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Mariquices de outros tempos

por João Távora, em 17.04.15

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I’m slowing down the tune
I never liked it fast
You want to get there soon
I want to get there last

(...)

Leonard Cohen 

 

Hoje em Cascais no jardim em frente ao meu escritório o meu olhar estranhou um casal que caminhava entrelaçado em passadas lentas e alinhadas. Essa visão lembrou-me manifestações antes tão comuns que depois catalogámos de possidónias, como bailaricos ou passeios nas tardes domingueiras com roupa de “ver a Deus”, nos jardins ou avenidas, a ecoarem ao fundo os gritos das crianças a brincar e o relato da bola num transístor. Se os nossos avós que tiveram de namorar “de janela”, se conformaram a encontrarem-se só em lugares públicos com um irmão mais velho ou uma criada, a minha geração envergonhada erradicou qualquer exibição de compromisso. E agora morram de vergonha os jovens leitores: o meu saudoso pai contava que antigamente no Liceu Passos Manuel onde estudou, os bons amigos andavam de braço-dado no recreio.
Claro que a minha geração, medrosa e puritana como se fez, baniu esses indecentes hábitos sociais de gente careta, iletrada, rude  – no meu tempo do liceu, tempos revolucionários, do rock pesado e da “poesia com mensagem”, já só sabiamos dançar sozinhos e caminhar de “mão dada” tornou-se uma pieguice. 

Enfim, a mesma geração que institucionalizou o nudismo, o amor livre e toda a sorte de fantasias eróticas, envergonhou-se de namorar, um assunto que circunscreveu à poesia. Curioso como ao mesmo tempo que aprenderam a tolerar demostrações públicas em homossexuais, homem e mulher tenham desaprendido de andar de braço dado com o andar sincopado. Curioso como, com tanto sexo em prime-time, criámos uma comunidade tão estéril e fragmentada. Porque o romance para fazer história tem de ser mais longo que uma canção pop. 

Em calhando

por João Távora, em 15.12.14

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Lembro-me bem, Filipe: vinha eu ontem de Alvalade a digerir o melão do empate com o Moreirense enquanto pelo relato da telefonia escutava os comentadores de serviço a tecer rasgados elogios à equipa azul e branca, que já falhara várias ocasiões de golo, na exacta medida em que depreciavam a postura constrangida do Benfica, esmagados que estavam com a autoridade dos donos da casa. Até que o Lima marcou o primeiro golo, julgo que pouco depois da meia hora de jogo. “Olha-me a sorte dos lampiões… calhou!” Foi o que eu pensei. Confesso que não vi o resto do jogo, que esta coisa de um pai de família quando chega a casa tem outras prioridades e contrapartidas a prestar, principalmente quando passou a tarde de Domingo precisamente na bola. 

Vem isto a propósito do estranho e súbito veredicto repetido mil vezes pelas sumidades da bola que enxameiam os canais por cabo e os jornais da especialidade ou nem por isso, que a malta consome na ânsia de prolongar o gozo da vitória ou encontrar bodes expiatórios que amenizem a depressão da derrota:  a vitória do Carnide reflectia afinal uma exibição brilhante e uma extraordinária estratégia por parte de Jorge Jesus
Ora acontece que, tão certo quanto Jorge Jesus ser um bom treinador, os resultados futebol dependem em grande medida do factor “calhar”, que os portugueses tão bem exprimem com o “em calhando”. Acontece que "em calhando" uma ou duas bolas na trave, um montículo de relva que desvia a bola, podem custar três pontos. Não, não é só do campo inclinado pelo árbitro vendido, da capacidade de liderança do treinador, da qualidade táctica e técnica de um mais ou menos harmonioso conjunto de jogadores que depende um resultado da bola. Em calhando num dia mau ou num dia feliz, perde-se ou ganha-se um jogo, essa é que é essa! Com a regra do “em calhando” perdem-se campeonatos e despedem-se treinadores. A regra do "em calhando" é preponderante e obviamente não é a única com influência no resultado, mas é precisamente essa que dá magia ao futebol: o Benfica ontem jogou pouco, mas calhou ganhar - ficaram felizes os lampiões, não há quem os ature. E a segunda parte do Sporting seria suficiente para a vitória... mas não calhou. De resto, caro Filipe, se não sabes ficas a saber que esta regra é verdade cientifica, excepto com os chatos dos alemães.

Texto originalmente publicado aqui

Mais uma crónica moralista

por João Távora, em 19.09.14

Ontem á tarde, depois de umas voltas a pé pelo Chiado ocorreu-me o sugestivo achado de que, se até ao século XIX as crianças se ataviavam como adultos, hoje em dia os adultos querem é vestir-se como as crianças, por exemplo, com boné americano, t-shirt garrida com um excesso qualquer, calções e sapatilhas de Basquete (na melhor das hipóteses). 
De facto é especialmente durante o século XX que se verifica um crescente cuidado na diferenciação com o trajar infantil, na assunção da sua especificidade face aos adultos, expresso através de elementos coloridos e resistentes que evidenciassem a inocência dos petizes favorecendo a liberdade de movimentos que a brincadeira requer. Daí à proliferação de modistas e lojas especializadas foi um salto, e imagino que tardando em relação aos outros países ocidentais, nos anos sessenta já existiam em Lisboa pelo menos dois casos sérios na matéria, a italiana Brummel e a portuguesíssima sapataria Bambi para gáudio das mães mais extremosas e endinheiradas. Facto não despiciendo, é que o trabalho infantil só vem a ser proibido bastante mais tarde.
Democratizada como objecto de consumo acessível e transversal no ocidente, a moda é hoje inevitavelmente um reflexo do "espírito do tempo". Talvez por isso o adulto resista a qualquer formalismo e sofisticação, mais preocupado em vestir-se para chamar a atenção... pelo espanto. Idealizada a infância, acontece que ela é a representação aproximada do “bom selvagem” o devaneio de Rosseau, bem-aventurado, livre e inocente porque desligado de quaisquer normas e espectativas sociais que o corromperão (e quem é que inventou essa de que a infância é na sua natureza tempo de felicidade e inocência?!). Deste modo por estes dias a forma de vestir tende para uma cada vez maior informalidade, mas anacronicamente esmerada e até dispendiosa - todos diferentes, todos iguais, numa mensagem de emancipação e afirmação de inconsequência, exterioridade, descomprometimento, completa e inexoravelmente só. 

Em defesa deste discurso moralista tenho a dizer que me admiro tanto com uma garota de biquíni subindo a Avenida da Liberdade quanto um homem de fato e gravata no areal duma praia. E que acredito na liberdade de escolha individual como valor fundamental, e que ao fim do dia todos temos o direito de nos imaginar até um artista de rock. O que me parece trágico é que, se a evolução estética ocorrida na moda infantil durante o século XIX e XX reconhecia essencialmente a especificidades da criança com inequívocos direitos a um desenvolvimento no sentido da responsabilização e urbanidade, hoje os seus filhos ou netos parecem reclamar através das mais bizarros trajes um estatuto de total puerilidade, como uma geração que recusa ou resiste a crescer e assumir a sua quota de responsabilidade para o sustento ou avanço da civilização.
No outro dia duas pessoas à porta do colégio dos meus filhos, despedindo-se utilizavam uma expressão aparentemente vulgar e incipiente mesmo entre duas caricaturas de adultos: "Adeus, pá, porta-te mal se puderes!". Talvez pelo enquadramento a coisa deixou-me a pensar. Certamente não quer dizer nada e não me lembro de como estavam vestidos. 

Meets e arrastões

por João Távora, em 30.08.14

Hoje foi uma das raras vezes que me identifiquei com uma ideia do Daniel Oliveira e que até concordei genericamente com uma sua crónica no Expresso (coluna que por assumido preconceito não costumo ler para não me chatear) onde ele aborda os jovens e o “epifenómeno” dos meets, tema que acalorou um pouco os dias vazios deste resfriado e agonizante mês de Agosto. Da ideia já eu fizera em tempos menção numa das minhas usuais crónicas moralistas: o “aborrecimento”, um estruturante estado emocional democraticamente distribuído às crianças e jovens do meu tempo, é hoje roubado às novas gerações de jovens e crianças, empanturrados que vivem com centenas de canais televisivos, telemóveis, jogos electrónicos e Internet, um infindável chinfrim de distracções fáceis, em desfavor da dúvida existencial e da consolidação duma “interioridade” que a apenas o silêncio, a solidão e os tempos mortos estimulam.
Quanto ao mais, meets ou “arrastões”, convenhamos que uma análise ponderada e racional descredibiliza os alarmismos de cariz xenófobo com que os tablóides exploram os medos mais básicos às pessoas. Há dias refastelado numa praia do Monte Estoril onde quando eu era miúdo molhar o pé era desaconselhado por causa dos esgotos que despejavam ali bem perto, confrontei-me com um panorama só aparentemente peculiar: o duma mistura saudável de bandos de miúdos de subúrbios de todas as cores (a linguagem é de facto aterradora), ao desfio a mergulhar do pontão para as águas límpidas, turistas do centro da Europa, filhos de emigrantes em visita à Pátria, tias, sobrinhos e dondocas da Linha, todos a partilhar um areal exíguo mas asseado, numa concessão balnear ao nível de um luxuoso hotel de cinco estrelas. O que eu quero salientar é que, apesar dos incidentes que são a excepção e confirmam a regra, é um facto que no meu País, na minha cidade e no meu bairro, a qualquer hora do dia, sinto-me seguro para me deslocar a pé, consultar o telemóvel e transaccionar um bem no espaço público sem grandes desconfianças. Tudo isto é um privilégio que não sendo um dado adquirido, constitui um precioso legado, um consenso negociado e consolidado ao longo de gerações de uma pacífica comunidade de desconhecidos aliados tacitamente, conquistado diariamente através de cedências individuais em prol de uma sã convivência e prosperidade para todos, ou tantos quanto possível. Assim saibamos preservar isto, que é o fundamental.

Opíparo, meus senhores!

por João Távora, em 08.07.14

Os nossos leitores não sabem, mas isto de ter um blog colectivo o melhor que tem é mesmo o convívio e as jantaradas. E se Jesus Cristo fundou a Igreja à mesa com os apóstolos, nós portugueses cedo percebemos que é à mesa que se podem resgatar as almas das trevas. Afinal quando as coisas correm bem “é o que levamos daqui”, como diz a sabedoria popular.
E assim foi, debaixo de um majestoso pôr-do-sol na Praia da Poça em São João do Estoril, que decorreu ontem mais um dos já afamados jantares do Corta-fitas. Foi a segunda vez que um destes acontecimentos saiu de Lisboa, depois de uma inesquecível experiência há uns anos na Ericeira e pode dizer-se que descontando as notadas ausências da Luísa e dos correspondentes do Norte, Vasco Lobo Xavier e João Afonso Machado, foi um sucesso. De notar que mesmo assim a incidência de "Vascos" foi marcante, com os Vascos Rosa e Mina a tirarem claramente vantagem pelo facto. O Peixe-galo foi comido em saborosos filetes que é o que se aconselha a uma segunda-feira mesmo num restaurante à beira-mar. Por diversas vezes foram as conversas convenientemente interrompidas com sonoros brindes de Saúde a Ricardo Salgado, tristes compungidos e solidários que estavam os presentes com as recentes arrelias do demissionário banqueiro. Chegados aos cafés, acesos os cigarros e cigarrilhas, o Duarte Calvão não se coibiu de humilhar os presentes com um enorme charuto com que aliás acompanhou mais um brinde ao Dr. Ricardo Salgado – inteiramente correspondido com chávena em punho pela nossa especialista em assuntos de banca, a Maria Teixeira Alves.
Com o ventinho enregelado a chegar aos ossos, o José Mendoça da Cruz que percebe destas coisas, convidou os comensais para fecharem a noite com um último copo na sua acolhedora casa, gentileza bem recebida por todo o grupo, não sem antes, divididos em três carros, fazermos uma ruidosa paragem na bomba de gasolina para municiamento de whisky e tabaco. Foi quando eu me senti rejuvenescer trinta anos, e reviver por instantes os tempos da minha juventude rebelde.
Já nos aposentos do nosso anfitrião, ainda tivemos a oportunidade de, mais uma vez, beber uma saúde ao malogrado Dr. Salgado, que não lhe falte nada na velhice, amigos e consolo dos que lhe são chegados - foram os nossos sinceros votos. 

 

PS.: Da próxima levo a minha grafonola e uns quantos Foxtrots e Ragtimes que é um regalo.

Os nossos mortos

por João Távora, em 03.07.14

Curioso como quase sempre recordamos os nossos mortos pelos seus traços principais, momentos luminosos, devidamente despoluídos das mesquinhezes, desgastantes rotinas e conflitos. É uma questão de sobrevivência pois que somos também feitos dessas memórias, e por isso resguardamos as boas, que dessa forma nos completam e animam no projecto de sermos gente pela vida fora. Só assim é possível prestarmos tributos, amar os nossos heróis, construir os nossos panteões. Chegamos à idade adulta quando não dispensamos os nossos mortos, assim idealizados e suportados nas suas grandezas, perdoadas e resolvidas as disputas e mal entendidos. Assim nos integramos numa comunhão de pensar, ás vezes até em diálogos íntimos como preces, sobre tudo e sobre nada, sábios conselheiros que eles são.
Assim pela vida fora os nossos mortos ajudam-nos a crescer. Precisamos de amar os nossos mortos, e a nossa memória encarregar-se-á de arrumar a casa toda. Distanciados pelo tempo entendemos as precariedades mundanas e os pecadilhos terrenos. Perdoando-os também aprendemos a nos perdoar, a entender o difícil caminho da santidade, esta eterna construção. Que é permanecer com os nossos, pelos nossos depois da nossa vez. No sentido da Luz. 

 

Foto: O meu irmão e eu nas docas de Alcântara por volta de 1967

Junho

por João Távora, em 15.06.14

Tem boa onda o mês de Junho - é tempo de escola cumprida, promessa de grandes férias grandes ainda por desvendar. Junho é mês de feriados e arraiais, com fumo de assar sardinhas e cheiro a farturas com canela, sangria gelada em noites retardadas por um sol arrogante num desaforo de cores nos limites da decência. O mês de Junho desponta o corpo destapado do inverno que já toma a temperatura ao oceano: submerge com os primeiros banhos de praia num engano de emancipação, logo dissipada como a espuma duma cerveja ao final dum Domingo. Depois há toda esta comunhão planetária, euforia partilhada do futebol em horas impróprias. Uma crescente ilusão de irmandade global de afectos, como num anúncio de chuteiras em que se junta o mundo inteiro nos olhos fundos duma criança. Ou de como o chuto numa bola rasgando o espaço interrompe uma guerra, adia os negócios, diverge os amantes, acelera os corações e suspende as marés. Com alguma sorte entramos em Julho de cabeça nas nuvens.  

Uma casa ou uma história de resistência

por João Távora, em 18.04.14

Com uma pose bem-humorada pouco comum numa fotografia
de família do início do século XX (algures em 1908/9) aqui se apresentam,
de cima para baixo, a minha tia avó Carlota,
o meu avô José Maria de Lancastre e Távora
e os meus tios avós, Pedro, Rita e Luísa.

 

Num recanto paradisíaco de Lisboa entre Campo de Ourique e a Lapa, em frente a um prazenteiro chafariz ficava a casa para onde se mudaram no início dos anos quarenta os meus avós paternos, que hoje faço o mote das memórias que aqui partilho.

Não conheci o meu avô José, que morreu três meses depois de eu nascer: muito culto e severo, segundo rezam as crónicas do meu Pai, teve uma vida aventurosa entre a universidade onde a revolução da república o apanhou - e que não abandonou apesar de tudo - as incursões monárquicas que incorporou mais tarde com Paiva Couceiro, depois o exílio político, e finalmente a Iª Grande Guerra nas fileiras da Legião Estrangeira em que se alistou na Bélgica. Com temperamento pragmático, terá sido o primeiro membro da sua família tradicionalista, da antiga nobreza de Portugal, a completar um curso superior, opção que lhe veio a proporcionar uma profissão como engenheiro civil e a independência necessária para fazer face às mudanças de estilo de vida que no início do século XX pela Europa fora se radicalizavam. A fortuna da família que resistira às reformas e perseguições dos liberais, ao fim dos morgadios e a décadas de oneroso apoio ao Rei Dom Miguel, não resistiria às despesas do exílio da família em St Jean de Luz nos durante a 1ª república, à crise económica decorrente da Guerra e a uma manifesta falta de bom senso que a realidade exigia. A venda do Palácio de Santos ao Estado Francês foi consumada pelo meu bisavô João em 1917.

O exílio do meu Avô terminaria 1935 quendo regressou do Luxemburgo sete anos após o seu casamento com Maria Emília Casal Ribeiro Ulrich, senhora quase vinte anos mais nova: foi a minha madrinha, uma pessoa austera mas conversadora espirituosa, que recordo com saudade, de volta dos seus tricots, livros, ou até a assistir à transmissão dum relato de futebol ou ao Grande Prémio de Fórmula I, modalidades de que era entusiasta. 

Outra personalidade inesquecível desta casa que a adoptou e de que era alma também, era a Tia Lalita, sobrinha direita do meu avô, solteira sem filhos e extremamente amiga da minha Avó, que acompanhou até aos seus últimos dias. Lembro-me bem da sua companhia em tardes soalheiras a costurar, numa pequena salinha aproveitada duma marquise, enquanto eu me entretinha com construções de Lego, a desfolhar livros da Becassine ou revistas do Cavaleiro Andante, todos sob o olhar atento do papagaio Jacó. Lembro-me também dos passeios que dávamos para os lados de Belém no Volkswagen carocha que a minha avó conduzia com desenvoltura. Consta que terá sido das primeiras senhoras em Portugal a tirar a carta de condução. 

A casa dos meus avós Abrantes tinha algumas particularidades engraçadas: contrastando com os móveis antigos e os pesados quadros a óleo dos nossos antepassados, era equipada com tecnologias  na época pouco usuais aos meus olhos, como uma grande televisão com comando à distância – por fio se bem me recordo - torneiras com misturadoras na casa de banho, centrifugadora para sumos e outros prodigiosos electrodomésticos. Para gáudio dos netos dispunha dum encantador jardim rectangular com limoeiros, onde podíamos correr e sujar de forma controlada. Era uma casa com uma área não muito grande, mas em três andares e com uma organização logística muito moderna para a altura. No rés-do-chão onde vivia a Lurdes, a exímia cozinheira da casa e o seu marido Manuel Brito com os filhos José e Maria Emília. Era no mesmo andar onde se situava a garagem e uma lavandaria com espantosa maquinaria, que estava na origem dos fascinantes ribeiros, às vezes com espuma e outras não, que corriam em direcção ao muro das escadas para uma misterioso “túnel” escuro, que servia para inúmeras brincadeiras com carrinhos, bonecos e pauzinhos. Foi nesse espaço mágico onde a determinada altura vivia escondida entre o carvoeiro e as capoeiras uma corsa assustadiça e focinho húmido - Seiça de seu nome. Tinha muito medo de mim e dos meus irmãos. Numa das janelas

rebaixadas sobre o jardim encontrava-se por vezes a Aninhas atrás da sua máquina de costura, muito velhinha, de que me lembro ouvir queixar-se dos olhos consumidos pelo trabalho...
Uma particularidade inédita desta casa - presumo que por influência do declive da rua - era uma zona, particularmente no segundo andar onde ficava a sala de televisão, em que o sobrado inclinava ligeiramente, favorecendo as corridas com os automóveis miniatura. Da janela dessa sala, nos dias de calor era comum eu ficar a ver num misto de inveja e repugnância, a miudagem a banhar-se com espalhafato no chafariz da rua, perante a condescendência do polícia de guarda à embaixada da Suíça, elegante edifício que com a fachada cor-de-rosa fazia do todo um quadro pitoresco.  

De resto, a memória feliz que guardo das vezes que fiquei a dormir na Travessa do Patrocínio, é a sensação de viver no campo que se tinha ao levantar pela manhã; sem ruído de automóveis e com a perfusão de chilrear dos pássaros. Apenas interrompida pelo ecoar do altifalante do centro de saúde da Caixa de Previdência ali mesmo à esquina. Exóticas sensações e panoramas que ainda hoje se podem vivenciar em muitos microcosmos de intimidade quase bucólica, afinal bem no centro da cidade de Lisboa.

 

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Fotografias:

1 - Arquivo de família

2 - A casa no final do século XIX - Arquivo da C.M.L.
3 - Perspectiva do Chafariz, por Ozias Filho
4 - Aspecto actual, por Ozias Filho

Bola de Berlim, um merecido tributo

por João Távora, em 18.11.13

Foi uma genuína homenagem ao cada vez mais raro Bolo de Arroz autêntico que o Padre Tolentino de Mendonça consagrou em tempos numa numa sua crónica no Expresso, que inspirou estas linhas que hoje dedico à tão portuguesa “Bola”, que como veremos "de Berlim" tem muito pouco. E que me perdoe o Duarte Calvão esta tão simplória mas franca incursão aos seus territórios da culinária e gastronomia, no caso a despretensiosa pastelaria portuguesa.
Se a Bola de Berlim é há muito um inegável megassucesso universal, um precoce sinal da globalização, acontece que as versões recriadas em cada País têm tanto em comum quanto o seu modo de pronunciar: de Berliner Pfannkuchen ou Berliner Ballen na Alemanha onde são recheadas com compota, ao Sonho no Brasil com “doce de leite”, passando pelo Sufganiyah de Israel, ou  Borlas de Fraile como são conhecidas na Argentina e no Uruguai, ao Doughnut anglo-saxónico cujo recheio é, como bem sabemos, um buraco no meio (são danados para o negócio os bifes). Por exemplo em Essen  na Renânia do Norte-Vestfália, chamam-lhes Kreppel, e apesar de serem em argola, eu vi-as serem vendidas na rua quase do tamanho dum Pão Saloio (são uns bárbaros estes germanos). No fundo estes bolos pelo mundo fora, apenas partilham do facto de serem redondos, fritos e feitos com  farinha doce com fermento, o que convenhamos não é muito. Mesmo na pastelaria portuguesa, ou de Lisboa onde as Bolas de Berlim "com ou sem creme de pasteleiro” são mais populares, o seu sabor difere completamente de fabricante para fabricante.  
Se é certo que na infância uma oleosa Bola de Berlim de quinze tostões comprada na padaria em frente à escola numa manhã gelada de Inverno nos fazia as delicias - até porque o critério preço/tamanho era decisivo - um parecido fenómeno sucede ainda hoje ao fim de três horas de jejum e actividade física ao ar quente e oxigenado de uma praia, com o apetite ao rubro. Também recordo as Bolas assim quentinhas que se vendiam em Alcântara noite louca adentro onde fazíamos bicha de madrugada para serenarmos os ânimos e aconchegar o estômago mal tratado. E se a meio de uma viagem formos assaltados por um bichinho no estômago, também é verdade que numa estação de serviço um Doughnut até marcha e é bem capaz de nos poupar uma má surpresa.  
Mas acontece que há uma receita de Bola de Berlim que em mim resulta um pouco como a célebre Madalena com chá de Proust em ”Do Lado de Swann”. Distingue-se pela sua uma massa leve, fofa e amarelada, exclusivamente pelas propriedades do ovo, e com um fino sabor amargo-doce no final. Esta Bola de Berlim ideal, que vos garanto define um bom pasteleiro, dispensa o creme: o açúcar cristalizado que adere à suave camada exterior, fina e bronzeada é recheio que baste. Ainda a encontramos, por exemplo, na Pastelaria Aloma em Campo d’ Ourique e na Garrett no Estoril, locais onde garantidamente vale a pena peregrinar para fruir uma autêntica experiência divinal, metafísica. 

 

Foto: Wikipedia

O grande bruxedo

por João Távora, em 03.11.12

 

 

Enquanto os adultos andavam num desinço a discutir o insondável significado de “refundar” e as criancinhas excitadas com o Halloween promovido com esmero pela escola pública e outros estabelecimentos comerciais, suspeito que tenha passado despercebido à maioria das pessoas que vivemos na 5ª feira o último feriado de Todos os Santos, ancestral solenidade da cristandade criada em honra dos seus heróis, consagrados ou anónimos, consolidada entre os séc. IV e VIII, quando ser “de Cristo” era uma arriscada escolha de profunda radicalidade.
Revela-nos a História que então, como ainda hoje acontece no Natal e na Páscoa, as comemorações cristãs não dispensavam uma acolhedora vigília noite dentro, culto para o qual as comunidades se deslocavam a comemorar atraídas pelo Encontro nas iluminadas e aquecidas Igrejas e Catedrais. No norte da Europa medieval, era costume bruxas e druidas nessas noites organizarem cultos satânicos, literalmente “alternativos”, assinalados à entrada com abóboras iluminadas, para aliciar os caminhantes.
Dou de barato que numa sociedade laica e hedonista, os católicos tenderão a ser cada vez menos… talvez mais conscientes e temerários como os primeiros clandestinos. Mas provoca-me sincera apreensão que, para bem do comércio e do circo, a adolescentocracia dominante tenha imprimido às principais solenidades religiosas um cariz consumista, exterior e leviano. O chocolate e o coelhinho ocuparam a páscoa de Cristo, o Pai Natal e as renas instalaram-se no Presépio, e o Halloween impõe-se ao Dia de Todos os Santos. Os portugueses penhoraram a soberania económica, mas a identidade cultural há muito que se vai diluindo, desnaturando. E a maior patranha que a modernidade nos vendeu é a de que Satanás não existe.

 

Foto: Outono profundo - efeitos Intagram 

A grande maldição

por João Távora, em 27.10.12

 

Na quinta-feira passada não resisti a assistir a mais uma amarga derrota do Sporting e assim me certificar do seu acelerado fenómeno de decadência. Uma pessoa não se habitua à dor e palavra de honra que fiquei incomodado, com um inaudito melão. 
Como já referi mais do que uma vez, nestas coisas da bola sou apenas um adepto de paixão que não leva a sério a discussão de estratégias facilmente objectadas por uma bola à trave, uma lesão fatal ou má arbitragem. Ou seja, este é daqueles temas em que sou meramente “clubista”, ou seja, parcial e apaixonado - o que me move (me faz saltar) são as bolas lá dentro.
As razões atrás expostas não me permitem portanto uma análise lúcida da situação. Isso tem na língua portuguesa uma expressão clara e explícita, diz-se: o Filipe é do Benfica, o Vasco é do Porto e o João é do Sporting. Uma relação de propriedade, inevitabilidade umbilical, siamesa, da qual não há fuga ou libertação possível. Entendamo-nos: se fosse ao contrário e o Sporting fosse meu, eu rifava-o, escondia-o no sótão no baú dos trastes de família, aí mesmo onde estão todos os descarnados esqueletos. Mas não; para desgraça minha sou eu que sou do Sporting, qual Fausto que por uma miragem de felicidade vendeu a alma, e que assim alcançou a dor lancinante do perpétuo fogo dos infernos diabólicos. Não há rádio, jornal ou noticiário que a cada hora não me confronte com esta maldita condenação de assistir com uns palitos nos olhos ao naufrágio clube de que sou refém.
Agora mais a sério: temo bem que pouco haja a fazer nestes dias para resgatar um pouco de orgulho e alegria aos sportinguistas, que em boa verdade, desde os anos sessenta, animados por umas poucas e fugazes vitórias, vivem dos seus pergaminhos. E se há pessoa que sabe que, exceptuando para a um alfarrabista, o valor prático dos pergaminhos é igual a zero sou eu; acreditem. Como diz o povo, "fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia" e pelos vistos acabaram-se as filhas dos brasileiros ricos para “bem casar”, que o dinheiro custa a ganhar em todo o lado. E sem palhaços acabou-se o circo. É uma gaita.

Vítor Damas

por João Távora, em 24.07.12

Vítor Damas, um dos melhores guarda-redes portugueses de sempre, nasceu a 8 de Outubro de 1947 em Lisboa e morreu prematuramente aos 55 anos, em Setembro de 2003. Este mítico jogador, senhor de inaudita elegância dentro e fora dos relvados, fez nada mais nada menos do que 444 jogos oficiais em dezanove épocas ao serviço do seu clube do coração. A sua ascensão à titularidade no primeiro escalão do futebol leonino coincide com a minha tomada de consciência “sportinguista”. Acresce que um guarda-redes destaca-se no campo não só porque se equipa de cor diferente, mas porque assume o solitário papel idiossincrático dum homérico contrapoder – cabe-lhe a missão de se transcender de corpo inteiro, incluindo as mãos, na obstrução do maior objectivo dum jogo que se joga com os pés: o golo. Assim se entende como ele é por natureza um cromo tão difícil, definição que encaixa como luvas no mítico guardião leonino.

Talvez seja por isso que, na perspectiva de uma criança, não só o ponta-de-lança mas também o guarda-redes, adquiram tanta importância num jogo ainda difícil de interpretar: tratam-se afinal do primeiro e último reduto do exército no campo de batalha. Nesse sentido, tomar consciência do futebol com protagonistas como Yazalde e Vítor Damas foi um privilégio que sustentou o meu sportinguismo. Nas brincadeiras, “ser o Damas” era o privilégio de ser a antítese de Eusébio, o incontestável ídolo da época, que quando um dia lhe perguntaram qual a sua melhor memória do velhinho estádio de Alvalade, em vez de se referir aos seus golos ou vitórias, aludiu-se a uma extraordinária defesa do Damas ocorrida em 9 de Novembro de 1969 que então ocasionou a vitória ao Sporting por 1-0. Por estas e por outras é que Carlos Pinhão, histórico jornalista de A Bola, descreveu em manchete o mítico guarda-redes leonino como “o Eusébio do Sporting”. Foi sem dúvida um dos melhores guarda redes portugueses de sempre.

De facto, Vítor Damas distinguia-se entre os postes pela garra, intuição, agilidade e elegância. Mas fora dos relvados diferenciava-se por uma erudição na época invulgar no meio: sabia exprimir-se como poucos colegas, e a determinada altura manteve até uma crónica regular no jornal do Sporting - um traço que para mim fazia toda diferença. 

Dizem que Damas era irreverente e que tinha "mau perder", que entre os postes era capaz do melhor e do pior de um jogo para o outro. Mas acontece que era um líder da equipa e que do coração sangrava verde e branco até  a última gota. Uma qualidade rara nestes tempos: foi desde menino que orgulhosamente envergou e dignificou a camisola verde e branca, pela qual toda a vida se bateu e com a qual morreu tornando-se um verdadeiro ídolo para várias gerações. Assim, decidiu viver para sempre. Quantos contratos milionários isso não vale, Rui Patrício?

 

 

Publicado originalmente aqui

 

O caminho

por João Távora, em 29.04.12

 

Sem repararmos, a tinta das paredes da casa, há muito escolhida num catálogo de infinitas tonalidades, empalidece aos poucos. As cortinas, os sofás, um dia imaculados num enxoval de expectativas, arruçaram-se com o uso. Uma torneira teima em pingar e não veda. E o tapete qualquer dia também já vai a restaurar. Na caixa das memórias, as fotografias perdem cor; e bilhetes com sentimentos vividos, cartas e postais ganham tons de pergaminho. São fragmentos de uma história já antiga.

O tempo, implacável, tudo desagrega e tudo corrompe. Habituámo-nos a festejar os aniversários dos miúdos todos os anos, sem contar que a existência passa sem que a possamos pausar. Para abarcarmos definitivamente aquela pele imaculada e aqueles olhos fundos e tão grandes, incondicionais, brilhantes de surpresa e expectativa, tão cheios como o céu, como a vida. O tempo escapara-se-nos entre rituais.
Vieram novos projectos, dias banais, aflições, trabalhos e tantas estações. Limpezas de primavera, roupas de Verão e roupas de Inverno. Mas ressuscitámos sempre o amor, ainda mais quando o frio apertava. Fazendo das misérias as forças, para não morrermos nem um bocadinho. Sempre atentos a juntar os pedaços, a compor e restaurar sempre o mesmo amor. Reinventando velhas harmonias, moldando uma obra divinal. Sem desistir da grande utopia de vencermos o tempo e o mal. Sem nunca renunciarmos a ser felizes e gente maior.

 

Texto reeditado. 

Visto de fora... "da caixa"

por João Távora, em 27.01.12

 

Por detrás duma aparentemente equilibrada apreciação à polémica da eliminação dos feriados, o editorial de hoje do jornal i da autoria da Ana Sá Lopes esconde algumas contradições que eu gostaria de aqui salientar.
A cronista defende um esvaziamento simbólico das duas efemérides, nomeadamente que a República, “é um dado adquirido e irreversível”, cujas comemorações “já não comovem ninguém”, e na mesma lógica, uma suposta minoria de monárquicos não justifica a continuidade do dia da Restauração da Independência. Estes dois argumentos confluem num surpreendente equívoco: então porquê o ribombante remate ao texto, com a afirmação de que, a confirmar-se a eliminação dos dois feriados civis, “a derrota da UGT foi mesmo em toda a linha”? Precisamente porque estamos no âmbito do simbólico é que esta conclusão me parece contraditória.
Mas no final de contas eu até entendo a avaliação da Ana: dispersados em diferentes partidos, prioridades e causas, tantas vezes concorrentes entre si, os monárquicos de facto raramente dão notícia, são gente pacata o que é uma clara desvantagem competitiva face aos poucos republicanos: não parecem ser capazes que matar ninguém, muito menos o chefe do Estado. Apesar disso parece-me um erro subestimar o seu número e o seu potencial. E depois está errado concluir que apenas existe “o que é notícia”, para mais se considerarmos os alvoroços pueris com que se preenchem as manchetes da espuma dos dias nos media de consumo. 

De resto a vida dá muitas voltas, e em 1907 a força e representatividade dos republicanos era pouco mais do que barulhenta, assim a modos como Bloco de Esquerda nos dias de hoje. Nessa altura nenhum analista ou cidadão informado se atreveria a prever o caminho vertiginoso que a História acabou tomando.
Finalmente uma palavra sobre a suposta “escandalosa submissão do governo à Igreja Católica”: até os comunistas do PREC aprenderam com a História (da 1ª República) que afrontá-la só serve para a fortalecer. A grande ameaça ao cristianismo está na decadência da Europa, e na sua negação de berço duma ética perene, valores ofuscados por uma alucinação colectiva de hedonismo estéril. Em sentido contrário, a expansão da Igreja de Cristo está, sempre esteve e estará, onde houver sofrimento humano e repressão, ou simplesmente existências inquietas, exigentes. 

A Dona Lurdes *

por João Távora, em 21.01.12

 

O meu prédio, o meu bairro, o meu mundo hoje despertou triste e mais pobre: a D. Lurdes morreu durante a noite no hospital. Vi-a sair uma destas manhãs frias para uma ambulância, pequenina e enregelada, levada numa cadeira de rodas. Não cuidei que fosse muito grave, algum tratamento quem sabe. Há pessoas que se instalam na nossa vida e que julgamos eternas.

Quase centenária, a minha vizinha morava no rés-do-chão, num esconso de arrecadação adaptado a residência. Chegada em 1975 na ponte aérea das ex-colónias instalou-se aqui em S. João com o marido, nove filhos e uma indómita força de viver. O seu homem não se refez do choque duma vida perdida do outro lado do oceano. Desistente, por entre as entregas de chamuças que a mulher fazia às centenas, passava o tempo à porta de casa a fumar com os olhos fixos em lado nenhum, conta quem o conheceu. Sem vontade, morreu cedo, e a D. Lurdes continuou obstinadamente a fazer chamuças e a criar os filhos que aos poucos foram indo às suas vidas.

A D. Lurdes vivia pouco mais do que sozinha com a modéstia que lhe permitia uma magra pensão de sobrevivência e um filho problemático, que só não conseguiu consumir a determinação e o amor da sua mãe. Ela era uma senhora muito, mesmo muito pequena mas só no tamanho, com pele escura e enrugada, muito curvada pelo peso duma vida arrancada a ferros. Inspirada numa resoluta Fé cristã, exibia com generosidade um dos sorrisos mais francos e bonitos aqui do bairro.

Quando nos encontrávamos logo me perguntava pelo “seu amigo”, referindo-se ao meu miúdo pequeno, com quem mantinha uma viva relação: a D. Lurdes era das poucas pessoas a quem o meu rebelde filhote cumprimentava de beijinho com boa vontade. Com a minha mulher, a D. Lurdes partilhava confidências, dores e contrariedades. Visitava-nos por vezes para nos dar umas chamuças, ou algum doce caseiro que teimava em manufacturar apesar das suas aflitivas limitações físicas. O seu sorriso, o seu “bom dia senhor João”, nas escadas ou à mesa do café saboreando a sua preciosa bica, vai fazer muita falta à nossa vida. A sua falta vai notar-se dramáticamente na preceta, no bairro… e na humanidade. Porque são estas pessoas que dão uma coluna vertebral e um sentido de rotação certo ao nosso mundo insano. 

D. Lurdes hoje juntou-se ao seu marido e aos  filhos que viu partir, algures onde com a infinita misericórdia de Deus finalmente descansará em paz.

 

* D. Lurdes é um nome fictício que utilizo para testemunhar uma pessoa e factos reais. 

A Palavra ou a ambiguidade do silêncio

por João Távora, em 20.01.12

 

O valor da Palavra, nestes tempos de aparências, anda pelas ruas da amargura. Importa admiti-lo. Noutras eras a palavra dada pesava na consciência do homem comum. A desonra de um incumprimento era duramente cobrada, em primeiro lugar pela consciência do próprio. Hoje a palavra, tão banalizada, já não veicula o indivíduo. Tudo se descarta, a mentira é tolerada, aceite como normalidade, do mundo empresarial à política e até nas relações pessoais.

A cultura do individualismo tudo dessacralizou e promove uma extensa gradação de meias verdades e meias mentiras, um jogo de sombras e subjectividades que desfigura o conteúdo em favor da forma, de uma “narrativa” ou de uma “ilusão eficiente” que seduza o patego.

Relativizar o valor da Palavra abre caminhos sombrios e ambíguos ao relacionamento do homem consigo mesmo e com o mundo. Em contraposição, no lugar de seu chão fecundo, o Silêncio, esse pode bem tornar-se um jogo, uma fórmula oportunista de abstenção.
Os textos sagrados referem que no início era o Verbo. Para lá da sua dimensão ontológica, não podemos destituí-lo de significados como “Narração”, “Pregação”, “Comunicação”, “Intenção”, “Notícia”, enfim “Palavra”… que aqui se entende com a densidade que lhe confere o precioso silêncio em que ela assenta e se valoriza.

Ora acontece que a Palavra é libertação, catarse, autoconsciência. Através dela sintetizamos, materializamos as nossas percepções pensadas em vários níveis de consciência, concretizamos as nossas emoções, clarificando-as por mais obscuras que sejam, num exercício que dá à vontade libertadora o protagonismo que a nossa condição humana exige.

Assim é quando declaramos o nosso Amor romântico ou fraternal; relevamo-lo também para o domínio da vontade, do compromisso. Como acontece quando pronunciamos o nosso Credo, numa confirmação das nossas razões profundas e empenho numa adesão fecunda. A Palavra, mesmo papagueada, para o bem e para o mal, produz efeitos na nossa consciência. Dispensá-la, desvalorizá-la, mais não significa do que o medo que temos dela, do seu poder de nos responsabilizar, de nos desafiar onde dói, na nossa consciência profunda, na vertigem da liberdade de escolher.

A relativização e descrença na Palavra é sinal de decadência civilizacional. Para que nos possamos entender, tem que ser usada com liberdade, mas sempre num comprometimento com a verdade e vontade da pessoa, em todas as suas dimensões, principalmente onde verdadeiramente nos realizamos e temos existência: na relação.

 

Orignialmente publicado no Jornal i de 19 de janeiro

 

 

 

Em miúdo, todos os meus amigos, sem excepção, queriam ser médicos, polícias ou astronautas. Eu, não. Sonhava-me, por ordem decrescente, líder parlamentar do PSD, líder parlamentar do PS, e analista de sistemas. Entretanto, cresci e a realidade abateu-se sobre mim como o Machado sobre a árvore. Para ser líder parlamentar do centrão, percebi, não bastava integrar uma juventude partidária. Não chegava frequentar reuniões de concelhia. Não era suficiente abdicar da opinião própria para votar alinhado com baronis. Para ser líder parlamentar do PSD ou do PS não  bastava sequer vender a alma ao diabo. Tudo isso eu fiz, mas não, não chegava. Tinha de entrar para uma loja de conveniência.

 

Nas lojas de conveniência entra-se à noite. Depois dos lamentáveis massacres de que os oftalmolojistas (assim chamados por causa do seu reclame com o característico olho inscrito no triângulo), foram vítimas nos últimos anos, em Portugal e em vários outros países, arrancados que foram a meio de noite de suas casas, perante o desespero e impotência de mulher e filhos, todo o cuidado é pouco, e o secretismo precaução indispensável.

 

Entra-se, pois, pela calada da noite, e seguem-se os rituais. Estes assemelham-se no essencial aos preceitos das confrarias de enchidos, mas são bastante mais hilariantes – presume-se que quem aguentar os procedimentos sem rir é pessoa séria. Há excepções – o General Eanes seria imediatamente aceite, sem rituais, se não nadasse noutra praia –, mas nisto consiste, em todo o caso, o essencial da iniciação. Daqui em diante, começa o mais interessante. Não mais serões entediantes a ver a Casa dos Segredos do sofá. Agora, o neófito está lá, na Casa onde tudo acontece. Agora, o neófito detém a chave de tudo o que se passa à sua volta, qual Diogo Cão a quem o Dr. Spock emprestasse um tradutor simultâneo para entender os Congos. Agora, o neófito percebe com clareza meridiana tudo o que se passa no rectângulo: transferências inauditas, calendários de prescrições, próximas adjudicações, discursos de  Jorge Lacão, e mesmo o significado da expressão «clareza meridiana», que tem a ver com luzes e meridianos. Agora, o neófito joga ao Monopólio com os seus confrades, perdão, companheiros, as ruas e os lugares do país. Sobretudo os lugares. E agora abrem-se ao neófito as fatias do bolo que sempre desejou, encimado pelas cerejas intangíveis: líder parlamentar do PSD ou, estando já o lugar entregue a um companheiro lojista, líder parlamentar do PS.

 

Tudo isto tentei também, mas vi cerrarem-se-me no rosto as portas das lojas. A mim, ai de mim, que percebi só tardiamente como tudo isto funciona, escaparam-se-me para sempre as recompensas que sempre traz a obediência. E restou-me ser analista de sistemas, que é o que hoje faço para pôr comida na mesa.

 

Enfim, não me queixo mais que a minha conta. Afinal sou daqueles que nunca aceitariam entrar para um clube para o qual fossem convidados. Bolas, esta frase saiu-me genial. Tenho de registar. Tenho de registar.

 

Hum, pensando melhor, era bom demais. De certeza que alguém já a disse antes de mim. 

Apresentadores de TV comem-se em directo

por Jorge Lima, em 21.12.11

 

So what, perguntam os nossos telespectoradores. O Bruno e o Unas já se comeram num talk show onde um entrevistava o outro, ou talvez o contrário, já não me lembro. Para disfarçar aquela coisa enfadonha de os nossos televisíveis se entrevistarem mutuamente em circuito fechado, simularam por duas vezes interromper a intrevista para simularem o coito, «à canzana», de uma das vezes, e da outra já não me recordo. Um biscoito, em todo o caso.

 

So what, dizia. No que toca a enfants terribles que se recusam a integrar o sistema da moral católica vigente, arriscando carreira e reputação para proclamar o amor livre, fiéis ao espírito soixant-huitard, estamos conversados. Nada temos a aprender com os supostos libertinos dos países baixos.

 

Será? Não, não será. Porque, se os humoristas lusíadas se comem figurativamente, os holandeses, sempre um passo mais abaixo, comeram-se literalmente. Poupando-vos aos pormenores, fizeram-se cirurgiar um naco de cada um, um de nádega, outro de abdómen, trocaram, cozinharam e paparam. E presumo que tiveram uma grande ovação, presumo, porque confesso que não tive pachorra de ver o vídeo.

 

Escandaloso? Não mais que a ida do Santana Lopes para a Santa Casa. Enfadonho, definitivamente. Embora ligeiramente mais interessante que um americano a atirar-se do telhado para a piscina e a falhar.

 

Havíamos de lá chegar. A televisão vai perdendo adeptos, et pour cause, e os pais do Amaral da vida vão tendo de subir a parada para arranjar uns performers que, a troco de surpreender o boi e mantê-lo a olhar para o palácio, ganhem uns pratos de lentilhas que lhes permitam continuar a levar a vida burguesola que levam, entre o Bairro Alto onde peroram e o condomínio fechado onde moram.

 

Quem se escandaliza perde o seu tempo. Vejam bem. Chegámos à antropofagia, verdade? Comem-se timidamente aos nacos. Daí até se comerem não aos nacos, mas às carcaças, é um passinho. E o doce equilíbrio darwinístico-malthusiano vai-se restabelecendo, e tirando-nos estes bróculos do prato.

 

Comei-vos e desmultiplicai-vos, digo eu. O último a ser comido por favor mande um sms a dizer que já podemos ligar outra vez a televisão. Ou se calhar não, deixem estar.

Memórias do Natal

por João Távora, em 20.12.11

Um misto de ingénuo espanto e ansiedade define a comoção com que eu na minha infância vivia a festa de Natal. Tudo começava na véspera, noite dentro, quando nós os cinco manos, lá íamos com os nossos pais, todos ao monte no velho carocha bege, bem agasalhados e aperaltados, para a missa do Galo. Ainda pequeno, era um sentimento muito especial o de entrar acordado no mistério da noite profunda e estrelada. Lisboa lá estava deserta e fria, mas calorosamente engalanada para a festa. Excepcionalmente para as solenidades natalícias íamos à Igreja de S. Pedro de Alcântara ou Santos o Velho. A ocasião era toda ela especial: a Igreja, quente e iluminada a preceito, tinha um cheiro especial, os cânticos também eram especiais, e o grande presépio ao fundo dominava o panorama. Num autêntico estado de graça eu sentia-me também especial, como Jesus que nascia... 

Intimamente eu ansiava pelo fim da missa, pelos presentes e a ceia, na Avenida da Liberdade em casa dos avós, noite adentro com os tios e a primalhada toda. Era essa a primeira etapa do glorioso dia que então começava.

Além das coloridas iluminações de rua, o Natal era então também mundanamente anunciado por alguns sinais “televisivos”, que avisavam a chegada das festas. Eram os anúncios de brinquedos, chocolates e perfumes, o inevitável Natal dos Hospitais, e os magalas que logo a seguir ao telejornal mandavam saudades à família, em diferido das colónias.

Ontem como hoje, para as sedentas criancinhas eram os presentes o êxtase da grande festa. Lembro-me de alguns que me marcaram como um Mercedes Dinky Toys, que especialmente para mim, o meu pai pintou de preto e verde para satisfazer o meu capricho de ter um Táxi “como os verdadeiros”. Recordo também um pequeno “transístor” (rádio a pilhas) revestido de cabedal castanho, oferecido pelo meu padrinho e avô, donde eu ouvi as minhas primeiras canções, o “Quando o Telefone Toca” e os “Parodiantes de Lisboa”. E num qualquer Natal mais próspero lembro-me de ter recebido dos meus pais uma enorme caixa de Mecano, um jogo de construção que fez as minhas delicias durante meses…
E depois havia o chocolate quente na Avenida, cheia de primos, sonhos e outros fritos. E havia o acordar tarde e estremunhado já em Campo d' Ourique, para com os meus irmãos acorrermos estonteados ao nosso sapatinho junto ao presépio... onde como por magia já lá estava devidamente deitado nas palhinhas o Menino Jesus.
E ao final do dia, com uma réstia de preciosa energia, ainda íamos jantar casa da minha avó paterna na Travessa do Patrocínio... para um derradeiro banho de festa, de tios e de outros tantos primos, uns quantos chegados de longe e de alguma "cerimónia" que eram mais "crescidos"...
O dia seguinte era uma ressaca feliz. Depois, restavam ainda uns dias de férias para empenhadamente brincar com os meus irmãos e com tantos e brinquedos novos. E para numa ida à matinée, a ver um filme de Walt Disney, estrear umas meias de lã, ou uma camisola 

nova tricotada pela minha mãe. E por esses dias, com a minha curiosidade endiabrada, ia desventrando meticulosamente alguns dos mais fascinantes e plásticos presentes, de corda ou a pilhas, até serem depositados ao monte no grande caixote. Inúteis e abandonados.
Finalmente, depois da passagem de ano, o suspiro moribundo das festas, a vida retomava a normalidade, a rotina. Até a escola implacável, ensonada e fria recomeçar.

 

 

Ilustração 1 - António Balestra, Adoração dos Pastoresc. 1707. Óleo sobre tela, 564 x 261 cm,  São Zacarias, Veneza. Roubada daqui

 

Ilustração 3 - Travessa do Patrocínio nº 15 em 1898

 

Texto reeditado

As boas cores do cinzentismo tuga

por João Távora, em 24.10.11

 

A nossa famigerada e “antropológica tristeza” (o que quer que isso queira dizer), ou “cinzentismo tuga”, cá para mim não passa de uma grandessíssima balela, explorada por qualquer fazedor de opinião que por inerência tem de “dizer mal”. Suspeito que esse diagnóstico não passa duma especulação empírica, tantas vezes repetida que passámos a aceitá-lo como uma verdade que não é.

Muitas vezes, em viagem, nas cidades, comboios e aeroportos, tenho procurado nas facies bárbaras um sorriso, um ténue sinal que revele a tal alegria de viver característica desses povos evoluídos (todos os que nos circundam). Nada, népia, néribit. Tudo gente trombuda, ensimesmada, cara de poucos amigos. Em Essen ou Frankfurt, por exemplo, atendendo ao pib per capita daquela gente, custa-me a entender aqueles olhares gelados, as caras circunspectas. Em Londres, onde os povos de todo o mundo formigam a valer, a pose é idêntica à nossa, como em qualquer metrópole europeia – exceção feita aos genuínos súbditos de Sua Majestade, que se exibem altivos, de impensável anel no dedo mindinho e gravata psicadélica, ao estilo não me toques que desafino. Mas no fundo eles são bem vulgares, rua a fora ou no metro de língua mordida ao canto da boca, a trocar sms, com fones nas orelhas ou escondidos atrás dum jornal gratuito com uma fotografia de Pippa Middleton na capa. Que felicidade transparece em todos eles, que os portugueses desconheçam? Ne-nhu-ma. As razões até podem ser duas: além de serem quase todos uns macambúzios calvinistas, a maior parte das vezes são também uns… frustrados. Deve ser isso: falta-lhes o nosso jeito para a brincadeira, é o que sugerem aqueles típicos estudos de opinião feitos no auge do mês de Agosto para um semanário com a redação em férias.

Recentremos a questão da pretensa mágoa lusitana: como é bom de ver não é certamente a nossa abundante atividade libidinosa que obscurece o tíbio sorriso indígena, mas a simples suspeita que amiúde perpassa na mente de cada português, de que o parceiro do lado pode ser mais feliz do que ele próprio.

 

Publicado na revista The Printed Blog, ano 1, nº 2, Setembro 2011



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