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A segunda derivada

por henrique pereira dos santos, em 23.02.21

A informação sobre a epidemia a que a generalidade da imprensa tem dado importância prende-se com a pressão sobre o sistema de saúde e com as previsões de um conjunto de matemáticos.

Confesso que quando vejo pessoas responsáveis dizer que as escolas não podem abrir porque ainda há muita gente em cuidados intensivos me assaltam duas perplexidades essenciais.

Uma prende-se com o absurdo de se entender que é legítimo fechar o acesso a um serviço essencial, como é a educação, para resolver as fragilidades de outro serviço essencial, como é a prestação de cuidados de saúde, sem que se ponderem adequadamente os prejuízos e benefícios de cada opção.

Uma coisa é os serviços de saúde entrarem em colapso, deixando de ser capazes de prestar assistência aos doentes, que é uma situação limite.

Outra coisa é os gestores dos serviços de saúde decidirem que só se sentem confortáveis com 200 ou trezentas camas de cuidados intensivos ocupadas com doentes covid e, consequentemente, acharem normal ter toda a sociedade, em especial as escolas, fechadas para se atingir um número de ocupação de camas que é unilateralmente definido pelos gestores dos sistemas de saúde.

A facilidade com que se propagou a ideia de que é a sociedade que tem de se organizar para proteger os serviços de saúde, em vez de serem os serviços de saúde a organizarem-se para proteger a sociedade é, para mim, um mistério insondável.

Para evitar situações limite na saúde talvez seja razoável bloquear o acesso à educação de milhares de alunos. Para dar conforto aos serviços de saúde, francamente, tenham juízo.

A outra perplexidade prende-se com a confiança que se deposita em modelos de previsão que, dia após dia, demonstram a sua inutilidade, dado o desfasamento entre as previsões e a realidade (quer por defeito, quer por excesso, isso é irrelevante, qualquer das duas situações demonstram que a modelação feita não reflecte a realidade do processo que está a tentar modelar).

Um bom exemplo é a insistência que agora se faz no excesso de pressão que ainda existe sobre o sistema de saúde: os contágios caíram, os casos diminuíram fortemente, e evidente que os internamentos e a mortalidade irão diminuir de acordo com o que se passou nos contágios. Se ainda há muita gente em cuidados intensivos, é porque a doença tem uma evolução lenta e o desfasamento entre contágio e alta dos cuidados intensivos pode ir facilmente às três ou quatro semanas (ou mais).

Seria normal os modeladores estarem agora a dizer que realmente não faz sentido nenhum estar a prejudicar milhares de alunos à espera de uma descida de internamentos que ocorrerá de qualquer maneira nos próximos dias.

Infelizmente, uma boa parte dos modeladores, deixaram há muito de funcionar como investigadores e são meros activistas.

Por isso, quando confrontados, dizem que quem os contesta não sabe de matemática, não consegue apreender bem o que significa um processo ser exponencial (esquecendo-se que depende do valor do exponencial ser um processo lento ou rápido) e não estão a ver bem a coisa porque têm dificuldade em compreender integralmente o efeito da evolução da segunda derivada.

Meus caros matemáticos, muito antes de haver matemática, muito antes de haver segundas derivadas, já as pessoas comuns sabiam perfeitamente o efeito de uma aceleração progressivamente maior ou progressivamente menor, escusam de se esconder atrás de uma suposta sofisticação matemática para fugir à discussão substancial do que está em causa.

E o que está em causa, neste momento, é uma evolução muito favorável da epidemia e um custo desproporcionalmente alto do fecho de escolas, que não tem qualquer justificação substancial.

Amanhã a tendência pode inverter-se?

Sim, pode, as probabilidades não vão nesse sentido, mas sim, pode inverter-se a tendência.

Se a positividade dos testes desatar a subir, se aumentar o factor de contágio, se a base de casos subir de forma relevante, então discutimos outra vez confinamentos e fecho de escolas.

Mas agora, na actual situação, por favor, tenham juízo e deixem de se esconder na vossa superioridade intelectual que pretende que é preciso ter um doutoramento em matemática para saber o que é uma segunda derivada e façam lá umas contas de deve e haver, pondo de um lado os custos e os riscos sanitários, e do outro, os custos de oportunidade de manter as escolas e a economia fechados.

E deixem de ser activistas da estratégia covid zero que ninguém vos elegeu para tomar decisões pelos outros. 

Um contador de histórias

por henrique pereira dos santos, em 22.02.21

Já aqui tenho elogiado a abertura e a cordialidade de Carlos Antunes, elogios que mantenho.

Mas de há uns tempos para cá, apercebi-me de uma outra característica da forma de estar no espaço público: quando são feitas perguntas, igualmente cordiais, fundamentadas e dirigidas a aspectos em que manifestamente o seu discurso colide com a realidade, em especial dirigidas ao esclarecimento dos enormes desvios das suas previsões em relação ao posteriormente verificado, Carlos Antunes simplesmente não responde.

Penso que hoje finalmente percebi: Carlos Antunes é um contador de histórias, a nós cabe-nos o honroso papel de ouvintes educados.

A 20 de Janeiro de 2021, no Diário de Notícias, Carlos Antunes conta uma história claríssima.

"Carlos Antunes começa por referir ao DN que "ninguém pode dizer com certezas o que vai ou não acontecer daqui para a frente", mas o que se vê nesta altura é que a própria realidade se está a antecipar aos modelos matemáticos."

Como qualquer bom contador de histórias, Carlos Antunes previne os seus ouvintes de que a história que vão ouvir é extraordinária mas só poderá ocorrer em condições que estão para lá do nosso controlo. No fundo, o mesmo que escrevia aqui Manuel Carmo Gomes sobre o tipo de modelos matemáticos usados por Carlos Antunes: " embora as previsões a curto prazo da modelação estatística sejam úteis, revelaram-se pouco fiáveis para prever o médio-longo prazo".

Mas Carlos Antunes vai muito mais longe e soma dramatismo ao dramatismo, demonstrando que a fiabilidade, mesmo a curto prazo, faz parte do carácter fantástico da história, como se pode ver.

"Os cenários que temos agora traçados poderão ser ultrapassados daqui a quatro ou cinco semanas com a nova variante. Os especialistas não têm duvida de que se irá tornar dominante em relação à que já circula, e se agora não estamos a conseguir dominar o contágio, nessa altura vamos ter muito mais dificuldade, pois é sabido que a velocidade com que se propaga é muito maior".

Pois bem, que novas histórias conta o mesmo Carlos Antunes quatro semanas depois desta previsão, sobre a qual não havia dúvidas nenhumas?

Ao mesmo Diário de Notícias, agora no dia 20 de Fevereiro: ""os dados são extraordinários". "... o que a evidência nos mostra é que ... "Não foram só dois milhões de estudantes que foram para casa, foram também os pais e muitos outros profissionais." E, ao fim de um mês de confinamento, "todas as estimativas mudaram".

Note-se esta maestria narrativa, quantos de nós nos apercebemos imediatamente deste golpe retórico genial, inspirado nos desenhos de Escher, em que as escadas descem para cima: são os factos que influenciam as estimativas e não as estimativas que os precedem.

Não se pense que foi um golpe de génio pontual, corresponde a um domínio fabuloso das técnicas narrativas: "o problema são as UCI, cujos números demoram mais tempo" a voltar a este patamar ... Carlos Antunes adverte que "qualquer desconfinamento vai dar espaço à nova variante e essa nova variante tem a capacidade de aumentar os números rapidamente.""

Embrulha, Garcia Marquez, pensavas que eras o mestre do realismo fantástico mas isso é só porque desconheces Carlos Antunes.

O que tem a ocupação das UCI com confinamentos? Nada, evidentemente, os confinamentos, a ter algum efeito, é sobre os contágios e os números de hoje nas UCI resultam de contágios há um mês atrás, portanto os tais "números extraordinários" vão chegar aos internamentos e UCI dentro de dias, porque são uma função directa de números de casos que já ocorreram e cuja evolução conhecemos. Sim, mas e a variante? Aqui, como  no Reino Unido, tem coincidido com descidas brutais de casos. Não é que não seja mais contagiosa, é apenas que outros factores mais relevantes estão a actuar sobre a evolução da epidemia.

De resto, seria útil que algum matemático se dedicasse a avaliar o efeito de aumento de casos pela nova variante em contraponto com o efeito de contenção de aumento de casos resultante da progressiva imunização da população (mesmo sem vacinas), ou do aumento de ultra-violetas, ou da normalização meteorológica.

Mas como diz Carlos Antunes, e muito bem, a 20 de Janeiro, quando previa o que previa: "Quem não tem visão não tem e mostra que ainda não aprendeu ao fim deste tempo todo o que é uma pandemia".

Ou como diz hoje, sobre matérias em que um matemático (já sei que é um engenheiro geográfico especialista em geodesia, isso não interessa nada, também Art Garfunkel tem um mestrado em matemática e ninguém discute a sua falta de graus académicos em música) tem uma especial preparação e capacitação: "os números de internamentos pré-Natal "devem ser atingidos nesta semana" e nas unidades de cuidados intensivos "no início de Março", segundo Carlos Antunes, que diz que "enquanto não se desanuviar a pressão hospitalar, tudo o que é outra actividade clínica não covid fica compromentido". Isto numa altura em que o "burnout dos profissionais de saúde não aguenta uma quarta vaga". 

E são estas histórias da carochinha que vão ser hoje contadas na reunião do Infarmed, como fundamento para manter as escolas fechadas.

Os resultados esperados

por henrique pereira dos santos, em 20.02.21

Estamos a obter os resultados esperados do confinamento, tenho lido por aí, vindo dos modeladores da epidemia e afins.

Há conjunto pequeno de matemáticos - serem matemáticos de formação ou não, é irrelevante - que falam muito entre si, dão-se palmadinhas nas costas uns dos outros e confirmam-se todos os respectivos modelos, agradecendo-se mutuamente o trabalho que cada um retira aos outros com as suas sofisticadas análises.

Pelo que percebi, a Assembleia da República vai ouvir o núcleo duro desses matemáticos no dia 24 de Fevereiro, para saber mais sobre a epidemia, a sua evolução e, presumo, para ter melhores bases para decidir o que fazer daqui para a frente.

São dos maiores influenciadores da gestão da epidemia embora não haja, neste grupo, um único que trabalhasse sobre epidemias antes da covid (e, já agora, um único que veja a sua vida e rendimentos afectados, de forma séria, pelos confinamentos que defendem).

E todos eles partilham entre si uma fé inabalável nos confinamentos, que defendem que sejam radicais, porque essa é a melhor maneira de salvar vidas.

Contribuem para a tal ideia de que a situação actual corresponde a estarmos a recolher os resultados esperados do confinamento e do fecho da escolas (um encantamento que cultivam com especial desvelo).

É preciso dizer, com todas as letras, que até talvez se possa dizer que a situação actual é o resultado do confinamento com fecho de escolas - eu acho que não, mas adiante - mas dizer-se que é o resultado "esperado" é mentira.

Os resultados esperados pelos modelos de todos estes senhores eram outros completamente diferentes, estes senhores todos esperavam outros resultados que abundantemente difundiram e que, sem dúvidas ou cambiantes, trouxeram para o debate público para forçar os confinamentos e o fecho de escolas, porque acreditavam piamente que eram a única maneira de melhorar os resultados, ainda mais catastróficos, que esperavam que existissem sem confinamento.

Não há o menor problema científico ou académico em desenhar modelos que falham estrondosamente, isso é o mais normal, é por isso que os modelos são, de maneira geral, trabalhos em desenvolvimento e onde se vão introduzindo melhorias que os façam aproximar-se da realidade verificada.

A forma de validar um modelo é aplicá-lo a uma realidade conhecida, verificar a sua aderência aos dados conhecidos e, partindo do pressuposto de que os mecanismos que fizeram evoluir a realidade da forma conhecida se prolongam no tempo, projectar para o futuro os resultados conhecidos.

Quando, como é normal, os resultados projectados vão ficando mais longe da realidade que se vai observando, o normal é olhar para o modelo e tentar perceber quais os mecanismos condutores da evolução que o modelo está a integrar mal, refazer o modelo para os integrar melhor, e esperar de novo pelo futuro para verificar se a aderência à realidade aumentou.

Ora o que estes senhores, do alto da sua torre de marfim - quando perguntados as evidente falhas de previsão dos modelos, ou não respondem, ou respondem que os perguntadores não têm conhecimento suficiente para compreender a sofisticação matemática que está a ser usada -, têm feito é ignorar os erros do modelo, limitando-se a rever em baixa as previsões ou na melhor das hipóteses, considerar que o nível de imunização está acima do previsto nos modelos e é preciso melhorar esse aspecto.

Em relação à primeira hipótese é preciso dizer, com clareza, que não existe o conceito matemático de revisão em baixa de previsões, os modelos ou estão certos, ou estão errados, não se revêem previsões em baixa, mantendo o modelo.

Quanto aos segundos, os que admitem que os modelos falharam na integração do factor imunização, é talvez útil dizer que essa explicação é incompatível com a defesa dos confinamentos, em particular com o fecho das escolas, como método preventivo para evitar um novo Janeiro na Páscoa, já que essa imunização impede uma repetição do que se passou em Janeiro.

Resumindo, deixem-se de parvoíces e abram as escolas já, no mínimo dos mínimos, para os alunos com menos de 12 anos.

Ao contrário do que disse Roberto Roncón, há problema sim, se se tiver de se fazer um novo confinamento, mais, há problemas sim, e enormes, em manter o actual confinamento, quando a média de casos está abaixo dos dois mil e o R(t), ou seja, o factor de contágio, está em 0,66, que é um valor baixíssmo e a positividade dos testes, que tem algum atraso de reporte, está já bem abaixo dos 10% referidos por Manuel Carmo Gomes como sendo o máximo admissível sem confinamento.

Os vossos modelos estão errados e pressupor que há uma grande probabilidade de ter, em Abril, níveis de incidência de uma doença infecciosa respiratória semelhantes a Janeiro é absurdo e contraria tudo o que se sabe sobre esse tipo de doenças.

Ficai com as vossas elocubrações matemáticas completamente desligadas da realidade, mas deixem de atazanar a vida quotidiana da milhares de pessoas, que ninguém vos elegeu para governar a sociedade.

O Estado a que isto chegou

por henrique pereira dos santos, em 19.02.21

Estou envolvido numa associação de conservação da natureza, a Montis.

Algures, por volta de Julho de 2019, pediu-se à Presidência do Conselho de Ministros o reconhecimento do estatuto de utilidade pública, essencialmente para podermos ser destinatários dos 0,5% de IRS que todos podemos reencaminhar para organizações que achemos que lhes dão melhor destino que o Estado.

Logo nessa altura dissemos que a utilidade pública era automaticamente reconhecida às organizações não governamentais de ambiente ao fim de algum tempo (três ou cinco anos, conforme os diplomas legais, mas já para evitar complicações, estavámos a falar dos cinco anos que ocorreriam, se não me engano, em Abril de 2020), só que o reconhecimento expresso na lei não chega para as finanças o reconhecerem, exigindo que a Presidência de Conselho de Ministros avalie se de facto as organizações são dignas do que a lei diz que são.

Na altura eu era presidente da Montis e costumo ser do mais chato e impossível de aturar que há, face à prepotência do Estado e ao incumprimento dos prazos de resposta, mas por azar a directora de serviços que era responsável por este departamento da Presidência do Conselho de Ministros era minha amiga, próxima de pessoas da minha família, de maneira que não mexi uma palha para que o assunto se resolvesse.

A Montis foi fazendo alguma pressão e pedindo informação, explicou-se que era bom poder contar com as declarações de IRS de 2020, depois passou-se a falar das declarações de IRS de 2021 e penso que agora já só em 2022, sem em qualquer momento se conseguir saber quem estava com o assunto e se havia alguma questão a resolver.

Quase dois anos depois resolveram agora mandar um papel em que comunicam que se não se responder em vinte dias, será feita uma proposta de indeferimento do pedido de utilidade pública (que a lei reconheceu automaticamente desde Abril de 2020, mas deixemos isso de lado) por causa de umas desconformidades dos estatutos da Montis (estatutos esses que já foram escrutinados por vários departamentos da administraçao pública, incluindo o que gere o registo das organizações não governamentais de ambiente).

Que desconformidades são essas, de tal maneira graves que resultam na impossibilidade de reconhecimento da utilidade pública da organização?

O facto da competência de alteração da sede estar cometida à direcção e não à Assembleia Geral, num artigo qualquer fala-se em voto de qualidade dos presidentes dos orgãos sociais que é incompatível com a necessidade de maioria absoluta em algumas matérias, impede-se o voto de entidades colectivas que são sócias (pretende-se ter uma organização de pessoas) o que é contra a liberdade de associação, dizem eles, numas matérias em que alguma legislação exige maiorias de pelo menos de dois terços, como está nos estatutos, parece que o código civil exige três quartos, e uma questão completamente bizantina sobre a hipótese de todos os sócios da associação estarem numa Assembleia Geral e, por isso, poderem aprovar a discussão de matérias que não estejam na ordem dos dias.

Ou seja, o Estado demora quase dois anos a verificar uma coisa que demora meio dia a verificar, identifica umas questões formais sem qualquer relevância material e em vez de dizer aos promotores para alterarem essas mariquices no prazo X, reconhecendo a utilidade pública da organização, concluem que isso leva ao indeferimento de um pedido de utilidade pública que, por sinal, a lei já confere mas as finanças não reconhecem.

Tenho assistido a um debate divertidíssimo entre Carlos Guimarães Pinto e Bárbara Reis sobre a Irlanda, Portugal e o seu desenvolvimento económico, mas enquanto o modelo de funcionamento do Estado for o que descrevi acima, não há a mínima esperança de sairmos da cepa torta, sejam quais forem as opções de política fiscal ou os planos de resiliência que venhamos a ter.

A profunda degradação da administração pública sai caríssima ao país e vai sair ainda muito mais cara.

Marcelino e Otelo

por henrique pereira dos santos, em 19.02.21

Marcelino da Mata e Otelo Saraiva de Carvalho têm algumas coisas em comum e outras que os separam.

E uma das principais coisas que os separam é a forma tão diferente como olhamos para as suas vidas, mesmo quando elas têm traços comuns.

Por estes dias tenho visto bastante gente, a propósito de Marcelino, afirmar a pés juntos que não foi condecorado por actos de bravura numa guerra em que o seu país estava envolvido, mas antes que recebeu condecorações de uma ditadura e isso é cadastro, não é curriculum.

Aparentemente pouca gente fala assim das duas condecorações de Otelo (não falo da terceira, já num regime democrático) atribuídas durante o Estado Novo, embora não por acções de bravura em teatro de guerra.

Diz-se de Marcelino que, na hora da sua morte, o Estado não lhe deveria prestar as homenagens devidas a um dos veteranos de guerra (não, não é por acaso que uso esta expressão, mais americana que portuguesa) mais condecorados do seu exército porque terá sido um criminoso de guerra.

Eu sei que há quem pense que se deveria fazer mais tricot e menos guerras, eu próprio acho o tricot mais útil à humanidade que a guerra, mas não tenho muita fé de que o tricot desse mais resultado que a resistência armada perante expansionismo nazi ou soviético, e tenho muitas dúvidas que o resultado global para a humanidade fosse melhor se em vez de militares se tivessem mandado hordas de tricotadores para o Japão, na sequência de Pearl Harbour.

Nada me move contra o tricot, bem entendido, que aprendi e pratiquei brevemente (sem nenhum sucesso, de resto), há uns quarenta anos, para gáudio e chacota dos militares que enchiam as carruagens do comboio em que eu ia para Évora, e eles para Vendas Novas.

Acho é que o tricot não serve exactamente os mesmos propósitos da guerra e, naturalmente, é menos provável encontrar violações, mortandades, massacres na prática do tricot, que na guerra.

Tal como é mais fácil acusar de crimes de guerra quem anda numa guerra de guerrilha no mato, como Marcelino, que quem ficou no Estado Maior, como Otelo, apesar da guerra ser a mesma.

Só que, tanto quanto sei, nunca nenhum tribunal condenou Marcelino por crimes de guerra, nunca o Estado lhe retirou as condecorações, nunca o Estado o ostracizou por o considerar criminoso. Ou seja, quaisquer acusações que existam, não passam de opiniões, legítimas, com certeza, mesmo quando algumas dessas acusações são feitas com base em testemunhos não independentes, pelo contrário, em testemunhos de quem tem interesse em contar a história de modo a ser favorecido por ela.

Já em relação a Otelo, há condenações em tribunal por crimes de sangue e outros. Não pelas acções que desenvolveu no sentido de derrubar uma ditadura e a substituir por um regime democrático e livre - com armas na mão, e não com agulhas de tricot - mas pelas acções violentas em que se envolveu contra a democracia, incluindo o assassinato de Gaspar Castelo Branco com dois tiros na nuca, à porta de casa, fora vários outros que tiveram o azar de estar no sítio errado à hora errada, como o soldado da GNR que foi morto no primeiro assalto a um banco patrocinado por Otelo.

Eu sei que Otelo nega tudo isto, e nega-o de forma radical, diz que o seu julgamento foi uma farsa montada por uma coligação do PC, CDS e PSD, nega-o de forma mais radical que a forma hipócrita que Isabel do Carmo encontrou para se demarcar do seu papel activo na violência terrorista contra a democracia e a liberdade (transportei explosivos, mas nunca carreguei no detonador, como se o crime maior fosse de quem dispara a bala e não de quem decide, define o alvo e cria as condições para terceiros a dispararem), mas essa é também uma opinião, uma opinião legítima, que tem contra si todo um processo judicial que conclui o contrário.

Também sei que Otelo foi amnistiado e indultado pelos orgãos de soberania democráticos e legítimos, tornando a sua integração na sociedade absolutamente legítima e não beliscando a dívida da sociedade para com o seu papel no 25 de Abril.

Convivo tranquilamente com tudo o que está descrito em relação a dois homens que serviram o seu país da forma como acharam mais justa e sobre a qual cada um de nós será livre de ter a opinião que quiser.

Para o que me falta paciência é para os Fernandos Rosas, as Anas Sá Lopes, os Manuéis Loffs, os Rui Tavares (ainda hoje nos diz, na sua crónica no Público, para não nos esquecermos de que extrema-direita já matou em Portugal, como se o mais mortífero, violento e ameaçador grupo terrorista no Portugal democrático não tivessem sido as FP25) e muitos outros que resolveram achar que a morte de Marcelino da Mata era o momento adequado para fazer avançar a sua agenda de condicionamento da discussão aberta, livre e racional sobre o passado do país.

Até porque eu vivi até aos meus 14 anos em África (e voltei a Moçambique há dois ou três anos, a tempo de ver as diferenças para o que lá se passa hoje) e sei muito bem que José Afonso (que viveu em Moçambique e que tinha lá a irmã, cujo filho era meu chefe de turma na escola -"diga amigo Zé como vai você") é muito mais rigoroso na descrição do que se lá passava nesta música, que a quantidade de inanidades e barbaridades sobre o colonialismo português que sistematicamente são repetidos por estes defensores dos regimes tirânicos e racistas que se sucederam à administração colonial portuguesa nesses países, regimes esses que expulsaram do seu país milhares de compatriotas seus, pelo único crime de serem brancos (não é o meu caso, com 14 anos não tinha voto na matéria mas os meus pais estavam a preparar a sua vinda para Portugal na sequência da reforma do meu pai que estava próxima, e nunca se consideraram angolanos ou moçambicanos, ao contrário de muitos que nunca conheceram outro país que aquele em que viviam há várias gerações).

Discutir a história, com diferentes perspectivas, é uma coisa, usar a deturpação da história como arma de arremesso político (os frequentes paralelismo entre o Estado Novo e o regime Nazi, bem como entre o expansionismo nazi e a guerra colonial, são completamente delirantes), é outra.

E fazê-lo tratando a memória de Marcelino da Mata como a têm tratado, como se o mundo em que viveu fosse a preto e branco, como se ele próprio fosse a preto e branco, como se a sociedade em que vivia fosse a preto e branco, como se os critérios de julgamento de hoje se aplicassem a mundos passados, etc., é rasca.

Sendo o Ricardo Jorge a dizer já se pode levar isto a sério?

por henrique pereira dos santos, em 17.02.21

insa mort.jpg

"Os excessos de mortalidade por todas as causas apresentam uma associação muito forte com a mortalidade específica por COVID-19 no período de excesso de outubro-janeiro. Contudo, a partir da semana 53/2020 (28 de dezembro a 03 de janeiro), existe uma fração de mortalidade por todas as causas que não é totalmente explicada pela mortalidade específica por COVID-19 e que foi coincidente com um período de frio extremo, durante o qual, de acordo com o sistema de alerta FRIESA coordenado pelo Departamento de Epidemiologia do INSA, eram esperados impactos na mortalidade por todas as causas.(18,19)

O frio tem impactos negativos na saúde humana, quer por efeitos ao nível cardiovascular e respiratório, afetando sobretudo pessoas com doenças cardíacas e respiratórias prévias, quer pelo agravamento do curso de infeções respiratórias ativas.(20,21)

Por outro lado, o frio pode aumentar a transmissibilidade dos vírus respiratórios por diversos mecanismos. Deste modo, as inter-relações entre frio, COVID-19 e mortalidade são complexas e sinérgicas, podendo a sua coocorrência ter contribuído para o excesso extraordinário de mortalidade por todas as causas observado neste período. Quer isto dizer, que é plausível que o frio tenha contribuído para o aumento da mortalidade por COVID-19 pelo agravamento do prognóstico desta infeção.

Estudando a mortalidade atribuível no período estimamos que a maior fração de mortalidade acima do esperado foi atribuível a COVID-19 (61%), enquanto o frio explicará 26% da mortalidade acima do esperado. Há ainda uma fração da mortalidade por todas as causas acima do esperado (cerca de 13 %) não explicado por este modelo e que pode dever-se a fatores não tidos em conta na análise, como a seja a alteração do padrão de utilização dos cuidados de
saúde."

Não há condições

por henrique pereira dos santos, em 17.02.21

Um amigo, bem informado e com cabeça melhor que a média garante-me que não há sazonalidade nenhuma na incidência da covid.

Eu cito este parágrafo da OMS e mostro-lhe o gráfico abaixo ""Influenza occurs all over the world, with an annual global attack rate estimated at 5–10% in adults and 20–30% in children. In temperate regions, influenza is a seasonal disease occurring typically in winter months: it affects the northern hemisphere from November to April and the southern hemisphere from April to September. In tropical areas there is no clear seasonal pattern and influenza circulation is year-round, typically with several peaks during rainy seasons."

sazonal.jpg

Resposta: a sazonalidade que não existe pode ser explicada por um sem número de factores e estás a fazer cherry picking não escolhendo outros factores para além daquele que eu acho que estás a escolher para explicar este gráfico que mostra uma sazonalidade que não existe.

A discussão está nestes termos e não há volta a dar.

O Instituto Ricardo Jorge publica relatórios em que diz que o R(t) passou de 0.96 a 1,21 em seis dias, isto é, teve um aumento acima de 25% em seis dias.

Note-se que o R mede a transmissibilidade, o número de casos é indiferente porque se define como a quantidade de contágios a que dá origem um infectado. Em seis dias, uma pessoa que contagiava, em média, 0,96 pessoas passou a contagiar 1,25.

Qual é a explicação para esta alteração brusca da capacidade de contágio, em seis dias?

Resposta: isso não interessa nada, porque contágio é contacto e portanto o que interessa é discutir contactos.

Ou seja, mil pessoas infectadas infectavam 960 e seis dias depois as mesmas mil pessoas infectam 1250 e isso não interessa nada, o que interessa é discutir como diminuir os contactos para diminuir a progressão da epidemia, apesar de, com os mesmos contactos, termos mais ou menos um quarto dos novos infectados a mais.

Eu sei qual é o argumento: não podemos influenciar essa transmissibilidade, mas podemos diminuir os contactos, portanto essa maior transmissibilidade obriga-nos é a ser mais rigorosos nos contactos, e não menos.

Este argumento é verdadeiro, o problema está no salto que é dado a partir dele, esse sim, sem qualquer fundamento: a evolução da epidemia, para cima ou para baixo, depende essencialmente da nossa capacidade de controlar os contactos.

Se, como parece, o aumento da incidência de Janeiro se deve, pelo menos em parte relevante, a maior transmissibilidade, então quando pararem os factores que favoreceram essa transmissibilidade, vamos ter uma diminuição de incidência igualmente brusca. 

O corolário é que a diminuição de contactos, podendo ser útil, desempenha um papel menor na evolução do que aquele que nos foi dito e, sendo assim, a necessidade da diminuição de contactos para a evolução da epidemia deve ser ponderada pelos custos sociais que estão associados a essa diminuição de contactos.

Em termos práticos, não, não são necessárias medidas radicais como o fecho das escolas, a mera diminuição da transmissibilidade leva a uma diminuição de casos que torna geríveis os sistemas de saúde (sem entrar sequer na discussão de que são os sistemas de saúde que existem para apoiar a sociedade, não é a sociedade que deve ser formatada para permitir a gestão dos serviços de saúde).

E não, não é verdade que o desconfinamento leve imediatamente a uma subida de casos, como os desconfinamentos da Primavera demonstraram e como resulta do facto de desconfinar não implicar nenhuma alteração no R (uma coisa é o facto do R ser calculado a partir do número de casos, outra coisa é admitir que esse número de casos influencia o R e não a inversa).

A ideia de que são os contactos que gerem o R, levando para cima, ou para baixo, é uma ideia estranhíssima que tenho visto repetida vezes sem conta e cuja base factual não consigo perceber qual seja.

Q.E.D.

por henrique pereira dos santos, em 16.02.21

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Pelo meio de Janeiro comecei a escrever sobre o que estava a suceder na mortalidade e na evolução covid, com o pressuposto de que não se poderia olhar para os números sem ter em atenção a anomalia meteorológica que ocorreu entre 24 de Dezembro e 20 de Janeiro.

Eu não sei qual dos factores meteorológicos criou as condições ideais para reprodução do vírus e a sua transmissibilidade, não sei se é o frio, se a humidade, se a combinação dos dois, sei é que às condições sinóticas que ocorriam, correspondeu uma determinada evolução da mortalidade e da epidemia (por isso não sei responder aos apelos para olhar para a onde de frio na Grécia - nevou ontem em Atenas - eu não sei o suficiente do assunto para retirar ilações tão precisas  do que se passou em Portugal, só sei que a hipótese de haver uma ligação estreita entre as condições meteorológicas que ocorreram em Portugal e a evolução da epidemia não me parece que possa ser descartada).

A hipótese que levantei, e que depois fui corrigindo para integrar os desvios que ia verificando e que procurava entender, foi a de que estavam a ocorrer dois processos paralelos, um relacionado com o impacto directo do frio (digo do frio porque foi o que li na bibliografia, eu preferia dizer, das condições meteorológicas prevalecentes) na mortalidade, outro resultante do efeito indirecto dessas condições na transmissibilidade da covid (tenho dúvidas de que se fale de transmissibilidade da doença, e não do seu agente infeccioso, mas paciência, não me vou pôr a procurar a formulação mais exacta, não tenho tempo para ser mais rigoroso numa coisa que não é fundamental).

A ser válida esta hipótese, ver-se-ia uma subida da mortalidade quatro a sete dias depois do início da anomalia meteorológica - que afectaria mais a mortalidade por doenças cardiovasculares que respiratórias, segundo li, mas brevemente, não tenho segurança nisso - a que se seguiria um aumento da mortalidade covid, duas a três semanas depois do início das condições meteorológicas favoráveis ao contágio.

Haveria um factor em que esta hipótese teria de se reflectir, se a hipótese fosse válida: o peso da mortalidade covid na mortalidade total.

O gráfico acima procura exactamente acompanhar esse factor, tem a mortalidade global, a mortalidade covid, a relação entre as duas e a média a sete dias centrada (usando três dias para trás e três dias para a frente, em vez dos seis dias anteriores).

Desde há um ou dois dias a mortalidade global anda por valores que se pode dizer que são normais, em torno dos 380 a 400 (é uma mortalidade relativamente alta, mas já dentro da normalidade), o que me leva a crer que a mortalidade global não irá descer muito mais, e a mortalidade ainda está numa descida que se vai manter por alguns dias.

Como previa a hipótese, o indicador do peso da mortalidade covid sobre a mortalidade global, que num primeiro momento se manteve pelos 20%, subiu expressivamente para os 40% e picos e, depois da alteração das condições meterológicas a 20 de Janeiro, a que se seguem duas a três semanas entre contágio e morte, está agora a retornar aos tais 20%, mais coisa, menos coisa, ou seja, a previsão resultante da interpretação do que estava a ocorrer tem uma boa adesão à realidade verificada, que é o principal critério para aferir se um modelo de análise presta ou não.

Principais conclusões

Qualquer coisa como um terço a um quarto (não me peçam para demonstrar, é uma ordem de grandeza que intuo que não deve andar longe da realidade) da mortalidade covid corresponde a pessoas que morrem e, por acaso, testam positivo, a doença tem muito pouca relação com essa morte.

A situação excepcional de mortalidade em Portugal, neste Janeiro, explica-se mais solidamente entrando em linha de conta com as condições meteorológicas ocorrentes que pelo aumento do número de contactos de risco no Natal (esta conclusão tem o apoio de vários outras indicações que não estão neste gráfico, como a evolução de casos e do R(t) durante Janeiro).

As medidas coercivas - quando os números sobem as pessoas reagem e protegem-se mais, independenteente das regras existentes - de controlo de contactos podem ter algum efeito, mas é apenas um efeito de potenciação da evolução natural da epidemia, portanto os seus efeitos reais sobre internamentos e mortes é bastante limitado.

Sendo difícil saber quanto vale o efeito das medidas mais radicais de controlo de contactos em menos mortes e internamentos, parece claríssimo que fechos de escolas e proibição de vendas de bebidas ao postigo são medidas cujo custo é imensamente maior que o benefício que trazem à sociedade, com a agravante de que esse custo é desproporcionalmente grande para os mais pobres.

O papão de uma quarta vaga ainda antes da vacinação ter efeito não passa disso mesmo, de um papão, quer porque a probabilidade da ocorrência de condições tão favoráveis à transmissibilidade é baixa, quer porque imunização da população é hoje muito mais alta que era antes deste surto.

Por fim, é bem possível que se assista a uma redução temporária, embora não de grande dimensão, quer na mortalidade global, quer na mortalidade covid, já que o que aconteceu em Janeiro acabou por antecipar a morte dos mais frágeis e vulneráveis em algumas semanas ou meses, concentrando em Janeiro uma mortalidade que, na ausência do que se passou, ir-se-ia distribuir pelas semanas e meses seguintes.

Duvido que o efeito inverso na mortalidade resultante da falta de acompanhamento de outras patologias, que irá ter um efeito prolongado no tempo, provavelmente bem mais prolongado que o que referi no parágrafo anterior, seja maior que o que decorrerá do descrito no parágrafo anterior.

"My people, my people"

por henrique pereira dos santos, em 15.02.21

Ao que me diz uma das minhas irmãs, o título deste post era o que ia repetindo o meu cunhado, pela casa fora, abanando a cabeça, de cada vez que achava que os seus conterrâneos americanos faziam asneiras (na opinião dele, por exemplo, eleger Reagan).

Farto de ouvir argumentar com um suposto dia 28 ou 29 de Janeiro como o pico de casos da covid em Portugal, resolvi perceber de onde vinha uma asneira tão difundida, tão evidentemente errada e tão facilmente verificável.

Bingo!

Vinha da reunião do Infarmed.

A julgar pelas notícias sobre a reunião - nem garanto que sejam exactas, nem fui verificar - André Peralta, da Direcção Geral de Saúde, tinha estabelecido o dia 29 de Janeiro como o pico de casos com base nesta ideia: "O pico da terceira vaga da epidemia de covid-19 foi atingido em Portugal a 29 de janeiro com 1.669 casos cumulativos a 14 dias por 100 mil habitantes".

Não sei o contexto desta afirmação - não fui verificar a gravação que era o que habitualmente faria se estivesse interessado em discutir a afirmação em si, que neste post é meramente instrumental - nem fui verificá-la em pormenor, mas é de meridiana clareza que um factor que depende dos 14 dias anteriores, numa altura de forte subida ou forte descida, anda sempre atrás da realidade. Para usar este parâmetro seria preciso recentrá-lo e calculá-lo usando sete dias para trás e sete dias para a frente, de modo a evitar a inércia que inviabiliza o seu uso para a definição do ponto de inflexão de uma curva, como é um pico.

Até aqui, nada contra, não sei bem o contexto disto e até pode ser que haja alguma racionalidade na afirmação, o que acho espantosa é a quantidade de gente - incluindo jornalistas - que olha para uma curva em que se pode ver, claramente visto, um pico entre 18 e 21 de Janeiro e prefere duvidar de si próprio, daquilo que vê com os seus próprios olhos, trocando-o facilmente pela citação de uma sumidade, mesmo que não a consigam explicar.

O respeitinho é muito bonito e Portugal é um paraíso quem tenha um átomo de poder e autoridade.

Mau jornalismo, Marta

por henrique pereira dos santos, em 15.02.21

Marta Leite Ferreira assina esta peça no Observador.

"Portugal já está a ter resultados do confinamento obrigatório e generalizado imposto em meados de janeiro quando a pandemia se tornou incontrolável. O número de novos casos de infeção pelo novo coronavírus revela que o país já ultrapassou o pico da terceira vaga (terá acontecido entre o final de janeiro e o início de fevereiro)", diz Marta, que há meses acompanha a evolução da epidemia.

Saltemos por cima da ideia de que uma coisa incontrolável foi controlada, e centremo-nos antes na ideia de que o pico terá acontecido entre final (não me habituo a esta nova moda de escrever à brasileira, trocando fim por final) de Janeiro.

Luís Aguiar-Conraria escreveu um artigo muito bom no Expresso desta semana em que usa este gráfico (ou o da semana anterior, mas é igual, não têm alterações relevantes) que é publicado pelo Instituto Ricardo Jorge no seu boletim semanal sobre a curva epidémica e a transmissibilidade.

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Qualquer pessoa consegue ver que o pico está ali por volta de 18 de Janeiro, é esse o ponto em que a curva inflecte e deixa de subir.

Como este é um gráfico dos casos positivos - é diferente do que a generalidade dos grandes sites sobre a epidemia publica porque estes usam os dados dos relatórios diários da DGS e o Instituto Ricardo Jorge faz a sua correcção para a data dos sintomas - podemos dizer que o pico de contágios andará entre 13 e 15 de Janeiro.

Em havendo dúvidas, olhemos para o gráfico da evolução do R(t), proveniente do mesmo relatório (este é o relatório de 12 de Fevereiro, todas as sextas se publica um novo boletim que pode ser consultado aqui).

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Note-se que onde está marcada a véspera de Natal poderia estar marcado o início da anomalia meteorológica que ocorreu entre 24 de Dezembro e 20 de Janeiro (como o mais influente dos modeladores da epidemia me perguntou de que anomalia falava eu, calculo que haja um desconhecimento geral sobre o assunto, e por isso sugiro a quem queira documentar-se, que dê um salto aqui).

O que interessa neste gráfico é a que a alteração essencial do R(t) confirma que a transmissibilidade teve uma subida brusca durante duas semanas, um pequeno planalto ali por volta de 6 de Janeiro e depois começou a diminuir rapidamente, com um pequeno soluço por volta do dia 15, que não altera a tendência geral (por sinal, indiferente às medidas tomadas para qualquer pessoa que olhe para o gráfico tal como ele é, em vez de andar à procura da segunda derivada).

Cara Marta, perante isto, que é o que é e está bem documentado, insistir que o pico foi no fim de Janeiro/ princípios de Fevereiro, não é nem bom jornalismo, nem ser uma boa cidadã empenhada em combater a epidemia, é mesmo só mau jornalismo, ou melhor, muito mau jornalismo e um péssimo serviço prestado à necessária gestão sensata da epidemia.

Confinamento ao sol

por henrique pereira dos santos, em 14.02.21

Parque Eduardo VII cheio (como seria evidente), polícia para cima e para baixo a chatear quem está sentado na relva (que se levantam dão uma volta e sentam-se outra vez, claro), com excepção das dezenas de donos de cães que, ao contrário dos donos de crianças, podem estar sentados a ver os cães a brincar.

Os cães, ao contrário das crianças, podem confraternizar, o que naturalmente gera muita interacção entre os donos (ao contrário do que acontece com os donos das crianças, que têm de estar sempre em movimento), de que trago aqui um exemplo:

"Ainda é bebé, não é?
Sim, tem cinco meses.
O meu tem nove, como se chama a cadela?
Olívia.
Engraçado, é nome da minha sogra".

Uma estranha cegueira

por henrique pereira dos santos, em 13.02.21

O mito do Natal instalou-se solidamente na opinião da burguesia que publica opiniões e não sente na pele os efeitos secundários dos confinamentos cegos.

Nem a ácida lucidez de Carlos M. Fernandes parece abrir brechas nas certezas inabaláveis em que assenta a actual campanha que pretende impedir qualquer desconfinamento antes do fim de Março.

Vamos então a factos, sabendo perfeitamente que uma boa parte dos militantes de causas, sejam elas quais forem, jamais deixarão que os factos influenciem as suas ideias.

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Este é um retrato possível da evolução da epidemia, medida a partir do número de casos diários. Claro que comparar casos diários hoje com os da Primavera passada não faz sentido nenhum, porque nessa altura a testagem era mínima quando comparada com o que hoje se faz, e na verdade o que me interessa é mesmo o lado direito do gráfico, com o número de testes positivos no mundo a descer de forma muito sustentada desde 10 de Janeiro, mais coisa menos coisa.

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"Influenza occurs all over the world, with an annual global attack rate estimated at 5–10% in adults and 20–30% in children. In temperate regions, influenza is a seasonal disease occurring typically in winter months: it affects the northern hemisphere from November to April and the southern hemisphere from April to September. In tropical areas there is no clear seasonal pattern and influenza circulation is year-round, typically with several peaks during rainy seasons."

O parágrafo que cito acima, da Organização Mundial de Saúde, não diz respeito à covid, mas à gripe, outra doença infecciosa respiratória, com quadros clínicos substancialmente diferentes, com afectação de grupos etários muito diferente (a gripe é incomparavelmente mais perigosa nos grupos etários mais baixos, a covid é mais perigosa no grupos etários mais altos, onde a gripe também faz os maiores estragos), com pressão sobre os recursos de saúde muito menos importante que a covid, etc..

Mas, volto a frisar, sendo também uma doença infecciosa respiratória.

Esta sazonalidade, que é mais que conhecido para a gripe, tem sido ignorada para a covid, com o argumento de que se trata de um vírus diferente e uma doença nova, como se fosse de esperar que vírus e doenças que têm muitas semelhanças em muitos aspectos, à cabeça das quais, serem doenças infecciosas respiratórias, estivessem sujeitas a forças de evolução completamente diferentes.

Em particular, é chocante que todas as explicações para a covid se centrem no contacto com as pessoas, ignorando tudo o resto, como se esse factor não estivesse presente na gripe, como evidentemente está, sem que anule a sazonalidade.

Embora os contactos não se alterem substancialmente ao longo do ano (excepto eventualmente no facto das pessoas no Inverno estarem mais em ambientes fechados e menos arejados), todos os sistemas de vigilância e controlo dos efeitos da gripe, nas zonas temperadas, se centram em períodos bem definidos, por exemplo, no hemisfério Norte, entre as semanas 40 de um ano e a semana 20 do seguinte. No resto do ano nem vale a pena.

Dentro deste período, são as semanas entre meados de Dezembro e o meio/ fim de Janeiro que, sistematicamente, ano após anos, com enventuais e raras excepções, concentram o pico dos efeitos negativos da gripe (hospitalizações e mortes).

Olhemos agora outra vez para os números da covid, de forma um bocadinho mais desagregada que no gráfico inicial.

cont.jpg

Aqui uso as mortes por covid, para tornar mais comparáveis os dados deste Outono/ Inverno com a Primavera de 2020, e a sazonalidade que a OMS descreve acima para a gripe aparece aqui em todo o seu esplendor: sazonalidade marcada nas regiões temperadas, apesar de amenizada na América do Norte, onde se inclui o México e os estados mais povoados dos Estados Unidos, que são os estados do Sul, sub-tropicais (a Europa não tem correspondente porque nessas latitudes está o Mediterrâneo e, para Sul, já em África, o deserto), e fraca sazonalidade nas outras regiões do mundo (percebem agora a indigência intelectual de responder com o Brasil ou a África do Sul quando se refere a anomalia meteorológica de Portugal entre 24 de Dezembro e 20 de Janeiro?).

Note-se que as principais variações nos números agregados que estão no primeiro gráfico estão directamente relacionadas com as variações na Europa e América do Norte.

Este gráfico permite perceber porquê.

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O gráfico é exactamente o de cima, apenas com os números de mortes por milhão de habitantes, em vez das mortes em números absolutos.

Nas zonas temperadas do hemisfério Norte, mais bem representadas pela Europa que pela América do Norte, que inclui os estados do Sul dos Estados Unidos e México, a sazonalidade covid não oferece qualquer dúvida e é essencialmente igual à sazonalidade da gripe.

Quando Manuel Carmo Gomes, e toda a trupe de activistas do confinamento, falam de uma quarta vaga semelhante ou maior que a de Janeiro em Portugal, ou dizem que temos de evitar os erros no Natal fechando as escolas e fechando as pessoas em casa até à Páscoa, inclusivé, para evitar uma situação como a de Janeiro, a conclusão é muito, muito clara: estão a substituir os factos pelas suas convicções, de resto fundadas na mais completa incompreensão do que está a acontecer com a evolução da epidemia.

O espalhanço completo nas previsões da epidemia que fizeram ao longo de Janeiro, se dúvidas houvesse, é a demonstração clara de que não perceberam o fenómeno que andam a modelar.

Não, não é por terem feito previsões com erros de 200% a menos de uma semana, é porque as explicações para as previsões feitas e para os desvios face à realidade são explicações erradas ou inexistentes.

Continuam a dizer asneiras sobre como vai evoluir a epidemia, quer aqui, em Portugal, quer no resto do mundo.

Não é por acaso que existe uma profunda clivagem de interpretação do fenómeno entre os epidemiologistas clássicos e o pessoal das modelações, é mesmo porque uns olham para a realidade, com as lentes do conhecimento consolidado por dezenas de anos de gestão de epidemias, e outros olham para os computadores com as lentes dos seus preconceitos.

E, com isso, alimentam a destruição económica e, mais que tudo, roubam ou dificultam seriamente a possibilidade de milhares de pobres se libertarem da pobreza através da educação.

Mas se realmente estão convencidos do que andam a dizer, e eu parto do princípio de que assim é, então tenham coragem de dizer que os confinamentos só são reais e justos quando a sociedade suporta os prejuízos de quem perde com eles e, por isso, para além do fecho de escolas e outras medidas que tais, proponham um imposto adicional de 10% sobre os rendimentos de quem não teve quebras de rendimento com o confinamento, como forma de os financiar de forma justa.

E, se não for pedir muito, prescindam já de 10% dos vossos rendimentos, mesmo que o Estado não se atreva a tomar essa medida de elementar justiça.

"Estava ali só o que ali estava"

por henrique pereira dos santos, em 12.02.21

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Tirei esta fotografia hoje de manhã, quando fui dar uma volta na Mata da Machada/ Barreiro, sem nenhuma razão de especial, talvez me tenha interessado pelo facto dos salgueiros já estarem a abrolhar.

A fotografia não tem nada de especial, o que me interessa nela é o que vejo sem que lá esteja.

Há algum tempo esta fotografia teria sido impossível de tirar do sítio de onde a tirei porque esta área estava cheia de acácias que tapavam a vista.

O projecto a que estive ligado consistiu num projecto de controlo de espécies invasoras, chorão e acácias e, nesta área - não em toda a mata - as acácias desapareceram, para já.

Eu sei, como sabe qualquer pessoa que tenha trabalho no controlo de invasoras, que raramente se pode falar de vitórias definitivas, o que se procura é o controlo de um processo natural que sabemos todos que, salvo raras excepções, pode sempre voltar ao ponto de partida quando se tira a pressão da mola.

No caso das acácias, não só podem ter ficado raízes que lancem rebentos de raiz ou de toiça, mesmo que, como é o caso, só se tenham cortado acácias depois de se ter a certeza de que estavam mortas, o que se conseguiu descascando as árvores. Para além disso, o mais natural é que estejam, naquele chão, milhões de sementes de acácia à espera de oportunidade.

É muito frequente haver quem, querendo livrar-se das acácias, as corte enquanto estão vivas. É um método que em relação a uma das espécies pode dar algum resultado, mas no geral acaba por aumentar o problema em vez de o resolver. Nem por isso deixa de ser um método usado frequentemente porque é muito intuitivo: se se atacar de frente um problema, com uma estratégia agressiva, não gradualista, é evidente que o problema se resolve. A questão é apenas a de mobilizar recursos suficientes para que o ataque seja verdadeiramente forte e adequado à dificuldade do controlo de acácias.

Gosto de olhar para esta fotografia e ver lá o salgueiral que lá estará daqui a uns anos (tenho esperança de que ainda venha a aparecer também o freixial, mas cada coisa a seu tempo) que tem agora muito mais oportunidade de se desenvolver e expandir, a partir dos salgueiros que já lá estão e aproveitando o espaço, a luz, a água e os nutrientes que deixam de lhe ser retirados pelas acácias.

E sei que é possível exactamente porque não fizemos o que é vulgar e intuitivo, sabemos que o controlo de invasoras é mais uma questão de informação e inteligência que de força, sabemos que temos de contar com a forma como o problema se desenvolve para poder actuar onde se pode obter o máximo resultado com o mínimo esforço e, nunca por nunca, ter a sobranceria de pensar que sabemos o suficiente do assunto para decidir em função das nossas convicções e não em função do caminho que a natureza nos vai mostrando.

Nos meus sessenta anos, quase quarenta dos quais a gerir processos naturais com objectivos de conservação da natureza, fiquei convencido de que gerir vírus, elefantes ou ecossistemas pressupõe três coisas essenciais:

1) Gerir a incerteza - qualquer que seja o processo natural que queiramos influenciar, fá-lo-emos sempre, sempre, num contexto de incerteza;

2) Optimizar o conhecimento existente - a redução da incerteza não se resolve primordialmente produzindo nova informação no meio do processo de gestão, ou adiando o processo de gestão até ter toda a informação necessária. O conhecimento novo está carregado de incerteza e introduz mais entropia no contexto de incerteza com que temos sempre de lidar. Onde vale a pena investir é na optimização do conhecimento que passou o teste do tempo;

3) Ter a consciência da nossa pequenez - a verdade é que sabemos menos do que pensamos, sabemos menos do que precisamos, podemos menos do que nos dizem e a natureza é infinitamente mais poderosa e complexa do que possamos imaginar. A humildade é a principal armadura de que dispomos para nos defender das consequências dos erros que, forçosamente, iremos cometer na gestão de processos naturais.

O corolário é que temos de adoptar as acções cujos efeitos secundários sejam menos irreversíveis e nos pareçam mais úteis, no longo prazo, ao mesmo tempo que olhamos com a maior atenção para os resultados que vamos obtendo.

A tentação de ver os resultados que queremos, e não o que realmente ali está, é o maior risco que corre o gestor de processos naturais, sejam eles controlo de invasoras, manipulação de sistemas, epidemias, restauro de ecossistemas, optimização de serviços de ecossistema, o que se quiser.

Alberto Caeiro explica tudo isto muito melhor que eu (esquecendo o segundo verso, bem entendido):

"Deito-me ao comprido na erva.
E esqueço do quanto me ensinaram.
O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,
O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa.
O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos.
O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava."

Contra-golpe? Contra-golpe?

por henrique pereira dos santos, em 11.02.21

A Lusa diz, o Observador (e, provavelmente, outros) repetem, a propósito da morte de Marcelino da Mata:

"Após a Revolução do 25 de Abril e do fim da Guerra Colonial foi proibido de voltar à sua terra-natal e viu-se obrigado ao exílio até ao contra-golpe do 25 de Novembro (que terminou com o Processo Revolucionário Em Curso)."

E estamos nisto, com uma imprensa em que há não só jornalistas que classificam o 25 de Novembro como um contra-golpe (suponho que o golpe deve ser o 25 de Abril), mas também uma data de responsáveis pelas mãos de quem passa uma frase destas sem que ninguém ache nada de estranho.

Desta vez, no Observador

por henrique pereira dos santos, em 11.02.21

Hoje tenho um artigo no Observador em que cometo largamente o crime da auto-citação.

Não encontrei outra forma de argumentar que fosse mais eficaz para fazer um mano a mano das minhas previsões com as previsões dominantes para a evolução da epidemia a partir da terceira semana de Janeiro.

Carta aberta ao provedor do Público

por henrique pereira dos santos, em 09.02.21

Carta aberta ao Senhor Provedor do jornal Público

O Público de 9 de Fevereiro de 2021 tem uma chamada de primeira página “Descida rápida do número de casos deve-se ao fecho das escolas”.

Na sua página 6, os jornalistas Filipa Almeida Mendes e Rui Barros escrevem: “A descida verificada, ao longo dos últimos dias, no número de novos casos diários de infecção pelo novo coronavírus em Portugal está relacionado com a implementação de um confinamento mais rigoroso e, especialmente, com o encerramento das escolas”.
Mais à frente, na mesma peça, citam Carlos Antunes: “Conseguimos identificar uma relação causa-efeito entre o fecho das escolas e uma desaceleração rápida … verificamos que houve uma ligeira desaceleração [dos contágios] seis a sete dias depois do início do confinamento e observamos que cerca de oito dias depois do fecho das escolas houve um reforço desta desaceleração”.

Vamos então à demonstração de que os jornalistas não fizeram o seu trabalho base - verificar factos – o que inevitavelmente os leva a propagar informação errada com impacto social relevante sobre a vida de milhares de pessoas pesadamente prejudicadas com o fecho das escolas.

Comecemos pela correcção do parêntesis recto introduzido pelos jornalistas nas declarações de Carlos Antunes, e que é muito relevante para a compreensão de toda a peça: Carlos Antunes não pode estar a falar de uma “ligeira desaceleração [dos contágios]” mas sim dos casos. A importância desta correcção é que os contágios antecedem os casos num número de dias variável, mas com forte concentração em torno dos cinco dias.

Para além deste aspecto que revela uma preocupante falta de rigor dos jornalistas na compreensão do que está em causa, o primeiro ponto para que gostaria de lhe chamar a atenção é que o Público faz uma chamada de primeiro página e uma peça assente em declarações de uma pessoa, por mais qualificada que seja, e eu acho que é, sem verificar a factualidade dessas declarações.

Esta falta de cumprimento das regras básicas do jornalismo é especialmente incompreensível quando as declarações de Carlos Antunes remetem sistematicamente para os seus modelos matemáticos que, no último mês, falharam rotundamente todas previsões que fizeram, prevendo, por exemplo, mais do dobro de casos dos que realmente se verificaram e menos de metade das mortes diárias, sem que os seus responsáveis, até hoje, se tenham dignado explicar as razões desse total desacerto entre previsões e realidade. Os modelos falharem é normal, o que não é normal é falharem com esta dimensão e os seus responsáveis não conseguirem identificar o que falhou.

A própria peça refere a surpresa dos números verificados face ao que os tais modelos matemáticos previam.
Nestas circunstâncias, mais que regras básicas de jornalismo, mandaria o bom senso que o Público escrutinasse com especial empenho os tais modelos matemáticos que têm servido para influenciar decisões de políticas públicas que implicam fortes compressões de direitos individuais, em vez de tomar as afirmações de Carlos Antunes como dispensando a verificação dos factos.

Nesta epidemia, os contágios dão-se num determinado momento, que se reflecte nos sintomas mais ou menos três a cinco dias depois, o que implica que as pessoas façam testes mais ou menos entre cinco e sete dias depois do contágio, sendo ainda necessário tempo para saber o resultado, o registar e ser publicado nos relatórios da DGS.
Como as medidas actuam sobre os contágios, uma medida como o fecho de escolas não é visível, de forma relevante, nos números de casos diários antes de nove a dez dias, na melhor das hipóteses, razão pela qual sempre, durante toda a epidemia até aos últimos dias, se considerou que eram precisos pelo menos 15 dias para avaliar os efeitos das medidas.

Pode-se admitir que seja um pouco menos, doze a catorze dias, mas nunca, em nenhum momento, se admitiu que oito dias eram suficientes para que uma medida como o fecho de escolas (cujos efeitos dos primeiros dias no contágio, de resto, seriam com certeza contrabalançados por umas eleições presidenciais que multiplicaram os contactos no dia 24 de Janeiro), se reflectir de forma relevante, no número de casos, ao fim de oito dias.
Se dúvidas houvesse – em qualquer caso estranha-se que os jornalistas não queiram saber por que razão sempre se falou em quinze dias e agora, de repente, se fala em oito dias entre medidas e efeito – os jornalistas têm fontes de informação públicas e disponíveis através de um clique, que lhes permitem verificar os factos.

O Instituto Ricardo Jorge publica todas as semanas um relatório sobre o andamento da curva epidémica e da transmissibilidade, o último dos quais é de 5 de Fevereiro.

Nesse relatório, que recoloca os casos em função da data dos sintomas e, portanto, sugere um pico de casos (não de contágios, que é ainda cinco dias antes) anterior ao fecho de escolas, não se confirma qualquer relação entre o fecho de escolas e uma aceleração da queda no número de casos.

Mesmo que os jornalistas queiram esperar pelo relatório do dia 12, para confirmar quando ocorreu o pico de casos, há uma coisa evidente: a queda brusca do R(t), isto é, da “velocidade” a que ocorrem os contágios, ocorre a 18 de Janeiro, não havendo nenhuma alteração relevante da inclinação da curva do R(t) a 22.

Esquecendo que 22 é uma Sexta-feira, e que no Domingo seguinte houve eleições, se o fecho de escolas tivesse tido um efeito relevante na diminuição de contágios, como pretende Carlos Antunes e, o que é mais grave, repete o Público sem qualquer verificação dos factos, isso teria reflexo na curva de evolução do R(t).

A verdade é que nem o gráfico que o Público usa na peça confirma a ideia de uma ligeira desaceleração seguida de uma desaceleração acentuada oito dias após o fecho das escolas.

Uma coisa é o Público achar que apoiar uma evidente campanha pelo fecho de escolas faz parte do esforço patriótico de controlo da epidemia – eu acho que tem é de dar informação, mas isso é irrelevante – outra, completamente diferente e muito grave, é achar que o pode fazer publicando informação não verificada pelo uso das regras básicas do jornalismo.

Lisboa, 9 de Fevereiro de 2021

Um populista

por henrique pereira dos santos, em 09.02.21

Para quem queira perceber o que é um populista e tenha andado distraído durante estes anos todos, sugiro que dê um salto a este artigo de Mário Amorim Lopes.

Um editorial exemplar

por henrique pereira dos santos, em 08.02.21

Manuel Carvalho escreve hoje um editorial no Público em que começa por falar sobre este video.

No essencial, trata-se de um homem que, com ou sem razão, procura defender-se do que considera uma compressão dos seus direitos individuais e da iniquidade da actuação do Estado.

Não usa de violência, não se recusa a identificar-se, mantém procedimentos básicos de protecção em relação à epidemia, em especial o distanciamento físico. É um homem isolado, desarmado, frente a dois polícias, num primeiro momento, mais meia-dúzia de polícias num segundo momento, chamados pelos dois primeiros, limita-se a desobedecer de forma não violenta perante o que lhe parece ser um abuso da autoridade do Estado.

É completamente irrelevante se tem razão ou não, isso ver-se-á mais tarde nos tribunais, se a tanto chegar o caso.

Perante um homem isolado que contesta pacificamente o poder, dentro da longa tradição de desobediência civil que está associada à defesa dos direitos individuais contra o abuso de poder do Estado, com ou sem razão (friso bem este aspecto), o que tem a dizer Manuel Carvalho, o director de um dos diários mais influentes do país?

Que "em circunstâncias normais, a atitude desse homem mereceria uma condenação sem reservas. Nos dias que correm não faltou quem apoiasse a insolência perante a autoridade".

Quando a imprensa está, por definição, a favor do poder e contra os indivíduos que, pacificamente, se manifestam pelo que consideram os seus direitos individuais inalienáveis, condenando a sua "insolência perante a autoridade", estamos conversados.

O editorial exemplar na demonstração das razões profundas da crise do jornalismo.

O pior cego

por henrique pereira dos santos, em 08.02.21

"Quem observar os números pode observar uma coisa , que sempre quiseram negar, muitos, o brutal efeito que teve o fecho das escolas na diminuição dos contágios... Se abrirem nas mesmas condições e sem testagem voltaremos ao mesmo!"

Este é um comentário num post anterior aqui do Corta-fitas, mas comentários destes são aos pontapés em todo o lado. Ontem era alguém a dizer, noutro lado, que não é preciso ter um QI muito elevado para perceber que haver dois milhões de pessoas que deixam de circular, claro que tem de ter impacto.

Só que isto não é uma questão de QI, é uma questão de informação.

Portanto, o melhor é ir aqui, onde estão os relatórios semanais do Instituto Ricardo Jorge sobre a curva epidémica e a transmissibilidade, e ver com os próprios olhos o que lá é dito sobre a curva epidémica - não a dos gráficos fatelas que eu uso para ir, rápida e grosseiramente, procurando entender o que se passa, mas sim a curva corrigida com a recolocação dos casos em função do início de sintomas - em cada semana, incluindo o cálculo do famoso R(t), que mede a transmissibilidade da infecção em cada momento (é preciso ter a noção de que este parâmetro é calculado indirectamente e à posteriori, portanto a sua leitura tem de ser feita com algum cuidado).

A curva epidémica aponta para um pico de casos no dia 18 de Janeiro (esperarei pelo relatório do dia 12 para me certificar que o pico continua aqui, do que duvido) e do R(t) é dito:

"Recentemente observou-se um aumento acentuado do R(t) em poucos dias (6 dias), tendo passado de 0,96 (IC95% 0,95 a 0,98) a 25.12 para 1,21 (IC95% 1,19 a 1,24) a 30.12, ou seja, um aumentou 0,25. Este aumento do R(t) indica o início de uma nova fase de crescimento da incidência de SARS-CoV-2.

Depois de dia 01.01.2021 observou-se um período de decréscimo do R(t), tendo passado de 1,23 (IC95% 1,20 a 1,26) a 01.01.2021 para 1,12 (IC95% 1,10 a 1,14) a 12.01.2021. Entre 12.01.2021 e 18.01.2021 observou-se um aumento do R(t) de 1,12 para 1,16.

Desde dia 18.01.2021 que se observa uma redução acentuada do R(t) de 1,18 (IC95% 1,16 a 1,20) para 0,87 (IC 95% 0,86 a 0,88) a 31.01.2021 (em 14 dias diminuiu 0,31). Este resultado representa uma tendência decrescente da incidência de SARS-CoV-2 em Portugal."

A menos que alguém esteja disposto a explicar como é que um acontecimento a 22 de Janeiro tem efeitos a 18 de Janeiro, parece evidente que "quem observar os números" só pode concluir que o fecho de escolas pode não ter sido inútil (no sentido que poderá, em tese, ter acentuado a descida do R(t), embora não se veja na curva o menor sinal de se ter alterado a partir desse dia), mas seguramente não foi nem a causa da descida da transmissibilidade, nem teve um efeito decisivo no que se está a passar.

Claro que para quem não queira ver, não há luz suficientemente forte que permita revelar a realidade.

PS - O que era de valor era o Instituto Ricardo Jorge publicar o mesmo gráfico do R(t) onde coloca umas barras verticais com medidas administrativas, substituindo as medidas administrativas pela alteração das condições sinóticas ao longo do tempo, sempre se avaliava o que adere melhor às variações do R(t). Podiam pedir ajuda ao Instituto Dom Luís, que tem muita prática de avaliações desse tipo

Qualquer funcionário público confirma isto

por henrique pereira dos santos, em 07.02.21

"Porque aos problemas de sempre – as cunhas, os favores e a dependência – juntou-se uma administração tão medíocre quanto omnipotente e omnipresente. Um administração dos “filhos de algo” do regime: os maridos estão nas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, as mulheres nas Misericórdias e num qualquer grupo de trabalho, os filhos no centros da Segurança Social, as noras nas comissões de combate à causa do momento e num gabinete de estudos, os sobrinhos no instituto ou no observatório, ou em ambos, a prima na unidade de missão. São maioritariamente socialistas porque ser do PS é uma garantia de que se é melhor sucedido nestes percursos e menos escrutinado.

...

a sua forma tentacular de exercer o poder conduziu a uma decadência técnica e moral da administração pública e política: ninguém é responsável por nada, o que disseram ontem desdizem hoje. O seu objectivo não é fazer mas sim sobreviver no cargo."

Helena Matos, hoje no Observador.

E não, isto não se resolve olhando para administração pública com os olhos da gestão privada, resolve-se olhando para a administração pública sabendo que a administração pública não pode ser gerida com as regras da administração privada (o que define a burocracia é o facto dos seus decisores não se poderem apoderar dos resultados que geram) e que o Estado precisa de ser desenhado em função dos seus servidos e não dos seus servidores.



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