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Pela segunda vez, em muito pouco tempo, Susana Peralta faz outro artigo no Público com a tese de que baixar impostos só tem um resultado certo: deixar mais dinheiro no bolso dos mais ricos (noto que do artigo anterior para este Susana Peralta corrigiu a terminologia e deixou de dizer que baixar impostos põe dinheiro no bolso de quem quer que seja, uma boa demonstração do seu fair play).
Susana Peralta é das economistas mais interessantes da esquerda caviar, tendo a insuperável vantagem, face a outros, de não torturar a informação até que ela diga o que a Susana quer que diga.
Tem também uma vantagem académica, mas que acho uma seca como leitor: para cada ideia que defende, tem um ou dois estudos, ou mesmo uma revisão geral da bibliografia, em que baseia o argumento. Acho uma seca porque tenho sempre a desagradável sensação de que as referências bibliográficas estão ali para dar credibilidade a argumentos pré-existentes e não para nos ajudarem a pensar.
Onde eu queria chegar é ao essencial da tese: "Como sempre na campanha eleitoral, há propostas de diminuição de impostos para todos os gostos, que vão fazer as pessoas trabalhar mais e melhor, investir e poupar mais, o que leva ao crescimento económico. E depois a pobreza vai resolver-se por arrasto, porque quando a economia cresce todos ganham. Só que a realidade é mais complexa e em Portugal não há estudos de qualidade que nos permitam quantificar os efeitos. Que serão, baseados na evidência internacional, seguramente menores do que a narrativa do milagre implica. Até ver, há apenas um efeito seguro: baixar a carga fiscal dos mais ricos. Sem pingar para os mais pobres".
Em primeiro lugar, note-se que a frase final, "Sem pingar para os mais pobres", de acordo com o próprio artigo de Susana Perealta, não tem a menor base na evidência internacional, que se limita a dizer que isso é incerto e, sobretudo, difícil de avaliar.
Mas deixemos esta minudência académica, para nos concentrarmos no essencial: qual é a evidência que existe de que o dinheiro no bolso do Estado produz melhores efeitos no combate à pobreza de que o dinheiro no bolso dos mais ricos?
Mesmo admitindo a validade de toda a tese de Susana Peralta, o que tem Susana Peralta a dizer em defesa da ideia de que o Estado, por definição, é uma entidade confiável, filantrópica, imune à corrupção e mais preocupada com os pobres que com o destino da TAP, e não um instrumento de repressão nas mãos das classes dominantes, como diria Marx?
A resposta a esta pergunta pode ser a clássica fuga dos académicos às perguntas societalmente relevantes: eu só falo do que sei e estudei, e a pergunta que me faz ultrapassa o âmbito das minhas competências.
Ou, citando de cor Mário Centeno, o ministro, sobre Mário Centeno, académico: aplicar à política as conclusões dos estudos académicos, é um caminho para a tragédia.
Esta citação, que me parece do mais chão bom senso, dever-nos-ia vacinar quanto à validade das credenciais académicas na discussão política, o que evidentemente não é o mesmo que negar a enorme valia do conhecimento para essas discussões.
É apenas o reconhecimento de que entre a produção académica e a criação de conhecimento há um enorme fosso, com muitas pontes, com certeza, mas um enorme fosso que convém não ignorar.
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