Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A bolha social da generalidade da imprensa

por henrique pereira dos santos, em 25.04.19

Não deixa de ser irónico eu estar a escrever este artigo sobre a bolha social em que vivem jornalistas, políticos, comentadores, intelectuais e outros ocupadores do espaço público mediático (como eu) a partir de uma peça jornalística (mesmo sendo um artigo de opinião) que rompe essa bolha mediática.

Praticamente todos os dias saio de casa por volta das sete da manhã (desde que o quiosque deixou de ter jornais a partir das cinco e meia, o café passou a abrir só por volta das seis e meia e o meu médico me mandou dormir mais tempo) e à porta do serviço público aqui ao pé, que abre às nove da manhã, está uma bicha de várias dezenas de metros, com gente sentada onde em calha, alguns embrulhados em mantas, às vezes com os filhos ensonados que não têm onde deixar.

Do outro lado, não a essa hora, mas um bocado antes do horário das visitas, as famílias dos presos esperam numa outra bicha indigna, à porta da cadeia, faça sol, faça chuva, sem que o Estado português tenha a delicadeza de encontrar uma solução humanamente aceitável para que as famílias dos presos esperem pela hora das visitas em condições minimamente digna, dentro do edifício enorme em que esperam entrar.

Eu sei, quer num caso quer noutro, uma boa parte das pessoas que ali estão são pobres, são pretos, mulatos, indianos, brasileiros, ucranianos, são gente pobre ou desenraizada que desconhece os caminhos que conduzem aos tais jornalistas, políticos, comentadores, intelectuais e outros ocupadores do espaço mediático.

Das únicas vezes que vi jornalistas interessados no que se passa no exterior desse serviço público foi quando a CGTP e os sindicatos respectivos fizeram greves, apitando desenfreadamente na rua, violando a lei do ruído para disfarçar a encenação que lhes serve para fingir influência social que na verdade existe mais nos jornais que na vida das pessoas comuns.

Fazer o que é feito neste artigo de opinião, ir à procura das pessoas concretas, da utilização concreta dos serviços públicos, das tretas das vacas voadoras, confrontar os anúncios do governo e da oposição (e dessa coisa híbrida que é ao mesmo tempo governo e oposição que agora anda por aí sob os nomes do PC e BE) com a vida real de pessoas reais, isso é uma canseira.

Para quê ir conversar com as pessoas que estão nas bichas dos serviços públicos, não para encher de emoção irracional os jornais com directos de pessoas inevitavelmente pouco objectivas naquelas circunstâncias, mas para compreender melhor a vida real das mulheres da limpeza que estão em nossas casas, deixando os filhos às cinco da manhã porque o metro só abre às seis e meia e é preciso sair mais cedo, quando se pode ligar ao assessor do ministro e ao assessor da CGTP para fazer uma peça para encher o espaço do jornal, garantindo o contraditório?

Uma boa maneira de celebrar o 25 de Abril talvez fosse entrevistar a Isabel em vez de Ferro Rodrigues: é que francamente, o que Ferro Rodrigues tem a dizer sobre o 25 de Abril não acrescenta nada à nossa compreensão do mundo, mas falar da dura vida da Isabel talvez nos obrigue a pensar dois segundos no que poderíamos fazer melhor para lá da nossa bolha social, claramente minoritária e privilegiada.

As minhas desculpas por alguma demagogia neste post, mas dê-se-lhe um desconto.



Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    A Cimeira Social esteve muito bem, foi uma sensaçã...

  • Anónimo

    Quem não conhecesse bem o país, acharia que a sua ...

  • AVS

    Ao longo dos anos que vou acompanhando alguns blog...

  • Anónimo

    Quando um governo concentra em si tal poder que é ...

  • Maria

    Parabéns, retratar melhor está cambada é impossí...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2020
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2019
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2018
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2017
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2016
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2015
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2014
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2013
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2012
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2011
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2010
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2009
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2008
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2007
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2006
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D


    subscrever feeds