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A agonia das esquerdas e direitas clássicas

por Jose Miguel Roque Martins, em 26.03.21

Tropecei recentemente num gráfico simples na Wikipedia que me parece muito revelador das tendências partidárias politicas na Europa.

As ultimas décadas demonstram de forma clara que as coisas não estão a correr bem na Europa, nem para as populações nem para as esquerdas e direitas clássicas.

Captura de ecrã 2021-03-24, às 13.09.44.png

Em 30 anos, os socialistas/sociais democratas e os conservadores europeus, não param de perder expressão. Em 1979, representavam 70% do eleitorado, em 2019, perto de 45%. Ainda são os grupos mais importantes. Mas a tendência de queda é clara. Os dois blocos inquestionavelmente maioritários no passado, entre si, não garantem hoje uma maioria.

Não parece que a ideologia seja o principal motivo de tamanha alteração no quadro político. Com exceção dos liberais, são partidos de causas ( como os verdes) ou radicais ( sobretudo nacionalistas) que têm vindo a crescer. Não temos novas ideologias que ganharam espaço. Temos o protesto com os resultados reais sentidos pelos cidadãos a ter consequências.

O descontentamento das populações parece ser a principal razão para um afastamento das duas famílias politicas que têm sido o poder alternativo nos países  Europeus. E por isso, os principais responsáveis pelo Estado de coisas actual são, com naturalidade, também os grandes perdedores.

Outras tendências parecem claras:

1) A esquerda está agonizante. Num mundo que parece começar a entender que os países não são de esquerda porque são pobres, mas são pobres porque são de esquerda. Também as novas causas fraturantes distintivas ( é difícil continuar a apostar contra a economia de mercado), não parecem funcionar. Os mais revoltados foram para a direita, enquanto a esquerda radical definha. As 3 forças de esquerda, incluindo radicais e os Verdes ( progressistas), representam pouco mais de 1/3 do eleitorado, quando em 1989 eram maioritários;

2)  Os liberais crescem, mas parecem estar condenados a serem uma força de segunda grandeza. A insistência num Estado mais contido e mais liberdade individual, em oposição ao defendido por todos os outros partidos, não aparenta colher uma adesão significativa. A sua oportunidade de influencia surgirá da necessidade de proceder a coligações num espectro político cada vez mais fraturado;

3) A direita radical, ganha expressão e afirma-se, sem uma ideologia estruturada. Muito diferenciados entre si, os partidos defendem  um conjunto de economia de mercado, Estado poderoso, Nacionalismo e causas normalmente em oposição ás proposta de esquerda dos últimos anos. A fragilidade ideológica, torna estes partidos particularmente vulneráveis á transferência de votos para novas propostas politicas. Enquanto "grupo", parecem ter ainda espaço de crescimento. Não virámos á direita. Virámos para o radicalismo. 

4) A era de maiorias parlamentares parece ter passado. Numa fragmentação cada vez mais evidente, entrámos na era das coligações. Ou dos impasses.

5) A narrativa de esquerda continua dominante. Os radicais de esquerda, são "ala esquerda", os de direita, são "extrema direita".

6) A direita clássica perde neste período,  quase 40% da sua expressão. Valor próximo do sofrido pelos socialistas/sociais democratas. A sua maior vantagem, neste novo mundo, aparenta ser a sua maior facilidade de estabelecer coligações. Desde alianças com os sociais democratas, como acontece na Alemanha, até a partidos radicais de direita. Nada de diferente acontecendo, a sua perda de peso vai continuar, até por assumir o fardo do poder.

Muito já mudou, mas não parece razoável pensar que não vai mudar mais. Só para onde realmente vamos continua a ser a incognita. 


5 comentários

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De Diana a 26.03.2021 às 09:41

Boa exposição. Promovo-te a conselheiro de estado eheheh.
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De SAPr3i a 26.03.2021 às 12:04

1. “Para onde vamos?”, pergunta Miguel Roque Martins, ao apresentar estes dados.

2. Vamos para um outro “modelo de compreensão e descrição da realidade” que nos cerca (dos fenómenos do mundo e da Natureza). Por efeito dos avanços científicos e hermenêuticos, entretanto acumulados.

3...

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De SAPr3i a 26.03.2021 às 12:16

3. É essa mudança, no modo como a espécie Humana passou a perceber e compreender aquilo que a rodeia (ambiente/natureza/mundo), que explica os dados deste Post.

4. Passámos de um “Modelo binário, inversamente opositivo, e isomorficamente simétrico” (esquerda/direita, sim/não, certo/errado, certeza/incerteza, simples/complexo, bem/mal, preto/branco, simples/complexo, positivismo/fenomenologia, etc.) ... para um «Modelo ternário».

5...
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De SAPr3i a 26.03.2021 às 12:25

5. Há muito enunciado por pessoas como Hugues de Saint-Victor (1141), C.S.Peirce (1901) ou K. Gödel (1931); e corroborado com o actual “modelo padrão” na Física, ou os actuais avanços na matemática, ou as actuais críticas ao Darwinismo pela biologia. Temos até, hoje, novas definições científicas de “Vida”, “Matéria”, “Inteligência”, “Ser-humano”, e “Social”.

6. É toda uma nova concepção, no modo como se devem gerir as relações entre as Pessoas e programar a Sociedade.

7. As convicções antigas (baseadas nesse «modelo binário, inversamente opositivo, simetricamente inverso») acreditaram que a “competição” e a “assimetria” eram o motor do Desenvolvimento e da Prosperidade. Agora, essa convicção ideológica (quase religiosa) deixa de ser preponderante, para um cada vez maior número de líderes qualificados e poderosos.

8. É natural que, há medida que a nova geração imbuída desta nova mentalidade vá tomando o poder, se vão gradualmente desmoronando uma Política, uma Moral e uma Ética baseadas no «antigo modelo».

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De Anónimo a 26.03.2021 às 15:38

como dizia a namorada
- você nem trepa nem sai de cima

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