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Quem quer viver na republica das laranjas?

por Jose Miguel Roque Martins, em 04.04.21

Goste-se ou não da actuação de Marcelo, o facto é que ele reinventou a  Presidência da República. Nunca, até agora, tivemos um Presidente tão publicamente presente, tão interventivo, tão influente na vida publica, como Marcelo. Passámos do semipresidencialismo passivo para o interventivo. Do cirúrgico para uma presença  generalizada.

Em si mesmo, parece-me positivo termos um órgão de soberania importante, com vida própria, sobretudo num momento de eclipse de maiorias parlamentares, que se deve acentuar no futuro próximo.  A tempos diferentes, têm que corresponder respostas diferentes. Mas em tudo, têm que existir limites.

O cumprimento estrito da lei, já pode corresponder a um acto de vandalismo democrático. Lembro a esse respeito a destituição do parlamento, por Jorge Sampaio,  que apoiava o governo de Santana Lopes.

Interpretações originais ( mas absurdas) da constituição, por mais justas e populares que possa ser o que se pretende proteger, como a recente promulgação dos apoios sociais, também não são um caminho razoável, nem para o prestigio da Instituição, nem para a nossa Democracia.

Inovações sim. Acabar com o Estado de direito não. Quem quer viver na republica das laranjas? 

 

Domingo

De Páscoa

por João Távora, em 04.04.21

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. João

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro¬. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro:¬ viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

Palavra da Salvação.

Comentário: Pedro e João, juntamente com Madalena, são as primeiras testemunhas do túmulo vazio, naquela manhã de Páscoa. Não foi, porém, muito facilmente que eles chegaram à conclusão de que Jesus estava vivo. A sua fé será progressiva, caminhará entre incredulidade e dúvidas. Só perante as ligaduras e o lençol, cuidadosamente dobrados, o que excluía a hipótese de roubo, se lhes começam a abrir os olhos para a realidade.
No seu amor intuitivo, João é o primeiro a compreender os sinais da Ressurreição. Mas bem depressa Pedro, que, não por acaso mas intencionalmente, ocupa o primeiro lugar e nos aparece já nesta manhã como Chefe do Colégio Apostólico, descobre a verdade, anunciada tão claramente pela Escritura e pelo mesmo Jesus. Depois, em contacto pessoal com o Ressuscitado, a sua fé tornar-se-á firme como «rocha» inabalável.

Miguel B. Araújo

por henrique pereira dos santos, em 03.04.21

O Miguel resolveu fazer um exercício que deveria ser feito periodicamente por investigadores: pensar, escrever e dar ao escrutínio, em liguagem acessível, o que lhe parece ser o contributo social dos muitos anos de investigação.

Conheço o Miguel há muitos anos e foi um dos meus três orientadores do doutoramento: Teresa Andresen, que foi a minha orientadora principal e sem a qual eu não teria feito doutoramento nenhum, Miguel B. Araújo e Carlos Aguiar.

Estarei sempre em dívida para com eles porque qualquer deles foram fundamentais para o resultado final (hesitei bastante nesta concordância verbal. Eu sei que a regra é dizer nem ele, nem ela foram eleitos deputados, porque os dois poderiam ser eleitos, e nem ele, nem ela foi eleito presidente da república, porque só um poderia ser eleito, mas tenho dúvidas sobre a concordância na frase que escrevi).

Todos tiveram uma enorme paciência para as minhas idiossincrasias e, ao mesmo tempo, um respeito intacável pela minha liberdade na forma como decidi fazer a tese. Penso que não me enganarei muito se disser que nenhum deles terá concordado com as minhas decisões sobre a forma de fazer a tese e todos eles terão acahado que poderia ter feito uma coisa muito mais sólida que o que fiz, se seguisse os seus conselhos em matéria de praxis académica.

No fundo, no fundo, penso que partilharão da opinião de um dos arguentes da tese: isto era como se fazia ciência no século XIX, actualmente já ninguém faz ciência assim (e eu tendo a concordar com esta observação).

O Miguel, academicamente, é o exacto oposto de isto tudo, é o que eu ironicamente caracterizo como um industrial da publicação: publica muito, bem e com um sentido apurado do mercado para que está a produzir ciência.

Acresce que publica numa área que para mim é mais metafísica do que eu estou disposto a ler, portanto nem sou um grande leitor dos artigos do Miguel, mas quando preciso de perceber alguma coisa neste domínio, o que o Miguel escreve é sólido e é-me útil.

Talvez eu possa dizer que o Miguel parte das grandes abstracções associadas à modelação de processos naturais para tentar ter respostas sobre o concreto, exactamente o percurso inverso de Carlos Aguiar, que parte da observação atenta do concreto para a compreensão das questões gerais e estas duas perspectivas complementares foram igualmente fundamentais para o que fui fazendo na tese.

A verdade é que não tenho a menor apetência para a tralha académica e para a formatação académica do pensamento e não fora o esforço dos meus três orientadores, seguramente não teria feito tese nenhuma: eu não tenho a menor vocação para investigador, a metafísica interessa-me pouco e gosto mesmo, mesmo, é de pensar o que tenho de fazer hoje para obter um resultado amanhã, fazê-lo, ver se o resultado é o que esperei, que nunca é, claro, para poder olhar para os desvios à procura de corrigir o que pensei mal antes.

É por isso que este exercício do Miguel para que faço ligação no primeiro parágrafo me parece tão interessante e, já agora, tão útil para me dar algum alívio intelectual em relação às minhas dúvidas sobre o que tenho escrito sobre a epidemia.

O que o longo post faz é uma retrospectiva sobre o caminho intelectual de alguém que tenta capturar os processos naturais em modelos, e por isso, por ter dedicado tanto esforço e tempo ao assunto, do que mais fala é de incerteza e da evidente dificuldade em reproduzir processos naturais em modelos, um trabalho nunca acabado porque não é possível reproduzir processos naturais complexos em modelos, o mais que conseguimos é ir tornando os modelos cada vez mais úteis, à medida que vamos percebendo por que razão se afastaram na realidade na tentativa anterior.

Trata-se de uma enorme diferença para esta tendência recente de substituir a realidade pela produção de modelos, partindo do pressuposto de que sabemos o suficiente para tomar decisões com base nos modelos que estão suficientemente próximos da realidade para isso.

Quando o Miguel escreve: "Os desafios futuros nesta matéria são, portanto, menos de cariz científico—onde os progressos das últimas décadas foram tão notáveis como subutilizados—e mais na área da transferência de conhecimento e da tecnologia, assim como no domínio normativo e dos interfaces entre a ciência e a política" eu só posso discordar (como discordo muitas vezes de qualquer destes meus três orientadores, apesar de saber que qualquer um deles sabe muito mais que eu) porque decorre de posições sociais e políticas em que estamos em pontos muito distantes.

Ao contrário do Miguel, não estou convencido deste papel da ciência e, muito menos, de que a sub-utilização dos progressos científicos não se deva também à natureza da ciência tal como ela é produzida hoje, de forma manifestamente desligada da sociedade.

Claro que existem os factores que o Miguel enuncia acima, o que não existe é a possibilidade de isso se resolver por mera transferência dos resultados científicos, como se esses resultados científicos não fossem inerentemente parcelares e incapazes de integrar a imensa diversidade do mundo e das sociedades.

O que é notável, para mim, não são estas diferenças - algumas irreconciliáveis - mas sim o Miguel, reconhecendo a incerteza e as limitações do seu trabalho, continuar empenhado em chegar ao mundo das pessoas e do concreto.

Tenho a certeza de que questionado com a pergunta que tenho ouvido frequentemente ser feita a outros modeladores, ao longo deste ano, "mas acha que isto vai ser mesmo assim?" o Miguel nunca se satisfaria com a resposta que também tenho ouvido frequentemente: "é o que diz o modelo".

Tenho a certeza que depois de dizer que "é o que diz o modelo", acrescentaria, mas o modelo não é a realidade, e há este e aquele aspecto que devem ser tidos em atenção, se se quiser utilizar o modelo como orientação para as opções a tomar, o que não deve ser feito sem compreender bem o modelo que está a ser usado.

Três da tarde

por João Távora, em 02.04.21

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A Cruz é sinónimo da libertação: a dor olhos nos olhos, sem resistência à angustia, à dúvida, à incompletude. A outorga da soberania. O desprendimento de nós face a grandiloquência do desconcertante destino torna-se afinal o vislumbre de um lugar de paz interior, de recomeço. A verdadeira revolução que concede a tranquilidade ao Homem, capaz de amar o outro como a si mesmo, capaz de amar o seu inimigo, assumir a sua cruz que materializa as suas dores e inquietações (ainda há gente inquieta?). A pacificação com o Criador – a irmandade em Jesus. A morte que resulta em Vida, no homem Novo. A cruz é a noite escura de nós que afinal nos faz inteiros, livres do nosso precário personagem, hoje mesmo. A beleza da cruz partilhada com Cristo. Aprendamos a não fugir dela, então e preparemo-nos para a Páscoa redentora que se anuncia.

 

Texto  recuperado, editado e adaptado.

A ideologia do contacto

por henrique pereira dos santos, em 02.04.21

Grande parte desta epidemia foi gerida com base na ideologia do contacto, que consiste em postular que sem contacto não há contágio - o que é verdade - tirando daí a conclusão de que há uma relação directa entre contacto e contágio - o que é uma rotunda mentira -, o que leva à ideia de que a gestão da epidemia se faz gerindo contactos.

Um bom exemplo é um estudo que há pouco tempo foi referido pela generalidade da imprensa, sempre através da leitura de um dos seus autores, Manuel Carmo Gomes, e não através da leitura dos jornalistas, numa boa ilustração de jornalismo de pé de microfone.

O estudo chama-se "Controlling the pandemic during the SARS-CoV-2 vaccination rollout: a modeling study" e, na leitura de Manuel Carmo Gomes, transmitida pelos jornais, dá muitas indicações sobre a elevada probabilidade de uma quarta vaga, na hipótese de se fazer um desconfinamento diferente do que defende Manuel Carmo Gomes, cuja obsessão com o fecho de escolas é conhecida e, infelizmente, reconhecida como tendo alguma base científica.

Eu já raramente leio coisas sobre a epidemia que se baseiem em modelação matemática - já há tempo e dados empíricos suficientes para andar a gerir esta epidemia com base em borras de café, bolas de cristal, modelações matemáticas e outras mistificações semelhantes - mas face às repetições dos avisos de Manuel Carmo Gomes sobre o que o estudo demonstrava da relação entre contactos e evolução da epidemia, resolvi ir ver que dados tinham sido usados para avaliar os contactos e procurar a correlação com a evolução da epidemia.

Se bem percebi o estudo, e admito que não, de tal maneira são absurdas as afirmações de Manuel Carmo Gomes quando lidas à luz das minhas conclusões sobre o estudo, os contactos não são medidos empiricamente através dos dados de mobilidade existentes, e outros do mesmo tipo (com todas as dificuldades e limitações que os dados de mobilidade têm, são, ainda assim, o que há de base empírica), os contactos são inferidos a partir da evolução da epidemia, para depois se concluir que se os contactos evoluirem assim ou assado, então a evolução da epidemia será assim ou assado, num raciocínio circular que acharia que seria impossível encontrar num artigo científico.

Em qualquer caso, se eu estiver a ler mal o estudo (a ligação está acima) apenas invalida a utilização deste estudo como boa ilustração da ideologia do contacto como questão chave para a gestão da epidemia, não elimina a existência e influência da ideologia do contacto cujo paralelismo com a ideologia das ignições na gestão do fogo tem sido referida por mim várias vezes e que vou resumir de novo:

Sem ignição não há fogo. Mas 1% das ignições são responsáveis por qualquer coisa como 90% da área ardida, logo, a questão não está na redução das ignições (a maioria não têm problema nenhum, tal como a maioria dos contactos não resultam em contágios) mas sim na compreensão das circunstâncias em que uma ignição (ou um contacto) se transforma num fogo (ou num contágio).

No caso do fogo isso está razoavelmente estudado e é hoje consensual que é muito mais perigoso ter poucas ignições em contextos muito favoráveis ao fogo, quer ter muitas ignições em contextos menos favoráveis, que é até vantajoso para a gestão dos grandes efeitos negativos dos fogos.

O que é diferente na epidemia é que não sabemos tão bem caracterizar as circunstâncias favoráveis ao desenvolvimento da epidemia com efeitos sociais mais negativos (essencialmente, as circunstâncias que provocam maior mortalidade).

Sabemos algumas coisas.

1) que as probabilidades de contágio crescem muito com a proximidade física entre pessoas, com o tempo em que essas pessoas estão juntas e com as circunstâncias em que estão juntas (a tal caracterização dos contactos de elevado risco como sendo entre pessoas que estão mais de quinze minutos a menos de dois metros em ambientes fechados) e que no caso do fogo podemos fazer o paralelo com as condições meteorológicas;

2) que os efeitos mais severos (estou a usar terminologia dos fogos propositadamente) se verificam quando há uma concentração de pessoas mais susceptíveis e mais frágeis, o que se traduz em cerca de 40% de mortalidade em lares, mais ou menos em todo o mundo, cujo paralelismo com os fogos se encontra nas condições de acumulação de combustível;

3) nos fogos sabemos também que uma vez um fogo ateado, há circunstâncias meteorológicas e de acumulação de combustível que rapidamente levam o fogo para lá da capacidade de extinção, sendo inútil procurar apagar esses fogos com ataque directo, havendo apenas a possibilidade de reduzir o combustível nas áreas que estão na linha de progressão do fogo. Esta é uma matéria em que é mais difícil fazer o paralelismo com a epidemia porque não podemos dar ninguém como perdido para a progressão da epidemia, por razões éticas (ao contrário do que podemos fazer com o fogo), e porque sabemos menos sobre o processo de retirada do combustível. Reconhecendo o atrevimento da minha ignorância, e não desconhecendo os custos brutais e as dificuldades logísticas associadas, eu me atrever-me-ia a dizer que uma vez identificado um surto num lar, a medida mais eficaz para salvar vidas seria a retirada imediata de todos os utilizadores para instalações de "isolamento" de cada utilizador, na ausência de vacinas, claro, apoiado cada um por pessoas dedicadas apenas a essa pessoa. Isto porque me parece evidente que, tal como acontece nos fogos, as medidas de supressão da epidemia em lares se revelaram largamente inúteis: nunca se impediu, em lado nenhum, a entrada da epidemia em lares e, uma vez declarado um surto, nunca se conseguiu travá-lo dentro do lar, fossem quais fossem as medidas tomadas.

Infelizmente a ideologia do contacto, com a sua parafernália de proibições gerais, restrições de direitos individuais e barragem de propaganda em jornais e nos meios do Estado, tem impedido uma discussão racional dos seus parcos resultados para os elevadíssimos custos que acarreta.

Mas a esperança é a última a morrer (via Eduardo Maximino), quando até o Guardian chega aqui: "Whitty said the majority of experts believed Covid was not going to go away and it would eventually have to be managed in a similar manner to flu. In a bad year, flu can kill 20,000 to 25,000 people. “It is not flu, it is a completely different disease, but the point I am making is, here is a seasonal, very dangerous disease that kills thousands of people every year and society has chosen a particular way around it,” he said.

While Whitty noted that factors such as variants and population density were important, he cautioned against trying to explain how Covid had affected different countries by focusing on just one or two factors, noting that Germany was now facing a difficult situation despite its previous success in tackling Covid largely being put down to its diagnostic capabilities.

“It is actually usually a large combination of factors, some of which are under our control, many of which are not. And more of it is chance than I think people are prepared to accept,” he said."

Admitir que não controlamos muitos factores é a questão chave para a gestão da epidemia, não os contactos entre as pessoas.

O que verdadeiramente importa

por henrique pereira dos santos, em 01.04.21

Alexandre Homem Cristo resume bem o Estado a que isto chegou:

"Concluo com um desabafo. É impossível olhar para este estudo do IAVE, para o silêncio crítico que o enquadra e para o actual debate à volta da recuperação da aprendizagem dos alunos sem sentir um grande desânimo. Viver este último ano em pandemia ensinou-me muitas coisas e uma delas é que a Educação, em Portugal, permanece pouco apreciada (excepto nos discursos, claro, onde é a rainha das prioridades). Se o país levasse a educação das crianças a sério, estaríamos indignados com a incapacidade do Estado em medir o impacto da pandemia na aprendizagem dos alunos, estaríamos inquietos com a indisponibilidade orçamental para investir na recuperação da aprendizagem, estaríamos impressionados com a falta de monitorização do sistema educativo, estaríamos intolerantes perante a possibilidade de alguma criança ficar para trás pelo azar de ter nascido pobre. Mas, como em Portugal muito pouco se leva a sério, andamos ocupados a imaginar crises políticas. Daqui a uns anos, pagaremos a factura".

É trocar neste texto educação por qualquer problema social que nos preocupe e estará sempre certo: nós, as pessoas comuns, os que aqui andamos, não levamos a sério a medição do impacto do que fazemos colectivamente e entretemo-nos a imaginar coisas.

O resultado é que fazemos erros, o que é uma inevitabilidade, mas também repetimos erros, o que, a cada repetição, nos aproxima da bovinidade em que vamos pastamos a erva que vamos encontrando, sem cuidar de saber se não poderíamos ter vidas melhores que as que temos.

Jornalismo de ouvir dizer

por José Mendonça da Cruz, em 31.03.21

«Uma novidade»: na 2.ª fase as pessoas marcam o sítio, o dia e a hora para serem vacinadas, dizem todos os telejornais. «No site da DGS», dizem eles.

Ora, agora, já não é uma questão de enviesamento; é mesmo uma questão de trabalho medíocre, de informação vazia. No site da DGS? Experimentem lá. Quando? Eles nem dizem, nem perguntaram. Quando é que começa essa vacinação a pedido? Vai começar... um dia destes... Quando é que o site da DGS «disponibiliza» o software para essas marcações? Pois, sabe-se lá, em breve...

Donde, parece-me justo fabricar esta pequena teoria da conspiração, que me parece bastante crível, e que diz assim:

A DGS já não se entende com o número de pessoas que visitaram o site, colocaram lá nome, n.º de utente de saúde, e data de nascimento, e a quem a DGS disse para aguardar um telefonema. De maneira que, como é hábito no actual tipo de governação, passou a bola: «Marquem vocês. Um dia destes. Talvez. A culpa é vossa». 

Matrioska

por Jose Miguel Roque Martins, em 31.03.21

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Não fiquei de todo surpreendido com a ultima enormidade de Francisco Louçã, o caso da galhofa contra a morte pela fome de milhões de Ucranianos nos tempos de Estaline. Mas fiquei radiante por comentadores reconhecidos o estarem (finalmente) a fustigar em jornais de referencia.

Por incrível que pareça, há ainda quem tenha a distinta lata de tentar branquear este triste episódio. Pedro Tadeu, um jornalista do DN, escreve um artigo que me irritou francamente e que poderá consultar aqui. Em síntese, começa por dizer que não viu os comentários de Louçã (?) preferindo centrar a sua discussão no facto histórico em si. A coberto de uma intenção de moderação e contra a "Histeria ideológica", lança-se numa pouco brilhante  diminuição da importância do Holodomor. Tudo somado, a cartilha Leninista completa: Discutir uma questão lateral para desviar as atenções (não as declarações de Louçã mas o tema),  descredibilizar os críticos (são histéricos antissoviéticos),  diminuir o problema (não são 7 milhões de vitimas, mas apenas 3 Milhões), lançar dúvidas sobre o que se passou (a intencionalidade é fundamental e não se pode provar) e desvalorizar a questão (genocídios há muitos, por todo o tipo de regimes) .

Os Leninistas são cada vez mais pequenos, mas pertencem todos à mesma Matrioska, que não parece ( infelizmente) esgotar-se. 

Nós e a conservação da natureza

por henrique pereira dos santos, em 31.03.21

Miguel Esteves Cardoso dedica a sua crónica de hoje, no Público, ao Pinhal dos Ingleses, em Carcavelos.

"Seria magnífico ... [se] se mostrasse aos bichos, às árvores e aos milhões de portugueses que não enriquecem com a destruição da natureza que ainda há quem pense neles".

Esta ideia de que existem uns quantos que beneficiam da destruição da natureza e muitos outros que são prejudicados com essa destruição é uma ideia muito popular, mas tem o pequeno problema de ser uma ideia errada.

De cada vez que comemos, de cada vez que nos vestimos, de cada vez que nos abrigamos em casa, de cada vez que nos deslocamos, de cada vez que escrevemos num papel, de cada vez que lemos um jornal, somos nós, e não outros, que provocamos as alterações na paisagem que, como no caso desta crónica, achamos inconcebíveis e ilegítimas.

Se há muitas casas no litoral é porque há mais gente a querer viver ao pé do mar que em Alcaravelas, não é porque há uns que querem enriquecer com a destruição da natureza e outros que preferiam manter intocado o Pinhal dos Ingleses.

São muito poucos os que querem manter intocado o Pinhal dos Ingleses: se fossem muitos, era fácil arranjar dinheiro para o comprar.

A verdade é que quando, com outros, estive na fundação da Montis, o nosso objectivo era gerir directamente terrenos com objectivos de conservação.

É também verdade que quando decidimos comprar os primeiros terrenos, com recurso a uma subscrição pública, o que não faltaram foram pessoas a dizer que isso em Portugal não funcionava.

É também verdade que quando a Terra Chã procura gerir o território da aldeia de Chãos de forma sustentável, tem muito menos interessados em pagar os queijos que produz do que seria desejável para permitir essa gestão.

É ainda verdade que quando a Terra Maronesa procura quem queira pagar a carne que ajuda a gerir um notável sistema de gestão da natureza, encontra mais palmadinhas nas costas que consumidores dispostos a pagar o custo que essa gestão implica.

É mais verdade que quando os rebanhos da serra do Açor precisam de retorno para o trabalho de gestão de serviços de ecossistema que fazem, facilmente arranjam boa vontade, euros é que é mais difícil.

Quando o Hugo Novo se dedica à Quinta Lógica e outros projectos de gestão do património natural, corre tudo pelo melhor, excepto a tal parte de enriquecer, por falta de quem queira pagar o que produz e é do interesse de todos.

Quando eu persisto em andar à procura de quatro milhões para um projecto de conservação que não me sai da cabeça, é apenas porque sou parvo, sei perfeitamente que levantar quatro milhões para isso é muito mais difícil que para andar a contar bichos mortos ao longo das estradas.

Note-se que a dita Montis tem em curso uma campanha para ver se passamos dos 400 tontos que estamos dispostos a dar 20 euros por ano para ter quem vá fazendo gestão de terrenos com objectivos de conservação e eu nem sequer consigo captar mais sócio nenhum (em minha defesa tenho a dizer que nesses 400 há vários que já não me podem ouvir falar dessa coisa de gastar 20 euros por ano em conservação).

Se alguém tiver dúvidas de que na verdade não queremos saber da conservação para nada, é dar um salto a este despacho sobre a afectação das verbas do Fundo Ambiental e ver como é tratada a conservação da natureza, sem que haja o menor murmúrio sobre o assunto.

Ao contrário da ideia de que há milhões de vítimas da ganância de alguns, a gestão que fazemos do nosso património natural é apenas o reflexo das nossas opções, que incluem a opção de se estar nas tintas para o assunto todos os dias e no dia 29 de Fevereiro, a cada ano bissexto, escrever um texto bem radical a acusar os outros daquilo que é apenas responsabilidade nossa, ou de vez em quando ir plantar umas árvores ou arrancar uns eucaliptos, para lavar a alma e expiar os nossos pecados.

Contra ventos e marés, os nossos timoneiros não mudam a rota

por Jose Miguel Roque Martins, em 31.03.21

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Depois de um erro , nada como acrescentar outros. Já aqui falei sobre o crime económico que os subsídios em espécie são. No caso da habitação, a esse profundo erro juntam-se outros dois: a da incapacidade de prover os bens a preços decentes e à escolha das condições mínimas do que se oferece.

Comecemos pelo óbvio. Casas a 400.000 euros? Qualquer consulta aos portais imobiliários regista dezenas de milhar de casas em Lisboa, à venda, que não sendo palacetes, correspondem a habitações condignas. Por exemplo, a casa de António Costa, que não consta viver num pardieiro, de acordo com o Jornal de Negócios, está à venda por 320.000 Euros.

Como então termos um valor tão alto por habitação? Alguns pensarão em compadrios e negociatas. Eu acredito que, mais do que possível corrupção, estamos no domínio habitual dos bens providos pelo Estado: caros por natureza. Em todos os domínios, o que é provido pelo Estado, é historicamente mais caro do que pelo mercado. Facto explicado pela menor pressão de eficiência que o publico tem relativamente ao privado.

Haverá também uma segunda explicação. O que o Estado considera condigno é normalmente alguns degraus acima da bitola habitual. O que é considerado uma casa razoável, é diferente para o povo e para o Estado, que considera que os seus cidadãos devem beneficiar de mais e melhor qualidade do que a que têm. Em si mesmo, esse desejo de elevar os padrões de consumo nada tem de errado. Pelo contrario, podermos beneficiar de melhores habitações, melhores cuidados, melhor qualidade de vida é muito desejável. Não seria compreensível que a CML advogasse o regresso a uma lógica e arquitectura Estalinista de uma casa de banho para 20 famílias. Mas o óptimo é inimigo do bom. Quando se eleva demasiado a qualidade, menos beneficiários vamos ter. Criando-se o efeito perverso de o Estado contribuir para uma classe de privilegiados, os poucos, os muito poucos, que conseguem ser beneficiários da qualidade “Estatal”.

Os lares de idosos são um excelente exemplo deste fenómeno. As normas existentes são exigentes. A qualidade das instituições que as seguem é bastante boa. Mas os custos associados a esses serviços são elevados e impossíveis de estender a toda a população. Condenando a maior parte das pessoas a lares ilegais com condições muito precárias. Aprofundando desigualdades  e condenando os excluídos ao muito pouco a que conseguem aceder.

Vivemos neste mundo de efeitos perversos. O Estado assume tarefas que não lhe competem e que não tem condições de realizar eficientemente. São estabelecidos padrões elevados na prestação de serviços pelo Estado. Por escassez de recursos, agravada por ineficiência, apenas um pequeno grupo de pessoas podem ser abrangidas pelos benefícios estabelecidos como mínimos. E em nome da igualdade de acesso a bens considerados essenciais, cava-se uma fosso profundo entre os privilegiados ( que têm acesso aos bens providos pelo Estado) e aqueles que não conseguem ser os escolhidos, os excluídos. O Estado é por isso um agente activo, provavelmente o maior, não apenas de ineficiência mas de desigualdade entre os cidadãos.

Um imposto negativo ( subvenção), repartindo os fundos possíveis para apoio social,  por todos os necessitados, que depois recorreriam ao mercado, é uma formula muito mais igualitária e eficiente. Poucos teriam os melhores cuidados. Mas ninguém teria que viver no privilegio da exclusão social feroz. 

Páscoa em liberdade

por João Távora, em 31.03.21

Aqui chegados parece-me evidente que, como aconteceu no ano passado à medida que o bom tempo e calor aumentava, o desconfinamento não está a resultar num aumento de infecções e que a proibição do governo de celebrarmos a Páscoa como pessoas livres resulta num acto de repressão gratuito e inútil - na Alemanha com o número de infectados a subir Angela Merkel viu-se obrigada a recuar nesse intento, que os alemães não são parvos. Tempo de vivermos na clandestinidade, que a vida terrena é curta.

Desinformação à descarada

por José Mendonça da Cruz, em 30.03.21

Da Meios & Publicidade, 26 de Novembro de 2020

«A Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ) decidiu retirar o título profissional de jornalista a Filipe Santos Costa. Em causa está a realização do podcast Política com Palavra que tem na sua base um contrato de prestação de serviços celebrado entre o ex-jornalista do Expresso e o PS para a realização de uma série de entrevistas a personalidades ligadas ao partido ou ao governo.»

Este Filipe Santos Costa está agora comentador na tvi, a avaliar as qualidades dos candidatos autárquicos do PSD.  Para mais apurado enviesamento, contracena com ele Anabela Neves. Tudo normal; afinal, Nicolau Santos preside à RTP depois de presidir à Lusa.

Mortalidade

por henrique pereira dos santos, em 30.03.21

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O principal indicador para avaliar o impacto de um surto epidémico é a mortalidade excessiva, de tal forma as epidemias são complexas e têm efeitos tão diversos na sociedade.

Desde meio de Fevereiro que a mortalidade excessiva desapareceu em Portugal (e, já agora, em quase todos os países que são aderentes do Euromomo, o sistema de vigilância da mortalidade europeu que é usado, por exemplo, para avaliar os efeitos dos surtos gripais anuais ou o efeito dos extremos meteorológicos) e desde meio de Março que está mesmo abaixo dos quartis dos dez anos anteriores, isto é, estamos com uma mortalidade global abaixo do que seria de esperar para esta época do ano.

Pois bem, com mortalidades abaixo do que seria de esperar para esta época do ano, com os serviços de saúde dentro do que é normal (acho extraordinário que se pretenda que o país pare para que os serviços de saúde consigam trabalhar normalmente durante um surto epidémico, como se não fosse normal os serviços de saúde trabalharem excepcionalmente durante períodos sanitários excepcionais), continuamos concentrados em olhar para a árvore covid em vez de olhar para a floresta social, que tem árvores covid, com certeza, mas tem muitas outras coisas para que é necessário olhar.

Note-se que esta mortalidade abaixo do que seria de esperar nesta época do ano tem sido justificada com a vacinação covid, e em parte essa explicação será válida na medida em que a vacinação prevenirá grande parte da mortalidade que possa ser atribuível à covid (em qualquer caso, neste momento, anda bem abaixo dos 5% da mortalidade global), mas o mais natural é que se relacione com a elevada mortalidade excessiva de Janeiro, que levou muitos dos mais frágeis e mais susceptíveis.

Se assim for, o surto epidémico de Janeiro teve o efeito que seria de esperar numa doença cuja mortalidade se concentra nos grupos etários mais altos e mais fragilizados, antecipando em algumas semanas mortes que seriam de esperar ao longo do ano.

Espero que não me interpretem mal, seria bom que pessoas que morreram em Janeiro pudessem ter morrido antes em Outubro, pelo menos em grande parte dos casos, mas esqueçamos o argumento de que estamos a salvar vidas porque, na verdade, estamos a prolongar vidas (algumas com muito pouca qualidade de vida) por algumas semanas.

Há riscos no levantamento da generalidade das restrições que pretendem diminuir os nossos contactos sociais? Eu acho que não há muitos - as regiões do mundo que o fizeram não demonstram nenhuma relação forte entre esse levantamento de restrições e a evolução da epidemia - mas a minha opinião é irrelevante: mesmo que o risco seja razoável e eu esteja enganado, o facto é que as consequência sociais parecem ser marginais face às consequências sociais da situação actual.

A estratégia de abertura a conta-gotas, que nunca teve fundamentação científica e técnica sólida, parece não ter também fundamentação empírica, continuando a ser o que sempre foi: a gestão política de expectativas dos que mais se fazem ouvir na imprensa, à custa do sofrimento dos que não têm voz no espaço público.

Tão miseráveis uns como outros.

por Jose Miguel Roque Martins, em 29.03.21

É verdade que o Governo não faz normalmente o que diz. Muito breves foram os tempos de promessa dada, palavra honrada. Normalmente, tenta sempre parecer que faz mas não faz. Como aconteceu no caso dos apoios sociais que foram promulgados pelo Sr. Presidente da República e que correspondiam ás promessas publicas do Governo. Uma lastima.

Mas o que dizer de Marcelo e dos outros partidos?

Num ímpeto reformador e independente, atropelam a constituição e a sua lei travão de despesas não orçamentadas. Em nome de nobres princípios sociais. E no futuro em nome de outras coisas. Um desastre.

Tão miseráveis uns como outros.

Receita de sucesso.

por Jose Miguel Roque Martins, em 29.03.21

Captura de ecrã 2021-03-29, às 09.58.45.png

São muitos os desejos que são comuns a quase todos os Portugueses. Uma lista de desejos partilhados por todos, incluiriam facilmente algumas metas do tipo:

Aumentar o salário mínimo para 1500 euros;

Diminuir as horas de trabalho sem diminuir rendimentos;

Acabar com listas de espera no SNS;

Diminuir a idade da reforma e aumentar as pensões;

Pagarmos menos impostos;

Não haver excluídos;

Fazermos o que queremos.

 

Sabemos o que queremos, a forma de o conseguirmos, mas não cuidamos de perceber como o conseguir.

Queremos que todos ( e nós próprios) vivam melhor e sabemos mais ou menos como poderíamos consegui-lo. O problema é todos sabermos que não é possível atingir esses objectivos de imediato. É claro que existem caminhos que nos permitiriam atingir rapidamente , pelo menos em parte, esses desejos. Noutros países já acontecem, porque seguem políticas diferentes das nossas. Nomeadamente preocuparem-se em que haja condições para criar riqueza e não a desperdiçar com uma maquina Estatal imensa e ineficiente.

No nosso caso a abordagem é diferente. Apostamos numa via alternativa, que me lembra o orgulhosamente sós.  Uma economia de mercado poucochinha e um estado ineficiente e demasiado presente. Há que por isso encontrar explicações, para a diferença entre a excelência do nosso modelo e a mediocridade dos resultados.

Os ricos que paguem a crise, é a melhor síntese que conheço da nossa forma de

resolver problemas.

A divida é para não se pagar. E, cá dentro, a culpa é apenas da corrupção, do grande capital, dos ciganos, e de mais uma dúzia de pequenos grupos de malfeitores. Até a pandemia teve, como principais responsáveis, os miúdos que se encontravam e os poucos malandros que não cumpriram regras, sobrecarregando o SNS, que só teve um ano para se preparar.

Enquanto nos divertirmos a encontrarmos a pequena mão cheia de delinquentes responsáveis pelos nossos infortúnios, não abandonaremos a nossa “receita de sucesso”. Nem vamos conseguir o que queremos.

 

 

Duas coisas para ler

por henrique pereira dos santos, em 29.03.21

"Repare-se que a inclusão dos professores na lista de prioridades contradiz não só o que o Governo sempre defendeu – que as escolas não eram locais de contágio – como cria o risco de se abrir uma caixa de Pandora. Se os professores são prioritários, porque não os funcionários do comércio alimentar? E os empregados dos restaurantes que fazem “take away”? E os que transportam a comida até à casa das pessoas? E os cabeleireiros? A lista ia crescendo, na lógica de “é só mais um”, até que o grupo que grita mais baixo, os idosos, acabasse a ficar em último".

Helena Garrido disse o que eu tencionava escrever sobre a inqualificável vacinação prioritária de professores. Só ficou de fora, e eu percebo que assim seja, um comentário sobre o papel da imprensa que faz referências imensas à fantástica operação de logística que é a vacinação de professores sem que, em quase nenhum momento, se pergunte por que raio estão os professores a ser vacinados primeiro que grupos de risco muito mais elevado.

"A primeira é o facto de fazer pouco de um acontecimento histórico que é reconhecido pelo país onde é Conselheiro de Estado, Portugal, no documento Nº 233/XIII, 2 de Março de 2017, votado no Parlamento, que reconhece o Holodomor de 1932-1933 como genocídio do povo ucraniano".

Aline Beuvink diz meia dúzia de coisas acertadas sobre o inimputável Louçã e eu não consigo deixar de me perguntar: se algum conselheiro de estado fizesse sobre o holocausto a piadinha desonesta que Louçã fez com base no holodomor, continuaria ser conselheiro de estado no dia seguinte?

O que 90 anos de vida produtiva aturam

por José Mendonça da Cruz, em 28.03.21

Rui Nabeiro faz hoje 90 anos e a tvi dedica uma reportagem de vida ao grande industrial, empregador e benemérito de Campo Maior. «Senhor Rui», começa o repórter...

 

Do leitor Jorge Sousa, em comentário a este post:

Se fosse só isso... E deixar o Sr Nabeiro  atarantado dizendo-lhe que ele não paga dividendos porque não se preocupa com o lucro? É de bradar ao céu! Ao que este respondeu: " Bem,  eu divido o lucro com os trabalhadores "
Este jornalistazeco esqueceu-se, ou não sabe, que a empresa é propriedade da família; e, por outro lado, quis fazer valer a ideia de que as boas empresas - bem geridas - não pagam dividendos porque não se movem pelo lucro. Portanto os accionistas duma determinada empresa - a Nestle, por exemplo - investem o seu capital, correm o risco de o ver diminuir ou até de o perder, mas não devem ser remunerados!  Espantoso!  Só falta defender que os cidadãos depositem o seu dinheiro nos bancos e não recebam um cêntimo de juros. Que belo Tratado de Economia! 

O meu Avô José

por João Távora, em 28.03.21

Avô José.jpg

Esta é uma fotografia do meu avô José, 9º Marquês de Abrantes, na Grande Guerra, algures na Flandres. Foi um homem austero com um raro sentido prático, segundo alguns com um fino sentido de humor, que contra o velho costume das famílias da antiga nobreza portuguesa tirou um curso de Engenharia Civil, que o ajudou a viver os terríveis tempos do exílio político, nomeadamente arranjando trabalho numa mina em Espanha, depois da dispersão dos Bravos da Galiza rendidos à república. Ao regressar a Portugal (Lisboa) nos anos 30 com os bens da família depauperados, à custa do seu trabalho comprou a casa de família na Travessa do Patrocínio que eu bem conheci e onde criou 6 filhos. Segundo testemunhos, na velha tradição familiar foi um dos responsáveis por grandes obras de arte e um "protector" do grande Almada Negreiros. Morreu com um cancro três meses depois de eu nascer, tendo tido ainda tempo de comentar com a minha mãe a minha feiura à nascença dizendo-lhe que eu “parecia um macaco”. Não lhe guardo qualquer rancor, apenas muita admiração.

A nobreza definitivamente é um acidente de carácter.

 

Mais sobre estes assuntos, aqui.

Coronóia2020 e liberdade de andar a 200

por henrique pereira dos santos, em 28.03.21

A discussão sobre a epidemia e a melhor forma de a gerir parece estar bloqueada.

De um lado temos os partidários da Coronóia2020, ou da fraudémia, do outro os que acham, como Pacheco Pereira (compro todos os dias o Público, mas raramente o leio, li desta vez por causa de um comentário num post anterior), que quem se manifesta em defesa da liberdade está a defender a liberdade de andar a 200 Km à hora.

Sobre os partidários da coronóia2020 acho que não vale muito a pena dizer grande coisa porque estão na mó de baixo, são uma minoria, não têm impacto relevante nas nossas vidas e, por muitas asneiras que digam - uns dizem, outros nem tanto -, são muito úteis para nos lembrar, por exemplo, que é verdade que existem falsos positivos e é incompreensível, agora que há muitos testes, que o protocolo não seja alterado na definição do que é um caso positivo, em especial agora que parece que vamos embarcar na loucura dos testes em massa, sem indicação clínica prévia. Comprimir liberdades é um assunto sério e não basta um teste laboratorial positivo com fortes probabilidades de ser um falso positivo para essa compressão, sobretudo porque passar a definição para a melhor de três testes reduz a uma expressão insignificante a probabilidade de falsos positivos, sem grandes custos sociais.

Já sobre os outros vale a pena perder alguns minutos.

É fácil, é prático, dizer que a liberdade não é um valor absoluto (a vida também não, é por isso que existe a legítima defesa e as atenuantes e agravantes num homicídio, incluindo o homicídio por negligência ou sem dolo, e existem protocolos médicos para triar doentes) e que a liberdade de cada um acaba na liberdade de terceiros. E depois dizer que quem defende a liberdade numa epidemia está a pôr em causa a vida em comunidade, a levar ao extremo o individualismo e a pretender ter a liberdade de andar a 200 à hora na estrada, sem consideração para o risco que daí advém para terceiros.

Só que não é de nada disto que se trata, mas sim de lembrar que a liberdade é um assunto sério e a sua ponderação nas medidas de saúde pública é tão importante como a ponderação das implicações sanitárias de qualquer acção individual.

Parece óbvio (mesmo para mim, que passo a vida a dizer que o óbvio é uma coisa muito subjectiva) que defender a liberdade de andar a 200 não é o mesmo que defender a liberdade das crianças andarem de baloiço ou a liberdade de acesso ao ensino.

Andar a 200 não faz parte das liberdades básicas de ninguém, é intrinsecamente perigoso e nas nossas sociedades há mecanismos razoavelmente consensuais de limitação dessa liberdade. Apesar disso, pode-se andar a 200 em alguns países, pode-se andar a 200 em algumas circunstâncias (em situações de urgência ou em provas desportivas, por exemplo), mas não passa pela cabeça de ninguém proibir o tráfego automóvel para garantir que ninguém anda a mais de 200, apesar da proibição do tráfego automóvel gerar milhares de mortos todos os anos, por muitas razões, incluindo andar a mais de 200.

Já andar de baloiço ou aceder à escola sim, são liberdades razoavelmente consensuais nas nossas sociedades e a compressão dessas liberdades deve ser seriamente ponderada, pondo de um lado da balança os benefícios sanitários daí decorrentes, e do outro os efeitos sociais negativos da privação dessas liberdades.

Eu sei que dá muito jeito procurar enfiar todos os que não desistem da discussão da liberdade no contexto de uma epidemia no grupo da coronóia2020 (como canhestramente Manuel Pinheiro tentou fazer comigo para defender o jornalismo que escreve hoje "Números parecem estabilizar nos Estados Unidos depois de uma subida exponencial de casos e número de mortos" quando qualquer pessoa pode, com meia duzia de cliques, verificar a estupidez desta frase sem qualquer relação com os factos), mas era o que mais faltava deixar passar em claro essa tentativa de desqualificação dos que pensam de forma diferente.

Eu gostava de saber as razões sanitárias para os alunos do secundário poderem estar numa esplanada a partir de 5 de Abril, mas não na escola, para ser proibida a venda de alcoól depois das vinte, para ser proibido o consumo de alcoól no espaço público, para estarem parques infantis vedados, para não poder entrar numa loja deserta, para não poder passar de um concelho para outro, para não poder fazer um pic-nic com os meus irmãos, etc., etc., etc..

Não levar a sério a discussão dos fundamentos sanitários da maior parte das normas sanitárias em vigor - que são tão científicas que variam enormemente de país para país, quando não de região para região - , confrontando esses fundamentos com a razoabilidade da compressão das liberdades individuais associadas, está tão próximo do pensamento mágico como a coronóia2020.

Que tanta gente que se afirma defensor das liberdades individuais as abandone à mínima alusão a um elusivo benefício sanitário, é deprimente, muito deprimente.

Domingo

De Ramos

por João Távora, em 28.03.21

Evangelho segundo São Lucas

Naquele tempo, Jesus seguia à frente dos seus discípulos, subindo para Jerusalém. Quando Se aproximou de Betfagé e de Betânia, perto do monte das Oliveiras, enviou dois discípulos e disse-lhes: «Ide à povoação que está em frente e, ao entrardes nela, encontrareis um jumentinho preso, que ainda ninguém montou. Soltai-o e trazei-o. Se alguém perguntar porque o soltais, respondereis: ‘O Senhor precisa dele’». Os enviados partiram e encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito. Quando estavam a soltar o jumentinho, os donos perguntaram: «Porque soltais o jumentinho?». Eles responderam: «O Senhor precisa dele».
Então levaram-no a Jesus e, lançando as capas sobre o jumentinho, fizeram montar Jesus. Enquanto Jesus caminhava, o povo estendia as suas capas no caminho. Estando já próximo da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos começou a louvar alegremente a Deus em alta voz por todos os milagres que tinham visto, dizendo: «Bendito o Rei que vem em nome do Senhor. Paz no Céu e glória nas alturas!». Alguns fariseus disseram a Jesus, do meio da multidão: «Mestre, repreende os teus discípulos». Mas Jesus respondeu: «Eu vos digo: se eles se calarem, clamarão as pedras».

 Da Bíblia Sagrada



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