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Salvé maravilha

por João Távora, em 30.11.13

 

Por aqui andam diabinhos à solta
Com corninhos e rabinhos e falinhas de paraíso
Por aqui andam bruxinhas em volta
Esvoaçando cavalgando em vassourinhas sem juízo*

 

Temos que entender a força inovadora da Banda do Casaco no contexto duma época em que qualquer modo de expressão artística que não contivesse uma mensagem política (de esquerda, claro) estava votada à quase clandestinidade, à mais completa irrelevância artística. Ora é por ocasião da (tardia) reedição da sua discografia que esta mítica banda de música inclassificável (miscelânea de pop, jazz, experimental, étnica) fundada por António Pinho e Nuno Rodrigues, nas últimas semanas emerge da invisibilidade e vem granjeando um mais que merecido reconhecimento por tudo o que é jornal e revista mainstream nacional. Foi neste surpreendente projecto musical que se lançaram as sensuais vozes de Né Ladeiras e Gabriela Schaff, onde que pontificaram músicos de excepção como António Emiliano, Carlos Zíngaro, Celso Carvalho, ou até Jerry Marotta, baterista da banda de Peter Gabriel no final dos anos 70. O certo é que quem tenha nascido em Portugal nos últimos trinta anos até há uns meses simplesmente não daria conta da existência da Banda do Casaco cuja obra parecia enterrada num completo esquecimento. 

Pela minha parte estou convencido de que, assim como a grande revolução libertadora do jornalismo em Portugal despontou nos anos oitenta com o semanário "O Independente", o mesmo fenómeno que se deu na música popular na mesma década, em grande parte se deve à Banda do Casaco, cujo reportório bem merece ser conhecido e aproveitado pelas novas gerações.

 

País Porugal (António Pinho)

Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos - 1977

 

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Lou Reed - uma homenagem

por João Távora, em 02.11.13

“Não sei se as minhas expectativas são muito altas, sei que são muito difíceis. Quero ser o maior escritor que alguma vez viveu nesta terra de Deus. Falo de Shakespeare, Dostoiévski… Quero ser um escritor que faça rock and roll que se possa comparar a Os Irmãos Karamazov… quero começar a construir um corpo de obras. Sei que posso soar pretensioso e é por isso que normalmente nem digo nada. Prefiro ficar calado.”

 

Lou Reed 1979 em entrevista ao New Musical Express
Via Blitz 

 

Contactei pela primeira vez com as canções de Lou Reed, por volta de 1976 através do seu álbum Lou Reed Live que ainda hoje guardo e que de tão gasto pelo uso, no gira-discos mais parece um ovo a estrelar. Porque a vertigem daqueles anos loucos não auguravam um final feliz, o meu fascínio pelo lado selvagem e pela obra de Reed foram esfriando mais tarde. Hoje reconheço que ele foi um dos maiores poetas da decadência ocidental, da cultura urbano-depressiva emanada dos bas-fonds de Grande Maçã, que marcou toda uma geração desassossegada com tanta Liberdade e bem-estar. Foi assim que, por uma questão de sanidade, os valores estéticos que fui recuperando afastaram-me da sua obra, que no entanto mantenho como superior, talvez perpétua.
Depois de há algumas semanas me chocar com a interpretação de Solsbury Hill de Gabriel que eu mal sonhava vir a ser a sua última (generosa) prestação, Lou Reed acaba por se me revelar nestes dias de revisitação, como um autêntico aristocrata da cultura rock and roll, rodeado pela qual eu cresci e me fiz gente. De resto acredito que a misericórdia de Deus é redobrada no que respeita aos poetas e artistas, que da transcendente dor que sustem a sua essência, no acto de libertação que resulta a sua criatividade, de forma tão sublime espelham a matriz divina da espécie humana.

 

A ler também: O lado selvagem 

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Chove...

por João Távora, em 27.09.13

Isto anda tudo ligado

por João Távora, em 24.09.13

 

"I'll Say she Does" pelo All Star Trio gravado em 1919 para a Victor HMV é um primitivo Foxtrot, uma música de dança popularizada depois da I Guerra Mundial e com o seu auge na louca década de 1930 quando era tocada pelas célebres “big bands”. É curioso como as editoras discográficas rotularam os primeiros discos de “rock and roll” como sendo Foxtrot, um ritmo inicialmente mal recebido na Europa, onde foi visto como uma perniciosa “americanada”.

Canções com história

por João Távora, em 17.09.13

 

Ontem na sua crónica musical “Se as Canções Falassem” (blog desde já na barra lateral) transmitida diariamente de segunda a sexta na Antena 1, Miguel Esteves Cardoso homenageava com justiça o compositor americano Harold Arlen com uma curiosa interpretação por Etta James do seu tema "Stormy Weather", originalmente integrante da banda sonora do filme Cotton Club nos primórdios do cinema sonoro. O que poucos conhecem, e desconfio que o popular cronista também não, é esta interpretação do tema pelo próprio Harold Arlen, para a gravadora Victor, num disco His Master’s Voice de 1933. 

Modernices

por João Távora, em 17.09.13

 

Louis Armstrong - "Blues for yesterday" em gravação de 1949
a tocar num Perpetuum Ebner - musical 2V, de 1958 a válvulas

 

Os velhinhos discos de goma-laca mantiveram-se muito populares até meados dos anos 50, o advento da alta-fidelidade das micro espiras em vinil. Acontece que os mais modernos 78 rpm's com gravação ortofónica (eléctrica e equalizada) soam mal no gramofone de amplificação mecânica (campânula) e surpreendentemente bem num gira-discos portátil de válvulas. A performance desses aparelhos era perfeitamente adequada à amplitude de frequências gravadas dos profundos e resistentes sulcos desses discos. 

Da beleza pura

por João Távora, em 06.09.13

Seven and Eleven, Foxtrot 1923

por João Távora, em 01.09.13

 

Dá balanço, esta! Para ouvir bem alto.

Seven and Eleven, Foxtrot 1923 - W. DONALDSON
Corona Dance Orchestra

Top of the pops

por João Távora, em 24.08.13

Margarida

por João Távora, em 14.08.13

Daisy - R. G. Goates, Sterling Record - 3019 (Vaudeville, Orchestral Acct.)

Novidades de 1923

por João Távora, em 12.06.13


Uma "Canção Nova" de 1923 é uma contradição de termos... esta é interpretada por uma esquecida cantora portuguesa chamada Marimélia (no entanto com reportório considerável na editora mericana Brunswick), pertence à revista Lua Nova, de Ernesto Rodrigues, F. Bermudes, João Bastos, Henrique Roldão e Alves Coelho. 

Souvenir

por João Távora, em 24.05.13

 

Esta é uma gravação com mais de 100 anos de "Souvenir" de Franz Drdla, um encantador solo de violino interpretado pelo então jovem talentoso Micha Elman acompanhado ao piano por Philip Gordon. O disco de primeira geração só com um lado gravado, foi manufacturado no Canadá em 1908 pela Berliner Gram-O-Phone Company - Victor Talking Machine Company. É um caso paradigmático da dificuldade que havia nos primórdios da gravação do registo acústico (mecânico) captar os sons mais delicados como do piano ou do violino.

O poder popular

por João Távora, em 17.05.13

Perfaz amanhã exactamente 125 anos sobre a invenção do disco, um tosco protótipo apresentado pelo inventor alemão naturalizado norte-americano Emile Berliner. Este suporte de gravação sonora, ainda hoje em aperfeiçoamento e preferido pelos mais criteriosos audiófilos, nasceu a 18 de Maio de 1888 para concorrer com o cilindro de cera. Apesar de possuírem mais capacidade de armazenamento (dois lados) e serem mais fáceis de guardar, os discos não se impuseram logo no mercado devido à sua extrema fragilidade. Só a partir de 1910, com a aplicação de goma-laca que facilitava a sua prensagem a partir de uma matriz, as suas vendas ultrapassaram os célebres cilindros de Thomas Edison. Foi já tarde e diante de uma falência iminência que Thomas Edison converteu a sua produção para este formato, que perdurou até ao início dos anos 1950, quando surgiram os Long Playing de 33 rpm (rotações por minuto) e os Singles de 45 rpm, gravados em vinil.

Inicialmente apenas com um dos lados gravados, os primeiros discos, pesados e rígidos, feitos para rodar entre 75 e 78 rpm, tocavam, como os cilindros, gravações de 3 a 4 minutos realizadas por métodos integralmente mecânicos e acústicos, de sensibilidade a frequências extremamente limitada: as muito baixas (sons graves) e as muito altas (sons agudos) não eram registadas. Os metais e a percussão eram, por isso, os instrumentos musicais mais adequados a acompanhar cançonetas, marchas e polcas ou até curtas árias de Ópera devidamente adaptadas. Estas limitações só foram ultrapassadas pela gravação eléctrica com microfones e amplificadores, o que se generalizou a partir do final da década de 1920.

Era só nas casas burguesas mais abastadas ou em bailaricos de paróquia que os discos eram tocados em gramofones mais ou menos sofisticados, cuja potência sonora dependia do formato e tamanho da campânula que projectava o som. Estes aparelhos funcionavam com fabulosos motores de corda, cuja precisão e força chegava a garantir a audição afinada de três discos sem novo impulso de manivela. Outra curiosidade era o consumo frequente de pontiagudas agulhas de metal (as marcas fonográficas aconselhavam a sua troca a cada audição!) e que eram vendidas às centenas em coloridas caixinhas de folha-de-flandres que hoje fazem as delícias dos coleccionadores. Foi também a partir dos anos 1920 que se popularizaram as grafonolas, máquinas portáteis em forma de mala, contendo uma pequena campânula escondida no interior. Estas eram bem menos elegantes e potentes que os gramofones, mas muito mais económicas, o que potenciou a sua popularização e a consequente expansão da indústria fonográfica.

É nos anos 1940 que surge na revista norte-americana Bilboard a primeira lista dos discos mais vendidos. O mundo jamais foi o mesmo. A democratização do consumo da música teve definitivamente origem no disco de Berliner, que trouxe consigo, entre tantas virtualidades, um dos mais marcantes fenómenos do século XX: a música Pop.

 

Texto adpatado de "Liberdade 232" publicado hoje no jornal i

O mundo nunca mais foi o mesmo

por João Távora, em 15.05.13

Dia 18 de Maio celebram-se exactamente 125 anos sobre a invenção do disco, um tosco protótipo apresentado pelo inventor alemão naturalizado americano Emile Berliner. Sobre este assunto estou a preparar um pequeno artigo que o jornal i publicará na próxima sexta-feira. Entretanto deliciem-se com este curto vídeo dos anos 20, sobre o processo de gravação e produção dos primeiros discos de baquelite. 
 

4:04 de música

por Luísa Correia, em 10.05.13

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2:41 de música

por Luísa Correia, em 09.05.13

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A austeridade e a malha no ferro

por João Távora, em 30.04.13

 

 

Se no auge do “Long play” já era difícil ao mais genial artista ou banda pop publicar quarenta minutos de boas canções, pretender que tal é possível nos mais de sessenta minutos de um CD é no mínimo uma atrevida presunção.
É este o caso do recém-editado álbum de David Bowie “The Next Day” que a mim, crédulo consumidor, me foi vendido pelos especialistas como o seu melhor desde o fabuloso “Low” ou o histórico “Heroes” e que eu adquiri na versão em vinil constituída por dois discos de 180 gramas primorosamente prensados e por um CD para converter para mp3 e ouvir no carro. A capa é o aproveitamento da de “Heroes”, uma inevitável referência da carreira do “camaleónico” artista, com o título rasurado e um rectângulo branco onde deveria figurar a sua angelical face - uma gracinha demasiado óbvia que pelo menos no tamanho de LP resulta graficamente pouco feliz.

O dinheiro estava gasto, e foi em desassossego que à primeira audição constatei ser esta obra absolutamente anti-social, totalmente proibitivo ouvi-la no gira-discos da sala de uma tradicional casa de família como a minha. Antes de ser deixado sozinho reparei nos intimidantes esgares acossados dos meus filhos perante a arritmia ribombante da bateria, e dos dissonantes uivos das guitarras distorcidas de Gerry Leonard e de David Torn. 

Não sei se é o melhor álbum dos últimos trinta anos, mas após (des)educado o ouvido para a tarefa, reconheço que há em “The Next Day” muito bom material escondido na violência quase mórbida da maioria dos temas que emergem à volta de “Where Are We Now?”, um oásis melódico no meio duma desarmónica tempestade electrónica. Assim, “Dirty Boys”, “The Stars (Are Out Tonight)”, “I'd Rather Be High”, “Boss Of Me”, “Dancing Out In Space” e “So She” são os meus temas favoritos onde se escondem subtis harmonias bem escavadas numa sonoridade teutónica e austera aparentemente inaudível mas que ao final de algumas audições nos conseguem seduzir profundamente. Com alguma insistência e a atenção devida, a intempestiva densidade sonora presente em todo o álbum revela-nos cuidadosos arranjos de uma rica paleta de timbres e texturas, num ambiente sonoro de desespero gritado pelas palavras e evidenciado na música. Depois fica-nos a pairar a interrogação se afinal a genialidade de David Bowie aos sessenta e seis anos não poderia oferecer-nos também alguma serenidade. E a certeza de que ouvir este disco é um inestimável prazer solitário e fadiga digna dum  servente de obras ao final da empreitada. 

 

Fugindo...

por Luísa Correia, em 28.04.13

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Picolinette

por João Távora, em 27.04.13

Às voltas com as minhas velharias sonoras. Oiçam este disco muito antigo, no máximo dos anos 1910 com um animado dueto de clarinetes de Jules Pillevestre, do qual ainda não descobri referências.


----//----


Entretanto, a revista do Expresso traz esta semana um pequeno artigo sobre os 125 anos da invenção por Emil Berliner do disco como suporte de gravação (16 de Maio 1888), cheio de disparates e equívocos, nomeadamente que os cilindros de Edison tinham que ser gravados um a um, e que o material utilizado para os discos começou por ser vidro (?) e depois passaram a ser feitos de plástico, quando na verdade foram experimentados em zinco, ebonite  e o seu fabrico estabilizado numa liga que se designou goma-laca. Como em tempos referi nesta crónica, a utilização do plástico para o fabrico dos discos (muito mais resistente e maior capacidade) só surge nos anos 195O num composto que chamamos usualmente vinil. De resto num paragrafo dedicado à pintura que celebrizou "A Voz do Dono" de Francis Barraud pouco nos conta sobre a comovente história do cão Nipper.

Top of the pops

por João Távora, em 12.04.13

Esta é a versão original de Los piconeros (os carvoeiros), com letra de Ramón Perelló e música de Juan Mostazo. Cantada por de Imperio Argentina celebriza-se em plena Guerra Civil espanhola quando a cantora protagonizou uma versão cinematográfica da Carmen, de Prosper Mérimée. O filme, de índole tradicionalista, veicula os valores da espanholidade defendidos por Franco e pela Falange. Existem muitas versões desta bela canção, inclusivamente uma cantada por Amália.

 



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