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A árvore ou a floresta

por henrique pereira dos santos, em 31.07.18

eucaliptos.jpg

Esta fotografia é de um comentário irónico de Francisco Barros (um dos melhores naturalistas que conheço) que traduz uma ideia geral e, genericamente, correcta: "Assim, sim! Floresta bem gerida, sem mato, sem fogos.... sem nada! Só o solo e eucaliptos. Até uma vinha intensiva é mais biodiversa que isto...."

Do que me interessa falar neste post não é dos eucaliptos que estão na imagem, mas do resto.

Do ponto de vista dos fogos, do solo, da retenção de água, da biodiversidade, da gestão da matéria orgânica no solo, enfim, de qualquer das questões que se possam levantar sobre esta fotografia, estarem ali eucaliptos, pinheiros, carvalhos, oliveiras, milho, magnólias ou margaridas é, essencialmente, indiferente: o que é relevante são as acções de gestão associadas ao que quer que seja que se pretenda produzir, ou não produzir, naquele solo.

Pode argumentar-se que este tipo de gestão só se usa no eucaliptal intensivo, mas isso está longe de ser verdade (o comentário do Francisco fala da vinha, mas podia falar do olival, do milho ou de qualquer outra cultura intensiva, não acontecendo com grande parte das outras espécies florestais apenas porque não pagam este tipo de gestão e, por isso, ardem mais).

É aqui que vale a pena falar das diferentes escalas de análise que nos devem preocupar.

Uma escala de análise é a da parcela (ou da propriedade), que é a escala do dono do terreno, em que discutir, por exemplo, a biodiversidade deste campo é muito pouco útil, seria como discutir a biodiversidade da avenida dos Aliados: se o objectivo é a produção de eucalipto, de espaço urbano, de batatas, é um pouco inútil argumentar que a biodiversidade é mínima, seria como criticar uma exploração leiteira por produzir pouco whiskey.

Outra escala é a da paisagem: se estendêssemos a todo o país o modelo de ocupação do solo da avenida dos Aliados, aquilo que é um belíssimo espaço urbano passaria a ser uma banalidade tenebrosa.

À escala da propriedade que, insisto, é a escala do proprietário, o que interessa é notar que o solo não não se mantém como está na imagem durante todo o ano e que se não houver novas acções de gestão, rapidamente aquilo se enche de mato, melhorando muito a diversidade biológica, a cobertura do solo, a gestão dos ciclos de nutrientes e da água, mas potenciando enormemente o risco de incêndio. Se o objectivo do proprietário for produzir biodiversidade, óptimo, com eucaliptos, magnólias ou margaridas, a ausência de gestão dará origem a uma aproximação ao que se pretende, à custa de um risco de fogo muito maior. Se o objectivo for produzir eucalipto para vender, o proprietário irá gerir esta propriedade com esse objectivo e, na medida em que o retorno económico compensar, vai procurar manter o terreno, tanto quanto possível, na forma como se vê na imagem, com um risco de fogo mínimo (independentemente da espécie que lá esteja), mas também com níveis mínimos de biodiversidade, e máximos de exposição do solo aos elementos, elevada probabilidade de escorrência de água e erosão, etc..

Ao resto da sociedade, que não é dona do terreno, interessa, em simultâneo, a criação de riqueza, mas também de biodiversidade, ciclos da água e dos nutrientes equilibrados, bons solos, etc..

Esta contradição entre querer simultaneamente coisas cuja obtenção implica modelos de gestão opostos não é fácil de resolver à escala da propriedade, embora possa ser amenizada com as melhores práticas disponíveis que não ponham em causa o objectivo principal de produçao económica, por exemplo, plantação ao longo das curvas de nível, manutenção da vegetação nas linhas, limpeza das entrelinhas em anos alternados, etc., mas pode, em grande medida, ser resolvida à escala da paisagem, diferenciando os objectivos das diferentes parcelas, por exemplo, na produção florestal certificada, 10% da área de produção deve ser dedicada à conservação.

O que implica que a sociedade remunere os proprietários pela gestão da produção de serviços de ecossistema nas parcelas que perdem potencial económico, de forma a que as parcelas dedicadas à produção possam fazer a sua função adequadamente (quando Nova York resolveu aplicar isto na cidade, não andou a dizer que os proprietários eram uns malandros que tinham de assegurar funções sociais nas suas propriedades, tratou de reservar 341 hectares para funções sociais, pagas socialmente, para o Central Park).

Mas para que a sociedade chegue a este ponto da discussão, parece-me que, previamente, tem de deixar de confundir a árvore com a floresta, concentrando-se mais nas necessidades de gestão do território e repectivos modelos de gestão, e menos numa discussão, pouco útil, sobre espécies demoníacas e espécies celestiais.

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1 comentário

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De Anónimo a 02.08.2018 às 17:01

Gostei de ler. Penso compreender qual a razão do dito que o eucalipto seca a terra .

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