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Uma palavra faz toda a diferença

por Pedro Correia, em 29.07.08

A censura torna os jornalistas mais hábeis. Millôr Fernandes lembrou há pouco um exemplo ocorrido no Pasquim, uma das publicações mais visadas pelos censores da ditadura militar brasileira nos anos 70 – uma censura que não se limitava aos temas políticos: exercia o domínio repressivo também no capítulo da moral e dos costumes.
Em certa edição da revista, havia que escrever sobre o romance Iracema, de José de Alencar – um clássico da literatura romântica brasileira, que entre outras expressões popularizou à época a “virgem dos lábios de mel”. Convidava à malandrice. E assim foi: o Pasquim lá se debruçou seriamente sobre o romance, numa das suas enésimas edições, tendo no entanto o cuidado de acrescentar uma palavra. Uma palavrinha apenas – no caso, um adjectivo. Grande. A virgem de Alencar passou a ter “grandes lábios de mel”.
A censura, bronca como costumam ser as censuras, nem reparou. Uma singela palavra pode fazer toda a diferença.

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Leituras

por Pedro Correia, em 24.07.08

"Leiam para fugir, leiam para viver aventuras, leiam para viver romances, mas leiam bons escritores. Descobrirão que são mais fáceis e dão mais prazer do que os escritores de segunda categoria."

Jacqueline Bouvier Kennedy

(citada por Tita Santi Flaherty, em As Lições de Vida de Jackie)

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Os inimigos da "rameira do diabo"

por Pedro Correia, em 22.07.08

 

O secretário-geral da Liga do Mundo Islâmico, Abdalá Al-Turki, declarou em Madrid, numa conferência destinada a incentivar o diálogo entre as grandes religiões do globo: “Um dos obstáculos para o diálogo interreligioso é falar das tragédias do passado.” Raúl del Pozo, excelente colunista do jornal espanhol El Mundo, responde da melhor maneira numa das suas últimas crónicas, com o brilho habitual: “Como esquecer, Grande Ulema, os canibais com mantos negros que queimaram Servet a fogo lento, os que capturaram Frei Luís de León, os que queimaram Bruno, perseguiram Galileu, desterraram Averróis e Maimónides, os que atacaram Nova Iorque, os que chamaram à razão ‘rameira do diabo’?”

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Liberdade de imprensa

por Pedro Correia, em 18.07.08

 
“Os Estados Unidos tiveram um jornalismo independente e crítico ao longo de toda a sua história. Não é difícil estabelecer um vínculo entre isto e o facto de serem um dos escassíssimos países do mundo que podem orgulhar-se de nunca terem tido um ditador. Porque a equação é infalível: o grau de liberdade de informação de que se goza é um reflexo inequívoco da liberdade existente no conjunto da sociedade, e vice-versa. Esta é uma regra que não tem excepções.”
Mario Vargas Llosa, El País

 

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Algumas delas mandaram neles

por Pedro Correia, em 15.07.08
Todo o século XX foi atravessado pelas mais sórdidas ditaduras de que há memória. Os regimes totalitários estão amplamente dissecados por historiadores e politólogos. Uma área, no entanto, permanece obscura: até que ponto as mulheres desses ditadores foram decisivas na estratégia de conquista e consolidação de um poder ilegítimo e a vários títulos imoral? É a esta pergunta que se propõe responder a jornalista alemã Antje Windgassen na sua obra Casadas com o Poder, agora traduzida em Portugal.
A resposta é afirmativa na maior parte dos casos: muitas destas mulheres eram mais ambiciosas e tinham menos escrúpulos do que os maridos que tiranizaram povos inteiros. Sem elas, muito provavelmente a História ter-se-ia escrito de forma diferente.
Alguns exemplos?
Jiang Qing (1913-91), mulher de Mao Tsé-Tung, teve um papel decisivo no endurecimento da tirania comunista na China. Instigou Mao a livrar-se dos dirigentes moderados e a lançar a “Revolução Cultural” que abalou todas as estruturas sociais do velho Império do Meio, mergulhando o país no caos em nome da luta contra a burguesia enquanto em privado desmentia o que proclamava em público: “Possuía diversas casas, cavalos para equitação e um avião especial.”
Elena Ceaucescu (1916-89) manobrava por completo o marido, inseguro e tímido: a ela se deve o progressivo desvio demencial da ditadura de Nicolae Ceaucescu, autoproclamado “Titã dos Titãs, o filho mais laborioso de todos os trabalhadores da Roménia”, entre outros mimos propagandísticos. Durante os 24 anos deste consulado, ninguém era mais detestado do que ela. “A revolta dos romenos não teve limites quando se soube, depois da morte dos Ceaucescu, como tinha sido opulento e bizarro o seu estilo de vida”, escreve Windgassen.
Carmen Polo (1898-1988), oriunda da aristocracia asturiana, foi instrumental na transformação do marido, Francisco Franco, com origens sociais bem mais modestas. O clericalismo quase medieval que caracterizou a longa ditadura franquista tinha a marca da esposa do generalíssimo, que o converteu num crente fervoroso, convicto de que tinha sido ungido por Deus para redimir a pátria. Algo semelhante se passou na Argentina com Eva Duarte (1919-1952), a quase lendária Evita, esposa do general Juan Domingo Perón. Com uma diferença: Franco dizia-se ao serviço de Deus, Perón (amigo e aliado do generalíssimo) reservava a retórica mística que lhe ensinara a mulher para se proclamar ao serviço das “classes trabalhadoras” enquanto acolhia criminosos de guerra nazis.
Algumas destas mulheres, como Evita e Jiang Qing, tinham sido actrizes frustradas antes de subirem à ribalta política. Uma das mais influentes era Clara Petacci (1912-45), amante de Mussolini, que se manteve até ao fim com o ditador italiano, acabando executada ao lado dele. Bem diferente foi o destino de Jovanka Broz Tito (nascida em 1924): primeira dama da Jugoslávia durante um quarto de século, entre 1952 e 1977, acabou por ser repudiada pelo velho marechal que governou os Balcãs com mão de ferro. Ainda hoje se ignora porquê.
Casadas com o Poder, com edição portuguesa da Quetzal, tem várias omissões: desde logo Eva Braun, a favorita de Hitler. A autora justifica-a por já ter sido mencionada em “inúmeras publicações ao longo dos anos”. Fraco pretexto, tal como o invocado para o facto de Imelda Marcos e Lucia Hiriat – mulher de Augusto Pinochet – não constarem desta obra: “Nestes casos a investigação sobre a vida por trás das biografias oficiais ou retocadas não foi produtiva o suficiente, o que lamento.” Também nós, leitores.
Mas este livro já valia a pena com o capítulo dedicado às três mulheres de Estaline – todas marcadas pela tragédia. Jekaterina Swanidse (1881-1907) morreu só, virtualmente abandonada pelo futuro czar vermelho. Nadjeshda Allilujewa (1900-32) ter-se-á suicidado após uma das múltiplas discussões com o ditador, de quem se tinha afastado politicamente: mantém-se a suspeita de que a pode ter morto. Sobre a terceira, Rosa Kaganovitsch (nascida em 1906), paira a sombra de um mistério ainda irresolúvel: saiu de cena por completo em 1935, dois anos após o casamento, e nunca mais foi vista. O que lhe teria acontecido?
Até nisto Estaline era diferente de outros tiranos: não admitia a intromissão feminina nos assuntos do Estado e do partido, que ele sempre tratou como assuntos privados. Uma excepção que afinal confirma a regra.

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Leituras

por Pedro Correia, em 06.07.08

 

"Havana é hoje uma cidade 'ferida de sombras', invadida por penumbras, onde Los Zafiros gemem nos seus túmulos. Havana é um museu de vítimas complacentes, de oportunistas; para negociantes e turistas ignorantes."

Zoé Valdés, Os Mistérios de Havana

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Leituras

por Pedro Correia, em 03.07.08

"Em todos os clubes existe um chato."

Agatha Christie, Maré de Sorte

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Leituras

por Pedro Correia, em 01.07.08

"O mundo começa por mudar no espírito do homem que o quer mudar."

Don DeLillo, O Homem em Queda

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Leituras

por Pedro Correia, em 29.06.08

"Num mundo onde a vida vai tão naturalmente ao encontro da vida, onde as flores se unem às flores até no próprio leito do vento, onde o cisne conhece todos os cisnes, só os homens constroem a sua solidão."

Antoine de Saint-Exupéry, Terra dos Homens

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Livros, livros, livros

por Pedro Correia, em 08.06.08

 

Primeira incursão à Feira do Livro de Lisboa, no magnífico cenário do Parque Eduardo VII. Cheirei as pechinchas, vim de lá servido – sobretudo do pavilhão da Editorial Minerva. Jornada Sem Mapas, de Graham Greene (dois euros); O Escravo, de Isaac Bashevis Singer (4,8 euros); Como eu Vejo a China, de Pearl S. Buck (cinco euros). Trouxe também os Contos, de Katherine Mansfield – da editora Relógio d’Água (7,5 euros). Deste lote, apenas um volume recém-lançado no mercado editorial português: Sete Homens em Guerra, de Marc Ferro (Bertrand). Já tenho leitura para várias semanas - incluindo um Greene que nunca li.

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Tintin

por Pedro Correia, em 01.06.08

Faz hoje 40 anos, começava a publicar-se entre nós a revista Tintin. Toda uma geração de leitores portugueses ficou para sempre marcada por esta revista, que teve Dinis Machado e Vasco Granja como grandes dinamizadores. Ric Hochet, Bruno Brazil, Tenente Blueberry, Lucky Luke, Ringo, Cavaleiro Ardent, Valérien, Astérix, Blake & Mortimer, Cubitus, Humpá-Pá, Achille Talon, Spirit, Modeste & Pompom, Olivier Rameau, Corto Maltese, Alix, Corentin, Taka Takata, Tunga, Tanguy & Laverdure e tantos outros heróis passaram pelas inesquecíveis páginas de Tintin. Felizes aqueles que têm a colecção completa. Eu tenho.

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O prazer de a LER

por Pedro Correia, em 10.05.08

Se há elogio que podemos fazer a uma publicação é este: começamos a lê-la e só paramos quando ficou toda lida. Aconteceu-me agora com a nova revista LER, dirigida pelo regressado Francisco José Viegas.

Por motivos profissionais, não fui à festa de lançamento da revista. Mas uma generosa amiga que lá esteve trouxe-me um exemplar, com capa dedicada a António Lobo Antunes.

O que dizer? Se dirigisse uma revista literária, seria exactamente este o meu modelo: a leveza da forma aliada à substância do conteúdo. Sem o vocabulário escolástico, quase esotérico, que durante demasiado tempo associámos às publicações do género.

Destaco:

- O notável naipe de cronistas (Abel Barros Baptista, José Eduardo Agualusa, José Mário Silva, Pedro Mexia, Filipe Nunes Vicente, Eduardo Pitta, Inês Pedrosa, Francisco Belard, Onésimo Teotónio de Almeida e o nosso Fernando Sobral);

- Excelente apontamentos literários (destaco, por exemplo, os de Fernando Venâncio e do João Gonçalves);

- A entrevista de grande fôlego a Lobo Antunes feita por Carlos Vaz Marques (de que eu teria eliminado apenas, por excessivas e desnecessárias, as nove referências do entrevistado ao nome do entrevistador).

- Last but not the least. o extenso artigo sobre "os 50 autores mais influentes do século XX", com a qualidade a que o José Mário Silva há muito nos habituou. Assinalo aqui, no entanto, três omissões que me parecem relevantes: Jack London, que influenciou vários dos escritores mencionados neste artigo, Martin Heidegger e Lenine. Sem esquecer que Joseph Conrad escreveu várias das suas obras mais marcantes já no século XX. Apesar destes reparos, foi o melhor levantamento do género que li até hoje numa publicação portuguesa.

 

A nova LER conquistou-me de imediato: tornei-me um leitor fiel logo à primeira. Já à espera de mais.

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Portugal Classificado

por Pedro Correia, em 18.04.08

Portugal Classificado é nome de livro. E também nome de blogue. Ambos do meu amigo Nuno Simas, que assim se estreia como autor editado pela Aletheia (de Zita Seabra) revelando documentos inéditos da administração norte-americana sobre Portugal no escaldante biénio 1974-75. A obra já está à venda, ainda antes do lançamento oficial, e o blogue destina-se a divulgá-la, num feliz aproveitamento das novas tecnologias. Recomendo-a desde já. Até porque o Nuno é um excelente praticante de uma modalidade infelizmente quase extinta: o jornalismo de investigação.

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Um sucesso de tenor italiano

por Pedro Correia, em 05.04.08

 

Habituámo-nos a ouvir desde sempre: o texto jornalístico, num diário, tem um prazo de validade de 24 horas. Mas felizmente esta é uma regra com muitas excepções. Repare-se no caso de Nelson Rodrigues: nenhum outro autor de língua portuguesa que tenha cultivado o género jornalístico mantém uma legião de fiéis tão firme vários anos após a sua morte. Nelson, que foi um celebrado dramaturgo, era também um cronista de eleição. Com um estilo inconfundível: enchia os textos com originais marcas de coloquialidade, estabelecendo laços de cumplicidade com o leitor. As épocas mudam, os contextos alteram-se, mas estas crónicas mantêm uma frescura assinalável.

Os actuais leitores de Nelson Rodrigues devem ao jornalista Ruy Castro, persistente e meticuloso, esta possibilidade de revisitar os textos do autor de Vestido de Noiva, anteriormente confinados à poeira dos arquivos ou a colectâneas sem critério. Uma das melhores antologias elaboradas por Ruy Castro para a editora brasileira Companhia das Letras é O Reacionário, que reúne crónicas originalmente publicadas no diário O Globo, entre 1969 e 1974. E uma das melhores é a que dá título ao livro – verdadeira obra-prima do género – em que o autor narra a sua ida a uma “festa de grã-fina” num palácio carioca onde tudo o ofendia e humilhava – “desde a casaca do mordomo ao galo de Picasso”. Nelson hesitou em aceitar por ter “um pavor sagrado da inteligência de salão”. Mas a grã-fina insistia: “Vem porque convidei também uma comunista.” Ao chegar, o jornalista foi assim apresentado: “Nelson Rodrigues, o maior reacionário do país.” Segue-se um diálogo à boa maneira do autor, que remata com um dos seus aforismos: “Um grã-fino é revolucionário quando lúcido, e reacionário quando bebe.”

Uma das marcas do talento de Nelson Rodrigues estava na sua notável capacidade de criar expressões que passaram a ser património linguístico dos brasileiros. Expressões como “o óbvio ululante”, “babar na gravata”, “um sol de rachar catedrais”, “um sucesso de tenor italiano” ou “cascata artificial com filhote de jacaré.” Expressões que usava até à exaustão: “Sou o colunista que se repete com um límpido impudor. Não tenho o menor escrúpulo em usar 200, 300 vezes a mesma metáfora”, confessou. Defeito? Não: virtude.

Outro mérito: a sua capacidade de desenhar personagens que irrompiam inesperadamente em cada crónica. Desde a gorda vizinha, especialista em debitar lugares-comuns ("40 anos não são 40 dias”) ao “canalha” Palhares que ganhou reputação de conquistador quando beijou o pescoço da própria cunhada. Passando pelo “mordomo de policial inglês”, a “estagiária de calcanhar sujo”, a “grã-fina com narinas de cadáver” ou o milionário paulista ("quando entra na sua garagem particular, cada automóvel vem lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada"). Alvos de estimação eram o “idiota da objectividade”, jornalista só preocupado com os factos, ou o psicanalista cujos doentes pioram “de 15 em 15 minutos”, ou o “padre de passeata", que acredita mais em Marx do que em Deus. Passando pela cabra vadia, confidente das confissões deste jornalista que padecia de insónias, odiava viajar, foi o autor mais censurado do teatro brasileiro e disfarçava a timidez com doses imoderadas de sarcasmo. “Eu sou daqueles que se vendem por um bom dia”, admitia afinal.

E depois há as frases – as célebres frases de Nelson Rodrigues, tantas e tão boas que dariam para encher um livro (e deram: Ruy Castro organizou uma antologia delas, sob o título Flor de Obsessão). Ficam aqui algumas, extraídas d’ O Reacionário. Cada qual a seu modo, todas dão que pensar:

“O pior de uma bofetada é o som. Se fosse possível uma bofetada muda, não haveria ofensa.”

“Até hoje, que se saiba, nenhum ‘ocioso’ foi demitido de Ministério nenhum.”

“A superioridade do economista sobre o resto dos mortais é que fala do que ninguém entende.”

“A nossa vida é a busca desesperada de um ouvinte.”

“Crítico de cinema não chora.”

“A mulher tem vários inimigos pessoais. Um deles, e dos mais cruéis, é o grande costureiro.”

“O homem só gosta do que comeu em criança.”

“A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.”

“O homem se mata por amor e não por sexo.”

“Enquanto o homem não amar o outro para sempre, continuaremos pré-históricos.”

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Pavarotti é melhor que Dylan?

por Pedro Correia, em 03.04.08

 

 

Confesso o sentimento de inveja: Fernando Savater tem no El País uma coluna semanal com um título fabuloso. Chama-se “Desperta e lê”. Gostava de ter uma coluna com um título assim.

Mas a inveja não dura quase nada: dá lugar a um profundo sentimento de admiração, o que costuma acontecer-me com regularidade ao ler os textos de Savater. O mais recente intitula-se “As areias de Marte” e é dedicado a Arthur C. Clarke, o grande escritor britânico de ficção científica agora falecido. Observa o filósofo espanhol que existem dois tipos de pessoas: as que leram Clarke porque um conto seu deu origem ao guião de 2001 – Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, e as que foram ver a película porque se baseava numa história de Clarke. “Pertenço ao segundo grupo, provavelmente minoritário”, escreve Savater neste artigo, que reflecte sobre as hierarquias artísticas tão ao gosto das nossas patrulhas culturais:

Imagino, claro, que alguém aproveite a morte de Clarke para nos lembrar que ‘isso’ não é literatura. ‘Isso’ foi o que fizeram Clarke, [Ray] Bradbury, Isaac Asimov, A. E. van Gogt, Poul Anderson, Robert A. Heinlein, Brian W. Aldiss, Zenna Henderson e outros inimigos do bom gosto. Maus escritores porque não se parecem com Proust ou Thomas Mann? No mesmo sentido em que Bob Dylan é um mau cantor porque não joga no mesmo campeonato que Pavarotti. O mundo está cheio de literatos sérios cujas obras esquecemos quando chegamos às últimas páginas dos seus livros – quando chegamos – mas que encaram por cima do ombro os frívolos autores cujas páginas, uma vez lidas, nos acompanham pela vida fora.”

Nada mais certo, mestre Savater.

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A importância da memória

por Pedro Correia, em 14.03.08

 

Um livro: As Lições dos Mestres, de George Steiner. Sem dúvida uma das obras intelectualmente mais estimulantes que tenho lido nos últimos anos. Fala de assuntos velhos como o mundo: a capacidade de legar conhecimentos, a relação entre mestres e discípulos, o prazer de aprender, o comportamento tantas vezes dúbio dos detentores da sabedoria. Vem dos gregos, chega aos nossos dias.

É também uma arguta reflexão sobre as teorias pedagógicas contemporâneas, responsáveis por tanta deseducação à solta por aí. Neste aspecto, Steiner chega a ser brilhante.

Deixo-vos com um saboroso parágrafo, que transcrevo com a devida vénia da versão portuguesa da Gradiva (tradução de Rui Pires Cabral):
"Aquilo que sabemos de cor amadurecerá e desenvolver-se-á dentro de nós. O texto memorizado interage com a nossa existência temporal, modificando as nossas experiências e sendo dialecticamente modificado por elas. Quanto mais vigoroso for o músculo da memória, melhor protegido estará o nosso ser integral. O censor ou a polícia do estado não podem extirpar o poema memorizado. Nos campos da morte, certos rabinos e estudiosos do Talmude eram conhecidos como ‘livros vivos’ cujas páginas podiam ser ‘consultadas’ por outros prisioneiros em busca de um conselho ou de uma palavra de consolo. A grande literatura épica, a dos mitos fundadores, começou a declinar com o ‘progresso’ em direcção à escrita. Por tudo isto, a rejeição da memória no actual sistema escolar é de uma flagrante estupidez.”

Nem mais.

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Como o acaso vira a vida do avesso

por Pedro Correia, em 15.02.08

E se Adolf Hitler, quando saiu da sua Linz natal para concretizar o sonho de ser pintor, não tivesse chumbado na admissão à academia de belas-artes de Viena? A pergunta, para quem gosta de fazer leituras psicológicas da história universal, tem razão de ser: um Hitler reconhecido como artista pela elite vienense jamais teria precipitado a II Guerra Mundial.
E se James Dean não tivesse desaparecido tragicamente, ao volante de um Porsche prateado, com apenas 24 anos, em 1955? Imaginemo-lo disforme e grotesco como o Brando crepuscular ou destruído pela sida, como aconteceu a Rock Hudson: não sobraria espaço para o mito, só possível porque os deuses o levaram tão jovem para o seu Olimpo.
Uma porta que se fecha na cara, um pouco mais de pressão sobre um pedal: um quase-nada capaz de mudar o mundo. “O acaso é uma parte da realidade. O inesperado acontece nas vidas de todos nós com uma regularidade quase entorpecente.” São palavras de Paul Auster, um dos autores contemporâneos que mais têm sublinhado a importância do acaso na viragem de qualquer vida. Quantas vezes a realidade não supera os mais assombrosos cenários de ficção?
Herbert L. Matthews foi um daqueles homens cujas vidas mudaram para sempre num só dia, que para ele constituiu simultaneamente o apogeu da sua carreira de jornalista e uma data fatídica que jamais o largou. Era um repórter que se distinguira ao serviço do New York Times na Guerra Civil de Espanha e na II Guerra Mundial antes de o instalarem, durante uma década, num gabinete de editorialista. Naquele dia, 17 de Fevereiro de 1957, conseguiu o furo da sua vida: entrevistou Fidel Castro na Sierra Maestra.
Castro liderava um pequeno grupo de guerrilheiros que se opunham à ditadura de Fulgencio Batista mas era praticamente desconhecido fora de Cuba. Foi Matthews quem o transformou num mito ao projectá-lo para a manchete do seu jornal a 24 de Fevereiro, uma semana após ter entrevistado o jovem comandante barbudo que Batista jurara ter morto uns meses antes. Afinal Fidel não só estava vivo como comandava “centenas de homens”, como Matthews garantira na reportagem.
O veterano jornalista, já com 57 anos, deixara-se iludir: Castro tinha apenas 18 homens armados na Sierra Maestra. Mas o mito do resistente hercúleo estava lançado: o furo jornalístico transformou-se no maior veículo de propaganda da “revolução” cubana, que triunfaria menos de dois anos depois – e se transformou numa ditadura mais feroz e muito mais longa do que a de Batista.
Herbert L. Matthews, antes tão louvado pela sua proeza, passou a ser contestado nos Estados Unidos à medida que Castro revelava a sua face de autocrata sem escrúpulos. Considerado um herói em Cuba, país que continuou a visitar quase até à morte, em 1977, recebeu críticas contundentes dos seus próprios colegas, que o consideraram um peão ao serviço do comunismo castrista. Depois de se reformar do New York Times, em 1967, radicou-se na Europa e na Austrália. Obstinado até ao fim, nunca denunciou o carácter ditatorial da “revolução” nem admitiu ter-se enganado quando assegurou aos leitores que Castro era um democrata genuíno que só pretendia instaurar a democracia na ilha. Em 1969, ainda o considerava “um dos homens mais extraordinários do nosso tempo”, dando razão aos seus críticos: o jornalista que denunciara a ditadura de Batista era incapaz de denunciar a ditadura de Castro.
Outro repórter do New York Times, Anthony De Palma, disseca este caso num livro brilhante, agora editado em Portugal pela Bizâncio: O Homem que Inventou Fidel. Tese: Matthews tornou-se prisioneiro da sua manchete. Reconhecer os erros do ditador “teria diminuído a sua própria importância” enquanto jornalista que o deu a conhecer ao mundo. Conclusão: por vezes é muito ténue a linha que separa a verdade do mito e mesmo um jornalista experimentado pode cair nas malhas da propaganda. A vida de Matthews teria sido bem diferente se não tivesse subido à Sierra Maestra naquele dia, escapando à monotonia do trabalho de gabinete em busca, mais do que de uma notícia, do “reconhecimento” que, segundo Hegel, é uma característica inerente à espécie humana. Sem esse golpe do acaso, perderia uma cacha mundial mas mantinha incólume a sua reputação, que assim foi manchada para sempre.
................................................................................................................
O Homem que Inventou Fidel
Autor: Anthony De Palma
Editora: Bizâncio
Páginas: 328
Classificação: ****

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As palavras dos outros

por Pedro Correia, em 14.02.08
"É na Net que se escreve melhor português, hoje."
Manuel António Pina, citado por Alexandra Lucas Coelho no Público

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Opinião pública

por Pedro Correia, em 14.02.08
De repente, em pleno Inverno, multiplicam-se as esplanadas em Lisboa. É o habitual engenho muito português: como a nova legislação não permite fumar no interior da generalidade dos cafés, logo se improvisa um espaço exterior.
Estou numa destas esplanadas com um livro fascinante nas mãos: Retratos de Coragem – o célebre Profiles in Courage, de John Fitzgerald Kennedy, que em 1957 valeu o Prémio Pulitzer ao futuro presidente dos Estados Unidos da América. A obra, que demorou meio século a ter versão portuguesa, foi agora lançada pela Esfera do Caos, com uma excelente tradução de José Gomes André.
Na mesa ao lado, duas senhoras. Falam e fumam. Falam sobre fumo, protestando contra a nova lei do tabaco. Em tom suficientemente alto para me distrair momentaneamente da leitura.
- Disparate, termos que fumar agora aqui. E eu que sempre detestei fumar na rua! – desabafa uma.
- Também eu. Gosto de ver sair o fumo e aqui não dá – indigna-se a outra.
- Ainda nos arriscamos a apanhar uma valente constipação – conclui a primeira.
Divirto-me com os comentários das duas senhoras que não revelam medo dos comprovados efeitos do tabaco na saúde mas exprimem receio pelas nefastas consequências do ar livre. E logo retomo a leitura. O livro de Kennedy – sem dúvida fascinante – é um ensaio político sobre “a mais admirável das virtudes humanas – a coragem”. O então senador do Massachussets destaca oito políticos americanos de várias épocas e de várias tendências que não hesitaram em remar contra os ditames partidários, os editoriais da imprensa e as correntes dominantes na “opinião pública”, com sacrificios pessoais indescritíveis. “Homens que fizeram do Senado dos EUA algo mais do que um mero conjunto de robôs capazes de registar obedientemente as opiniões dos seus constituintes, ou do que uma assembleia de oportunistas, especializados tão-só em prever e seguir as inclinações da opinião pública.”
Interrompo de novo a leitura. As senhoras a meu lado ainda fumam, ainda protestam contra a nova lei que “viola as liberdades”. Sob o céu azul de Lisboa, talvez a capital europeia mais bafejada pelo esplendor do sol.

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Perguntar não ofende

por Corta-fitas, em 12.12.07
Já conhecem a Monocle?
E o Bibliotecário de Babel?

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