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Brasil

por Vasco M. Rosa, em 08.08.11

 

Público de domingo (ou de sábado) fez reportagem apressada sobre os portugueses que buscam no Brasil a solução para o impasse das suas carreiras profissionais por cá. Digo apressada porque não vai ao fundo da questão, que é a de se saber se o Brasil que nos pintam é aquele que vamos encontrar e se o que vamos encontrar realmente compensa a mudança. Nalguns pontos, compensará claramente; mas noutros ficará muito longe disso, evidentemente. 

 

O Rio vive numa bolha imobiliária tão maluca, que amiga minha no outro dia se me confessou milionária depois de avaliação da sua casa no Baixo Gávea, embora a zona fique invariavelmente debaixo de água e isolada, quando chove muito, o que naturalmente acontece. Os preços nos supermercados são proibitivos: uma pequena garrafa de água San Pellegrino, 5 euros! Uma mera fotocópia, quase um euro. Táxis têm tarifas europeias e não se vai a lado nenhum por menos de 10 euros. Ao lado disso, todos os graves problemas de segurança, até quando se vai levar o

cão a passear no bairro. Arpoador e Ipanema são um local muito adorável, mas ao fim de semana a quantidade enorme de lixo deixado na areia choca qualquer um, sobretudo daqueles que pagam uma fortuna pelo metro quadrado perto dali. O interior do país não tem estradas dignas desse nome, não há linha férrea e os aeroportos são de terceiro mundo em medidas de serviço e comodidade, e concebidos sob critérios de há quarenta anos atrás. E a cada semana estalam escândalos de corrupção e inépcia ao nível da administração central, regional e local, paralisando as mudanças infra-estruturais de que o país carece para se erguer. A derrocada de cidades serranas no RJ está longe de ser curada, simplesmente porque a burocracia e o desleixo tudo vencem. Portanto, se a ideia é realmente melhorar de vida, convém pensar alhures... 

 

A bota está apertada

por Vasco M. Rosa, em 27.07.11

 

Dá dó ver os noticiários da televisão, continuação menos hard do track matinal que é de se fugir... Num momento da vida nacional de tão evidente complexidade, em que seria tão valioso termos uma comunicação social de qualidade superior, as décadas de declínio do jornalismo (na razão inversa da sua «habilitação» universitária massificada) mostram a bruta realidade dos seus frutos podres.

É mais uma a juntar à desgraça da complacência, do esquecimento e da impunidade que a política apartidarizada criou. A forma vil e grave como ontem Alfredo Barroso se comportou na SIC Notícias é de somenos comparada a esta sombra escura que nos tolda. Mas a sua indiferença diante do colapso económico-financeiro e anímico de Portugal que os seus amigos orquestraram agudamente, impunemente, merece indignação. Que os socialistas cobrem seja o que for a este governo, está muito para lá do razoável — e do pudor!!

A ambiguidade das palavras

por Maria Teixeira Alves, em 27.06.11

O Expresso publicou no último sábado um novo estatuto editorial. A primeira pergunta que nos vem à mente é porque um novo estatuto? Havia alguma coisa de mal com o anterior? A segunda coisa que nos vem à mente é porquê agora? Porque o Governo mudou? Ou porque o Director do Expresso mudou?

Lendo o que está escrito no novo estatuto editorial, chama a atenção os pontos 7 e 8:

 

7. O Expresso sabe, também, que em casos muito excepcionais, há notícias que mereciam ser publicadas em lugar de destaque, mas que não devem ser referidas, não por auto-censura ou censura interna, mas porque a sua divulgação seria eventualmente nociva ao interesse nacional. O jornal reserva-se, como é óbvio, o direito de definir, caso a caso, a aplicação deste critério.

8. O Expresso sabe, igualmente, que a publicação insistente de determinados assuntos - do crime e do sexo às baixezas da vida política e económica - poderia aumentar a venda de exemplares, mas recusa-se a alimentar qualquer tipo de sensacionalismo que ponha em perigo o jornalismo de qualidade que sempre pretendeu fazer (...).

 

Há coisas que são óbvias e implícitas e como tal não precisam de estar escritas, porque ao estarem escritas tomam forma de lei, e nessa medida tornam-se perigosas. Evidentemente que, se calhar venderia muito saber quantos políticos ou gestores são discípulos das taras strauss-khanianas, mas eu percebo que um jornal como o Expresso não as publique.  Mas é preciso isto vir escrito numa tábua de mandamentos? Não. É demasiado vago, e por isso exige logo que se elenque exaustivamente os casos que cabem neste ponto 8, sob suspeita de caber lá tudo.

O ponto 7 é mais dúbio e por isso mais criticável. O que são casos muito excepcionais? Até onde vai esse conceito? "O jornal reserva-se o direito de definir caso a caso a aplicação deste critério", apetece-me perguntar logo: Querem um lápis azul?

 

Depois de defender a independência do jornal e dos jornalistas, o jornal parece desorientado numa sucessão de normas que contradizem as anteriores. Reparem :

"1. O Expresso defende, desde sempre, a liberdade de expressão e a liberdade de informar, bem como repudia qualquer forma de censura ou pressão (...)" para depois dizer no ponto 7. "há notícias que mereciam ser publicadas em lugar de destaque, mas que não devem ser referidas"

 

"5. O Expresso sabe, que é indispensável, em cada momento, distinguir entre as notícias - que deverão ser, tanto quanto possível, objectivas, circunscrevendo-se à narração, à relacionação e à análise dos factos para cujo apuramento devem ser ouvidas as diversas partes - e as opiniões que deverão ser assinadas por quem as defende, claramente identificáveis e publicadas em termos de pluralismo". Para logo dizer: "

O Expresso toma posição através de editoriais não assinados que vinculam a posição do jornal".

 

Já que insistem em regras, então falta aqui uma regra fundamental:

Os jornalistas podem não se rever na opinião editorial do jornal não assinado... e isso devia estar salvaguardado. Porque ao não estar assinado o jornal impõe uma ideologia a todos os jornalistas. Pode-se sempre cair na ditadura do politicamente correcto, que é em si, um obstáculo à liberdade de pensamento e de expressão.

Depois é preciso ver que a imparcialidade pura não existe. Basta escolher uns factos em detrimento de outros e já se está a cair na falta de parcialidade.

 

Pelo que o melhor é deixarmo-nos guiar pelo velhinho BOM SENSO.

Cartilha da desinformação

por José Mendonça da Cruz, em 06.06.11

Os agentes socialistas em cargos jornalísticos registam a vitória da direita, mas não gostam dela. Vão agora começar o seu trabalho:

 

1º passo -  A MENORIZAÇÃO DA VITÓRIA.

A capa e o editorial do Público de hoje enunciam um programa. Na capa, um Passos Coelho sucumbido ao peso das circunstâncias. Nem o Passos vitorioso, nem o Passos do programa liberalizante que foi justificado; não, o Público dá-nos um Passos vergado ao peso. O editorial é mais explícito: explica-nos que não foi Passos que ganhou, foi Sócrates que perdeu; diz-nos que o país político mudou, mas isso não tem importância, porque (acha o Público) o país continua na mesma. E remata sentenciando que o alto nível de abstenção sinaliza que «a crise inspirou mais a indiferença do que o sentido de urgência». Estejam atentos e divirtam-se a ver como estes 3 elementos (não foi uma vitória; estamos na mesma; nem sequer houve eleições) serão glosados nos próximos dias pelos Teixeiras, os Nicolaus, os Metellos, os Costa Pinto, os sociólogos, os Carvalho&Judite, os Alcides, os Costa).

 

2º passo -  A PROMOÇÃO DO HERDEIRO

Nas próximas semanas e meses teremos desenvolvidas notícias e debates sobre as enormes qualidades pessoais, morais, políticas e de gestão de António Costa, Francisco Assis e António José Seguro. Em cada um deles, os agentes que ocupam cargos jornalísticos descobrirão capacidades. Como se lembram, Ferro Rodrigues também tinha sido «o melhor ministro dos assuntos sociais da história da democracia», embora nunca fosse explicado porquê. Como se lembram, António Vitorino foi «o mais respeitado comissário europeu», embora nunca tenhamos sabido por que feitos. Como se lembram, José Sócrates foi um «dos mais capazes, senão o mais capaz» dos membros de governo de Guterres, embora, esse, já saibamos de que é «capaz» realmente. Estejam, portanto, atentos, e divirtam-se, com os perfis, as entrevistas e os testemunhos de amigos acerca destes heróis da coisa pública, em breve, na imprensa, na rádio e na televisão.

 

3º passo - OS RETOQUES NA MONTAGEM

Desde hoje e daqui para a frente, a sequência de cada notícia será alterada. Se bem se lembram, sempre que houve um tema noticioso desfavorável ao PS, a apresentação seguia esta ordem: «O PS desmente que», vendo-se e ouvindo-se um membro do PS, desmentindo; «a acusação do PSD/CDS/CDU/BE de que», vendo-se/ouvindo-se a breve acusação do partido em causa; e, remate, «mas o PS diz que essa posição revela má fé», seguindo-se nova intervenção socialista.

Com um governo de direita passará a ser assim: 1. acusação do PS; 2. Resposta do governo de direita; 3. Réplica do PS.

Vejam com atenção e divirtam-se com o descaramento da montagem.

 

4º passo - OS RETOQUES NO ALINHAMENTO

Lembram-se dos erros orçamentais grosseiros relegados para o minuto 47 dos telejornais ou uma página par em baixo? Lembram-se das re-re-reinaugurações de obras promovidas ao primeiro minuto ou à 1ª página e uma ímpar inteira? Troquem, por favor, a ordem. A partir de hoje, tudo o que for desfavorável ao governo da direita terá honras de primeira página e abertura. Tudo o que for prova de bom trabalho, virá depois das facadas, dos atropelamentos, dos desastres, das graçolas internacionais, dos palestinianos e dos instantâneos. Prestem lá atenção, não se habituem, mas divirtam-se. O melhor jogo de todos é tentar encontrar o critério jornalístico ausente. 

 

5º passo - A REMODELAÇÃO DO LÉXICO

Lembram-se dos «tiros no pé» do PSD quando alguém falava fora da estrita sintonia com o que outra fonte do PSD dissera? Lembram-se do «saco de gatos»? Lembram-se da «desintegração»? Lembram-se do partido «à beira da extinção»? Esqueçam, acabou-se. A partir de agora, todas as dissensões, todos os conflitos, todos os ataques e contradições entre socialistas serão o espelho de «um debate interno muito rico», a prova «da vivência democrática do PS», uma sã inevitabilidade dentro de um partido que «é a charneira da democracia». Estejam atentos e divirtam-se. Divirtam-se muito porque vai chegar a ser ridículo.

 

6º passo - AS TRAPALHADAS

Lembram-se de como Sócrates mentiu sobre o défice de 2009? Lembram-se de como mentiu sobre o défice de 2010? Lembram-se de como mentiu sobre o crescimento? Lembram-se de como mentiu sobre o desemprego? Lembram-se da Cova da Beira? Lembram-se das vendas de imóveis públicos? Lembram-se de como mentiu sobre o FMI? Lembram-se de como mentiu sobre o Acordo de Entendimento? Lembram-se de como mentiu sobre os pagamentos atrasados? Lembram-se de como mentiu sobre as nomeações?

Lembram-se do silêncio noticioso, ou da vida surpreendentemente curta das notícias?

Pois a anemia jornalística acabou. Agora vai ser tudo «trapalhadas». Coelho espirrou? Trapalhada! Bagão Félix faz cumprir o Acordo? Trapalhada! Portas corta os laços com Chavez? Trapalhada! Coelho baixa substancialmente a TSU? Trapalhada! O ministro das Finanças disse bom dia, e Passos deu boa tarde? Contradição, impreparação, incompetência! E etc.

Observem com atenção e divirtam-se. O travesti de jornalismo é uma coisa muito engraçada.

 

 

 

Há anos que os principais diários portugueses vêm registando quedas de audiência. É justo e merecido. Basta ler a cobertura desta campanha eleitoral para desejar que a queda de audiências se acentue ainda mais.

Há anos que os telejornais privados tentam em vão ultrapassar as audiências do jornal das 8 da RTP. Basta ver a cobertura desta campanha eleitoral para desejar que nunca o consigam.

Alguns exemplos.

Durante esta campanha eleitoral emergiram três notícias grandemente relevantes e profundamente graves que deixariam agitado e lançariam na senda da investigação qualquer jornalista minimamente sério e medianamente inteligente.

Soube-se, primeiro, que o governo andava a fazer dezenas de nomeações de última hora (que, ao contrário do que foi dito, produzem efeito no momento, e não apenas quando publicadas em Diário da República) e, do mesmo passo, a dar instruções para as manter secretas.

Sobre isto, um «jornalista» da Sic, destacado para a campanha do PSD, disse que «era um caso de campanha», e que «vamos ver quanto tempo dura». Outro «jornalista» da Tvi foi mais longe, e ralhou com a fonte, declarando que Passos Coelho faltou à promessa de não levantar polémicas, e que era «um caso de faz o que eu digo não faças o que eu faço».

Ver um jornalista protestar porque lhe puseram uma notícia no prato, é surpreendente e confrangedor. E tem uma de duas explicações possíveis: o homem é estúpido ou é socialista. Jornalista é que não é.

Soube-se, em segundo lugar, que o governo falsificara as contas da execução orçamental: atrasara o pagamento de 200 milhões de euros para parecer que a despesa estava a descer 3,6%, quando, incluindo essas verbas, a despesa teria descido 1,6%, abaixo do compromisso com a missão tripartida.

Sobre isto, os jornalistas das privadas voltaram a falar em «caso», após o que se remeteram a insistente silêncio. E quando Sócrates deu para a falsificação uma explicação mentirosa (que eram só pagamentos para a Caixa de Aposentações) calaram-se e continuaram calados. O Público do dia seguinte foi bastante mais longe. No seu termómetro de campanha, punha Sócrates em alta, porque tinha «estado no seu melhor» ao contra-atacar.

Ver um jornal que já foi de referência elogiar um político porque mentiu com grande ânimo e determinação é supreendente e confrangedor. E tem, é claro, uma de duas explicações: o autor do termómetro de campanha é estúpido, ou, então, é socialista. Jornalista é que não é.

A terceira notícia gravíssima deu-a o Diário Económico (a imprensa económica, com relevo para o Jornal de Negócios, é, hoje, um oásis de jornalismo no meio da mediocridade geral). Revelou o Diário Económico que, em Abril, o governo Sócrates obrigou o Fundo de Estabilidade da Segurança Social a comprar 180 milhões da sua dívida. Qualquer jornalista, qualquer patriota, não deixaria mais em paz um ainda primeiro-ministro (sobretudo um que se proclama defensor do Estado Social e faz terrorismo contra todos os outros) que sorve dinheiro de um fundo criado para garantir que não há desordem no pagamento de reformas, subsídios e pensões.

Mas à notícia do Diário Económico seguiu-se o silêncio geral. Neste caso, o calado não é o melhor. É estúpido ou é socialista. Jornalista é que não é.

E nem quero recordar as manchetes de Fevereiro (sim, há 3 meses) em que o Expresso anunciava que o défice tinha caído a pique e que «FMI já não vem». E nem quero lembrar a descoberta da Visão, esta semana, de que os fantasmas são de direita.

No meio disto (aceito que talvez por medo) vem sendo a governamentalizada RTP a fazer uma informação menos escandalosa.

Seja como for, também ela terá que responder, no dia 6 de Junho, pela orgia de sondagens incompetentes ou manipuladas com que nos foi enchendo os ouvidos de «empates técnicos» e «PSD não consegue descolar». É esta espécie de trabalho pago por fora que passa, hoje, por jornalismo.

Ler os outros

por João Távora, em 21.05.11

Henrique Raposo sobre a imprensa que "merecemos": Ontem, a ministra da saúde disse "os portugueses vão demasiado ao médico". Não houve polémica, não há buzz. Tiros no pé? Pois, o PS também os tem. Os média é que não ligam a esses tiros no pé socialista. Parece-me que o voto útil (do BE para o PS) também está activo nas redacções.

Não posso estar mais de acordo...

por Maria Teixeira Alves, em 12.05.11

 

... Com esta sentença de Henrique Monteiro:

"Escusam de vir com argumentos de que por ser jornalista não devo ter opiniões. Um jornalista pode e deve ter opiniões".

 

As pessoas julgam que um jornalista tem menos opinião quando descreve factos, mas esquece-se que na impossibilidade de descrever todos os detalhes de um facto, tem de escolher, e nessa escolha já vai uma subjectividade, logo uma opinião. A ideia de jornalistas sem opinião não passa de uma quimera.

Normalmente quem critica que os jornalistas tenham opinião, no fundo criticam por não ter a "sua" opinião.

 

Já agora, uma coisa é dar liberdade e conceder credibilidade à capacidade de análise de um jornalista. Acho muito bem que os jornalistas façam análises e interpretem a realidade, sem medo de terem opinião. Agora outra coisa, é fazer entrevistas em que o entrevistador se põe no lugar de entrevistado, com sentenças do género "eu sou contra a privatização da CGD", ou sou a favor disto e daquilo, ou quando um entrevistador, ou mesmo moderador de um programa, se entusiasma e se põe a dar sugestões aos políticos, "porque não se sentam à mesa para discutir", como se o entrevistador se assumisse como um intermediário da paz. Esse papel é perigoso, porque pode levar a que um dia alguém lhe diga "quem é que pediu a sua opinião?".

Mas é apenas a minha opinião, claro.

 

 

 

 

A favor de Portugal

por João Távora, em 02.04.11

Quem ouvisse na sexta-feira pela 1ª vez o programa “Contraditório” da Antena 1, um debate entre Ana Sá Lopes, Carlos Magno e Luís Delgado, três afamados jornalistas da nossa praça, atendendo ao nome do programa certamente estranharia tanta unanimidade. Os três  manifestavam-se contra  Cavaco Silva e Passos Coelho, rejeitando a solução FMI antes das eleições, como senas actuais circunstâncias  tal fosse uma questão de  vontade. Eu, que sigo com alguma frequência este programa da rádio Estatal paga com o dinheiro dos meus impostos, habituei-me a esta harmonia “corporativa” e consensual complacência para com a governação de José Sócrates, ora visto como vítima de “campanhas negras” ora de perversas traições e factores exógenos que conduziram o País ao actual estado de pré-falência. Ironicamente tem sido o cordato Luís Delgado,  o ex-fiel paladino de Santana Lopes e actual consultor da PT, o mais reverente defensor da governação socialista. Convicções, são convicções. 

Aceito desportivamente o endémico e desequilibrado tendenciosismo jornalístico, um fatídico reflexo da sociologia lusa: é o preço a pagar pela fraqueza das nossas elites, pelos séculos de fome, e paternalismo provinciano. Mas tendo em conta a extrema gravidade da situação que se vive e dos valores postos em jogo, parece-me hoje premente e indispensável um sonoro apelo ao equilíbrio e moderação por parte dos jornalistas comentadores, que, sem que para tal tenham sido mandatados democraticamente, exercem desmesurada influência na opinião pública e consequentemente nos desígnios do eleitorado, como tal sendo co-responsáveis pelo estado de coisas. Ora justamente na Grécia onde se vivem por estes dias amargos um tremendo aperto económico e ajustamento de expectativas, o ódio popular é repartido democraticamente pelos políticos e... pelos jornalistas.

 

Por falar em coisas sérias:

por João Távora, em 31.03.11

 

Descuplem qualquer coisinha, mas um jornalismo independente significa também a promoção da diversidade e sã concorrência, até nas imprescindíveis agências de comunicação.

Jornalismo à rasca

por João Távora, em 12.03.11

 

O aparato com que a televisão estatal intermedeia as reportagens da geração à rasca e “directos” ao estúdio ao lado, onde uma mini redacção improvisada exibe e comenta imagens da tragédia no Japão, constitui uma verdadeira parábola sobre a pobreza franciscana do nosso jornalismo… e sobre o relativismo editorial.

Almas gémeas

por José Mendonça da Cruz, em 23.02.11

 

  

Há duas entidades em Portugal que apregoam que a situação das finanças públicas não é preocupante. São elas o primeiro-ministro e o jornal Expresso.

Do primeiro-ministro, já não se esperaria outra coisa. Todos já compreendemos que está decidido a sacrificar todos à sua própria sobrevivência. Gastará mais uns milhões da propaganda a assentar pedras em Trás-os-Montes, a visitar obras de túneis e a proclamar futuros eléctricos. E, do mesmo passo, sonegará informação e números, proclamará como vitória e coragem suas arruinar o país e subtrair-nos mais dinheiro em impostos, enquanto ocultará todos os indicadores da sua acção incompetente e perdulária.

Do Expresso, algumas pessoas, que não eu, esperariam mais. Mas, com a sua manchete de sábado sobre como o défice descera - acompanhada de omissão clamorosa e provavelmente negociada com a fonte governamental dos dados sobre a subida da despesa ou das notícias sobre os artifícios contabilísticos a que o governo recorreu - com essa manchete o Expresso atestou que não é hoje um orgão de comunicação social, mas sim um orgão de transmissão socialista.

O primeiro-ministro não tem remédio. Lesar-nos-á gravemente até que se acabe a tibieza.

O Expresso, julgo eu, também não. Mesmo que algumas pessoas poucas dentro do Expresso beneficiassem de recordar a letra e o espírito do Estatuto do Jornalista (lei 1/99, actualizada), e depois tivessem um estremecimento de pudor, de brio profissional, um leve incómodo, ao menos.

O qual Estatuto do Jornalista reza, entre outras coisas, assim:

 

artigo 3º - Incompatibilidades

1 - O exercício da profissão de jornalista é incompatível com o desempenho de:

      (...)

      b) Funções de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem, bem como de planificação, orientação e execução de estratégias comerciais;

 

artigo 14º - Deveres

1 - Constitui dever fundamental dos jornalistas exercer a respectiva actividade com respeito pela ética profissional, competindo-lhes, designadamente:

      a) Informar com rigor e isenção, rejeitando o sensacionalismo e demarcando claramente os factos da opinião;

      (...)

      e) Procurar a diversificação das suas fontes de informação e ouvir as partes com interesses atendíveis nos casos de que se ocupem;

      f) Identificar, como regra, as suas fontes de informação, e atribuir as opiniões recolhidas aos respectivos autores.

      (...)

 

São ainda deveres do jornalista:

      j) Não utilizar ou apresentar como sua qualquer criação ou prestação alheia;

Quanto pior, mais vende?

por João Távora, em 22.02.11

 

 

Pela enésima vez a revista Sábado surge nas bancas trazendo a tema de capa os pretensos vícios e taras das nossas ancestrais elites. A mensagem subliminar é a de que a m…é toda a mesma; de D. Afonso Henriques, um tarado que batia na mãe ao jovem D. Manuel II que se amancebou com uma corista de vaudeville, todos eram igualmente pervertidos como o lado mais obscuro de toda a gente. A exploração do mais básico voyeurismo popular, com este tipo de artigos sensacionalistas só cola devido ao ressentido preconceito indígena e à proverbial ignorância dos portugueses quanto à sua História. De resto, os que alimentam esta cultura desconstrutiva do escãndalo, seguem um conhecido guião revolucionário, os intentos daqueles que anseiam por um povo mais e mais desmotivado, verdadeiramente órfão de grandeza e pobre de ideais. Quanto pior, melhor!

 

Adenda: obrigatório é ler este texto do Nuno Resende

Demasiado conservadores...

por João Távora, em 22.12.10

 

Ontem Graça Franco, num debate sobre o balanço de 2010 na SIC notícias afirmou que uma das causas do descalabro nacional se deve… aos jornalistas que não abrem horizontes para além das agendas estabelecidas, demasiado conservadores, com resistências à novidade. Ouviam impávidos estas palavras Henrique Monteiro, António José Teixeira (que anda pálido e com ar deprimido, coitado)...

Imagem daqui

 

O que faz a fidelidade a uma convicção política: o Público de hoje na sua rubrica de última página "Sobe e Desce" classifica a subir Julian Assange com o argumento de que “a revolta que corre nas redes sociais contra a detenção do fundador da WikiLeaks saltou ontem as fronteiras da Internet em dezenas de manifestações na Europa (…)” um wishfull thinking que somos convidados a confirmar na página 20 do mesmo jornal: 50 manifestantes 50 juntaram-se em Hide Park enquanto ao final da tarde de ontem em Lisboa no Chiado se juntaram ao movimento “dezenas de pessoas”, menos do que aquelas que se terão manifestado em Madrid e em Barcelona. Estou convencido que um qualquer movimento de apoio aos piratas Somalis faria melhor…

 

Sobre o assunto, é obrigatório ler isto

Emissora Nacional: 75 anos de rádio difusão

por João Távora, em 19.08.10

 

Assumindo que a difusão radiofónica foi um acontecimento que alterou de forma assinalável o quotidiano português, seria da mais elementar justeza uma condigna efeméride quando se celebram as suas bodas de diamante. De facto foi há 75 anos, a 1 de Agosto de 1935 que a Emissora Nacional iniciou as suas emissões regulares: sob direcção de Henrique Galvão, Manuel Bívar e Pires Cardoso nomeados pelo então ministro das Obras Públicas e Comunicações, Duarte Pacheco, a profissionalização da telefonia em Portugal iniciava o seu percurso.

Acontece que, para grande contrariedade da intelligentzia estabelecida, a História da rádio pública perpassa a gloriosa revolução dos cravos e a estética desde então implantada, criando indisfarçáveis embaraços aos virtuosos celebrantes. Acredito que esta revisitação produza um certo efeito de "espelho" e assuste-os: hoje como então a “emissora nacional” reflecte o regime que a promove e sustenta.

É condicionada por essa ambiguidade e numa lógica facciosa que a Antena 1 marca o acontecimento com uma rubrica quotidiana em prime time intitulada “27.000 Dias de Rádio” sob a direcção de José Nuno Martins. O programa possui a ingrata tarefa de rememorar acontecimentos, programas e personalidades, nem sempre bem vistas pela "situação". O problema é que a História jamais deveria ser objecto de jornalistas que tendem a confundi-la com um instrumento de propaganda das suas crenças, preconceitos e tabus. Isso não é serviço público, é a perversão da sacrossanta democracia de que eles se afirmam exclusivos guardiões. Suspeito que muitos o fazem conscientes do seu desmesurado poder, confundindo o seu nobre ofício com a pretensão a "educadores do povo", sem para tal possuírem habilitações ou tenham sido sufragados. Nos anúncios ao programa "27.000 Dias de Rádio" que escutei, justificavam-se repetidamente afirmando que “recordação não é saudade”. De resto, afirmar que Salazar estava “passado”, chamar "arenga" a um seu discurso neste programa de 12 de Agosto, é um dos múltiplos exemplos dos levianos julgamentos históricos emitidos, e que ocasionalmente abrangem a própria instituição e seus antigos colegas de profissão. Irónico será quando daqui a cinquenta ou cem anos, outros julguem esta geração e os agentes deste pútrido regime, o seu trabalho, vícios de forma e de conteúdo, as suas superstições e enviesamentos culturais. Uma incontornável armadilha para os que pretendem fazer da História uma arma de arremesso político, interpretá-la numa perspectiva instrumental e maniqueísta.

O jogo viciado

por João Távora, em 19.08.10

 

(...) No referendo ao aborto percebeu-se claramente que a maioria das redacções estava a favor do ''sim'' e que no referendo à regionalização a maioria estava a favor do ''não''. Por muito que se tentasse equilibrar isso com os artigos de opinião, quando chegava à altura das reportagens e à forma de apresentá-las, qualquer exagero da campanha de um lado ou de outro eram vistas de forma diferente. Radicalismos de um lado eram desculpados e de outro eram atacados e colocados em parangonas, ou glosados em cartoons. O erro está em achar-se que os jornalistas são completamente objectivos. Se se reconhecer que o jornalista não é completamente objectivo, conseguem encontrar-se formas de compensar essa subjectividade da profissão. É importante encontrar esses equilíbrio dentro das próprias redacções.

 

José Manuel Fernandes em entrevista ao jornal i

Serviço público

por João Távora, em 11.08.10

 

Nesta estação tola é aconselhável (compensa) uma visita ao Blogue Ambio, um espaço de informação e reflexão sobre ambiente e sociedade. Obrigatória a leitura das análise às notícias sobre os incêndios florestais: serão inconciliáveis o jornalismo e a sobriedade?

A nossa imprensa "livre"

por João Távora, em 06.06.10

 

Definitivamente a realidade gera acontecimentos que são um grande incómodo para o jornalismo modernaço: atrevem-se a acontecer sem aviso, sem um press release, é o que nos relata hoje José Queiroz, o provedor do leitor do Público. Foi o que aconteceu na Segunda-feira passada, quando uma procissão iluminou a noite no Porto, reunindo cerca de cinquenta mil crentes que percorreram da Igreja da Lapa até à Sé, num mar de velas acesas em honra da imagem da Nossa Senhora de Fátima. Consta que o evento foi inusitado, que há mais de cinquenta anos nada de parecido se via na cidade, para mais com intervenção de individualidades públicas pouco prováveis. Acontece que o mui portuense jornal Público, com o argumento de que “não terá sido avisado”, ignorou liminarmente este sucesso, sendo certamente por mera coincidência a notícia da primeira página subsequente, o almoço entre José Sócrates e os homossexuais.

Já desconfiávamos, mas confirma-se que por estes dias fracturantes o arquétipo duma notícia, mudou definitivamente: para o ser, tem que ser expectável e anunciada, não se vá tornar num incómodo para o redactor, ou pior, contrariar as suas “convicções editoriais”.

 

A entrevista de João Céu e Silva ao Senhor Dom Duarte publicada na revista Notícias Sábado do Diário de Notícias, confirma um competentíssimo jornalista e revela um entrevistado culto e sabedor, com uma interessante e desempoeirada visão sobre os grandes temas políticos da actualidade. Estranho no entanto a parangona de primeira página com uma frase descontextualizada, a respeito das fatais questões de costumes tão na moda. De resto ao longo do artigo esses temas são explorados e destacados ao limite, coisa que não me parece inocente, seja por razões políticas ou comerciais. Tal não seria um problema se os temas “fracturantes” sobre os quais o Duque de Bragança possui uma opinião legitimamente conservadora, não tendessem a esbater a importância doutros, politicamente bem mais reveladores e urgentes sobre a complexa realidade que aflige os portugueses. Essa análise, preparada e perspicaz está lá, nas linhas e nas entrelinhas, para quem quiser ler.

Outra fascinante entrevista é a publicada na edição de fim-de-semana pelo jornal i ao neurologista e Alexandre Castro Caldas: uma bela e interessante peça jornalística de Sílvia Oliveira, a ler com atenção.

O quarto poder

por João Távora, em 12.05.10

 

As baboseiras proferidas por boa parte dos jornalistas na cobertura da visita do Papa são muitas e demonstram regra geral além do preconceito uma confrangedora ignorância: ontem uma jornalista da Antena 1 afirmava encontrar-se de costas para o Teatro D. Maria e de frente para a estátua do Rossio. Digo isto sem escárnio e com tristeza, pois parece-me que esta profissão, designada também como "o quarto poder"  deveria exigir uma qualificação cultural e cientifica superior à média mais que suficiente para saber que a estátua daquela praça representa D. Pedro IV. Mas isso não interessa nada: a vulgaridade e o soundbite é o que chega para alimentar as necessidades e expectativas da adolescentocracia.



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