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Livingstone

por Luísa Correia, em 23.03.13

A imagem de Livingstone, o destinatário da lendária pergunta de Stanley, "Doctor Livingstone, I presume?", passa, actualmente, por uma redefinição em terras de Sua Majestade. O missionário e médico escocês foi, nos anos que seguiram a sua morte, em 1873, e ao longo do século XX, praticamente idolatrado pelos britânicos, pelo seu pendor aventureiro aliado ao combate contra a escravatura e a violência colonizadora. Os méritos de Livingstone são inegáveis.
Mas não fossem os britânicos uma das guardas avançadas da "correcção política", aí temos a imagem de Livingstone ensombrada por uns quantos pecadilhos, que desencadearam forte especulação sobre a genuinidade do seu humanitarismo. Livingstone, dizem, ter-se-á servido de trabalho escravo na logística das suas deslocações. Sucede que, no tempo do velho explorador, o transporte de bagagens por terras centro-africanas não era feito por máquinas ou animais, mas por homens, dada a qualidade dos trilhos e a presença dos predadores. E nem sempre essa mão de obra era livre. Livingstone recorreu, portanto, ao que tinha ao dispor, não deixando que um excesso de escrúpulos empecilhasse a sua missão. Mas lamentava - e escreveu-o - que as coisas fossem o que eram.
Dizem também que, pontualmente, perante a rebelião de um ou outro carregador, terá usado ou ameaçado usar de violência. Mas esta é a abordagem paternalista característica da mentalidade colonial da época, mesmo nas suas expressões mais benevolentes. E palpita-me que um motim em plena selva dificilmente se sanaria pela via negocial.
O anacronismo é o vício da leitura "historicamente correcta". Filtre-se um acontecimento do passado pela peneira dos valores do presente e aposto que só sobra areia, areia seca e muita para a "camionete" de cada um .

Romanov

por Luísa Correia, em 20.03.13

O Figaro Histoire dedica um dos seus números recentes aos Romanov e aos trezentos anos em que comandaram os destinos da Rússia. O "cahier" não acrescenta novidades ao que se sabe, mas advoga, explicitamente, a perspectiva de que teriam sido as cerca de sete décadas consecutivas de poder feminino, com Isabel I e Catarina a Grande, as responsáveis pela preponderância cultural russa na Europa oitocentista, na literatura, no teatro, na música, na ópera e no ballet. De resto, parece que já antes, Pedro o Grande incentivara uma certa emancipação (leia-se educação) das mulheres, ciente de que da sua maior curiosidade e sensibilidade às exigências da moda dependia o refinamento dos costumes de maridos e filhos, à época ainda dados a usar barbas anacrónicas, a arrotar às mesas e a assoar os narizes às toalhas.
Impressionam naturalmente as páginas dedicadas aos últimos Romanov. As viragens da História revelam-se, muitas vezes, demasiado injustas para com os governantes em exercício, sacrificando, numa corrente de autocratas ou déspotas, aqueles que o são menos. O "povo" tem esse agudo sentido de oportunidade...
Recomendo, a propósito, a biografia "Nicholas & Alexandra", de Robert K. Massie. Tanto quanto julgo saber, Massie é pai de uma criança hemofílica, o que lhe proporciona uma visão interior do drama de Alexandra, na sua somatização de todas as angústias, na sua devoção desesperada e fatal a Raspoutine, na sua indiferença ao resto do mundo.

Educar para a liberdade

por João Távora, em 15.03.13
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No âmbito do "Projecto Educar" da Causa Real e com o apoio da Real Associação de Coimbra estive esta manhã na Escola EB 2 e 3º Ciclos Dr. João de Barros na Figueira da Foz a fazer uma exposição aos alunos do 9º ano intitulada "Da Monarquia à República". Acolhida com visível entusiasmo pelos cerca de 50 alunos presentes, tratou-se duma perspectiva monárquica à luz dos acontecimentos ignorados pelos manuais escolares sobre aquele conturbado período da nossa história concebida numa formula simples e com o suporte de vários elementos audiovisuais. Isto, claro está, a par de uma abordagem ao sucesso das monarquias contemporâneas.

Tulipomania

por Luísa Correia, em 10.02.13

O caso da "Tulipomania" foi o que provocou o primeiro "crash" dos tempos modernos, e o que me ajudou a compreender as causas da crise actual, tão em linha com aquilo que os holandeses do século XVII apodaram de "comércio do vento".
Reza a História que a tulipa, originária da Ásia e trazida para a Europa pelos turcos, se instalou bem instalada na Holanda, na qualidade de artigo de grande luxo. Mas porque só floria no Verão, os agentes económicos, sempre insatisfeiros, decidiram convertê-la num "mercado de futuros", promovendo a transacção, antecipada e certificada por um título de venda, dos bolbos simples e ainda debaixo da terra. Esta mudança de um mercado sazonal de bens concretos para um mercado de valores em títulos, activo todo o ano, teve como consequência que a especulação disparasse e o preço das tulipas decuplicasse de um dia para o outro, atingindo, nas primeiras semanas de 1637, o extraordinário patamar dos 10.000 guilders (quase 100.000 euros) por bolbo. E em Fevereiro desse ano, a "bolha" floral rebentava, felizmente com efeitos mais traumáticos do que económicos para a rica Holanda seiscentista.
Jan Breughel, o jovem, satiriza expressivamente este episódio na sua "Alegoria sobre a Tulipomania" - veja-se como, no fim do ciclo (ou no canto inferior direito), há um macaquinho que "rega" sem decoro as próprias tulipas. Mas as "finanças" têm esse condão: fazem-nos esquecer das coisas reais e lançam-nos a todos, alegremente, aos papéis.

Os postes são como as cerejas...

por Luísa Correia, em 28.01.13

Muito interessante, o documentário que o canal História ontem apresentou sobre o papel precursor da companhia italiana Olivetti no desenvolvimento do mundo informático: a sua criação do Programa 101, o primeiro computador pessoal do tamanho de uma máquina de escrever, passando pelas bem sucedidas investigações no campo das linguagens de programação e pela invenção do cartão magnético, avô dos actuais CD's de "software". O curioso é que todo este trabalho é contemporâneo das investigações e experiências preliminares que culminariam com a chegada do homem à Lua. Tudo se passa numa época em que o comum dos mortais desconhecia que pudessem existir outros auxiliares das suas matemáticas escolares ou domésticas que não fossem o ábaco e os dedos das mãos.
Mas o melhor do documentário é o final, quando um dos intervenientes, um dos velhinhos "revelhos" que, nos idos de sessenta, conceberam o Programa 101, nos olha do seu lado da objectiva e declara com risonha bonomia: "Não se esqueçam de que não estariam aqui se nós não tivéssemos estado cinquenta anos antes". E é isto! É esta linha breve, em que julgo ver a síntese do sentido da vida - se o há -, que demarca a fronteira entre a cultura dos livros e das viagens e a sabedoria íntima e conciliadora que só o tempo traz. Como os índios, veneremos os nossos anciãos.

Não percam...

por Luísa Correia, em 14.01.13

... aqui, uma magnífica exposição virtual dedicada aos portulanos. Portugal em destaque, claro!

O "French System"

por Luísa Correia, em 14.01.13
(Olympia, de Manet)

Quando li "Pantaleão e as visitadoras", de Vargas Llosa, julguei estar perante a mais delirante sátira ao que dizem ser a força natural e naturalmente irreprimível das pulsões masculinas. Acabo de perceber que não: que o enredo, de que se vê protagonista o escrupulosíssimo Pantaleão, é uma sátira sem delírio, uma expressiva caricatura da realidade.
Comecei a desconfiar disso há uns tempos, ao deparar-me, na descrição de um cenário de operações da nossa guerra em África, com uma alusão a um certo, inexplicado, "French System". Tirei do contexto que era sistema apimentado. Mas só há pouco o penúltimo número da revista "l'Histoire", cujo tema central é "Prostitution, de la tolérance à la prohibition", me desvendou o mistério.
Rendido à tese agostiniana de que as paixões insatisfeitas perturbam a ordem do mundo, o "French System" afinou pelo princípio de que, "do mal, o menos". Tratou, portanto, de regular o "mal" a que a satisfação das paixões obriga, de modo a, assegurando a ordem do mundo, prevenir comportamentos "torpes" e riscos sanitários. Isto é, consagrou as chamadas "casas de tolerância" - ou, no quadro de guerra, os "bordéis de campanha", ao jeito do corpo móvel de visitadoras de Pantaleão - com regras de funcionamento bem definidas e atento policiamento de costumes.
Curiosas são as circunstâncias em que, em boa hora, cessa o "French System"... pelo menos em França. Tendo obtido, durante a guerra de 39-45, a entusiástica adesão dos ocupantes alemães, muito ciosos da sua integridade física, o sistema propiciou o colaboracionismo entre lençóis. A situação veio a ser denunciada e, logo em 46, encerram (formalmente) as ditas "casas de tolerância", sendo extinto um regime - e exprobrada uma visão do homem e da mulher - então prestes a completar século e meio de existência.

Coisas do passado

por Luísa Correia, em 12.01.13

Perpassado de saudade, o documentário hoje apresentado na RTP 2 sobre a história do velho complexo industrial CUF, desde a sua criação por Alfredo da Silva, em 1908, até aos actuais investimentos Mello para recuperação de algumas das suas produções ou instalações.
O documentário regista, num tom de indisfarçável apreço, as preocupações "paternalistas" do fundador do grupo, expressas na criação de bairros de habitação para os seus operários, de creches, escolas e campos de férias para a respectiva prole, de hospitais e grupos desportivos para todos. E põe a ridículo, sem grandes subtilezas, as comissões de trabalhadores formadas na altura do PREC, provando como elas, interpeladas sobre os objectivos do socialismo que as inspirava, não sabiam - para além de papaguear os chavões do momento - esclarecer o que era que se pretendia que fizessem; e como a sua intervenção, avaliada em retrospectiva por ex-empregados da casa, perturbou a disciplina do trabalho e lhe(s) foi fatal.
Já tinha dado pela mudança de direcção dos ventos da História. Mas não me tinha ainda apercebido - por culpa do esquerdismo que tinge a corrente mediática - de que a mudança também chegou ao miolo da nossa consciência colectiva (... se a temos ...), e de que os dogmas das últimas quatro décadas estão mesmo a ruir.

Cantinho de escárnio e maldizer

por Luísa Correia, em 19.12.12

Já li algumas biografias de Churchill e todas elas me souberam a pouco; ou seja, o percurso do biografado nem sempre terá correspondido às expectativas que o seu nome, a sua reputação e algumas das suas palavras ditas e escritas tinham criado em mim. O programa televisivo que vi ontem sobre o seu comportamento para com uma Polónia aliada e agredida é a gota que me leva a esvaziar aqui o copo da latente decepção.
Churchill foi, tanto quanto posso ajuizar, um homem corajoso, um excelente soldado, e um homem perspicaz, bom analista de personalidades. Mas, à semelhança do que tenho visto suceder a gestores e estadistas britânicos, di-lo-ia estratega medíocre, fraco planeador, e intransigente, implacável mesmo, no que considerava, de forma mais impulsiva do que racional, ser a melhor defesa dos interesses do seu país, com prejuízo, se necessário, dos sentidos de equilíbrio, de honra e de humanidade. O fracasso dos Dardanelos, a traição dos polacos e o bombardeamento de Dresden ensombram-lhe o retrato, não havendo sucessos pessoais estrondosos que o iluminem - a guerra, convenhamos, foi ganha pelos americanos! É certo que lá vejo - e é um gentil retoque fotográfico - um casamento feliz de seis ou sete décadas. Defendido, este sim, com a apuradíssima visão estratégica que lhe faltou na política, à custa de longas ausências e férias separadas: é que cônjuges que mal se encontram, podem esquecer que existem... mas lá cansar, não cansam.

25 de Novembro, dia da Liberdade!

por João Távora, em 25.11.12

 

Nos dezoito meses subsequentes ao 25 de Abril o poder da esquerda revolucionária apoiada por sectores radicais das Forças Armadas, com a cumplicidade dos comunistas e dos seus satélites (então como hoje com representação eleitoral muito semelhante, de cerca de 18% na Assembleia Constituinte) controlando os sindicatos e os Órgãos de Comunicação Social, nomeadamente a rádio e a omnipresente televisão, vai tomando conta do País que a 25 de Novembro se encontra à beira da guerra civil.
Nesse dia, como acontece a muito boa gente, a minha família é aconselhada a deixar Lisboa, e partimos todos para umas imprevistas “férias” em local recôndito, que a caça às bruxas há muito que se prenunciava (era normal o pivot do telejornal adjectivar um partido à direita do PS como “fascista” ou “da vergonha”). Mas foi pela emissão televisiva que assistimos à reviravolta do golpe, quando é cortado o piu ao major Duran Clemente para a emissão prosseguir dos estúdios do porto com uma comédia de Danny Kaye. Dois dias depois, estávamos de volta às aulas e o "processo revolucionário em curso" estava definitivamente comprometido. A democracia prevalecera ao "poder popular", ou seja "da rua", discricionário, tirânico. Quem como eu viveu esses emocionantes dias (com catorze anos era um precoce activista) tem a perfeita noção do valor precioso da liberdade. Que é o que hoje se devia celebrar.

Amnésia colectiva

por João Távora, em 22.11.12

 

A “memória colectiva” é um peculiar conceito alimentado pelas oligarquias do regime com a tralha politicamente correcta e a espuma dos dias que anima os vencedores na sua mesquinha luta pelo poder. Curiosamente nessa “memória selectiva” os heróis e os símbolos são escolhidos criteriosamente de um cardápio ideológico com o horizonte máximo de três ou quatro gerações. Acontece que, para grande contrariedade dos “nossos senhores” não existe uma coisa dessas de “memória colectiva”; resultando os seus porfiados esforços num fenómeno de “amnésia colectiva”, um assunto afinal com que ninguém se preocupa porque, mesmo atreitos ao entretenimento e à fancaria o mais das vezes se vive apoquentado com o pão e o vinho à mesa.

No próximo dia 1 de Dezembro o calendário assinala pela última vez como Feriado Nacional o Dia da Restauração Independência, assunto que na verdade a poucos comove e cuja exumação acontecerá com o recato que inevitavelmente um Sábado impõe a uma data festiva há muitos anos ameaçada pela indiferença dum regime apátrida e sem memória. Uma terrível parábola que nos deveria afligir a todos se é que, sem darmos conta não estaremos já em profundo estertor como Nação.

 

Foto Instagram

 

O auditório da Biblioteca Nacional encheu-se para a conferência organizada pela Real Associação de Lisboa sobre o rei Dom Manuel II homem de cultura com Prof. Dr. Artur Anselmo. Um fim de tarde de grande elevação cívica e patriótica, quase fazendo esquecer a decadência do Portugal de hoje. Se o país tivesse seguido o exemplo daquele bom, honesto, inteligente e sensato jovem monarca, hoje estaríamos certamente mais cultos, mais serenos, prósperos e civilizados.

Descubram as diferenças

por João Távora, em 04.10.12

A respeito do presidente da república e das "suas" celebrações entrincheiradas de amanhã: 

 


O Rei D. Carlos ao seu ajudante de campo, tenente-coronel José Lobo de Vasconcelos, alguns meses antes de ser assassinado:

«Tu julgas que eu ignoro o perigo em que ando? No estado de excitação em que se acham os ânimos, qualquer dia matam-me à esquina de uma rua. Mas, que queres tu que eu faça? Se 

me metesse em casa, se não saísse, provocaria um grande descalabro. Seria a bancarrota. E que ideia fariam de mim os estrangeiros, se vissem o rei impedido de sair? Seria o descrédito. Eu, fazendo o que faço, mostro que há sossego no País e que têm respeito pela minha pessoa. Cumpro o meu dever. Os outros que cumpram o seu.»

A mais bela bandeira do mundo

por João Távora, em 24.09.12
(...)

E o cortejo passou…

Entontecida pelo turbilhão das massas que se dispersavam em redemoinhos doidos, sentia uma intraduzível e inexplicável tristeza. Milhares e milhares de bandeiras revestiam por completo as fachadas das casas. Em vão procurei uma bandeira de cores feias, que no entanto devia ter o seu lugar entre tantas que se cruzavam. Bandeira de cores feias? Que importam as cores? É a bandeira portuguesa, que nos campos da Flandres serviu de manto a muitos corpos de heróis. Estrangulada por uma das que me vexava murmurei: — França ingrata! Sempre o forte!… Mas como que sonhando, aos meus olhos que se perturbavam de repente, desenrolada em todo o seu pano, suspensa nas janelas dum grande edifício bancário uma grande bandeira linda. Sim! Era bem aquela: (...) Ler mais, aqui»»» 

A verdade ideológica de Loff

por João Távora, em 04.09.12

 

(...) Não interessa que um historiador de esquerda pudesse ter escrito o que Ramos escreveu. Não interessa sequer o que ele escreveu. À cultura da guerra civil só interessa transformar os adversários em demónios "fascistas", suspeitos, obrigados a autojustificarem-se no altar dos censores morais. Ramos aliás deixou de existir. É a caricatura de um inimigo imaginário que estes órfãos da guerra civil perseguem. 

A democracia tem-nos providenciado uma aprendizagem das regras do debate democrático. Mas vivemos tempos perigosos. Se este sectarismo violento e falsificador vencesse na sociedade portuguesa, estaríamos a retroceder em muito do que construímos. Ficaríamos todos vulneráveis perante quem conseguisse fabricar uma "verdade ideológica" independentemente dos factos e da verdade. E aí, de facto, a liberdade seria uma farsa.


Excerto da crónica de Pedro Lomba hoje no Público

Revelações (5)

por João Távora, em 07.06.12

 

Mas a exclusão da Igreja, como instituição orientadora da cidade dos homens, proposta pelo iluminismo e o liberalismo, trouxe uma consequência grave: a perda da noção do sagrado, inerente ao princípio de que os homens podiam excluir a perspectiva divina e atingir a perfeição por meio das suas próprias forças, ou seja por meio do poder da razão e da técnica. Tal como os construtores da Torre de Babel. Esqueceram que a Humanidade só pode crescer com um todo, e que esse todo não é apenas material, mas sobretudo espiritual e cultural. Ora este princípio não é só uma questão de bom senso: é um princípio sagrado. Impõe o respeito total, absoluto. Não pode ser imposto pela força exterior; baseia-se no imperativo categórico que obriga em consciência que não pode ser discutido e que está acima de todas as justificações e raciocínios. Inversamente o desprezo dos mais fracos, a humilhação dos pobres, a utilização dos indefesos, a matança dos inocentes são formas de profanação. Atingem o que há de mais sagrado no homem, que é a sua dignidade, aquela dignidade que a Bíblia exprime afirmando que o homem for criado á imagem e semelhança de Deus.

Creio que a perspectiva meramente ética, cívica e laica acerca do valor do princípio da cidadania como factor de desenvolvimento humano é ineficaz. Encerra os cidadãos num plano limitado e material e este torna-se inoperante para neutralizar a tendência egoísta e gananciosa do homem.

 

José Mattoso – In Levantar o céu, – Temas e debates, Circulo de Leitores

 

Revelações (4)

por João Távora, em 06.06.12

(…) A sabedoria medieval mantém-se sempre, portanto, na convicção de que não pode haver verdadeira sabedoria senão em Deus. Propõe-se chegar a ela pela razão e pelo amor. Os teólogos preferem a razão, mas os monges e os místicos, o afecto. Renovam, assim, o antiquíssimo debate que opõe a filosofia à poesia. Paradoxalmente, ambas as escolas na explicação platónica do mundo, que gaz de Deus o arquétipo das ideias e dos seres criados. A perspectiva filosófica não impede porém, a expressão poética e, muito menos, o privilégio concedido ao afecto. Paradoxalmente, também, é o mais poético dos sábios medievais, Francisco de Assis, aquele que mais ama as criaturas e menos sabe de filosofia. Nesse sentido é também ele que contribui para considerar a realidade deste mundo em si mesma, embora receba de Deus o que mele há de bom. Contribui portanto, para libertar a concepção do mundo da interpretação platónica. Neste sentido, abre também caminho ao humanismo, cristão e não cristão. Ou seja, abre também o caminho a Cervantes, Shakespeare e Montaigne.

 

José Mattoso – In Levantar o céu, – Temas e debates, Circulo de Leitores

 

Revelações (3)

por João Távora, em 05.06.12

(…) A esperança cristã baseia-se na identificação com o Filho de Deus, que, por amor à humanidade, renuncia a todo e qualquer poder. Que Deus tenha encarnado, como diz (…) Eduardo Lourenço, “é a notícia mais incrível que se possa imaginar (…) Crer nisto é qualquer coisa que responde aos anseios mais profundos da humanidade (…).
A fé e a esperança têm que ser explicitadas.  Só assim podem expandir-se e comunicar-se. Só assim podem tornar-se colectivas. Só assim podem transmitir vida. Como expressão de vida, esses gestos não são só símbolos, mas também, como poderíamos dizer, apropriando-nos da sabedoria oriental, começo histórico de uma realidade que busca a harmonia universal, a ordem correcta das coisas, a vontade de Deus. (...)

 

José Mattoso – In Levantar o céu, – Temas e debates, Circulo de Leitores

Revelações (2)

por João Távora, em 04.06.12

(…) Não admira que muitos analistas políticos de formação histórica concluam que a História se repete sem qualquer mudança fundamental, sobretudo sem qualquer mudança para melhor. Parece portanto, que o lugar da História, na sociedade contemporânea, se situa perto do lugar do desespero. Na verdade, consideradas as coisas em termos racionais não é fácil escapar a esta conclusão. (…)|Mas| O cristianismo, como todas as religiões, é uma escola de esperança. Há nele um último recurso e uma convicção fundamental. Apesar de não o podermos demonstrar, acreditamos que não há só tempo, há também eternidade; não há só natureza, há também sobrenatureza;  não há só presente e passado, há também futuro – isto é promessa. E mesmo de um ponto de vista humano, não há só ódio, violência e pecado, há também amor; mansidão e justiça. Não há só egoísmo e cobiça, há também solidariedade e renúncia voluntária. Não há só domínio, há também serviço vigor e renascimento. (…)

 

 José Mattoso – In Levantar o céu, – Temas e debates, Circulo de Leitores

Revelações (1)

por João Távora, em 03.06.12

(...) O colapso da ideia de progresso universal e quase mecânico é, na minha opinião, um bem. Veio desfazer as ilusões criadas por uma esperança insensata. Imaginar que bastaria o esforço e o sacrifício de uma ou duas gerações para alcançar a harmonia e a justiça foi, na verdade, uma ilusão perniciosa. Teve o efeito perverso de sugerir que o sacrifício temporário garantiria um resultado definitivo e feliz. A crença no progresso constante foi um engano porque pressupõe a superação do tempo e a supressão da liberdade. Com efeito, o tempo traz consigo o envelhecimento e a morte. E a liberdade tem como contrapartida a possibilidade de escolher o bem, mas também a violência, a opressão e a crueldade. Ora o homem não pode viver sem tempo e sem liberdade. Tem de morrer para dar lugar a outros homens. Tem de conquistar a sua dignidade de forma livre e consciente. Estas imposições do próprio ser trazem as desigualdades e a morte. Daí a necessidade de reparar o mal que ambas implicam. Só se pode imaginar a vitória definitiva sobre os males fundamentais quando se esquece a própria condição humana. (...)

 

José Mattoso – In Levantar o Céu, – Temas e debates, Circulo de Leitores

 



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