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Para simplificar: O problema do Grupo Espírito Santo consiste numa holding que se chama Espírito Santo International, que é a primeira de uma sequência delas, portanto é a holding que é detida pelos cinco ramos da família Espírito Santo. Essa holding durante anos emitia dívida para financiar as empresas da família. Contava para isso com o apoio inegável de um banco que colocava essa dívida em clientes, particulares ou institucionais. Ora através de fundos de investimento (Espírito Santo Liquidez), ora através de outros instrumentos (títulos de dívida), como por exemplo papel comercial. Tudo corria bem enquanto ninguém observava a holding ES International, porque cada vez que uma dívida vencia a empresa emitia nova dívida para pagar a anterior e o banco estava lá para garantir que havia sempre liquidez. À ES International, sediada no Luxemburgo - in the middle of nowhere - ninguém pedia contas. Andava tudo feliz e contente, quando o Pedro Queiroz Pereira, num ajuste de contas com Ricardo Salgado, decide denunciar a situação ao Banco de Portugal e à CMVM. A CMVM obriga a ES Liquidez a desfazer-se dos títulos do grupo, o banco coloca então o papel comercial entretanto emitido pelas holdings, para assegurar os reembolsos do fundo. 

Mas auditorias do Banco de Portugal e outras análises às carteiras de crédito do BES, levadas a cabo num contexto de preparação de entrada na União Bancária Europeia, leva o Banco de Portugal a aperceber-se da falência técnica da holding primeira de todo o edifício Espírito Santo. Começa por obrigar a ESFG (imediatamente antes do BES na cascata) a constituir uma provisão de 700 milhões para fazer face à emissão de papel comercial colocada pelo BES nos clientes de retalho, e depois proíbe o BES de dar crédito à ES International. Para além de castigar os gestores da família forçando-os a abdicar da administração do banco. A nova lei do Banco de Portugal dá-lhe poderes para isso, para além da possibilidade de imputar uma inibição aos gestores que estavam em simultâneo na ES International com funções efectivas, ser um machado em cima da cabeça dos administradores Espírito Santo. Ricardo Salgado não teve outro remédio se não aceitar sair da presidência do BES.

Para agravar a situação, a falência técnica da ES International impede que esta sociedade se consiga financiar. Desde que a situação se tornou pública (saltou para os jornais) ninguém compra papel comercial dela e o BES não lhe pode emprestar dinheiro. A sociedade tinha muita dívida de curto prazo emitida que vence para ontem e de repente não há dinheiro para pagar. Por isso Ricardo Salgado foi a correr ao Governo pedir ajuda à CGD (uma linha de 2,5 mil milhões). A Ministra das Finanças recusou e o Primeiro-Ministro também.

O desespero é tal que já há tentativas de converter créditos em capital para resolver a situação de insolvência. 

Se a ES International for à falência, a família perde completamente o Grupo que passa para a mão dos credores. Com a ES International vai tudo o que está em baixo, incluindo a Rioforte e o BES.

Se transformarem créditos em capital os Espírito Santo diluem a sua participação accionista, porque os credores passam a ser accionistas. Ora se directamente a família já não detém mais de 4%, nessa altura então passa ainda a ter menos expurgando todos os interesses minoritários.

É esta a situação do Grupo Espírito Santo.

Paralelamente e não completamente dissociado disto: o BES Angola tem um buraco nos activos (créditos de 5 bi que não se conseguem cobrar), com uma garantia do Estado angolano que no limite pode levar a que o banco passe para as mãos do Estado de José Eduardo dos Santos. E uma guerra familiar entre Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi, que nunca se resolverá porque decorre de uma situação de risco de perda do Banco que não será facilmente esquecida dentro da família. 

Voilá! É isto e é simples de explicar, mas deve ser sufocante o ambiente que se vive hoje na família.

 

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9 comentários

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De JP Ribeiro a 30.06.2014 às 14:32

Esqueceu-se de acrescentar que a Ministra das Finanças e o Primeiro Ministro recusaram a entrada dos 2,5 Bi da CGD, APESAR do ministro Paulo Portas (mais um lacaiozinho do Riquiqui - não era só o Sócrates...) ter ameaçado em conselho de ministros com a sua própria demissão caso essa ajuda fosse negada, como sucedeu. Convém acrescentar que existem múltiplos processos de averiguação em curso quer da PJ quer do Ministério Público contra muitos dos gangsters da direcção do grupo BES, e que se isto não é um assunto de guerras familiares como a imprensa (paga para isso) quer fazer crer, mas sobretudo um caso de polícia. Se alguém ainda tem dinheiro no grupo BES (como parece que até o CR7 tem) CUIDE-SE e diga-lhe adeus.
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De anónimo a 30.06.2014 às 15:17

Obrigado pela explicação. Depois de tantos artigos e opiniões que li em vão, só agora percebi o que se estava a passar. 
Desconfio que anda por aí gente a fazer editoriais que devia ler. primeiro, esta sua explicação.
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De PSC a 01.07.2014 às 11:31

Portugal no seu melhor! E vão TRÊS! 
Só se safam se a Judiaria vier em socorro da Irmandade! Já não era primeira vez. Pode ser que tenham sorte!
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De Maria a 01.07.2014 às 21:53

Espero que se este banco (iniciativa privada), for ao ar, os seus depositantes, não venham a correr ao Estado pedir o dinheiro que é deles.
Enfiem essa gente na cadeia, vão atrás deles até ao fim do mundo, peçam o dinheiro investido em outras empresas (com o dinheiro dos depositantes) aos bancos piratas, sabem aqueles sediados em ilhotas.
Pois que a justiça desta terra, nada fará que prejudique esta família de gangsters, e ninguém irá ver qualquer um deles a passar mal.
O cavaco, dá-lhes emprego, como dá à mulher do Ulrich.
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De André a 02.07.2014 às 13:04

A descrição do problema é correctíssima, desde o seu inicio com
PQP até às possíveis consequências.

Infelizmente sou um desses credores da ESI.

Não estou obviamente optimista. Alias, estou bastante pessimista.

Mas não consigo descrutinar uma solução (para mim) pois estou muito emocional neste momento. Visto que entende do assunto, vinha pedir-lhe a sua opinião:

Existem 3 cenários em cima da mesa (do meu conhecimento).

- A familia conseguir crédito numa(s) instituição/entidade qualquer no estrangeiro. Éa melhor das 3 vias, mas para que tal aconteça Ricardo Salgado e os demais tinham de ser humildes e dar qualquer coisa a essa(s) instituição(ões). Ou seja, virar-se para o Bank of China (estou a inventar) e dizer: Meus amigos, vendo-vos a tranquilidade e a herdade da comporta por 3 tostões. Abram-me uma linha de crédito de 3MilMilhões para fazer face às obrigações de curto prazo. A minha dúvida aqui são duas: Primeiro se qualquer entidade confiaria mais alguma vez na ESI e em todos estes mandriões. Segundo, se a familia espirito santo tem realmente interesse nesta solução.

- Cenário médio: Converter credores em accionistas do grupo. Pode descrever melhor? Quais as consequências para nós, actuais credores?

- Cenário mau (e a meu ver o mais provável): Total falência e desaparecimento do grupo: Da ESI, ESFG, Rio Forte, etc. Aqui como se processa o processo de insolvência? Vende-se os activos e com o dinheiro paga-se aos credores, correcto? Eu sei que os activos nem devem chegar a 5%, mas era para perceber a mecânica da coisa.

Obrigado desde já pela a sua ajuda e pela partilha do seu excelente artigo.
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De Maria Teixeira Alves a 02.07.2014 às 18:12

Olá. Penso que a família tudo fará para não deixar falir as holdings ESI e Rioforte. Se conseguirem crédito no estrangeiro (acho difícil) será sempre para um sufoco de curto prazo, depois teriam de vender activos (já estão à venda o Tivoli, a Tranquilidade, etc), aumentar o capital, etc, enfim, todos os procedimentos que resolvam o problema da falência técnica (passivo superior aos activos). 
Recordo que está previsto um aumento de capital da Rioforte de 1000 milhões. 
Penso que o BES deverá sair da órbita das holdings, porque o Banco de Portugal não quer contaminar o sistema financeiro. Hoje há uma reunião do Conselho Superior do GES para se discutir a reestruturação do Grupo.
A conversão de créditos em capital é uma proposta que tem de ser feita pela empresa devedora. E significa pagar a vossa dívida com acções. 
Mas aconselho-o a falar com um advogado. 




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De André a 03.07.2014 às 11:26


Bom dia Maria,

Obrigado pela sua resposta.

Infelizmente as dúvidas ainda são muitas.

Obrigado pelo seu conselho e assim farei.

Cumprimentos e parabéns pelo blogue
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De JPLopes a 10.07.2014 às 15:01

Desde sempre me mantive alheio a negócios com esse grupo e muito menos dei confiança para depósito de valores ou créditos. Com tanto silêncio desde o ruir do baralho de cartas bpn parecia estranho que ninguém falasse da do negocios da familia espirito santo ... ouvia-se praia dos salgados para cá ... lagoa de óbidos para lá ... e pouco mais do que isso. Uns arrufos e nada mais do que isso ... agora surge tudo inquinado e pronto a cair no precipicio ... ainda bem que me mantive afastado da instituição na altura de decidir a gestão da minha vida e empresas ...
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De Rui a 11.07.2014 às 10:18

Claro, sucinto e elucidativo. A única peça que nos falta a todos na história é... para onde foi o dinheiro. Se alguém emprestou, alguém recebeu. Se esse alguém que recebeu não consegue pagar, onde gastou o guito? Pelos montantes em causa, ainda é coisa para demorar bastante tempo a gastar Como diriam os gringos... follow the money.

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