionado é caro e gasta muita energia. Uma excelente razão para em Portugal as pessoas preferirem o litoral é que no interior o clima é deveras agressivo.
Sem imagem de perfil

De Anonimo a 24.09.2022 às 15:41

Eu acho que deviam fechar a porta da adega.
Sem imagem de perfil

De anónimo a 24.09.2022 às 17:38


O conceito é basicamente interessante. Há duas formas, polares , de levar a cabo esse tipo de política.

Ou, tipo Brasília, em que se aproveitou (negocia-se) vasta área disponível, arquitectou-se e construi-se tudo a partir do nada. Os brasileiros que digam se gostaram.

Ou, gradualmente -lembremo-nos que os terrenos em Castelo Branco têm dono- arquitecta-se e constroi-se um elefante branco tipo aero-moscas de Beja. O socialismo adora essas megalómanas formas de financiar o seu partido. 



Outra forma mais simples e comprovadamente eficáz é política. Funcionou e funciona, devagarinho, na ilha da Madeira e na dos Açores. Consiste em dar completa autonomia fiscal, económica/financeira a uma região e deixar a populações locais -e as eventualmente atraídas- prosperar com as mais diversas actividades económicas que consiga atrair.
Depois deixem-as votar nos seus políticos, locais, não nos que Lisboa lhes designa.

Descentralização política, fiscal.... Simples.
Sem imagem de perfil

De entulho a 24.09.2022 às 18:04

« Lesboa é Portugal, o resto é paisagem »


há anos que desejo que esta cidade se afunde 
Imagem de perfil

De Pedro Oliveira a 24.09.2022 às 22:59

Castelo Branco?
A solução teria de passar por uma localidade do "Médio Tejo" ,
Santa Margarida tem uma "Brasília" já construída, com pista de aterragem de aviões e tudo (pesquise no Google), ligação ferroviária e rio (Tejo) quase navegável.
Uma ponte a ligar a margem sul e norte do Tejo e teríamos a capital ideal quase construída, seria um investimento mínimo.
Sem imagem de perfil

De entulho a 25.09.2022 às 09:43

ponha os óculos para ver o riacho Tejo
Imagem de perfil

De Pedro Oliveira a 25.09.2022 às 10:54

Já não, caro entulho.
Já está bem composto, não é ainda uma "Tejada" a ameaçar cheias, também, já não é, o riacho que foi em Junho/Julho.
Imagem de perfil

De O primata apartidário a 24.09.2022 às 23:50

Sugiro uma daquelas vilas na Serra da Estrela, pois a ministra coisa e tal disse que a Serra ia ficar bem melhor do que antes em abrantes. 
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 25.09.2022 às 10:36

O HPS é um bem intencionado que ainda crê que isto tem alguma solução. Então não vê que andamos a ser governados por alforrecas em vez de por homens?!
 Eu estou mais como o Eça.
 «Do que Portugal precisa é da invasão espanhola!»
 
Sem imagem de perfil

De G. Elias a 25.09.2022 às 16:18

Contrariamente ao que geralmente se ouve dizer, as diferenças entre a região de Lisboa e o resto do país têm vindo a esbater-se, não a acentuar-se.


Ver por exemplo aqui:
https://www.pordata.pt/municipios/poder+de+compra+per+capita-118

Comentar post


Pág. 1/2



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Francisco Almeida

    João Távora, autor do "post" referiu-se aos "seus ...

  • entulho

    na minha aldeia, ex-vila acastelada da Casa do Inf...

  • Anónimo

    Se reparar, caro Sr., não divergimos assim tanto e...

  • Marques Aarão

    Por associação de ideias arrisco uma das frescas d...

  • Anónimo

    E, como disse, partem e nunca mais regressam!


Links

Muito nossos

  •  
  • Outros blogs

  •  
  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2021
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2020
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2019
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2018
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2017
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2016
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2015
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2014
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2013
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2012
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2011
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2010
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2009
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2008
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2007
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D
    209. 2006
    210. J
    211. F
    212. M
    213. A
    214. M
    215. J
    216. J
    217. A
    218. S
    219. O
    220. N
    221. D