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Sim, o pesadelo ainda pode virar tragédia.

por João Távora, em 03.04.13

 

A respeito da moção de censura hoje a ser apresentada pelo Partido Socialista, tenho a dizer que me faz uma imensa confusão o tremendo desrespeito que os políticos em geral demonstram para com a realidade, mesmo quando neste caso tenham tido o cuidado de lhe endereçar uma carta a dar palmadinhas nas costas.
Constituindo este governo para mim uma enorme desilusão pela inabilidade política e falta de coragem reformadora demonstradas, está também claro que, no que concerne ao empobrecimento, no actual quadro da união europeia e da moeda única, não há qualquer alternativa. Evidentemente que se poderá sempre mudar “a narrativa” aspecto que como todos sabemos a realidade é absolutamente indiferente. Sim podemos pedir à orquestra que mude o reportório, mas as águas geladas continuarão a subir e fazer vítimas. O pesadelo ainda pode virar tragédia. 

 

Valha-nos o circo

por João Távora, em 21.03.13


A notícia de que as extraordinárias reflexões políticas de José Sócrates irão voltar ao nosso quotidiano por via dum programa no canal público, caiu-nos esta manhã nas cabeças que nem uma bomba de estilhaços. Muitos como eu ter-se-ão questionado por momentos se não se trataria de uma mentira de 1º de Abril ou de outro equívoco qualquer, mesmo que saibamos como o sistema mediático simpatiza com o escândalo e as aberrações para se alimentar com os mais baixos instintos humanos. É por is so que, depois de pensar melhor, acabo por compreender a lógica desta contratação. Basta verificar a estupefacção que reina nas ruas, nos cafés, e que emerge num invulgar escarcéu nas redes sociais: assim como o Diário de Notícias ganhou o dia com a cacha, de um momento para o outro a R.T.P. passou da obscura circunspecção para as bocas do mundo, tema do dia, tema da semana, vão ver. No fundo, no fundo, quais serão aqueles de nós que resistirão ao perverso voyeurismo de, pelo menos no primeiro programa, verem com os próprios olhos a cara de pau e a total falta de vergonha do “delinquente político” que pastoreou alegre e convictamente os portugueses para o desastre.

A desgovernada III republica

por João Távora, em 10.03.13

 

As justificações do aflito e impopular presidente no famigerado prefácio ao seu livro “Roteiros VII" constituem a prova provada da ineficácia do sistema de Chefia de Estado da nossa república. Refém de prerrogativas constitucionais que lhe legitimam a interferência no poder executivo, qualquer silêncio ou abstenção de Cavaco perante a gravíssima crise que afunda os portugueses no desespero, por mais sincero que seja, é interpretado à luz das cores partidárias que o elegeram, as mesmas que nos governam hoje impondo ao país em profunda crise brutais doses de austeridade. Nesse sentido é absolutamente inglória qualquer tentativa sua de se posicionar acima das facções em disputa do poder.
De facto o nosso sistema semipresidencialista convida ao conflito institucional. Imaginem por momentos que o "candidato poeta" ocupava nesta altura a cadeira de Belém. O mais provável seria a este ponto ter já cedido à tentação de atender ao ruído dos protestos da rua e das redes sociais, em boa parte a sua base social de apoio. Dessa forma teria Alegre “monarquicamente” (no sentido de unilateral) assumido o conflito institucional com o parlamento (em qualquer país civilizado o órgão democrático por excelência, porque representativo, colegial e plural) cuja maioria há menos de dois anos legitimada pelo voto popular suporta o governo do resgate, destituindo Passos Coelho e comprometendo o ajustamento a que a Europa e os credores nos comprometeram.
Eis que os desgastados órgãos de soberania nacionais se revelam reféns da arquitectura do regime, quando a Nação sitiada num trágico processo de resgate financeiro, delas mais necessita.

Águas revoltas

por João Távora, em 06.03.13

 

Desde que interrompido o seu projecto de assalto ao poder no final do período revolucionário nos anos setenta, habituámos-nos a viver com o ruído das extremas-esquerdas, que com um pé dentro e outro fora do sistema, sempre souberam aproveitar o terreno fértil proporcionado pela nossa frágil sociedade civil e imatura democracia representativa, afinal o seu ancestral “inimigo” a abater.
Aqui chegados, os sentimentos de desilusão, receio e desespero que comportam estes tempos de brutal e inevitável ajustamento conferem ao seu discurso  uma oportunidade única de ressonância mediática e ilusória “legitimação”. A questão não seria tão alarmante se a situação que atravessamos se tratasse de uma mera crise, por definição um fenómeno passageiro, que não é. Por tudo isso distancio-me dos tão em voga movimentos de protesto, um caldo de sensibilidades e de “partidos”, sempre manipulado pelas bem organizadas máquinas dos sectores radicais que se distinguem pelas tirânicas soluções que gostaríamos de ver definitivamente adormecidas nas mais negras páginas da nossa história.

Os tempos que se adivinham apresentam-se politicamente tempestuosos e exigem acima de tudo muita racionalidade que consiga aplacar estados de espírito e rancores que por mais intensos que sejam não nos libertam da realidade a que estamos sujeitos. José Sócrates descobriu tarde de mais que “o mundo mudou”. A questão actual e pertinente é de como preservar e fortalecer a democracia num processo prolongado de empobrecimento do Ocidente, fruto o reequilíbrio das economias mundiais e da acumulação de erros políticos das últimas décadas.

Manifestação

por João Távora, em 02.03.13

Alguém que explique por favor àqueles senhores dos sindicatos, do PCP e do BE que hoje nas TVs têm um privilegiado tempo de antena: pelas regras por eles conhecidas e aceites (?), a avaliação da prestação dum qualquer governo (de qualquer um, mesmo que não seja de esquerda) é feita pelos representantes do povo no parlamento, e em último caso nas urnas por voto secreto e universal, de preferência no final da legislatura. Uma manifestação é uma manifestação, é legítimo e faz bem aos nervos, mas não é uma sondagem, muito menos um referendo.

Vistas assim as coisas

por João Távora, em 26.02.13

 

“Os italianos votaram em massa contra a austeridade”, referia-se assim hoje em título o jornal i à vitória da esquerda em Itália na capa.  



Inquietações

por João Távora, em 26.02.13

 

Tendo em conta a cultura dominante nos meios de comunicação social e nas oligarquias do regime; quando ser de esquerda é considerado uma virtude em contraponto ao adjectivo pejorativo que constitui a posição contrária; jamais se poderia esperar um mandato menos que conturbado a um governo de direita em Portugal. A tarefa revela-se então ciclópica na actual situação de resgate financeiro e emergência nacional, para mais coincidente com um processo de ligeiro reequilíbrio das economias mundiais e o correspondente empobrecimento do ocidente a que se assiste. É por isso que receio que nos defrontemos de novo com o facto de um governo não socialista não vir a completar o legítimo mandato por razões exógenas à democracia e seus preceitos regulamentares. Por mais justificações que se atribuam a estes golpes de Estado o assunto inquieta-me profundamente.
Assim como me inquieta que o partido que arruinou as finanças do país e que negociou e assinou o respectivo acordo de resgate financeiro com o FMI e os parceiros Europeus, tenha conseguido fazer vingar a ilusão colectiva de que a austeridade é um mero capricho, uma opção ideológica, e não a consequência de uma economia moribunda e da impossibilidade de financiamento do Estado nos mercados financeiros. Um embuste que incendeia as ruas e põe em causa a salutar alternância dos partidos no poder. E que mais tarde em confronto com a realidade resultará em mais um profundo golpe no crédito da democracia. 

Chega!

por Vasco M. Rosa, em 18.02.13

Bateu aqui à porta uma jovem com um inquérito da Universidade Católica fazendo uma série de perguntas sobre a situação em que vivemos, as opções políticas do residente, a sua adesão ou repulsão das políticas actuais e o seu cheiro quanto à liderança do partido socialista e se Seguro ou Costa seriam melhores PM. É bom responder, mas algumas perguntas exigiriam maior leque de respostas que desse margem para a expressão de uma maior consciência política.

A questão da liderança do PS e da arrepiante hipótese dum novo governo PS é que me pareceu a mais no pacote, embora entenda a necessidade de maximizar os inquéritos. Tanto faz que seja um ou outro; pouco mais será que simpatia ou antipatia pessoal, ou então a arrepiante contabilidade dos riscos que correríamos caso um deles fosse PM. Já nos chega o sarilho que o outro nos deixou!

Terra queimada

por João Távora, em 07.02.13

 

A atitude persecutória e difamante aplicada pela oposição a Franquelim Alves é uma demonstração do grau zero da disputa política, que incinera tudo à sua volta sem olhar a meios. Já esteve mais longe o dia em que apenas uns poucos quadros do aparelhos partidários, tão desqualificados quanto desesperados, aceitarão o enxovalho dum cargo político. 

Harvest moon

por João Távora, em 22.01.13

Nicolau Santos exultava há pouco na Antena 1 com a "cedência" do governo perante a realidade (!!!) (ao formular um pedido da extensão dos prazos de maturidade dos empréstimos a Portugal negociados com a Troika), e aos alertas daqueles que, como ele próprio, reclamavam serem as condições negociadas excessivamente penosas (o Partido Socialista e o Baptista da Silva, entenda-se). Como se, ao contrário do que foi a estratégia dos gregos, não fosse necessário cumprir dentro do possível o compromisso (e o que é isso de "compromisso", nos dias que passam?) para obter um mínimo de autoridade negocial.

 

PS.:  Nicolau Santos tem o seu tempo de antena todos os dias de 2ª a 6ª na Antena 1 pelas 9,40. Privatize-se que eu não quero pagar.

Outro crescimento

por João Távora, em 19.01.13

 

Inconformado com os protagonistas do brutal ajustamento que não lhe são simpáticos, Nicolau Santos hoje no Expresso insiste num discurso pseudo-humanista “da compreensão” e da “desculpabilização” do fenómeno que trouxe o país à falência. Lembra-me aquele pronunciado pelo impotente psicoanalista que justifica os comportamentos do incorrigível (?!) toxicodependente com o pai alcoólico e a mãe superprotetora, para lhe prescrever um tratamento reforçado de metadona, condenando-o à dissolução perpétua, justificada pelo seu estatuto de vítima. Rejeitada a dor que implica a revolução do crescimento. 

O nosso cantinho e os seus quintais

por João Távora, em 15.01.13

 

Uma das velhas justificações para o proverbial atraso dos portugueses é que este se deve à sua geografia, somos fatalmente periféricos, assim distanciados do cosmopolitismo civilizacional da Europa.
Velhos hábitos são difíceis de mudar e por isso acusa-se um secretário de Estado com as suas loucas ambições reformistas de ser “estrangeirado”, e desprezam-se os “economistas visitantes” autênticos bárbaros incumbidos de estudos e estratégias para a cura da enfermidade lusa.
Hoje como ontem reclamamos que nos deixem em paz no nosso cantinho. Orgulhosamente arruinados e para que nada mude em proveito dos mesmos: é uma questão cultural a respeitar.

O crescimento económico

por João Távora, em 03.01.13

 

Ou coisas simples que toda a gente sabe mas
que temos que repetir todos os dias

 

De há duas décadas para cá, os estímulos ao crescimento económico não deram resultado algum, para além duma incontrolável divida externa e consequente falência do Estado que hoje estamos a pagar com língua de palmo. Tais estímulos apenas serviram para engrossar exército de funcionários públicos e promover as suas carreiras, para sustentar uma multidão de dependentes directos e indirectos das deficitárias empresas Estado, desenvolver o parque automóvel mais moderno e luxuoso da Europa, para a proliferação de mais ou menos redundantes auto-estradas e tuneis “sem custos para o utilizador”. A brilhante estratégia passou também pela construção de luxuosos estádios, centros comerciais e uma praga de cafés, restaurantes e mercearias gourmet que por aí pululam aos pares a cada esquina, empreendimentos subsidiados pelas campanhas de auto-emprego promovidas pelo respectivo Instituto, não esquecendo os sofisticados edifícios de escritórios, pólos empresariais e condomínios privados que agora se degradam semiabandonados, hipotecados pelos bancos com o dinheiro dos nossos impostos. O resultado do "festim", para além do "crescimento zero", foi uma lenta e sólida destruição de emprego, que não foi mais trágica porque muitos recursos financeiros foram despendidos em engenhosas reformas antecipadas.
De resto, ninguém quanto eu, que depende do sucesso de um pequeno projecto empresarial, mais anseia por uma consistente “retoma”, proporcionada por uma economia dinâmica, flexível, em que o mérito, o trabalho e a imaginação prevaleçam sobre as negociatas que favorecem as oligarquias do costume. Desconfio que esta dolorosa revolução que preconizo, não coincida com os desejos manifestados pelo nosso semipresidente e seus correligionários keynesianos.

Do semi-chefe de Estado

por João Távora, em 01.01.13

 

Como "objector de consciência", não comento discursos semi-presidenciais. De resto, a realidade também lhes é sabiamente insensível.

Baptistas da Silva aos molhos

por João Távora, em 30.12.12

 

 

De passagem pelo Jornal da Noite da TVI deparo-me com a enésima reportagem a explorar à saciedade o filão Baptista da Silva onde se evita uma vez mais substância: as suas teses que tanto excitaram a nossa “gente limpa”. De resto há por aí bastantes doutorados e licenciados com curriculum académico e atestado partidário, que do pondo de vista substantivo se limitam a explorar a conveniente narrativa “não pagamos” do burlão. Estes dias de obscura desesperança favorecem a emergência de Baptistas da Silva que afinal por aí pululam em absoluta impunidade. E já agora porque não deixam o outro, o de imitação, em paz?

Homens...

por João Távora, em 19.12.12

 

De uma coisa eu estou certo: a defesa deste Orçamento de Estado por Vítor Gaspar tem exactamente o mesmo fundamento da  aprovação por Paulo Portas: razões patrióticas. Vistas as coisas ao contrário: este odioso Orçamento de Estado é assumidamente um infortúnio, tanto para Gaspar quanto para Portas. E como faz falta por estes dias de tormenta, quem se chegue à frente com um discurso de verdade, coerente e mobilizador - política, enfim.
De resto sabemos bem quem são normalmente os primeiros a abandonar o barco adornado.

 

Foto filtro Instagram

A urgência da cidadania

por João Távora, em 14.12.12

Estou inteiramente convencido de que não será possível fundar de novo uma aristocracia no mundo, mas penso que que os simples cidadãos, associando-se, podem criar no seu seio seres muito abastados, influentes e fortes, numa palavra, personalidades aristocráticas.

De Democracia na América
Alexis Tocqueville

 

Parece-me um terrível sinal de imaturidade democrática a generalizada aceitação tácita e indiferença às manhas, chapeladas, vezes demais utilizados pelas oligarquias partidárias instaladas na luta pelo poder. Um idóneo jornalista da nossa praça dizia-me impassível em conversa ontem à noite que esses procedimentos são tão habituais quanto inevitáveis, aplicados com mais ou menos maquiavélica sordidez, em todos os partidos políticos. Ora, não é estranho que a exigência de transparência democrática de um regime pare à porta de um congresso partidário, e que um salutar debate se sustenha à entrada de um Conselho Nacional, quantas vezes dominado pela estratégia da “matilha”? E que o mesmo se torne ocasião de protagonismo duns voluntariosos profissionais do tonitruante opróbrio para desacreditar o discurso dum parceiro que ponha levemente em causa a verdade oficial? Por outro lado também me ruboriza o despudor da repetitiva ostentação de mesuras ao grande líder, por tribunos que nunca noutra coisa exibiram obra ou competências. Protagonistas que ofuscam e empalidecem sérias análises e genuínas contribuições anónimas com substância e sabedoria.

Reconheço que a luta pelo “poder”, pela vertiginosa atracção que exerce o mítico objectivo, tão correntemente evoque a mais negra face dos intervenientes. E chego a admitir que já é um ganho que tanta violência se fique (quase) sempre pelas palavras.
No balanço do Conselho Nacional de ontem do CDS lembrei-me de algo que escrevi em tempos sob outro contexto: que para lutarmos pelas nossas convicções não é obrigatório sermos todos Assessores, Deputados, Vereadores, Ministros ou Secretários de Estado. Acontece que, mesmo que os aparelhos partidários não nos queiram lá, é nesse espaço intermédio de cidadania que todos somos poucos e onde fazemos mais falta. De resto, no que a mim me diz respeito, não sendo uma qualidade brilhante, acreditem que sou mesmo persistente. E livre.

Fraca gente faz fraco o pobre reino

por João Távora, em 05.12.12

“Estou inteiramente convencido de que não será possível fundar de novo uma aristocracia no mundo, mas penso que que os simples cidadãos, associando-se, podem criar no seu seio seres muito abastados, influentes e fortes, numa palavra, personalidades aristocráticas.” (...) 

“Uma associação política, industrial, comercial, ou até cientifica e literária, é como um cidadão instruído e poderoso cuja vontade não pode ser vergada e que não se consegue oprimir na sombra e que, ao defender os seus direitos pessoais contra a exigências do poder, salva as liberdades comuns.”


De Democracia na América

Alexis Tocqueville


O que pretendo hoje aqui é explanar-me sobre uma incómoda prespectiva da realidade, a proverbial indiferença dos portugueses pela “coisa pública”, fenómeno que considero, mais do que consequência da nossa indigência civilizacional, a principal causa do atoleiro em que de tempos a tempos o País se descobre mergulhado. É dessa realidade que emerge a classe política que temos, e que não é o objecto desta análise. Acontece que os meus compatriotas nutrem uma estranha repelência por qualquer tipo de cooperação ou associativismo, que não seja improvisado à mesa do café ou num almoço bem regado com os amigos, para descarregar a bílis sobre “os poderosos” que tomam as decisões por si. Tirando as reuniões de condóminos, o mais das vezes intermináveis e surreais disputas de egos, o indígena recusa liminarmente ir à luta em qualquer estrutura ou assembleia formalizada, que não seja do seu clube de futebol, cuja participação na melhor das hipóteses se ficará por umas assobiadelas das bancadas do Estádio. 
É assim que, em consideração à sua opinião “muito própria” e que apenas a si diz respeito - da qual com dois copos de tinto ou umas imperiais facilmente se “alivia” - o português não entra em “comboios” (até porque estão quase sempre em greve). Em coerência com tudo isto, e por uma questão de princípio não faz parte do seu clube do bairro. Também porque conhece de ginjeira o presidente, que é o Manel de quem foi colega da Escola da Câmara, e que, metido naquela vida, nem quer saber da mulher que anda para aí toda esterlicada – confidenciou-lhe a esposa que tem um dedo que adivinha e que lhe garante não ser o senhor pessoa de fiar. O português a que me refiro até frequentou em tempos a paróquia, da qual se veio a afastar uns meses depois, quando se apercebeu ser tudo aquilo um antro de conspiradores e beatos, sempre na busca de protagonismo onde nem os pedintes safavam. Consta que no passado pagou quotas duma associação cultural; mas aquilo, tirando o Festival de Teatro e um ou outro inoportuno passeio ao Domingo (imagine-se!), não atava nem desatava, e para além disso a direcção era uma cambada de empertigados. Dos partidos nem falar, senão fica logo o caldo entornado: são todos iguais, ninhos de ladrões e oportunistas à nascença que têm aquilo tudo controlado para sacarem “o deles” – que “eu é que não sou parvo!”. Claro que quando a situação der para o torto e “eles” abusarem, se a coisa for bem apalavrada nas televisões, nos jornais e nos cafés, o português é bem capaz trocar o sofá pela Avenida da Liberdade para descarregar a raiva e a indignação que afinal faz tão bem às tripas e alivia a psique.
Mas chegados a estes prodigiosos tempos da tecnologia em que está tudo na mesma, o cidadão, senhor duma insondável quanto ancestral sabedoria, tem uma prenda caída dos céus e à sua medida: o computador e o Fecebook, um fim em si mesmo, através do qual as suas crenças e zangas traspõem finalmente a mesa do café. De facto, a tecnologia despertou aos cidadãos uma inaudita vontade participação em discussões, "grupos" e "petições" para todos os gostos e feitios. Tudo virtual: entre a colheita dumas couves no Farmville, a aceitação dum convite a um evento que nunca irá. Com o esforço dum dedo e três neurónios está criada a ilusão de participação cívica.
Enfim, nós os portugueses temos aquilo que merecemos. Incapazes de nos organizar e mobilizar, para a partir de dentro promovermos fortes e participadas estruturas intermédias, toda uma sorte de instituições e colectividades, que condicionem e contrapesem a acção de um Estado mastodôntico, refém de uns poucos mais atrevidos. Quase sempre os mesmos, com o à vontade que lhes confere a demissão de todos os outros, entretidos em casa a cuidar da sua vidinha… que afinal nos escapa entre os dedos. Dia após dia. 

Dia da Restauração (2)

por João Távora, em 02.12.12


«Estamos a viver mais um 1º de Dezembro, o dia em que se afirmou a vontade de independência nacional e os portugueses disseram “Nós somos livres e o nosso Rei é livre”. Para nós, o 1º de Dezembro aconteceu uma vez e o 1º de Dezembro acontec

erá sempre.»

Excerto da mensagem Mensagem do Chefe da Casa Real portuguesa, Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança no 1º de Dezembro de 2012.

Foto Gerardo Santos, Global Notícias (Diário de Notícias 2 de Dezembro 2012)

Uma autêntica cabala

por João Távora, em 30.11.12

 

Afinal não é só Passos Coelho que tem um "parti pris" contra a industria da restauração. A revista da DECO, "Proteste" (o nome da publicação é em si um prodigioso trocadilho) este mês dá destaque às máquinas de bicas caseiras. O estudo indica que ao fim de um ano, com o consumo de 4 cafés por dia tirados em casa (do Pingo Doce) se atinge a poupança de 595 euros gastos na pastelaria. Se eu fosse proprietário de um café, organizava uma manif à porta da Defesa do Consumidor.



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