Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A árvore e a floresta

por henrique pereira dos santos, em 26.08.23

Passei, por acaso, pela manifestação contra o abate de uns sobreiros (era tão grande que até chegar ao pé não tinha percebido por que razão se tinham juntado ali tantos turistas).

Passei à ilharga, por acaso encontrei um ambientalista que conheço e estivemos um bocadinho à conversa (perguntou-me a rir se também tinha ido à manifestação, respondi-lhe que iria a uma manifestação que fosse pela liberalização total do abate de sobreiros e fui à minha vida).

Esta coisa de se fazerem manifestações contra o abate de sobreiros, uma árvore que existe aos pontapés e está a nascer por tudo quanto é sítio, não faz sentido nenhum e muito menos faz sentido achar que é um drama cortar 1900 sobreiros e plantar 30 mil em sua substituição.

Há, no entanto, um ponto que os manifestantes têm razão: as medidas compensatórias destes abates são uma treta, pura destruição de valor, como diriam os economistas.

Só que isso não é específico dos sobreiros, esse é um problema transversal do país e há muito tempo identificado nas políticas ambientais e, nomeadamente, nas medidas compensatórias de avaliação de impacte ambiental.

Esse não é um problema de um governo, é um problema de toda a sociedade.

Lembro-me, perfeitamente, de ligar para Francisco Ferreira, na altura presidente da Quercus, alertando para incumprimentos grosseiros de condicionantes de impacte ambiental (por exemplo, o pilar de um viaduto não poderia ficar entre uma estrada e o rio que marginava e era exactamente aí que estava o pilar) e ele claramente desvalorizar o assunto, porque não lhe interessava politicamente mexer naquele projecto em concreto.

O mesmo aconteceu com Helena Freitas, presidente da LPN, num processo concreto que os dois conhecíamos bem.

Não falo sequer da súbita paragem da contestação do traçado de uma linha eléctrica a partir do momento em que a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, que liderava essa contestação, foi contratada, pelo promotor, para prestar o serviço de monitorização dessa linha eléctrica, quando estivesse construída.

Mas posso falar as medidas compensatórias estabelecidas para a conservação do lobo nas serras de Freita e Arada, que afinal podem ser aplicadas em muitas áreas, ou do que o ICNF fez com o dinheiro para a conservação dos golfinhos que resulta das medidas compensatórias do novo cais dos ferries de Tróia. O queo ICNF fez foi objecto de crítica (um eufemismo catita) por parte da Inspeção Geral do Ambiente, quando alguém resolveu olhar para isso com um bocadinho mais de atenção (este processo conheço-o melhor por ter sido acusado de má gestão dos dinheiros públicos nesta matéria, acusação sem pés nem cabeça porque eu não tinha responsabilidade nenhuma do roubo que o ICNF fez aos golfinhos, usando o dinheiro para actividades do ICNF sem qualquer utilidade para os golfinhos).

Sim, é verdade que andar a fazer plantações sem planos rigorosos de gestão não tem interesse nenhum e é deitar dinheiro à rua.

Só é pena só se lembrarem disso quando lhes apetece, numa espécie de memória selectiva que esquece o fundo do problema: toda a gente se está nas tintas para a verificação do cumprimento das condições de licenciamento dos grandes projectos, o que é importante é aprovar, depois se vê.

Quando, em determinada altura, me nomearam para um conselho estratégico de avaliação de impacte ambiental, ou lá qual era o nome (era um órgão de aconselhamento da secretaria de estado que pretenderia contribuir para melhores processos de avaliação de impacte ambiental e do qual me demiti uns tempos depois, quando esgotei todos os recursos que tinha para acreditar que o secretário de estado, de quem sou amigo, iria ligar alguma coisa às recomendações desse conselho), passei o tempo todo a defender apenas duas coisas: 1) os estudos de impacte ambiental não poderiam ter mais de 50 páginas (poderiam ter os anexos que quisessem, mas o corpo principal não poderia ter mais de 50 páginas), medida inspirada no comentário do meu sogro à leitura do EIA da barragem do Lindoso, que na altura ainda nem era obrigatório: "dizia-se antigamente que os engenheiros de estradas ganham ao quilómetro e era por isso que as estradas tinham tantas curvas, eu diria que estes ganham à página"; 2) reforço consistente da pós avaliação, matéria a que até hoje (e já passaram bastantes anos), ninguém liga nenhuma.

Portanto, meus caros, deixem lá os sobreiros e os cortes de árvores (matéria com muito pouco interesse), e concentrem-se na floresta de problemas para que vale a pena olhar, de que inegavelmente o reforço dos mecanismos de avaliação pós execução do projecto fazem, inegavelmente, parte.


18 comentários

Sem imagem de perfil

De Rosa Arenga a 26.08.2023 às 17:04


Caro Henrique
"uma árvore que existe aos pontapés e está a nascer por tudo quanto é sítio".Indique onde. Porque o que eu vejo, ao longo de muitos anos, é sobreiros a morrer por todo o lado, sem contar com os ardidos.
E mesmo que assim fosse, constituiria um montado ou um sobreiral?
Declaração de interesse: no fogo de Odemira, os meus também arderam, os "antigos", dos quais os tetravós retiravam cortiça, que eu própria tive de passar a fazer (e confesso que 1.ª vez não foi um processo fácil), bem como os que eu plantei, ao abrigo dum programa comunitário (leia-se UE) em 2006, exclusivo para terrenos "agrícolas" abandonados. As aspas respeitam a solos marginais para a agricultura, mas donde, apesar da idiosincrasia, se produziu o melhor pão que comi na infância.
O que o move contra os sobreiros? Não os considera uma fileira importante no sector exportador, até quando consociados com medronheiro, também economicamente importante? Já nem vou referir os serviços que o habitat fornece, existindo inúmeras espécies associadas, com a biodiversidade daí decorrente, já que tenho vinho a notar um desprezo sistemático por esta espécie.
Meu caro, em matérias destas, não há que tomar partido por esta ou aquela espécie. Nem ter preconceitos. Holística, capisce?
Cumprimentos, muito mais poderia dizer, fico-me por aqui, os fogos sempre me afectaram, tenho um trauma de infância, este afectou-me directa e incisivamente e a toda a minha família (os "miúdos", que vivem lá, estão com stress pós traumático).
R. Arenga

Sem imagem de perfil

De balio a 26.08.2023 às 22:27

Rosa,
ainda esta semana estive em Santa Maria da Feira, onde vi não poucos sobreiros, de variadas idades, por exemplo no próprio morro do castelo.
Nas minhas terras situadas no concelho de Águeda também há  sobreiros continuamente  a nascer e medrar. Não são plantados, são semeados pela Natureza.
Nem todos os sobreiros estão em montados, nas zonas que mencionei não estão, mas que há sobreiros continuamente a nascer por todo o lado neste nosso Portugal, isso é a mais pura verdade.
Sem imagem de perfil

De Rosa Arenga a 27.08.2023 às 19:09

Olhe, antes isso que acácias.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 26.08.2023 às 23:08

".Indique onde. Porque o que eu vejo, ao longo de muitos anos, é sobreiros a morrer por todo o lado, sem contar com os ardidos."



É só andar pelo campo. Por exemplo na zona á volta de Sintra, Região Saloia etc. A peste nasce a cada 4m2 ou mesmo menos ajudados pelos Gaios.
Sem imagem de perfil

De balio a 27.08.2023 às 11:03

Designar os sobreiros como "peste" é claramente inapropriado. São a base de uma das indústrias de sucesso em Portugal. Oxalá houvesse muitos mais.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 27.08.2023 às 15:51


É uma peste em jardins, pomares e em matas, pior que a maioria das outras pestes devido á solidez das raízes.

Quem quer sobreiros deve os ter, quem não quer não.
Sem imagem de perfil

De balio a 28.08.2023 às 10:03

Em jardins, pomares e matas um sobreiro é sempre benvindo. A prazo, será uma fonte de rendimento.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 30.08.2023 às 02:29

Então quer destruir o pomar a mata e o jardim...


Fonte de rendimento!?  mas você julga que alguém explora só 100 sobreiros ??
Imagem de perfil

De henrique pereira dos santos a 27.08.2023 às 15:38

Rosa, não tenho nada contra sobreiros, tenho tudo contra lei estúpidas sobre sobreiros.
Sem imagem de perfil

De G. Elias a 26.08.2023 às 17:58

Triste verdade. Para além dos casos que aqui foram elencados, conheço pelo menos mais um (que está em curso): o da nova linha férrea Évora-Caia. A linha atravessa a ZPE Torre de Bolsa, por causa disso foram definidas medidas compensatórias, eu tive oportunidade de ler o relatório do "Plano de Gestão Ambiental" (creio que é este o nome), isto depois de ter andado mais de um ano a insistir com a IP para me permitir consultar o plano; aquilo que lá se descreve como sendo execução de medidas compensatórias fica muito aquém do que está previsto no despacho que autorizou o atravessamento da ZPE. Questiono-me quantas pessoas, além de mim e de quem elaborou o documento (que não tinha data nem nome do responsável pela sua execução) se deram ao trabalho de ler aquilo.
Sem imagem de perfil

De balio a 27.08.2023 às 11:07

A mim palpita-me que a Rosa deveria ter em conta que, com as alterações climáticas em curso, cada vez menos o sobreiro será uma árvore apropriada para o Alentejo, em particular para Odemira. O clima aí está cada vez mais seco. O sobreiro, tal como o resto da Natureza, tenderá a migrar mais para Norte.
Sem imagem de perfil

De Filipe Costa a 27.08.2023 às 19:48

Alfarrobeiras, isso é indicado para reflorestar desertos, os marroquinos compram-nos muito.
Pelo que lí, a alfarrobeira recolhe a água que pode (orvalho incluido) e fixa nas raizes.
O futuro do sequeiro alentejano tem que passar por estas árvores.
Sem imagem de perfil

De balio a 28.08.2023 às 11:02


a alfarrobeira recolhe a água que pode (orvalho incluido) e fixa nas raizes


Sobre isso não sei, o que sei é que as raízes das alfarrobeiras, à semelhança das raízes das leguminosas (isto é, do feijão, lentilhas, e grão de bico), albergam bactérias que transformam o azoto atmosférico em compostos orgânicos, dessa forma enriquecendo o solo em matéria orgânica que depois pode ser utilizada por outras plantas que não têm tal faculdade.
Sem imagem de perfil

De Nuno G. a 30.08.2023 às 04:06

A alfarrobeira é não-nodulante e logo não tem capacidade para fixar azoto atmosférico.
Sem imagem de perfil

De Anonimo a 27.08.2023 às 14:01

Só nao percebo por que está desertificado o Portugal rural, havendo tanto activista pelo ambiente. 


Isso da 'green economy" é giro, mas depois ninguém quer exploração de lítio, painéis solares e eólicas porque se abatem as plantas, tem que ser tudo veggie mas não se podem criar zonas agrícolas...
Sem imagem de perfil

De Rosa Arenga a 27.08.2023 às 19:06

Se se tivesse identificado eu até lhe respondia.
Sem imagem de perfil

De Anonimo a 28.08.2023 às 10:49

Pode responder 
Sou um tipo urbano, percebo pevide de agricultura, floresta ou biodiversidade. 
Mas sei que um dos problemas do país é o abandono do Portugal rural, o que não faz sentido vendo tanto activista nas ruas. Um pouco a analogia do comércio local, são milhares a tenrar salvá-lo, mas muito poucos a entrar nas lojas.
Sem imagem de perfil

De balio a 28.08.2023 às 15:26


nao percebo por que está desertificado o Portugal rural, havendo tanto activista pelo ambiente


Porque muitas pessoas são muito boas a passar julgamento sobre aquilo que os outros devem fazer. Tipo "bem prega frei Tomás...".


Eu quando era ambientalista criticava os meus colegas que propagandeavam que as pessoas deveriam residir em prédios remodelados no centro das cidades, porém todos eles residiam em torres suburbanas construídas de fresco.

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com



Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Muito nossos

  •  
  • Outros blogs

  •  
  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2024
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2023
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2022
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2021
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2020
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2019
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2018
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2017
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2016
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2015
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2014
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2013
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2012
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2011
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2010
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2009
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D
    209. 2008
    210. J
    211. F
    212. M
    213. A
    214. M
    215. J
    216. J
    217. A
    218. S
    219. O
    220. N
    221. D
    222. 2007
    223. J
    224. F
    225. M
    226. A
    227. M
    228. J
    229. J
    230. A
    231. S
    232. O
    233. N
    234. D
    235. 2006
    236. J
    237. F
    238. M
    239. A
    240. M
    241. J
    242. J
    243. A
    244. S
    245. O
    246. N
    247. D