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Maria Clementina

por João Távora, em 26.01.08


Foi há muito, muito tempo que encontrámos a Maria Clementina abandonada numa ninhada de gatos. Voltávamos então para casa, nós os cinco irmãos ainda pequenos, com a minha mãe, de uma tarde de brincadeira no Jardim da Estrela. A memória é vaga, mas lembro-me de que a bichana não abria os olhos, e que parecia desesperada com o seu miar débil e insistente. Apesar do aspecto raquítico, foi escolhida pelo seu traje original: focinho rosado sob uma mascarilha branca, pêlo prateado com umas imaculadas luvas e botinhas brancas nas patas.

Acomodada numa caixa de sapatos, e sem parar de gemer, cedo o bicho chamou a atenção do meu pai no seu escritório. Terá sido assim, desviando a atenção da sua eterna leitura, que resmungou o seu primeiro voto de desagrado pela adopção. Voto que pesaria por alguns anos sobre a vida da gata e a minha cabeça.

Foi à noite, connosco todos de pijama à volta da cama dos meus pais, que a minha mãe conseguiu injectar um pouco de leite com uma seringa de plástico na minúscula boquinha da gatinha. E foi nessa ocasião que a baptizámos de Maria Clementina, ao que a minha mãe, com o seu peculiar sentido de humor, acrescentou o apelido Joly Braga Santos. Foi este o seu polémico nome, que tanto chocaria a nossa fiel mulher-a-dias, a Lídia, uma senhora de profunda religiosidade, muito ciosa do seu culto mariano.

Maria Clementina cresceu em sabedoria e graça, já que de tamanho nunca foi grande coisa. Fazia grandes e repentinas corridas pelacasa fora, trepava paredes e cortinados, apanhava moscas com a patinha e rebolava, enrolada na minha mão, mordiscando-a com pequenos coices. Adoptei-a como minha, e com o tempo essa propriedade foi reconhecida por todos, excepto pela própria: de sesta em sesta, saltitava de colo em colo e de noite para noite aninhava-se em diferentes camas, o que me deixava despeitado e ciumento. Mas lembro-me bem de ter assistido a Tardes de Cinema dominicais com a Maria Clementina ronronando, aninhada sobre as minhas pernas cruzadas.

Esforçava-me por legitimar essa hegemonia e assumia o árduo trabalho de criar um felino naquele 3.º andar de Campo de Ourique: renovava a serradura no caixote e cuidava da sua alimentação, surripiando os mais apetitosos restos e, quando podia, numa saída às compras, trazia-lhe umas latas de Kitty Cat: assim conquistava o coração da Maria Clementina, que subia pelas minhas pernas, em sonoros roncos de prazer, enquanto eu suava a abrir-lhe uma lata.

Mas o facto é que a gatinha vivia lá em casa numa semiclandestinidade, e isso era uma sombra negra na minha vida e penso que também na dos meus irmãos. Após uma primeira rejeição pela parte do meu pai, Maria Clementina conquistou-o por um curto período, quando, graciosa e ainda bebé, fazia irresistíveis brincadeiras e jogos que não o deixavam indiferente. O problema adensou-se com o tempo: a gata adquiriu o vício de arranhar os sofás, crescia e perdia o encanto. O pior era quando periodicamente era acometida por umas estranhas crises que chegavam a perdurar infindáveis dias, em que “uivava” autenticamente, arrastando-se languidamente pelo chão, indiferente às nossas zangas e chamadas “à terra”. Era o cio.

Por essa altura a minha mãe caíra doente, situação que perduraria por muitos anos, e por grandes que fossem as fúrias do meu pai contra o bichano, nós, as crianças, nunca soubemos bem como lidar com tal situação.

Aconteceu uns anos mais tarde, quando a Maria Clementina lutava com uma feia doença de pele que o veterinário e eu não conseguíamos debelar. Foi numa tarde fria de Inverno, pelas vésperas de um Natal qualquer, que aquilo que eu mais temia aconteceu. A gata, numa das suas incontidas correrias, deitou a árvore de Natal ao chão, e partiu umas porcelanas de que o meu pai muito gostava. Nesse dia, quando cheguei a casa, já não ouvi a sua fúria insana que ocorrera minutos antes, só os choros reprimidos das minhas irmãs. Quanto à Maria Clementina, a bronca tinha sido a gota de água e a sentença desta vez era irremediável.

A nossa gatinha, por ordem inabalável do meu pai, foi abandonada nesse dia na rua, ali para o lado dos Bombeiros. Ainda a vi refugiar-se assustadíssima debaixo de um carro estacionado. Era a sua primeira experiência de rua.

Durante muito tempo, confundi a pena que tinha do bicho com a pena que tive de mim. Durante muito tempo, quando passava naquela esquina da Rua Correia Teles com emoções contraditórias, procurava, incrédulo, por sinais da Maria Clementina. Que, afinal, nunca mais deu sinal de vida.

 

Presentes de Natal

por João Távora, em 23.12.07

Há por aí um discurso simplista no qual facilmente se confunde consumismo e opulência com a benigna tradição do presente de Natal. Nesta quadra também me parece importante evidenciar a nobreza que possui a materialização do nosso amor ou caridade num objecto, um “presente” (que nos tornará presentes) desejável pelo próximo. Oferecer um presente a alguém – de quem nos desejamos (re) aproximar ou simplesmente homenagear, será com toda a certeza uma atitude de uma enorme dignidade. Essencial é não confundir a dádiva de um presente com marketing pessoal ou com alienação da realidade; fazê-lo bem é aliás uma arte muito própria que requer imaginação, e (o que é mais importante) uma grande capacidade de nos colocarmos na pele do outro, o mesmo é dizer de “amá-lo”.
Durante uma boa parte da minha vida o Natal foi festejado sob o pressuposto da celebração religiosa do nascimento do menino Jesus. E lembro-me com comoção de alguns presentes que, estou certo, eram muito mais do que simples objectos, e que terão sido verdadeiros actos de amor. Do meu saudoso pai - desajeitado sonhador e insigne investigador de minudências históricas, quase sempre exasperado com o seu crónico desconforto material - recebi alguns deles, como o incontornável Táxi Dinky Toy pintado a verde-e-preto pela sua mão, ou aquele álbum dos Marretas, uma sua diligenciada tentativa de convergência com o rebelde adolescente, com direito a dedicatória escrita e tudo.
Na avenida da Liberdade, na casa dos meus avós maternos, de costumes mais liberais e na época com alguma prosperidade, só depois da solenidade da Missa do Galo nos juntávamos todos a preceito aos meus tios e respectivos primos, para a ceia e distribuição dos presentes. A minha avó, personalidade única de vigor e simpatia, preparava o momento com enorme empenho: por exemplo, as diferentes cores das colecções de embrulhos e embrulhinhos distinguiam a família destinatária dos mesmos. A casa grande e de tectos altos estava quente e iluminada como nunca, cheirava a cera de velas e chocolate quente. Um presépio sóbrio onde se destacava um menino Jesus de braços abertos encimava a elegante cómoda grande da sala. A um canto a grande televisão a válvulas transmitia ainda o final das celebrações em directo da Sé de Lisboa, à qual assistira a minha bisavó Valentina, mãe do meu avô e padrinho, e que da varanda daquela sala quase ao cimo da avenida, testemunhara as mais equívocas revoluções e intentonas do conturbado início do século. Àquela hora a pequena senhora de cabelos ralos e prateados ainda resistia aos anos e ao sono. E da sua poltrona de veludo verde escuro testemunhava mais um renovado Natal. Muitos presentes recebidos nesses Natais marcaram a minha relação com aquela casa. Tornaram os seus protagonistas presentes no meu coração para sempre.
Ontem, quando estava a fazer as últimas compras de Natal, ao escolher “aquela” carteira especial para a minha mãe ou aquele blusão “radical” para a minha enteada irreverente, senti uma infantil ansiedade, pela hora da festa e ocasião para distribuirmos aqueles presentes tão “especiais” para a nossa gente tão querida.
É por estas razões que defendo o ritual do presente de Natal, que deveria conter um sentido profundo e cristão, o do reencontro dos homens de boa vontade: um autêntico tributo ao Nosso Senhor e Salvador, que nesse dia se nos apresenta como um frágil e radiante menino, que para nossa realização e felicidade deveríamos saber manter sempre vivo dentro de nós.

A todos os leitores e amigos do Corta-fitas aproveito para aqui deixar os meus sinceros votos de um muito feliz Natal.

Tributo à Bolacha Maria

por João Távora, em 17.11.07
Composição: Farinha de trigo, açúcar, gordura de palma, xarope de glucose, água, emulsionante, (lecitina de girassol), sal mineral, levedante químico (bicarbonato de sódio), agente de tratamento de farinha (metabissulfito de sódio) e glúten.
Valores nutricionais por 100 g: Valor energético: 1779KJ (421 Kcal) Proteína: 6,8g Glícidos 78,9 g, Lípidos: 8,7g.



Ainda as comprei ao quilo envoltas em farripas de papel, dispostas em caixas de cartão. Naquele tempo, pouco antes do advento dos supermercados, já havia uma variedade enorme de bolachas, em saquetas ou a peso. Vendiam-se numa qualquer mercearia ou charcutaria de bairro. Com recheio, sem recheio, d’Araruta, de Baunilha, Belinhas, Torrada, de Areia, Água e Sal, Línguas de gato, de veado ou da sogra, etc., etc., etc.
Mas as “bolachas” mais “bolachas” de todas; mais saborosas e que porventura eu levaria para uma ilha deserta - juntamente com os meus CDs e livros preferidos - seriam sem dúvida uns quantos pacotes de “bolachas” Maria... (e uns litros de refrigerante para desembuchar, s.f.f.).
Lembro-me em pequeno quando comprava quinze tostões delas na mercearia da Sra. Natália, que m’as aviava profusamente num cartucho de papel pardo. Sabia melhor e satisfazia bem mais do que um rebuscado e módico bolo da pastelaria do Sr. Manel ali na outra esquina. Depois ainda tinha que as comer avaramente, à pressa, num recanto escuro das escadas do prédio, subjugado pela gula - para não ter que as repartir com os meus insaciáveis irmãos.
A Bolacha Maria é uma receita simples de enorme sucesso. Por mais que se inventem mais variedades, bolachas mais finas ou sofisticadas, a previsível Bolacha Maria nunca enjoa, cai sempre bem. Por exemplo, ao lanche sabem tão bem aos pares, com uma redundante porção manteiga de entremeio, acompanhadas com um chá quente ou uma laranjada fresca.
Num mundo pleno de imprevistos, novas experiências, radicais performances, jornalistas de causas, cozinha de fusão ou apenas nouvelle; cheio de modas e novos conceitos, experimentais ou definitivos, novíssimos softwares e hardwares, mais às suas actualizações, online ou offline... é muito reconfortante saber que existem algumas sensações previsíveis, experiências que não mudam, sabores resistentes e imutáveis.

Raios partam esta ingrata dieta... que exacerba o meu apetite, e que mal resiste a uma frugal escapadela... ali ao armário da cozinha.

Sto. António dos Olivais

por João Távora, em 15.11.07
É verdade que passei uma boa temporada em Coimbra, vivi em Sto. António dos Olivais. Lembro-me que ouvia Lloyd Cole de mais, e que um dia uma bem intencionada alma me ofereceu um gatito siamês para minha salutar companhia. Acho que o animal chegou demasiado crescido às minhas mãos, já elegante e lustroso. Desde então tentámos com afinco domesticarmo-nos mutuamente, mas a causa era perdida - foi curta e inglória a sua passagem na minha vida. O bichano, além de não me ligar peva, possuía uma estranha extravagância: subir às arvores que não sabia descer. Uma noite, de madrugada, acordei estremunhado com os seus miados aflitos. Espreitei ensonado para o quintal, e lá estava ele, empoleirado num tronco da alta árvore. Na noite seguinte ao chegar a casa, àquela pacata rua de província, o gato lá permanecia, balanceante, num ramo ainda mais alto e mais frágil, com um miar mais sonoro e desesperado. Pressenti os olhares estremunhados e recriminatórios dos meus vizinhos, ocultos pelas suas térreas gelosias. Ao terceiro dia, finalmente entrou em casa despenteado, rouco e a coxear. Dei-lhe uma reconfortante refeição, e nessa noite ambos dormimos um sono profundo e retemperador.
Que eu me lembre, a cena repetiu-se mais duas vezes. À medida que o tempo passava, o bicho subia mais alto, para os mais frágeis e trémulos ramos, ao nível de um segundo andar. O pânico da vertigem impelia-o para o alto. Atirei-lhe com pinhas, chamei os bombeiros, a situação era desesperada. Até que o gato caía de maduro, pelo cansaço ou pela força do vento.
O bicho era bonito. Olhos verdes claros, por detrás duma mascarilha castanha a condizer com as botas e luvinhas, sobre um pelo sedoso bege claro. Uns dias mais tarde o bichano desapareceu. Foi algum incauto forasteiro que o roubou, atraído pela fidalga figura do estúpido animal. Ou então um vizinho mais zeloso lhe deu um curativo fatal. Para bem da boa vizinhança.
Demorou algum tempo mais para que eu próprio, pelo meu pé, descesse da minha árvore.

Fora de série (13)

por João Távora, em 05.11.07

Há poucos anos, com o advento do DVD, recuperei cá para casa o humor rock n’ roll d' Os Marretas, que já no final dos anos setenta aligeirara o fosso geracional na casa dos meus pais, juntando toda a família ao serão dos Domingos. Essa meia hora mágica situava-se entre a costumeiro jantar de suculento frango assado e a acabrunhada preparação da nova semana de aulas que ameaçadoramente despontava.
“Os Marretas” foi uma genial série de televisão americana estreada em 1976 da autoria de Jim Henson e sua trupe de prazenteiros manipuladores e criadores de bonecos. Jim Henson, que nos deixou prematuramente em 1990, já tinha no curriculum a colaboração regular dos seus bonecos no prodigioso programa educativo Rua Sésamo desde 1968, e desde 1961 num obscuro show humorístico "Sam e os Seus Amigos" onde já pontificava um simpático boneco “peúga”, talvez a génese do celebradíssimo sapo Cocas.
A inconcebível colecção desta mágica fábrica de "fantoches" num frenético ritmo rock, às vezes bem psicadélico, foi crescendo em tamanho e graça: do minimal felpudo “fole” dançarino, da peúga falante ao urso Fozie - o inseguro aprendiz de comediante, passando pelo caótico Gonzo e toda a sorte de animalejos e objectos.
Naquela desregrada "companhia teatral” todos os personagens - e alguns dos adereços - têm vida e personalidade muito próprias. Podemos ver umas alegres Couves e outros legumes a dançar folclore polaco, os ratos, baratas e demais bicharada residente a exigir um aumento de cachet ao sapo Cocas, o inabalável director e apresentador daquela literalmente explosiva empresa. Este tem como braço direito o influente moço de recados Scooter, sobrinho do dono da sala de teatro. E que dizer dos velhotes Statler e Waldorf, sempre teimosamente insatisfeitos, no alto do seu camarote? E do Sam, a moralista e inquisidora águia americana?
Durante os endiabrados espectáculos, Cocas lá vai mantendo a calma no meio do caos, mantendo o alucinante ritmo das variedades, sempre com um convidado (muito) especial. Entrevistou por exemplo Julie Andrews, enquanto a troupe do Canhão Humano se preparava para disparar uma vaca (verdadeira). Salva-a do expulsivo destino Gonzo (enigmática espécie animal) que negligenciando a sua bem amada Camila (uma galinha) enamora-se arrebatadamente pela vaca com quem desaparece para um jantar romântico. Em abono da verdade, tartes espetadas na cara, trambolhões e violentas explosões num humor assim “inteligente” apenas encontrei nos "Monty Python" e n' "Os Marretas".
Do sapo Cocas ao jazzístico e imperturbável saxofonista Zoot, todos os personagens possuem um sólido carácter e profundidade “humana” (?!), expressa com mestria no desenho, voz e manipulação daqueles inimagináveis bonecos, de cores mirabolantes de olhos piscos e desmesuradas bocas. O humor nonsense impera n’ "Os Marretas", a par com os convidados especiais ao momento “na berra” do Show Business. E música, muita boa música Jazz, Folk e Rock n’ roll, numa impecável interpretação da extraordinária banda residente liderada pelo Dr. Teeth nas teclas, com o Monstro na bateria, o Floyd à guitarra, e a doce Jenice a cantar, por entre os minimais solos de saxofone de Zoot. Um verdadeiro tributo à boa música popular. Ou também à música erudita, pelas patas do carismático Rowlf, o cão pianista. É obrigatória uma referência à Miss Piggy, que nunca me seduziu por aí além. Talvez por sempre me ter parecido uma personalidade demasiadamente colada à de tantas caricaturas vivas da existência real.
Foi com "Os Marretas" que consegui detectar o pezinho maroto do meu pai, no alto do seu sofá, a bater o ritmo do rock mais pesado. E a rir-se à gargalhada com os chavões dum tempo que definitivamente já não era o dele. Talvez por isso, eu tenha promovido em casa, com os meus miúdos, o culto destas fabulosa série. E que obteve uma adesão incondicional, o que confirma que o bom gosto é mesmo intemporal.
À parte das “longas metragens”, onde nunca consegui vislumbrar a qualidade dos curtos episódios temáticos (ou não) para a TV, estão disponíveis no mercado algumas colectâneas ou programas especiais que são autenticas preciosidades, hinos à inteligência e à gargalhada salutar. Aconselho vivamente, por exemplo, a Gala Especial dos 25 anos dos Marretas, onde se encontram juntas algumas das mais singulares e históricas pérolas do sapo Cocas e companhia.

Geração sem TV

por Corta-fitas, em 10.10.07
Há um filme em Super 8 em que a Patrícia, muito loura e sardenta, está com as mãos dentro do meu fato de banho e eu com as mãos dentro do fato de banho dela no relvado da piscina do Hotel Polana. Sem sabermos, os pais de cada um estavam a filmar-nos de longe mas com uma zoom tipo paparazzi. Deviam achar piada àquilo, pelo facto de termos seis anos. Lembro-me que ela passava a vida atrás de mim para me ver a pilinha. Mas, de facto, de beijos na boca não me recordo.

Fora de série (8)

por João Távora, em 28.09.07
Justificar o meu deslumbramento por uma música, por uma tela ou por qualquer performance artística afigura-se quase sempre pena maior do que arrancar um dente. Daquilo que eu gosto muito, gosto como um autêntico basbaque, com arrepios no corpo e pele de galinha na alma. E a relação que desenvolvo com o objecto da minha percepção é sempre muito condicionada pelas circunstâncias emocionais. Os estímulos e impressões daí resultantes são assunto terrivelmente solitário e de difícil expressão. Antes assim não fosse.
Vem isto a propósito de Os Vingadores (Grã Bretanha 1961-69), a minha saudosa série de TV que eu devorava fascinado cada episódio, através da velha televisão a válvulas da casa dos meus pais. No início, quando ainda mal sabia ler as legendas, assistia aos episódios numa semi-clandestinidade. É que numa família pouco liberal como a minha, a criançada tinha impreteríveis horas para se deitar. Mas havia truques e manhas para me fazer passar despercebido: no chão, de pernas cruzadas a respirar baixinho, num discreto recanto. Até que o meu pai dava conta que eu ali estava, tenso, mas flagrantemente feliz. Às vezes ele, adorável como sabia ser, suspirava e lá condescendia; outras, corria-me dali para a cama, cortante e autoritário, mesmo na altura do emocionante desenlace. Construí a relação com o meu pai com cumplicidades e desavenças. Ele era enorme, irascível e... meigo. Quantas vezes ficávamos os dois noite fora a ver Os Vingadores ou o Comissário Maigret... Os anos que passaram, progressivamente, acentuaram a nossa crónica incomunicabilidade. Mas como eu o admirava, mesmo quando na adolescência lhe ganhei os primeiros jogos de xadrez...
Num rebanho de cinco irmãos, cada um tinha que sobreviver e afirmar-se como podia, e nós lá arranjávamos os nossos "fetiches" ou "causas". Eu, além do Sporting – um factor não diferenciador -, era simplesmente pela Inglaterra, nas marcas de carros, no futebol, no rugby ou na Fórmula I. Até me dava um secreto prazer saber que a criadora do Noddy era britânica.
Os Vingadores possuía arrebatadores atributos para me seduzir: mistério, um herói com estilo, carros, perseguições de automóveis e mulheres deslumbrantes. Sabiam que Catherine Gale, a miúda (Honor Blackman) da terceira série veio a ser a Bond Girl de 007 contra "Goldfinger"?
John Steed (Patrick McNee) era um gentleman, imperturbável herói, com o seu charmoso meio sorriso, um inseparável chapéu de coco anti-balas e o conveniente guarda-chuva, não só por causa do britânico clima, mas por ser uma arma secreta, ao bom estilo de 007.
O resto eram lustrosos e potentes automóveis sport, em perseguições pelas ruas de Londres, nas estradas e nos campos da minha mistificada Inglaterra dos Beatles. John Steed conduzia um espectacular Rolls Royce Silver Ghost de 1927. Gostava do jeito afidalgado do herói e daquela pronúncia ao estilo BBC. Gostava dos cenários rocambolescos, dos palácios, bibliotecas e frondosos jardins. Também me deixei seduzir por Emma Peel, (Diana Rigg) mulher resoluta e ágil no seu macacão de couro, quase tão feminina como a idílica fada do Pinóquio. Mais tarde foi substituída por Tara King (Linda Thorson), na quinta série, também sexy mas mais irreverente, a acompanhar o decurso das modas da revolucionaria década de sessenta. Por fim lembro-me da “Mãe”, o fleumático e misterioso chefe da organização ao serviço de Sua Majestade. Só no início da penúltima série nos é revelado o seu aspecto físico: um homem imensamente obeso sempre sentado na sua cadeira de rodas e rodeado de telefones.
Mas nem sempre devemos voltar aos locais onde um dia fomos felizes. Há uns anos revi um episódio da série e confesso que sofri uma certa desilusão: os efeitos especiais não eram nada do outro mundo, e o guião menos sofisticado do que me parecia então. Essa simpática ilusão fora criada à conta da minha ingenuidade, e dos afectos vividos nesse tempo. É talvez por isso que a série Os Vingadores me trará para sempre boas memórias.

A barbearia

por João Távora, em 21.08.07
Quando era pequeno, ir à barbearia do bairro era um ritual da minha masculinidade. Nem sempre voluntário, mas periodicamente inevitável, quando a juvenil guedelha hirsuta assim o exigia. Ao princípio ia com a minha mãe, que me entregava aos cirúrgicos cuidados do barbeiro e logo saía apressada, talvez pouco à vontade, talvez para fazer outras coisas úteis. Percebo perfeitamente, pois eu também não me sentia bem no território feminino, quando infortunadamente era obrigado a acompanhar a minha Avó ao cabeleireiro Brito & Brito, na Avenida da Liberdade. Eram momentos de sufocante opressão, com a ideia clara de que era um intruso naquele ambiente assexuado a cheirar a laca e a verniz. Espantavam-me aqueles estranhos capacetes espaciais, com as circunspectas senhoras debaixo, de dedos em riste pintados de fresco. Eram todos aqueles rolos, papelotes e turbantes na cabeça que me deixavam verdadeiramente intimidado, estarrecido.
O que me lembro do meu barbeiro ali na Rua Almeida e Sousa em Campo d’Ourique, era das suas mãos lavadas e relógio dourado no pulso. Sempre de impecável bata branca e de conversa fácil, com os seus dedos duros e frios a endireitarem firmemente a minha cabeça fugidia. Lembro-me das pinceladas de sabão morno, e do raspar da navalha afiada na nuca e nas patilhas inexistentes. Era parte dos procedimentos. Lembro-me do fatal calendário de “garagem” com uma loira bem curvada, do horário e dos diplomas emoldurados. Também sobressaiam, ao lado dos grandes espelhos, umas fotografias a preto-e-branco de garbosas e antiquadas cabeleiras, bem penteadas com Bel Hair ou Restaurador Olex. Fascinavam-me também os pesados cadeirões em ferro pintado, onde me sentava soerguido num caixote “adaptador” para as crianças pequenas. E do estofo de cabedal redondo, que com duas espanadelas, se virava do avesso para assento do cliente seguinte. Naquele pequeno espaço, os homens comentavam as banalidades da política e do futebol, ao som do Rádio Clube, com as tesouras sempre a cortar, a cortar, em golpes ritmados, tchic, tchic, tchic, tchic. Depois, vinha aquela pergunta redentora: “o cabelinho é para molhar?” Finalmente o sacrifício acabava, era tempo de voltar para as brincadeiras, para casa ou para a praceta, com os cabelos caídos a picar nas costas.
Um dia destes, aburguesado e imprudente com as pressas, descobri perto do escritório um moderníssimo Cabeleireiro de Homens, cheio de paninhos quentes e inauditas mordomias. Surpreendi-me logo com o pretensioso recepcionista, de modos efeminados, casaco fantasia e gravata Disney que confirmava a marcação. Sentado na sala de espera, procurei em vão literatura apropriada, o Record ou o Correio da Manhã para me entreter. Só descobri as brochuras dos milagrosos produtos capilares. Logo uma menina, de rabo bamboleante, se abeirou de mim perguntando-me se eu queria arranjar as unhas... Eu, arranjar as unhas?!? Notei também as conversas dum cliente com a manicura, talvez um bem sucedido gestor de Import - Export, que me soou excessivamente íntima. O homem emitia confiantes e bombásticas opiniões, sobre a política e as finanças “de cordel”. Quando, de cabelos lavados, cheguei às mãos da decotada cabeleireira, balbuciei que não queria modernices, o que a deixou visivelmente contrafeita. Depois, veio uma jovem estagiária oferecer uma massagem capilar... e um café. No final paguei 25.00€. Nunca me saiu tão cara uma bica...
Duas semanas depois, quando o cabelo mal cortado definitivamente não assentava mais, decidi-me a visitar o velho e fiel barbeiro aqui de S. João do Estoril. Decidi-me a perder uma manhã de Sábado a ler o Record e o Correio da Manhã, e cortar o cabelo como deve ser. Ouvindo o Jogo da Mala e o Bola Branca em ondas médias, sem paninhos quentes ou embaraçosas mordomias. Afinal um conservador é um conservador.

Os Correios

por João Távora, em 08.08.07
Gosto da marca, gosto do logótipo. A silhueta em branco de um cavaleiro de trombeta na mão, a cavalo e a galope. Melhor mesmo só se fosse sobre fundo verde, que eu cá sou do Sporting. A vida cruzou-me demasiadas vezes com esta vetusta “instituição” nacional: os CTT, que em tempos tinham como missão pôr as pessoas em contacto, pô-las a contar, a namorar, a dizer de sua justiça. Para o bem e para o mal, recebíamos lá em casa cartas ou postais de parentes ou amigos, multas, as inevitáveis “contas”, extractos bancários, e, às vezes, publicidade: um gorduchinho envelope das Selecções do Reader’s Digest, ou uma brochura dalgum ingénuo editor que nos elegia como potencial cliente de um caríssimo fac-símile. Acontecia às vezes ir levantar um registo ou despachar correspondência ao meu pai, uma enorme estucha sem recompensa possível. Aquela senhora de óculos fazia tudo muuuito devagarinho, os outro quatro modernos guichets estavam sempre fechados, e o quinto era para chamadas internacionais. Assim que se perdia uma boa manhã a preguiçar nas férias. E mesmo assim, ao final da longa espera, arriscava um ralhete da empregada por não trazer trocos, ou voltar a casa em busca do BI do Sr. Marquês.
Anos mais tarde percebi que esta “instituição” não era uma condescendente benesse do Estado ao mal agradecido e insolente cidadão da república - que eu apesar de contrariado também sou. Descobri com alguma surpresa que os correios eram uma empresa que vende serviços a quem os queira comprar. Que precisavam de público, de mercado, de clientes, por Deus!
Bom mesmo, foi quando o posto de correios de Campo d’Ourique, ali na esquina da Domingos Sequeira com a Rua do Patrocínio trespassou virando cervejaria com moelas, sapateiras e imperiais a rodos. Mesmo na altura em que comecei a ter uns trocos e bons amigos para a noitada reinadia.
De resto, os CTT hoje são aquilo que se sabe. No correio não recebo cartas ou postais. Só contas e avisos de impostos para pagar, e... toneladas de publicidade. Como os demais 80% dos habitantes de São João do Estoril, trabalho e passo o dia noutro Concelho, pelo que os correios “da minha terra” pouco serviço me fazem. Sei que vendem pratos e medalhas dos “três grandes” da bola, livros em edições raras, brinquedos especiais, selos de colecção e muito “marchandaising”. Também se “destrocam” vales postais e as pensões aos reformados, que pouca mais gente lá vai. É que o estabelecimento abre às nove e fecha às seis e está fechado para o almoço das 12.30 às 14.00. É só para quem quer meeesmo. E eu fico chateado quando o correio é registado ou não coube na caixa do prédio: pela certa, como mais alguns desgraçados bananas, vou ter que tirar uma manhã de trabalho para ir aos correios, não se dê o caso de ser uma coisa importante, dos tribunais ou das finanças. E a propósito, amanhã sem falta tenho que lá ir “levantar” um misterioso aviso que está mesmo a caducar. E não me vou esquecer de levar uns trocos, não vá alguém zangar-se comigo.

Uma escrita feliz

por João Távora, em 19.07.07
Nalguns comentários aos meus modestos escritos mais “intimistas” aqui no Corta-Fitas, fui encontrando reacções adversas à minha “irritante” escrita “feliz”. Essas críticas acusavam-me de uma visão parcial, ou enviesadamente superficial da realidade. Uns comentários apaguei, outros não; mas até julgo entender bem essa má vontade: a herança do velho pessimismo romântico gerou uma ditadura estética, muito difícil de contornar. A descrença, o sarcasmo e a ironia são motes totalitários dos quais poucos autores escaparam com vida. De facto, “dizer bem” nos dias que correm é difícil, não vende. E no fundo podemos sempre desconstruir uma atitude nobre, um bom sentimento, decompô-lo em partes mesquinhas de modo a não comprometer os parâmetros. No outro extremo, a aberração, o grotesco, garante o sucesso do espectáculo, e relativiza a mediocridade estabelecida.
Em minha defesa, salva-me a mediania da minha escrita, a despretensão da minha existência. Ironicamente, as minhas obvias limitações literárias libertam-me de quaisquer desses deveres ou compromissos estéticos: uso a escrita por motivos profissionais, e estou nos blogues por mero divertimento.
Influenciável, durante a minha prolongada adolescência, empenhadamente alimentei a descrença e a melancolia. Mergulhado nos neuróticos fluidos rosados dos anos 70, durante muito tempo não dispensava a choraminguice de Roger Waters, os murmúrios alucinados de Lou Reed, os selváticos esgares de Patty Smith, ou uma triste balada de Nick Cave. Isso é que era cool. O Homem era mau, a guerra fria condenara-nos a todos, e a culpa era toda do pai. E o fim do mundo era já amanhã, facto que desde logo resolvia tudo. Entretanto ia bebendo da mais negra literatura, de génios como Capote, Camus, Steinbeck ou Malraux até quase perder o pé naquela escuridão. Não havia revolução, não havia resolução, antes uma natureza sem sentido. Existencialmente irrequieto, um dia deixei-me ir ao fundo do meu umbigo - o sítio mais desinteressante do universo. Quando voltei, muito mais tarde, cheguei diferente.
Porque não temos que ser obrigatoriamente infelizes. E porque a depressão é uma luxuosa patologia burguesa. O maior dos egoísmos, um enorme enfado.
Hoje, não tenho grande pachorra para o narcísico pessimismo militante. Tal e qual como a oposta euforia, ambas são perspectivas extremas da realidade, no mínimo inverosímeis. Entendo muito bem o potencial romanesco dum carácter misantropo, amargurado, bipolar. É a adrenalina de caminhar no arame, sobre o vazio, sempre pleno... de angustiadas emoções. Bem jogado, com algum charme, pode ser bom para o engate, um manancial de sedução. Assim se construíram muitos mitos e venerados ídolos do século XX. E depois, o pessoal acasala melhor enroscado, assim, cúmplice contra o mundo, românticas vitimas dos outros... sempre “dos outros”, num opaco limbo irreal.
De facto, a minha vida não produz um romance, não tem heróis ou moinhos de vento. Responsável pelas minhas escolhas, vivo numa família grande e agitada, filhos e enteados, que me fazem a vida negra ou me encantam até aos píncaros. É uma vida normal, um empenhado projecto de compromissos e fidelidade, premissas hoje tão mal vistas e pouco excitantes. Mas este é já um amor quase antigo, construído de rituais e de quotidiano, tantas vezes monótono e feito de acontecimentos singelos. Com os miúdos, os tachos, os sogros, a mobília... e tantos ruídos já tão familiares. Como quando o pequenote, de olhos esbugalhados, se encontra a primeira vez com o mar a seus pés. Ou quando, ensonado a meio da noite, encontro o olhar pisco e sereno do meu amor, sentado ali com o bebé ao colo... seguro. Imagens bonitas onde tudo ganha outro sentido. Um significado ainda maior. Estados de Graça que eu gosto de registar, para nunca esquecer.
.
Um agradecimento especial ao Jorge Lima, ele sabe porquê.

Uma grande carreira

por João Távora, em 02.07.07
Quando me falam em “grandes carreiras”, lembro-me logo daquela que foi a principal da minha vida. Refiro-me à do autocarro nº 9, de Campo d’ Ourique ao Bairro Madre de Deus e vice versa. Quando os meus pais se instalaram em Campo d’ Ourique, tinha eu 3 anos, foi inicialmente num prédio de gaveto a dar para a Manuel da Maia, por onde aqueles monstros verdes de dois andares iniciavam o seu percurso para a Avenida da Liberdade, Baixa, e enfim, para mais longe onde a minha imaginação não chegava ainda. Nas minhas memórias mais remotas, lembro-me de, com o meu irmão, nos sentarmos divertidos à janela daquele 1º andar a esperar a passagem dos autocarros mesmo ali em frente onde faziam a primeira paragem do percurso. O seu ronco era inconfundível. Na verdade, o fascínio estava na publicidade disposta entre as duas fileiras de janelas, e o anúncio do chocolate em pó Toddy era para nós o mais atractivo. Enquanto nos entretínhamos assim, não fazíamos grandes estragos.
Um dos meus grandes e secretos prazeres era que o exemplar do autocarro que me saísse em sorte tivesse porta atrás, para poder contemplar emocionado a lancinante velocidade do asfalto, logo ali a fugir para longe, tão depressa, tão depressa. Ou então, menos perigoso, era a felicidade de encontrar no piso de cima o banco da frente à esquerda livre, de modo que pudesse imaginar – discretamente para não parecer maluco – que eu era o omnipotente condutor do veículo, ali bem sentado aos comandos.
O facto de ter tido os meus avós maternos a viver na Avenida da Liberdade, estudado na Escola nº 6 da Bela Vista, no Liceu Pedro Nunes e namorado alguns anos lá para os lados de Sta. Apolónia, definitivamente deu à carreira nº 9 da Carris um grande protagonismo na minha vida. Com a passagem dos anos e com o uso, conheci as nuances dos potentes veículos AEC destinados àquele percurso. Às tantas eram nada menos que uma extensão do meu território, do qual conhecia todos os cheiros, ruídos e... perspectivas.
De resto, desse mito a que hoje em dia se chama “carreira”, a que eu chamo “Vida”, e que é a minha verdadeira aposta, tudo vai bem e recomenda-se, muito obrigado.
 
Fotos daqui

Hemeroteca (6)

por Corta-fitas, em 23.06.07
«Após o 25 de Abril, os métodos de actuação anticomunista utilizados pelo imperialismo e a reacção foram de certo modo grosseiros, embora tenham tido uma certa eficácia: foi a época dos boatos e das calúnias extraordinários acerca das intenções dos comunistas em Portugal, bem como das acções dos Partidos Comunistas no Poder nos países socialistas: foi nessa altura que se propalaram entre as camadas menos esclarecidas do nosso povo as atoardas segundo as quais os comunistas tiravam os filhos às mães, davam uma injecção atrás da orelha às pessoas, para as convencerem, roubavam as terras e as casas aos camponeses». António Marques dos Santos, O Diário, 13.8.1976.

Hemeroteca (5)

por Corta-fitas, em 17.06.07
Sedes do MRPP desmanteladas
«Na sequência dos graves acontecimentos de Coimbra, o COPCON desencadeou, ontem, uma vasta operação que mobilizou centenas de soldados no assalto às várias sedes do MRPP, em Lisboa e Amadora, tendo apreendido ficheiros, máquinas gráficas, catanas, facas, matracas, barras de ferro e pelo menos uma pistola-metralhadora. Na Amadora, houve resistência inicial por parte dos elementos do MRPP, que formaram cordão e dispararam alguns tiros de arma ligeira, o mesmo acontecendo em Lisboa, na Avenida Pedro Álvares Cabral, sede do movimento, e na Calçada do Combro». Século, 29.05.1975

Os vizinhos em festa

por Corta-fitas, em 15.06.07

Hoje, no país vizinho (incluindo Olivença), celebram-se os 30 anos das primeiras eleições gerais democráticas. Durante muito tempo consensualmente classificada como um processo sem fracturas e marcado pela estabilidade institucional, a transição é hoje alvo de uma análise bem menos idílica por parte de diversos investigadores. Para Nicolás Sartorius e Alberto Sabio, por exemplo e como pôde ler-se ontem no suplemento «El Cultural» do El Mundo, ela «foi um momento de convulsão, muitas vezes caótico, outras vezes sangrento, sempre incerto» («El Final de la Dictadura», Temas de Hoy). O que ninguém parece questionar é o desenvolvimento alcançado pela Espanha neste período. Como escreve aqui Juan Luis Cebrián, «três décadas mais tarde, este país, para utilizar uma frase não muito brilhante de um antigo vice-presidente do Governo, está irreconhecível mesmo para a mãe que o pariu». Por cá, parece-me que a nossa mãe ainda nos toparia à légua. Foto roubada à edição online do El Pais.

Hemeroteca (4)

por Corta-fitas, em 14.06.07
DEMITIDOS OS MEMBROS DO GOVERNO REPRESENTANTES DO P.S.
O Conselho da Revolução, cujo plenário esteve reunido extraordinariamente desde as 10 horas da noite de ontem até meio da madrugada de hoje, decidiu considerar demitidos os membros do Governo representantes do Partido Socialista.
Em consequência, o Conselho da Revolução aconselhou o Primeiro-Ministro a preencher as vagas em aberto «com elementos válidos competentes e patriotas» que coloquem «os interesses nacionais acima dos interesses e divergências partidárias». DN, 12.07.1975

Hemeroteca (3)

por Corta-fitas, em 13.06.07
Veiga Simão continuará como Ministro da Educação
Julgamos saber que no Ministério da Educação Nacional continuará o prof. Veiga Simão, sendo o único elemento do Governo de Marcelo Caetano que a Junta de Salvação Nacional mantém. Falámos com o prof. Veiga Simão que nos disse ser «muito amigo do general Spínola» e que o considera «um grande patriota e grande português». Disse-nos ainda que o General Spínola está a conduzir o País para os destinos que todos merecemos. República, 26.04.1974

Parabéns

por Corta-fitas, em 13.06.07

Nasceu há 75 anos e já andou na boca de toda a gente mas, mesmo assim, vai daqui um beijo.

Hemeroteca (1)

por Corta-fitas, em 11.06.07
Beneficiando do facto de ter em casa um pequeno arquivo, irei deixando aqui, na «Hemeroteca», algumas notícias e artigos de há cerca de 30 anos. Para já, fica só a ficha técnica da redacção de O Jornal no dia 27 de Fevereiro de 1976: Afonso Praça, Carlos Cáceres Monteiro, Francisco Sarsfield Cabral, Hêrnani Santos, João Segurado, Joaquim Letria, Joaquim Lobo, José Carlos de Vasconcelos, José Manuel Barroso, José Silva Pinto, José Pinto Nogueira, Luís Almeida Martins, Lurdes Feio, Manuel Beça Múrias, Pedro Rafael dos Santos, Rui Letria Dias e Rui Pimenta. Uma equipa pequena, mas que chegava e sobrava para as encomendas. Tiragem? «Apenas» 95.200 exemplares.

Louvor às rotinas e aos rituais

por João Távora, em 17.05.07
Sou uma pessoa basicamente indisciplinada e logo assim bastante desorganizada. Quando era miúdo, lembro-me bem, só não perdia a cabeça porque estava agarrada. E assim se manteve até hoje nem sei bem como. Então a minha cabeça voava, voava. Sempre fui um sonhador, um idealista, com traços de meio poeta. Focado numa qualquer paixão de circunstância, perdia-me facilmente. Estas características cedo me guiaram ao caos. Até ao liceu não me lembro de ter agendado um teste e estudar a sério o que fosse. Cada um era uma surpresa aterrorizadora, descoberta no corredor antes de entrar para a aula. As minhas notas eram imprevisíveis. Era capaz do melhor e do pior. Vesti muitas meias desemparelhadas, perdi documentos importantes, cadernos, livros e até deixei a minha mochila viajar sozinha de autocarro até ao Bairro Madre de Deus. Chegado ao auge da adolescência, com as experiências inerentes ao estatuto, com as borgas mais ou menos alcoólicas ou psicadélicas, o caos chegou ao rubro. Por essa altura experimentei uma precoce e traumática experiência laboral, como paquete de uma conhecida empresa de promoção de torneios desportivos. Resultado: depois de várias broncas e humilhações descobri que só havia uma maneira de sobreviver no mundo concreto real e cruel: pousar os pés no chão e organizar-me. Foi duro e levou muito tempo.
Hoje, passada a tormenta e digamos que bem sucedido, considero-me um homem feliz em grande parte graças às rotinas que afincadamente criei, e aos rituais que aprendi a referenciar. Hoje, deixo o telemóvel no mesmo sítio todos os dias. A carteira e os meus pertences apenas em caso de catástrofe não estarão no sítio previsto. Doeu muito mas hoje sou surpreendentemente organizado, quase como um computador (a minha descoberta dos computadores foi determinante para a minha organização mental). O meu telemóvel ou o portátil apitam sempre quando tenho uma reunião ou outro compromisso. Ou quando um familiar ou amigo faz anos. Desta forma ainda não falhei um aniversário de casamento. Raras vezes chego atrasado a algum sitio. Com o tempo aprendi a dominar o tempo. Deito-me a horas e levanto-me com as galinhas. Com um sempre delicioso café, sempre à mesma hora, com os previsíveis (e também às vezes deliciosos) programas familiares, um trabalho exigente e cansativo, levo afinal uma vida bastante previsível. Quando faço uma noitada fico quase dois dias doente.
Hoje sou o mais certinho dos seres vivos. Convicto, contente e sem arrependimento. Agora, promovo animadamente os rituais e rotinas, como se fossem as linhas e as margens de um caderno onde escrevo a minha vida. Que inspiram e suportam segurança e um projecto de vida. Rotinas e rituais que afinal são garantia de liberdade... proporcionando por vezes umas boas fatias de pacíficos tempos livres. Que servem até para com eles eu quebrar uma sólida rotina e falhar algum importante ritual.

Esta festa não é minha

por João Távora, em 24.04.07
Mal terminada a festa, quando parecia conquistada a esperança, logo uma escumalha ressabiada e intolerante ocupou a praça, a estragar tudo. A turba em tons vermelhos e de punho erguido bradou à morte e incitou à guerra. A que chamavam luta. Iniciando então um impiedoso assalto ao poder que todos os dias nos roubava mais a liberdade. Então, a revolução de 74 abalroou a nossa vida, assaltou a casa dos meus pais. Para nos tornar em novos proscritos. Como foi possível tanto ódio?
Na época, eu era um imberbe e juvenil estudante, que por imitação do meu pai me tornara precocemente politizado e discursivamente assertivo. E foram muitas as angústias e apreensões vividas em família naqueles inesquecíveis tempos “revolucionários”.
Os sentimentos por mim experimentados na sequencia da revolução de Abril, as memórias que guardo daqueles protagonistas, as lembranças dos seus esgares e trejeitos fanáticos, das suas arbitrariedades e da minha total impotência, causam-me ainda hoje amargos sentimentos.
Reconheço na democracia conquistada a posteriori o melhor sistema político possível. Como cristão e democrata, bater-me-ei sempre com todas as minhas forças pela liberdade e pela justiça. Hoje como então.
Por mim, agradeço a liberdade pela qual afinal também lutei. Mas não me convidem para esta festa da qual fui excluído faz amanhã 33 anos.
.
Ilustração daqui



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