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Emoções básicas (44)

por Luís Naves, em 20.01.09

 

O Presidente 44

A tomada de posse de Barack Obama está a suscitar um arrastão mediático que, como é típico destes fenómenos, não facilita a análise dos factos. Obama é visto como uma espécie de estrela rock que vai transformar a América em todo o tipo de delírios ou um revolucionário capaz de mudar o mundo.

As referências mais citadas são Abraham Lincoln ou Franklin Roosevelt, dois presidentes que agiram em contextos de grande complexidade.

Os comentadores esquecem que o primeiro teve de travar uma guerra civil e o segundo criou as condições para vencer uma guerra mundial. O primeiro conseguiu evitar a divisão da América em dois países; o segundo enfrentou os desafios do fascismo e do comunismo. A propósito, o capitalismo venceu. Com Lincoln, os EUA tornaram-se uma potência; com Roosevelt, uma superpotência.

Com Obama, os EUA vão perder poder relativo no mundo. Não será culpa dele, mas do contexto.

 

Barack Obama será provavelmente um presidente de estatura invulgar e enfrenta dificuldades anormais. Terá de conduzir o seu país na pior tempestade económica das últimas décadas. A actual crise não se compara à Grande Depressão, mas será difícil de vencer. Obama vai baixar impostos e aumentar a despesa, mas a receita terá de ser doseada, pois se o défice crescer demasiado, a moeda perderá estabilidade. O país está a perder empregos a ritmo de meio milhão por mês e a crise pode até durar dois anos, ninguém sabe ao certo. Qualquer erro tornará a crise ainda mais difícil.

Os Estados Unidos estão envolvidos em duas guerras e Obama prometeu sair de uma delas. Isso não altera o fundamental: os EUA continuarão a ser a grande superpotência militar, mesmo que estejam a perder terreno em outras áreas, sobretudo para a China.

No plano externo, o novo presidente terá de enfrentar conflitos muito complexos, sobretudo a relação com a Coreia do Norte, Irão e o Médio Oriente. Não lhe bastará possuir evidentes recursos oratórios. E o nome do meio (Hussein) não lhe dará qualquer vantagem, ao contrário do que ouvi a alguém dizer na rádio.

 

Desenham-se mudanças de política na questão das alterações climáticas, no fim da tortura e dos abusos como Guantánamo. A retirada do Iraque também parece uma boa medida. No fundo, trata-se de anular os óbvios erros estratégicos da anterior administração.

Obama parece ser um centrista, um político cauteloso que gosta de consensos e da negociação. Também mostra preocupação pela continuidade, tendo na sua administração vários elementos da era Clinton. O novo presidente consegue fazer a ponte para os sectores mais moderados dos republicanos. E a sua capacidade retórica e atitude tranquila fazem lembrar Ronald Reagan.

 

A América é um país muito dinâmico, que se consegue renovar em cada vinte anos. É esta a esperança de Obama, a de criar uma formulação que dure duas décadas.

 

Emoções básicas (43)

por Luís Naves, em 19.01.09

Em vários posts publicados em Blasfémias, mais recentemente neste post de Helena Matos, sobre o que se define como "catastrofismo ambiental", são insinuadas críticas às notícias sobre alterações climáticas, como se estas fossem fantasia ou exageradas. Penso que estes autores estão a cair num equívoco.

 

A política energética faz parte da política externa das grandes nações. As sociedades industriais contemporâneas precisam de energia barata para se sustentarem. Percebendo estes factos, os críticos da tese das alterações climáticas partem do pressuposto de que as notícias são alarmistas e de que na realidade esta é uma questão política, tipo esquerda-direita. Quem defende a ideia está à esquerda, quem ataca afirma-se de direita.

 

Parafraseando Charles de Talleyrand, pior do que um crime isto é um erro. Não estamos perante uma questão política, mas de sobrevivência da espécie humana.

O aumento do teor de dióxido de carbono na atmosfera é um facto, não é uma teoria. A diminuição das calotes polares (pelo menos no hemisfério norte) é um facto, não é uma teoria. Mais grave: podemos estar a atingir pontos de não retorno.

Os cientistas não mencionam aquecimento global, mas sim alterações climáticas. O sistema de clima do planeta é tão complexo, que em algumas regiões, por exemplo na Europa, pode haver arrefecimento. Globalmente, as temperaturas médias vão aumentar (o dióxido de carbono absorve mais energia solar e entretanto está a subir o nível de metano, um gás ainda mais perigoso). O principal efeito será o de maior número de fenómenos extremos, sobretudo secas, inundações e tempestades.

A ciência usa modelos que tentam antecipar a evolução dos acontecimentos. Esses modelos não têm toda a informação, por isso dão origem a probabilidades, não são necessariamente uma antevisão do futuro. Mas ignorá-los é disparate.

A informação que Helena Matos tenta desvalorizar é intuitiva. Num cenário de alterações climáticas, ao longo deste século, haverá perturbações na produção alimentar. Este sim, é um fenómeno com potencial para ter graves consequências políticas. Fomes generalizadas, escassez localizada, deslocamento de populações, perturbação de preços, guerras civis. Estas não são questões de esquerda-direita.

 

A estratégia de sobrevivência da espécie humana tem sido a de usar a sua inteligência para se adaptar rapidamente a alterações no meio ambiente. Nada garante que seja uma estratégia melhor do que a dos dinossauros, que não se surpreenderam com a sua extinção.

 

 

Emoções básicas (42)

por Luís Naves, em 12.01.09

 

Nervosismo

Três exemplos recentes de notícias mostram grande nervosismo da maioria no poder e um desprezo pela verdade. Aqui, aqui e aqui poderão perceber estes sinais. No primeiro caso, tenta-se culpar a oposição pela crise; no segundo, há uma nítida separação da realidade, típica das situações sem solução; o terceiro caso é pragmático e o título de Carlos Abreu Amorim parece-me pertinente: no fundo, o objectivo é acelerar obras que depois justificarão renovar a maioria absoluta. (Como se os portugueses fossem um bando de estúpidos que, de chapéu na mão, lá vão agradecer o novo fontanário que custou o triplo do que podia ter custado).

O crescente afastamento da realidade é um sintoma preocupante, sobretudo num cenário difícil. A propaganda do governo só recentemente reconheceu a existência de problemas, apesar da economia crescer de forma deficiente há oito anos; agora, a crise internacional (reparem que insistem sempre na segunda palavra) vai justificar tudo o que for feito. Será que se pretende a mexicanização do país ou a sua jardinização? O facto é que o PS não reconhece nunca os seus erros e continua a viver numa espécie de ilusão propagandística.

 

O bloco central que caracterizou os últimos 30 anos pode deixar de existir nas próximas eleições, substituído por um sistema de três grupos: a direita, o centro e a esquerda. Cada grupo ronda um terço dos votos, embora a direita e o centro devam ser um pouco maiores (entre 35 e 40%) e a esquerda ainda não esteja recomposta, dependendo se Manuel Alegre avança ou não para o seu movimento separado do PS. O PSD vai provavelmente virar à direita, pois o centro está ocupado pelo PS de Sócrates. O CDS pode ser engolido e o PCP terá dificuldades.

Onde o bloco central garantia a estabilidade, a configuração que se adivinha é uma receita para a ingovernabilidade do país.

Outros exemplos mostram que a lógica do curto prazo prevalece: a hostilização do Presidente pelos socialistas e os previstos aumentos da despesa pública, anulando os sacrifícios pedidos nos últimos anos. Há uma geração que vive na precariedade e aumentaram brutalmente as diferenças entre ricos e pobres. Os portugueses foram vítimas de um ajustamento que consumiu vários anos (pagaram mais impostos e tiveram aumentos zero). Mas no que respeita às contas públicas, no final disto, como Sísifo, estarão no ponto inicial.

   

 

 

Emoções básicas (41)

por Luís Naves, em 08.01.09

Paixões

A discussão que o Tiago Moreira Ramalho e o João Tordo tentaram iniciar aqui nos últimos dias, sobre a monarquia, originou comentários irados. É interessante como este sistema de governação que serviu durante séculos mas que não possui actualidade suscita tais emoções na blogosfera portuguesa. A monarquia terá no máximo interesse histórico. Por mim, acho mais importante falar do futuro.

 

Por exemplo, a república americana criou um sistema peculiar que assegura aos EUA um domínio internacional sustentável. A grande vantagem parece-me ser a sua adaptabilidade, mas há outros elementos, como a livre expressão, o reflexo anti-aristocrático, a renovação das elites. A América mantém-se dominante desde 1945, apesar da recente ascensão de rivais; mas estas potências emergentes, como a China comunista (ou de mandarinato), são ao mesmo tempo vulneráveis a crises. Por outro lado, na hora da saída do 43º presidente americano, é interessante observar como estes oito anos de unilateralismo da era George W. Bush não passaram de ilusão. Os EUA ganham em desenvolver as alianças do tempo da Guerra Fria. Barack Obama, provavelmente, quererá reforçar as relações com a Europa e Japão.

 

Na Europa está a surgir uma nova forma de fazer política, baseada na negociação permanente (alguns diriam excessiva) e numa complexa rede de relações entre órgãos que se complementam. É um work in progress que não se parece com mais nada. Claro, as nações continuam a dominar o sistema, mas é interessante ver como a presidência europeia de um país de pequeno porte, como a República Checa, pode causar tantos estragos. Ora, isto é uma vantagem da UE, não é um defeito.

 

É curioso ver como a Rússia de Vladimir Putin tem tão poucos críticos na blogosfera, em comparação à América ou à Europa (onde há democracias). Como prova a questão georgiana ou a do gás ucraniano, as acções de Moscovo são explicadas pela perda de parte do império, no final da Guerra Fria. Hoje, a Rússia tenta condicionar as antigas colónias e recuperou um sistema (no papel, uma república) que se assemelha em muito à hierarquia czarista. Ou seja, Putin é uma espécie de Napoleão, usando a república para reconstituir o império.

 

Há um outro sistema em competição, o teocrático, muito em voga em países muçulmanos onde os militantes fundamentalistas afastam os moderados. Também é interessante ver como autores da nossa blogosfera chutam para canto este interessante grupo do Islão político, que não negoceia, por ter sempre a razão divina do seu lado. A vitimização faz sempre parte da estratégia de poder. Estes também se enganaram no século, mas com mais cinismo do que os imperialistas.

 

Emoções básicas (40)

por Luís Naves, em 07.01.09

A incerteza

A política regressou esta semana e esperam-nos pelo menos dez meses centrados nas manobras de poder. Este será o ano da incerteza.

Nos últimos dias, o Governo tentou explicar o falhanço das previsões do cenário macroeconómico no orçamento de estado. Foi ajudado pelo branqueamento da máquina de propaganda. Simplificado, o argumento é de que em Outubro não era possível prever os efeitos da crise. Mas insistir nesta tese é erro, pois suscita imediatamente uma questão: se não era possível prever antes, qual a razão de ser possível prever agora? No fundo, a realidade económica era bem pior do que admitia o Governo e talvez seja pior do que ele admite nesta fase.

Há razões para temer o pior.

 

Para vencer as legislativas (previsivelmente em Outubro), o PS tentará insistir na questão da estabilidade. Este factor parece favorável ao poder, pois o eleitorado não gosta de mudanças em tempo de crise.

Mas a maioria absoluta é um cenário cada vez mais improvável, sobretudo porque ela seria difícil em situação económica risonha. Já aqui o escrevi: António Guterres era popular e falhou a maioria absoluta com a economia a crescer quase 4%. O actual Governo enfrenta a maior contracção económica em democracia (acho que é mesmo inédito) e não conseguiu nenhum ano de convergência com a média de rendimento da UE. Esta é uma crise que apanha um país vulnerável.

As eleições europeias de Junho serão decisivas, pois vão mostrar se o partido do Governo sofre erosão eleitoral ou se, pelo contrário, resiste ao voto de protesto. O PS parece ter a iniciativa, mas acho que é ao contrário. Nos próximos seis meses, com o rápido agravamento da crise, o maior partido da oposição terá de perder a actual invisibilidade, ou arrisca-se a uma derrota nas eleições, por falta de comparência, auto-condenando-se ao desaparecimento.

A continuar tudo como está, a direita parece tender para o fracasso, o Governo ocupa o centro e a esquerda cresce, à custa da franja esquerda do PS. Isto lembra o fim do sistema do bloco central e mostra que numa situação em mudança rápida, o mais difícil é prever o que será.

 

 

Emoções básicas (39)

por Luís Naves, em 12.12.08

 

A realidade virtual

Eduardo Pitta reagiu desta forma à entrevista de Henrique Medina Carreira num programa da SIC. Embora avise que não viu o programa, o autor de Da Literatura afirma conhecer bem o pensamento do entrevistado, gastando uma parte do texto a desvalorizar o currículo dele e outra parte a colocar-lhe na boca coisas que ele não disse.

Quem perceba um pouco de economia verá nas palavras de Medina Carreira puro bom senso: o país está endividado, paga demasiados impostos e tem cada vez maiores desigualdades sociais. Existe uma crise estrutural que se reflecte num empobrecimento relativo. E o que se anuncia não é bom, vamos pelo caminho habitual e todo o esforço feito na consolidação das contas públicas será perdido em poucos meses. O resultado, diz o antigo ministro das finanças, será mais pobreza, mais desigualdade e conflito social.

O aviso parece ser adequado. O que Medina Carreira tem dito ao longo dos anos confirma-se geralmente. Podemos não gostar, mas é difícil encontrar factos que desmintam o entrevistado da SIC.

 

Mas a reacção de desprezo de um intelectual como Eduardo Pitta surpreendeu-me.

(Sei que é difícil ter uma opinião ajuizada todos os dias e que a velocidade da blogosfera não é muito favorável à sensatez, mas mesmo assim, chutar para canto desta maneira não é habitual).

Tentando interpretar, acho que este é apenas um exemplo de outras situações que revelam um mal maior do país, o crescente deslocamento da realidade.

Isso é visível em muitos noticiários de televisão, em afirmações soltas de políticos, na propaganda constante do governo. As pessoas repetem mentiras e começam a acreditar nelas. Às tantas, nem precisam de ouvir quem lhes fale da realidade, pois a realidade e a ficção misturam-se subtilmente, criando uma vida paralela, desviada, onde se instalou o conforto de nem querer saber.

Faz lembrar o aflitivo universo de Philip K. Dick.

Emoções básicas (38)

por Luís Naves, em 04.12.08

 

A angústia do guarda-redes

Sempre me surpreendeu a insistência deste blogue em relação aos problemas internos do PSD, um verdadeiro existencialismo crítico sobre a angústia do guarda-redes à beira do frango. Este é um comentário que parte das opiniões de pessoas que sabem muito mais do que eu de política, mas penso que foram aqui publicados posts que revelam o que me parecem ser erros de análise. Mais abaixo neste blogue, o Francisco menciona Sá Carneiro, não acrescentando as dificuldades que este teve em conquistar um partido já na altura difícil de controlar. O Pedro considera uma trapalhada a saída de uma pessoa que ocupava um cargo desconhecido e cujo nome nada diz ao comum dos eleitores. (Mas não é no gabinete de estudos que está o poder, não é verdade?).

 

A culpa do herdeiro

A teoria de que há facções no partido que preferem a derrota eleitoral para depois conquistarem o poder no interior da formação parece-me delirante. Só se houver muitos psicopatas políticos à solta, pois abdicar de ser poder para depois reinar sobre cinzas é uma ideia abstrusa, sem interesse para um político sério e que pense no País antes de meditar sobre a sua extraordinária carreira. (Mas nas boas histórias de Agatha Christie o herdeiro costuma ser o criminoso, por isso não excluo a possibilidade da teoria ser verdadeira).

Também há quem afirme que o PSD é constituído por “vários partidos”, mas isso parece-me verdade para o PS e para a UMP francesa, para os conservadores britânicos e a CDU/CSU alemã, enfim, o argumento é válido para cada um dos grandes partidos europeus, que continuam a existir alegremente.

 

Tentando simplificar

Acho que nestes debates os autores gostam de complicar, esquecendo dados simples.

Das eleições de Outubro sairá um governo dominado pelo PS ou pelo PSD ou por ambos. Não há fuga a este axioma.

Em segundo lugar, os votos não esticam. Nas três últimas legislativas, o chamado bloco central conseguiu em redor de 4,2 milhões de votos. É um número relativamente estável. Mas em 2005 o PS conseguiu conquistar abstencionistas que presumivelmente não voltarão às urnas num cenário mais sombrio: a participação subiu dos tradicionais 61% para 64% e os socialistas somaram 2,6 milhões. Isso não irá repetir-se: o PS arrisca-se a perder, de uma só vez, estes 300 mil votos de pessoas que foram votar naquela ocasião por terem esperança numa determinada solução política.

 

O limite de Guterres

Em 1999, quando a economia portuguesa crescia quase 4% e o desemprego era reduzido, António Guterres ficou aquém dos 2,4 milhões de votos, falhando por muito pouco a maioria absoluta.

Por outro lado, o PSD enfrentou as eleições de 2005 em dificuldades, com um Governo desacreditado e uma oposição que apresentava um candidato a primeiro-ministro que parecia ter o discurso certo, prometendo fazer reformas estruturais e não subir impostos. Resultado, o pior de sempre para o PSD, com 1,65 milhões de votos.

Quatro anos mais tarde, o País não saiu da cepa torta. Divergência crónica com a Europa e promessas na gaveta. O desemprego aumenta depressa e o pior da crise ainda nem chegou. Dentro de um ano, a situação económica será bem pior do que a actual.  Pergunto: como é que Sócrates conseguirá chegar a 2,4 milhões de votos e ao limiar da maioria absoluta? Por outro lado, parece-me plausível admitir que o maior partido da oposição, no mínimo, iguale o resultado de 2005.

Quem fala em renovação da maioria absoluta está a esquecer o descontentamento de partes da opinião pública e o previsível aumento de conflitos como o dos professores, que terá ultrapassado o ponto de não retorno. 

 

O flanco esquerdo

As contas complicam-se se incluirmos os partidos à esquerda. Esta área vai crescer, e à custa do PS. O Bloco e o PCP somaram 800 mil votos em 2005 e este valor deverá aumentar, sobretudo num contexto de crise profunda. Nas presidenciais de 2006, Manuel Alegre atingiu 1,2 milhões de votos, dividindo o PS, e mesmo assim a soma de Louçã e Jerónimo foi de 750 mil.

Neste ponto, há dois cenários: se Alegre se mantiver no PS (como julgo irá acontecer), a transferência de votos para a esquerda será limitada. (Estamos a falar de 100 mil votos?). Mas, se ocorrer uma ruptura no PS, o caso é bem mais grave. Podemos estar a falar de 200 mil ou mais votos e de um PS pouco acima dos 2 milhões (38%).

Tudo se torna ainda mais complicado quando levamos em consideração que primeiro haverá eleições europeias, onde é habitual o voto de protesto.

Em resumo, nos meses que precedem as legislativas, a diferença entre os dois maiores partidos será bem menor do que a actual, com o PS abaixo dos 40% e o PSD acima dos 30%.

 

Comentário final:

Não sou adepto de Ferreira Leite nem especialista neste tipo de análises. Sou um observador externo e nem conheço dirigentes do PSD. Posso estar tremendamente errado na minha opinião, mas parece-me que MLF não pode dar um espirro sem ser criticada por isso. Por outro lado, torna-se cada vez mais provável o cenário da actual líder do PSD a disputar legislativas e que um dos resultados possíveis dessas eleições será o de grande coligação entre PS e PSD.

Na equação das próximas legislativas, todos percebemos a importância da incógnita sobre a liderança do PSD e das suas personalidades, mas julgo potencialmente mais decisivos os efeitos da crise económica e a atitude de Manuel Alegre, dois factores potencialmente desfavoráveis para o PS.

 

Emoções básicas (37)

por Luís Naves, em 02.12.08

 

A moda

Está na moda criticar o jornalismo (veja-se este texto, um exemplo entre muitos).

Hoje, os media são julgados na praça pública, mas a história é sempre igual: não transmitiram a mensagem que pretendíamos transmitir.

O congresso do PCP, outro exemplo, não teve destaque nas primeiras páginas de jornais. (E logo o PCP a queixar-se, um partido com excelente imprensa, como se diz agora, que nunca vê serem discutidas as minúcias absurdas dos seus documentos; um partido cujas referências internacionais são ditaduras totalitárias, sendo que isso é notícia dada sempre ao de leve, com pinças).

Vi na televisão, transmitida de forma positiva, a intervenção de Odete Santos no congresso comunista. A frase era algo do género “cantaremos quando o capitalismo acabar”. Imaginem, o capitalismo a acabar, todos nós desempregados e falidos, em grandes cantorias...

 

Delírios

A Imprensa é tendenciosa se não transmitir as tiradas mais tontas, por exemplo, nas questões europeias. Qualquer coisa que se escreva minimamente favorável à União Europeia é imediatamente descartada por certas mentes, que desprezam a UE sem nunca tirarem as conclusões devidas. Por exemplo: que tal sairmos dela?

Quem obriga o senhor Vaclav Klaus a ficar na UE? Os argumentos que apresenta, num documento ao Tribunal Constitucional do seu país, são delirantes. Ponho em caixa alta, para se perceber melhor: DELIRANTES. O blogue onde li a referência esqueceu-se de acrescentar que o Tribunal Constitucional checo rejeitou os argumentos do presidente, mas diz que os argumentos são óptimos. Também não refere que Klaus ainda por cima está a causar todo o tipo de caldinhos ao seu próprio partido, que não foi eleito directamente e não dispõe dos mesmos poderes que o Governo, excepto os de bloqueio, que usa a granel. Enfim, mas quando os jornalistas não dizem coisas assim importantes são sempre sectários.

 

O caso Palin

Li esta deliciosa história sobre Sarah Palin graças ao excelente blogue de José Gomes André. Lembro-me deste episódio ter sido notícia em todo o lado, incluindo blogues que deviam repensar as coisas que escreveram sobre a candidata a vice-presidente.

Hoje, o tratamento da informação lembra um pouco a física quântica. O observador altera os dados que observa (veja-se o que faz uma câmara de TV no meio de uma multidão), existe uma incerteza crescente nas fontes e menos tempo para tratar os dados disponíveis. É tudo demasiado rápido e, na internet, podem ler-se muitas informações pouco fidedignas ou até mentirosas. A necessidade de bater a competição reduz o tempo da análise.

A realidade é um terreno pantanoso e escorregar nela não é equivalente a manipular ou definir a agenda da sociedade.

Emoções básicas (36)

por Luís Naves, em 22.11.08

Luta fraticida

A campanha interna pela liderança do Partido Socialista francês mostra a angústia de se viver em oposição na Europa. Nas democracias parlamentares europeias parece ser cada vez mais difícil gerir ciclos políticos quando um partido se arrasta na oposição. O PS estava dividido desde o referendo constitucional europeu, em 2005, com as facções a lutarem em diferentes barricadas. As divisões produziram rivalidades insanáveis. Depois, veio a derrota de Ségolène Royal, nas presidenciais do ano passado. Agora, na segunda volta das primárias, com mais de 130 mil votos de militantes, Martine Aubry, apoiada pelas facções tradicionais, venceu com 42 votos de diferença, derrotando Ségolène Royal, cuja abordagem populista escandalizou os intelectuais do partido. Royal fala em fraude e o saco de gatos ameaça transformar-se em implosão.

 

Barões assinalados

Uma maneira de contar esta história é “os barões vencem as bases”, mas acho o enredo mais complexo. Os partidos de esquerda têm um problema de adequação ideológica ou de identidade. Quando estão no poder têm de ser pragmáticos e esquecer teses das alas mais à esquerda, veja-se o caso dos trabalhistas britânicos ou do SPD alemão. Forçados ao centro e a alienar a sua esquerda ganham tensões internas e não se distinguem muito do centro-direita. O caso do Reino Unido é particularmente interessante. Os trabalhistas conseguiram, em onze anos de poder, manter o essencial das reformas efectuadas pelos conservadores nos anos 80. Chamaram a este pragmatismo “terceira via”. Na Alemanha, um dos dirigentes mais radicais do SPD, Oskar Lafontaine, bateu com a porta, acabando por se juntar aos ex-comunistas, para formar o Linke (esquerda), que aparece nas sondagens com 13%. O SPD está hoje na coligação do governo, como número dois, entalado entre esta esquerda e a necessidade de colaborar com a CDU de Angela Merkel na luta contra os efeitos da crise económica. O partido da chanceler continua a subir nas sondagens (37%) e o SPD desce (23%), incapaz sequer de beneficiar das suas vitórias a nível estadual, pois não pode aliar-se ao Linke, sob pena de ser massacrado nas eleições.

 

(O PS português não pode aliar-se ao PC sem perder votos, mas na Alemanha seria muito pior, pois o Linke tem ex-comunistas da RDA…)

(Usei os termos esquerda-direita, que me parecem pobres para descrever a realidade e não abordei aqui outro tema que nos levava longe, os problemas de identidade dos partidos ditos de direita).

 

A chatice do contexto

Já li politólogos que achavam inevitável a subida do Linke e a maioria de esquerda na Alemanha (as eleições serão dentro de um ano). Eles não percebem que, naquele contexto, seria o suicídio dos social-democratas. Por seu turno, em Portugal, comentadores mais à direita têm evitado as recentes dificuldades dos conservadores britânicos. No ano passado, Gordon Brown esteve perto de convocar eleições antecipadas, mas recuou no último minuto, evitando uma provável derrota. Agora, em cada dia que passa, o primeiro-ministro britânico sobe face à oposição conservadora, liderada por David Cameron. A diferença entre os dois partidos é de apenas 3 pontos e continua a diminuir. Cameron também esteve embrulhado em polémicas partidárias e Brown beneficiou da imagem de competência na sua gestão da crise financeira. As eleições serão em meados de 2010, mas o primeiro-ministro pode convocá-las a todo o momento, embora tenha vantagem em deixar correr o marfim, para estabelecer uma boa relação com Barack Obama, segurar o Reino Unido à União Europeia, quem sabe levar o seu país para a zona euro (não houve altura mais favorável do que esta).

 

Mudança

A crise da oposição na Europa tem sobretudo a ver com o que me parece ser uma grande dificuldade em gerir mudanças: excesso de cautelas nos países que valorizam mais a estabilidade; pânicos ruidosos naqueles onde as personalidades contam mais. A mudança de ciclo tende a ocorrer apenas quando a opinião pública fica com a percepção de que erros graves foram cometidos. Essa mudança existe não pela competência da oposição, mas pela falta de competência no exercício do poder. E é difícil para um líder carismático conseguir sobreviver muito tempo nos pântanos da oposição. Provavelmente, comparado com Brown, Cameron será um carismático, mas podemos nunca vir a saber.

 

As implosões

Em França, carisma não rima com prudência. O PS francês voltará a ser poder. É uma questão de tempo. Mas dificilmente será com Martine Aubry ou Ségolène Royal. A primeira será a próxima líder do partido, mas fragilizada pela guerrilha que a outra inevitavelmente lhe fará. Se houvesse nova votação, o problema colocava-se ao contrário. A solução para o impasse seria a “implosão”, a saída da derrotada, mas isso quase nunca acontece. Estes partidos grandes são sempre vários partidos. Faz parte da sua natureza, juntam diferentes sensibilidades e por isso são grandes. O alemão Lafontaine é um raro exemplo de dissidência, mas a sua popularidade também é limitada. Os políticos têm mais peso como minoria dos partidos maioritários do que como maioria dos partidos minoritários. É por isso que Manuel Alegre não quererá sair do PS, que Santana ou Meneses não sairão do PSD. Mas, enfim, essas são outras histórias.

 

Imagem: Frente Popular, união dos partidos da esquerda, que governou a França entre 1936 e 1938.

 

 

Emoções básicas (35)

por Luís Naves, em 18.11.08

 

 

As declarações polémicas

As sociedades contemporâneas, muito mediatizadas, aceleraram o tempo e não deixam pensar. A reacção às declarações de Manuela Ferreira Leite, hoje, ilustrou bem o que quero dizer: a imagem do arrastão mediático não me parece a mais ajustada, porque o arrastão é uma grande rede presa a um elemento exterior ao sistema. O cardume de peixes traduz melhor aquilo que somos. Blogosfera, media, a sociedade em geral.

 

Vida no aquário

Os cardumes têm um mecanismo interno interessante. Eles servem para proteger os peixes do perigo dos predadores; quando um animal maior se aproxima, fica confuso com a dimensão do grupo e a sua coesão, não conseguindo fixar-se num só elemento, distraindo-se por instantes da presa. É assim que a maioria escapa.

Os media contemporâneos parecem cardumes, pois também eles se baseiam em seguir líderes informais, em rede. Ninguém gosta de ficar isolado ou de falar sozinho, de não parecer sensato. O líder informal pode ser qualquer peixe, que é seguido por dois ou três, de súbito por quinze, depois por cem, enfim por mil. E durante muito pouco tempo. O peixe que não aderir ao cardume pensa ter poucas hipóteses de sobreviver. Na blogosfera, por exemplo, não se é linkado.

Estas coisas até estão estudadas pelos biólogos, nos peixes; e sabe-se que existe tendência para as pessoas seguirem a maioria, um pouco à maneira dos cardumes. Isto é visível na opinião, daí que se forme a opinião pública, um vasto cardume de opiniões, que são na realidade micro-gestos de seguir o comentador que pareceu mais acertado em determinado momento.

 

Mau uso da ironia

Manuela Ferreira Leite usou a ironia, mal. O João Villalobos explicou muito melhor do que eu, alguns posts mais abaixo, as consequências mediáticas. MFL queria desferir um ataque ao Governo e dizer uma coisa que me parece de puro bom senso: não é possível fazer reformas contra as pessoas que as vão aplicar (excepto em ditadura). É assim com os professores, os médicos, os juízes, os militares, os jornalistas, os funcionários públicos, os metalúrgicos, os mineiros. Mas desta explicação demasiado heterodoxa na nossa era do soundbyte e da testosterona política foi retirada a parte irónica, rapidamente transformada pelo partido no poder em mais uma prova de que a senhora é fascista. Pretende-se crispar o debate, criar hostilidade, dizendo a todos os peixinhos do aquário para terem nojo da declaração, nem que seja preciso tirá-la das respectivas proporções.

 

As questões

Ora, a meu ver, este episódio é útil para ninguém se debruçar sobre os números do desemprego e do crescimento económico débil. Está a desenvolver-se uma crise gravíssima e o circo mediático em torno de uma declaração infeliz, mas irrelevante, serve para distrair a malta e fazer rir durante algum tempo. Mas, meus amigos, isto é panem et circenses (só a segunda parte), não é política séria. As declarações de um e outro não têm longevidade. O importante é que o Governo enfrenta o seu buzinão nas escolas e está cada vez mais difícil sair dele. O PS está profundamente dividido. A táctica de virar a população contra os professores não funciona, martelar números também não funciona, a realidade faz sempre uma visita. Os spin doctors não resolvem os problemas, apenas os atiram para debaixo do tapete, durante algum tempo, que entretanto se esgota. A verdadeira luta política, aquela a que temos de estar atentos, não é a da ironia que caiu mal, “a declaração estranha”, como apropriadamente dizia a SIC, nem sequer da falsa agressividade do lado do poder ou dos falsos comentadores com agenda.

Façam o favor de tentar evitar as armadilhas do cardume. É que pode ser muito confortável (o pessoal sente-se seguro), mas quanto maior for o grupo de peixes todos muito juntinhos, mais fácil é apanhar toda a gente nas redes de arrastão que chegam de fora.

 

Emoções básicas (34)

por Luís Naves, em 14.11.08

 

A cimeira

Este fim-de-semana, as grandes potências vão começar a discutir com as mais pequenas a reforma do sistema financeiro mundial. Ninguém parece esperar muito da cimeira do G20, em Washington, embora se fale num processo que levará a um novo Bretton Woods. Em tudo isto, está a ser dispensada muita atenção ao que dizem os americanos, representados por uma administração Bush que falhou em toda a linha. E, ao mesmo tempo, analistas (quer da esquerda, quer da direita) estão a passar ao lado da mudança em curso na Europa. Esta já é visível e tem grandes implicações.

 

Os europeus

A União Europeia é talvez a zona do mundo que tem mais a perder nesta crise. Os países exportadores, como a Alemanha, dependem das suas vendas de material sofisticado e caro. A quebra de consumo no mercado americano será terrível para estas indústrias exportadoras. A Alemanha é também a locomotiva da economia europeia, pelo que uma travagem abrupta pode ter graves consequências para todos os outros. Em países mais frágeis, como Portugal (que atravessou um longo período de quase estagnação) estas notícias são muito preocupantes.

A meu ver, os comentadores de esquerda, na blogosfera e jornais, sublinharam em excesso o papel de Gordon Brown na crise financeira, esquecendo que em Londres está o maior mercado financeiro europeu (portanto, ele tinha de agir) e que o Reino Unido está fora da zona euro, ou seja, não é um centro do poder relevante no que se vai seguir.

Na actual crise e nas suas consequências futuras, os dois líderes mais activos são ambos conservadores: Angela Merkel e sobretudo Nicolas Sarkozy. Pode até dizer-se que, na ausência da Casa Branca, esta dupla está a liderar a resposta internacional à crise (e penso que isso será visível em Washington).

Mas a ideologia cria poderosas narrativas e é difícil contrariar a lenda de que Gordon Brown está no leme.

 

Novo modelo

O que têm feito os europeus? Têm tentado construir uma gigantesca zona de comércio livre, com ampla justiça social e regras ambientais exigentes; esta zona possui uma moeda estável, inflação baixa e padrões laborais elevados; (nos países onde é mais fácil despedir, é também mais fácil reconverter trabalhadores). As sociedades europeias são bastante igualitárias, sem as desigualdades que caracterizam o modelo americano de capitalismo, que provavelmente se irá aproximar do europeu ao longo da próxima década.

Infelizmente, esta crise apanhou a União Europeia sem novo tratado, que facilitaria o ataque aos problemas. Os que aplaudiram o “não” irlandês ao Tratado de Lisboa deviam pensar nas consequências imprevistas daquela votação. Esta é uma vertente pouco compreendida em Portugal: as actuais instituições são demasiado complexas e o processo de decisão da UE possui limitações que facilitam bloqueios irresponsáveis. Na actual conjuntura, há grandes restrições à liderança política.

 

Governo económico

Para onde vão Merkel e Sarkozy, caso consigam ultrapassar este obstáculo? A resposta a esta pergunta é mais especulativa, mas penso que está à vista o famoso “governo económico” que Paris tem defendido e que a Alemanha rejeitou sempre, para não colocar em causa a independência do Banco Central Europeu. Só que o problema crucial dos próximos anos deixou de ser a inflação e passou a ser o crescimento económico e o desemprego. Esta crise pode durar uma década (isso aconteceu com o Japão) e dentro de alguns anos podemos lembrar com saudade o tempo em que havia crescimento de 2% na economia da UE.

O euro será um dos pilares da recuperação internacional, mas este hipotético “governo económico” terá poderes sobrepostos ao BCE e à Comissão Europeia. Esta última tenderá para maior irrelevância. A prioridade da UE passa a ser o combate aos efeitos do desemprego, o que exigirá dinheiro, retirado de áreas cada vez menos importantes, como a agricultura.

Os líderes terão de encontrar uma solução para o novo Tratado e, durante algum tempo, haverá tendência para directório das grandes potências. Haverá muitas reuniões de emergência, só com três ou quatro.

Com energia cara e dispendiosas ambições ambientais, talvez a questão do aquecimento global passe para segundo plano, o que será trágico.

Emoções básicas (33)

por Luís Naves, em 31.10.08

Muitos autores da blogosfera portuguesa manifestam uma esperança (a meu ver deslocada) em relação aos eventuais efeitos revolucionários da vitória de Barack Obama nas presidenciais americanas de terça-feira. As sondagens apontam para uma grande vantagem do candidato democrata, mas a votação ainda não acabou, embora já possa estar decidida. A tendência favorece Obama, pelo que este texto parte do princípio de que será ele o próximo presidente dos EUA.

 

Vantagens em casa

A nova administração terá provavelmente duas vantagens: Congresso favorável e muitos aliados com imagem positiva, dispostos a aceitar as suas propostas. Mas estes factores serão temporários.

McCain não teria estas vantagens, mas o seu programa não seria muito diferente. O candidato republicano tem posição oposta ao do democrata em pouquíssimos temas, na questão do aborto, por exemplo. Mas nas restantes questões sociais, económicas ou de política externa, os dois candidatos concordam no essencial.

Uma administração Obama não acabará com a pena de morte ou com o porte de arma; nos casamentos homossexuais, Obama não é favorável, mas também não se opõe. Haverá maior esforço na educação das crianças pobres, mais impostos para os ricos e, na saúde, regras menos favoráveis para as seguradoras. Mas mesmo neste assunto, o candidato democrata é mais conservador do que a sua rival derrotada, Hillary Clinton.

No ambiente, Obama defende a liderança americana na redução de emissões com efeito de estufa, mas também é um entusiasta dos subsídios de etanol. Na regulação financeira, as diferenças em relação a McCain são mínimas; e, no comércio livre, Obama é menos entusiasta do NAFTA do que o adversário, mas apoia a globalização tal como ela existe. Imigração ou energia são outros exemplos de áreas onde há diferenças mínimas entre os dois.

 

No mundo

Na política externa, estão em causa pormenores, por muito que isso custe aos entusiastas. Obama pretende negociar com o Irão e McCain quer mais sanções; no Iraque, o candidato democrata defende que as forças americanas serão retiradas num prazo de ano e meio (até meados de 2011). McCain defende o mesmo, embora para 2013. Nenhum dos dois parece saber muito bem o que irá fazer no Afeganistão. E, ao contrário do que afirmam muitos observadores, a Rússia não é um problema para os Estados Unidos.

O estilo e a personalidade têm importância em política, mas também a experiência. Obama será provavelmente um presidente menos centralizador do que McCain seria, e talvez mais prudente.

No entanto, quem espera grandes mudanças está a antecipar um Barack Obama que não existe.

 

 

Emoções básicas (32)

por Luís Naves, em 30.10.08

 

Vitória de Pirro

No terceiro século antes de Cristo, um general grego, Pirro de Epiro, lançou uma campanha militar contra Roma e venceu vários combates que lhe custaram os melhores soldados do seu exército. Após uma dessas batalhas, disse famosamente que se tivesse mais uma vitória como aquela, isso representaria o seu fim.

O episódio deu origem à expressão “vitória pírrica”. Se os custos de um triunfo forem excessivos, uma vantagem táctica temporária pode facilmente transformar-se em derrota estratégica.

 

O exemplo húngaro

Em 2006, os socialistas húngaros (MSzP) venceram as eleições no seu país, com um primeiro-ministro (na imagem, à direita) que chegara à chefia do partido em 2004, Ferenc Gyurcsány (lê-se Ferentz Giurtxaine). O novo líder parecia mais dinâmico e substituíra um primeiro-ministro socialista impopular, no poder desde 2002.

Poucos meses depois da vitória, foi divulgada uma gravação de uma reunião partidária que ocorrera alguns dias após as eleições. Na ocasião, o primeiro-ministro disse (e numa linguagem franca que chocou a opinião pública) que o partido mentira durante dois anos e meio, para ganhar as eleições.

Houve um escândalo e o partido no poder tem vivido um martírio. Se houvesse eleições agora, o MSzP seria massacrado e a oposição conservadora obtinha dois terços do parlamento.

Na realidade, em 2006, os socialistas húngaros conseguiram uma vitória pírrica de elevado custo para o seu país. O défice orçamental chegou a ultrapassar 9% e o país endividou-se alegremente, vivendo muito acima das posses, com um défice da balança de transacções semelhante ao português e que só os islandeses superavam, com os resultados cobnhecidos.

 

Ilusões

Em busca dos eleitores, o governo húngaro continuou a abrir os cordões à bolsa, carregando nos impostos. A economia perdeu competitividade, a taxa de crescimento foi descendo.

A vizinha Eslováquia fez as mudanças que os conservadores húngaros tentaram entre 1998 e 2002 e que os socialistas travaram: reforma fiscal, competição, apoio às empresas, aposta num crescimento rápido. O partido liberal eslovaco que seguiu esse caminho perdeu as eleições, mas o resultado foi uma economia dinâmica, capaz de entrar na zona euro.

Por outro lado, tendo perdido a sua oportunidade, a Hungria está à beira da bancarrota e vai agora receber um pacote de emergência do FMI e do Banco Central Europeu. A moeda local caiu 20% este mês, depois da população ter perdido poder de compra durante dois anos. A partir de agora, os cortes sociais serão cegos e à bruta. O país vai viver uma cruel recessão durante um bom par de anos e levará talvez meia década a recuperar do descalabro. Gyurcsány dificilmente aguentará até 2010.

O que nos ensina esta história? Que em política a mentira dá origem a vitórias pírricas. Ocultar a verdade à opinião pública, insistir na propaganda, repetir à exaustão as mesmas fantasias, tudo isto leva ao desastre, pois a realidade não tem compaixão pelos que vivem num estado de ilusão sistemática.

 

 

Emoções básicas (31)

por Luís Naves, em 29.10.08

 

A reflexão da esquerda

O interessantíssimo artigo de Manuel Alegre publicado no DN de terça-feira, e cujo link deixo aqui, é de leitura obrigatória. Este texto vai certamente agitar a política nacional e forçar os partidos da esquerda a uma reflexão (que aliás já começou).

Escrevi antes que não acredito muito na divisão esquerda-direita e que o mundo contemporâneo é bem mais complicado. Na minha opinião, esta será a grande dificuldade da reflexão dos partidos de esquerda, pelo menos nos termos colocados por Manuel Alegre, para quem “os defensores do Estado mínimo” foram “ideologicamente derrotados” nesta crise financeira. Mas o que importa, na discussão, é tentar perceber quais são os caminhos possíveis para esta “nova esquerda”, que tem sectores com aversão visceral ao capitalismo e a quererem dar novo sentido às ideias de Marx e Engels (na imagem).

 

O poder das nações

Regular os mercados financeiros mundiais é algo que qualquer político adepto do Estado mínimo defenderá sem hesitar. Os produtos financeiros que levaram ao actual colapso eram um exemplo típico de vender gato por lebre, só possível por estes produtos não estarem regulados. Ou seja, a primeira e inevitável consequência da crise (a regulação dos produtos tóxicos) não é uma questão exclusiva da esquerda ou da direita.

Combater a depredação das multinacionais, taxar as transações financeiras internacionais ou abrir os mercados dos países desenvolvidos aos produtos dos países em desenvolvimento são exemplos de ideias políticas mais uma vez não exclusivas da esquerda ou da direita. Têm a ver com o poder das nações, com a abertura de fronteiras, com a liberalização do comércio. Nada que um neo-liberal furioso não defenda.

Combater os tráficos ilegais ou a degradação ambiental são questões de bom senso e não têm nada a ver com a esquerda ou a direita.

 

A ordem injusta

Os partidos da esquerda consideram, e com razão, que a ordem económica mundial é injusta, pois os pobres estão em desvantagem. Mas essa ordem capitalista assenta numa estrutura que nenhum dos países dominantes vai colocar em xeque. Por exemplo, colocar FMI e Banco Mundial sob o controlo da ONU é algo que não irá acontecer. O capitalismo está a viver uma crise, mas não se encontra sob ameaça de desaparecimento: se acabasse hoje, estaríamos todos na miséria e não haveria nenhum sistema que o pudesse substituir.

Assim, a ordem económica mundial continuará a ser financeira, pois dezenas de milhões de empregos nos países desenvolvidos dependem dessa circunstância. A OMC pode ter “outra lógica”, mas se a liberalização de comércio se transformar em protecção dos mercados nacionais, serão destruídos milhões de empregos nos países ricos, pois tudo se tornou interdependente.

O Estado produzir os bens públicos essenciais parece fazer sentido no papel, mas as economias industrializadas têm dois terços do seu emprego e riqueza nos serviços; a definição de bem essencial também não é fácil. Isto inclui as fábricas de automóveis, por exemplo? As de panificação? A agricultura e as pescas? Só a Caixa Geral de Depósitos ou a banca inteira?

Na Europa, o papel do Estado é bem mais alargado do que nos EUA, mas o nível de impostos também é diferente, o desemprego inferior, a mobilidade dos trabalhadores mais fácil.

 

 

Conclusão

Os actuais sistemas que formam o capitalismo internacional (e que misturam multinacionais e governos) são dinâmicos e vão certamente mudar. A questão está em saber até que ponto vão mudar e se a mudança virá de dentro ou de fora (reforma ou revolução).

É preciso que os leitores percebam um aspecto crucial neste início de debate: Barack Obama, que tudo indica se prepara para ganhar as eleições nos EUA, não é socialista nem sequer uma ameaça à actual ordem económica mundial. Pode ser reformista, mas nada tem de revolucionário e, certamente, nada tem a ver com as ideias de Marx e Engels.

 

 

 

Emoções básicas (30)

por Luís Naves, em 27.10.08

As faixas de campeão

Tenho lido em várias análises nos jornais e blogues que a crise financeira internacional favorecerá eleitoralmente o Governo em 2009, o ano de todas as eleições. Há mesmo interpretações que dão como certa a derrota da oposição e, de facto, do lado socialista existe uma espécie de triunfalismo misturado com certo desprezo pelos adversários. Ainda falta um ano, mas o PS já está em campanha e parece ter encomendado as faixas de campeão.

No entanto, em política um ano é muito tempo. Se a crise se agrava, não vejo como é que o PS pode conseguir outra maioria absoluta. Se houver um voto de protesto nas europeias, as autárquicas ficam condicionadas e, com dois maus resultados para o Governo, as legislativas estarão em perigo. Quem prevê facilidades, deve desenganar-se.

 

Cenários complicados

Nas actuais sondagens, o PS surge acima de 40%. O PSD abaixo de 30%. Ora, isto revela valores demasiado semelhantes aos das eleições de 2005, o que não é plausível, pois as circunstâncias são diferentes. Admitindo que os partidos menores do parlamento aumentam a votação (o conjunto formado por CDS, PC e BE ficaria acima de 21%), para conseguir chegar à maioria absoluta, o PS teria de garantir uma participação muito elevada ou esmagar o PSD abaixo dos níveis históricos. Nenhum dos dois factores é provável, devido à abstenção e ao voto de protesto, a começar já nas europeias. No auge de uma crise económica sem paralelo, num contexto de grande descontentamento popular, a maioria absoluta do PS só será possível se a oposição lhe der a vitória sem luta.

Os socialistas partem com vantagem para as legislativas de Outubro, mas sofrerão inevitavelmente o desgaste do poder. Se vencer sem maioria absoluta, o PS dependerá de alianças com o CDS ou com o Bloco. O terceiro cenário será a grande coligação com o PSD. As soluções são todas instáveis. A assembleia não pode ser dissolvida em 2010, devido às presidenciais. O que sair de Outubro de 2009 terá de durar, pelo menos, até Outubro de 2011.

 

Emoções básicas (29)

por Luís Naves, em 26.10.08

Esquerda-direita

Para muitos observadores, o Corta-Fitas é um blogue de direita. Sempre detestei os excessos da taxionomia e ainda hoje tenho dificuldade em aceitar rótulos fáceis. Não me sinto nem de esquerda nem de direita, o que não quer dizer que os observadores estejam errados. Significa apenas que as coisas são um pouco mais complicadas, pois o mundo contemporâneo deixou de ser ideológico.

 

As claques

É humano querer pertencer a alguma coisa. E acho que todos gostam de se auto-classificar, dizer que fazem parte de uma tribo qualquer, que são de um clube de futebol ou de um partido. Depois, para confirmarem a escolha de claque, usam cachecóis e entusiasmam-se com as vitórias, choram as derrotas. Mas as diferenças entre as tribos são sempre superficiais, ligadas a símbolos.

Ali não existe verdadeiro conflito e a diferença não tem substância. Levando isto para o plano político, a distinção entre partidos é cada vez mais difícil de fazer. Todos os líderes são europeístas e a favor da intervenção do Estado na defesa dos desfavorecidos. O discurso é mais ou menos liberal e há diferenças em certos temas, mas à medida que nos afastamos do quadro e deixamos de ver as nuances, os retratos tornam-se idênticos.

Há até jogadores que mudam de equipa, como se fossem mercenários. Os políticos estão menos preocupados com a causa pública e defendem interesses pessoais, um pouco porque a política se transformou num banal meio de ascensão social.

 

Competição

Um recuo no tempo mostra bem o que mudou. No final dos anos 80, havia dois modelos competitivos, que tinham desprezo um pelo outro. O sistema comunista era um beco sem saída e entrou em colapso. Entretanto, os regimes autoritários tradicionais da direita, que sustentavam oligarquias, também entraram em crise. Mas ainda me lembro das previsões que davam como inevitável a vitória final do socialismo ou das teses que defendiam mão de ferro para cada problema, nem que fosse para uma minúscula greve. Nem uma picada de mosquito se tolerava.

 

Exemplos de ficção

A literatura explicou bem a natureza destes regimes. Contos de Kolimá, de Varlam Chalamov, é o mais devastador testemunho literário que conheço do chamado GULAG, o sistema prisional criado pelo totalitarismo comunista soviético. Muitas das histórias são verdadeiras, algumas delas vividas. O estilo é seco e sem ornamentos, de um realismo brutal. É um dos livros mais impressionantes que já li. E, apesar de ser uma das jóias da literatura do século XX, este livro nunca foi traduzido em Portugal, embora estejam traduzidos alguns dos contos.

Por outro lado, no que respeita às ditaduras militares, o conto Quatro Gotas Locas, escrito pelo uruguaio Jorge Onetti (1931-1998), num pequeno livrinho chamado Siempre se Puede Ganar Nunca, narra a história de uma chantagem repugnante sobre um casal. Em poucas páginas, o autor faz-nos perceber qual o verdadeiro significado do poder absoluto na vida precária das suas vítimas.

 

Desfocagem

O ponto é que estes regimes pertencem a um passado onde era fácil estabelecer divisões nítidas entre esquerda e direita. Esse mundo acabou. Hoje, há diferenças por exemplo nas políticas fiscais e sociais, mas quando os partidos chegam ao poder a prática é semelhante, como se o sistema tivesse perdido flexibilidade. Ninguém se espanta com uma direita que defenda o ambiente ou com a esquerda a apoiar baixas de impostos. E se olharmos para o exemplo europeu, estes estereótipos ainda se tornam mais difíceis de sustentar.

A integração europeia tem acelerado em toda a Europa, tornando os países mais parecidos uns com os outros. É, aliás, curioso que a maioria pareça estar em crise (ou pelo menos a opinião pública acredita nisso) e penso que a razão tem a ver com a crescente noção daquilo que acontece nos vizinhos do lado. Por outro lado, é difícil afirmar se os trabalhistas britânicos são de esquerda ou de direita. E José Sócrates? Qual seria a definição dada por uma pessoa vinda de fora a quem fossem explicadas as políticas deste Governo, mas sem se revelar a cor política do partido no poder?

 

A verdadeira competição

No mundo contemporâneo, a verdadeira competição ideológica é religiosa. Cada religião, pelo menos o sector fundamentalista de cada grupo, pensa ter os valores mais perfeitos. Isso é particularmente nítido no conflito entre Islão e modernidade. Não estou a referir-me a exemplos relacionados com a cultura local (as mulheres não guiarem automóveis na Arábia Saudita, por exemplo), mas a conflitos íntimos de natureza verdadeiramente religiosa: o cientista que convive com a ideia de que não é preciso mais nenhum livro senão o do Profeta (todos os livros estão errados ou não acrescentam nada àquele).

 Em resumo, a meu ver, a ideia de esquerda e direita não permite compreender o mundo que nos rodeia. É uma explicação simplista, válida entre 1789 e 1989. Há rastos deixados pelo mundo anterior onde faz sentido a visão a preto e branco, mas penso que a política é hoje mais complexa, com zonas de sombra, misturas, vastas áreas onde nem faz sentido falar nesta dicotomia. As classes sociais não desapareceram e há conflitos de trabalho, mas as sociedades são muito mais livres, os governos muito menos poderosos e os países muito mais ligados uns aos outros.

 

Emoções básicas (28)

por Luís Naves, em 25.10.08

 

A decisão

As eleições presidenciais americanas parecem estar decididas a favor de Barack Obama, embora na última semana se espere um aumento do suspense. Mas basta observar os Estados mais empatados para perceber que a reviravolta favorável a John McCain não é muito provável.
Por isso, chegou a altura de começarmos a pensar nos cenários após as eleições. Muitos analistas dizem que a 4 de Novembro pode ocorrer um sismo semelhante ao de 1980, que deu início à “revolução conservadora” de Ronald Reagan. Só que desta vez a revolução será favorável aos democratas.
 
A nova maioria
Estes não vão apenas capturar a Casa Branca, mas aumentar a sua maioria no Congresso. O domínio político será talvez ainda mais extenso, pois os republicanos mergulham num período complicado de transição, com as divisões internas (que McCain não conseguiu conter totalmente) a virem ao de cima. O partido urbano e conservador da classe média é difícil de conciliar com o fundamentalista religioso e anti-liberal.
Tudo indica que os democratas vão conquistar espaços que perderam há mais de uma geração. O sul, por exemplo, onde a luta pelos direitos cívicos dos negros transformou brancos pobres que votavam democrata em brancos pobres que votavam republicano. Agora, estes votos regressam. No oeste, onde as maiorias religiosas dominavam, os democratas beneficiam de uma transformação demográfica, com a atracção de população de outras regiões da América. Ali, o fim do monopólio republicano ainda está longe, mas a erosão já começou.
A vitória de Obama será, assim, a vitória da América urbana, mas os democratas têm a sua dose de problemas, sobretudo na imigração, cujo controlo choca com as minorias (os hispânicos estão a deslocar-se para os democratas); e não controlar tem um custo nos sectores mais conservadores.
 
Oportunidades
O próximo Presidente dos EUA terá meios políticos invulgares (controlo dos órgãos de poder) ao seu dispor. Ele dispõe de oportunidades e enfrenta perigos.
A nível internacional, não existe nenhuma ameaça importante, embora seja necessário encontrar uma boa solução para as guerras do Iraque e do Afeganistão, sem perder a face. As ambições nucleares do Irão são provavelmente negociáveis. Apesar de ser uma ditadura, a China não é temível, pois o seu sistema capitalista terá de encontrar uma maneira de se democratizar. Nesse sentido, a prazo, Pequim é aliado potencial dos EUA. Um bom gesto em relação a Guantánamo, já prometido, também pode fazer muito pela imagem externa da América.
 
Os problemas
Em relação à crise financeira, tudo dependerá da respectiva profundidade, mas não podemos esperar alterações fundamentais no sistema capitalista. A recessão passará e os mercados financeiros terão maior supervisão. Talvez haja também instituições internacionais mais alargadas (G20 mais eficaz, a reforma do FMI), mas mais do que isto são delírios de imaginação.
Se for eleito, Obama terá uma boa oportunidade para enfrentar aquele que é, provavelmente, o verdadeiro problema que a humanidade enfrenta: a crise ambiental. Esta ameaça é bem mais perigosa do que a pobreza ou a fome. Ela atinge um ponto crucial, a sobrevivência da espécie, e aqui é que será necessária uma verdadeira mudança.
 
 
 
 

Emoções básicas (27)

por Luís Naves, em 21.10.08

 

O sobrevivente

Num interessante artigo do DN que já foi referido num post anterior, João Miguel Tavares escreve sobre Santana Lopes, manifestando surpresa pela aparente longevidade política do ex-primeiro-ministro e antigo presidente da câmara de Lisboa. O artigo do DN é uma crítica dura, mas não nos oferece pistas para explicar o fascínio que o eleitorado parece ter pelo político. O João Villalobos já citou aqui uma passagem significativa: segundo o JMT, a culpa do fenómeno também “é minha”.

Neste ponto discordo, pois não gosto de me envergonhar do que não fiz. Nunca votei e jamais votaria em Santana Lopes. Agrada-me, aliás, que seja candidato em Lisboa, pois tenciono votar em Lisboa.

Santana Lopes é o típico dirigente populista que inflaciona a sua popularidade através de truques retóricos. Muito experiente como político profissional, é um hábil táctico e gosta de correr riscos.

Os populistas estão presentes na maioria dos países e sistemas políticos modernos. Alguns até chegaram ao poder. Não são todos iguais, naturalmente, mas existe um padrão de falta de substância e de pobreza ideológica. Geralmente, são pessoas cujas convicções consistem num leve verniz superficial, que estala na primeira oportunidade. Nas suas decisões não há matrizes muito visíveis, pois gostam de navegar à vista, ao sabor dos acontecimentos. É por isso que são geralmente maus para os países e bons em eleições. E este último elemento é importante: pessoas que ganham eleições têm sempre uma corte de fiéis admiradores, cada um à imagem do líder (ideias de gelatina e ambiciosa tenacidade). Os cortesãos viajam à boleia do poder.

Há muitos populistas na Europa e penso que, no meio da crise profunda em que vivem tantos Estados da UE (e que não foi causada pela crise financeira), existe clara tendência para que o seu número aumente. Infelizmente, Portugal não deverá escapar ao problema.

Emoções básicas (26)

por Luís Naves, em 14.10.08

Está a ser criada uma lenda sobre a crise financeira. Baseia-se na seguinte história: o plano europeu de salvamento foi montado com brilhantismo, mas só depois da UE ter falado a 27. Os americanos estão a ser salvos pelos europeus (leia-se UE). Portugal resistiu muito bem às tentações de directório de Sarkozy (aquela reunião a quatro foi quase ridícula). E só quando Portugal também participou nas decisões foi possível conceber um bom esquema.
Esta história é tão forte nos media tradicionais que num telejornal, ao falar da entrada dos Estados europeus no capital de bancos, um jornalista dizia a outro: “os russos e os chineses devem estar a rir-se”.
 
Uma risota
De facto, os russos parecem estar a passar um excelente momento: a bolsa local caiu 65% desde Maio, houve uma rápida fuga de capitais e o petróleo (a única fonte de rendimento) está perto de metade do valor que tinha antes da crise georgiana. Estão a abrir garrafas de champanhsky!
A China também tem fortes razões para festejar. Metade da dívida americana está nas mãos dos chineses e japoneses, que não têm outra solução senão continuarem a comprar, sob pena de perderem tudo o que investiram. Os chineses acumularam reservas de 2 biliões de dólares (milhões de milhões, triliões em inglês), mas 70% são títulos de dívida americana. As poupanças de uma década podem não valer nada. Uma crise financeira vem mesmo a calhar para esta visão conservadora!
Os europeus, por seu turno, estão agora a dar uma grande lição ao mundo: juntaram um plano financeiro cuja dimensão é superior ao dobro do plano americano.
 
Um risotto
Os americanos viviam acima das suas posses e os economistas diziam que a coisa era insustentável. Havia um rio de dívidas (casas, consumo) que se transformava em produtos financeiros fantásticos (era arroz, mas chamavam-lhe risotto para parecer mais fino). No fim da linha, alguém comprava: sabemos agora que eram os bancos europeus, que assim financiavam o estilo de vida americano. Agora, são os europeus que pagam a crise, mas isto não é uma transferência de riqueza, pois o que fica na sua posse não tem qualquer valor. Estamos num salve-se quem puder semelhante ao jogo das cadeiras, onde o último a reagir fica sem cadeira.
A lenda de que alguém tenha motivos para rir é de facto interessante, e parecida com a da “recuperação” da bolsa portuguesa. Na sexta-feira, caiu cerca de 10% e na segunda recuperou 14%. Foi considerado um excelente resultado de políticas sensatas!
Outra maneira de contar a história é que na sexta-feira os patos foram depenados pelos que ontem compraram muito barato.
 

 

Emoções básicas (25)

por Luís Naves, em 09.10.08

 

Certezas
O meu camarada de redacção Ferreira Fernandes fez-me uma crítica útil. Ele tem lido algumas coisas que escrevi no DN e, presumo, outras que escrevi no Corta-Fitas. Resumidamente, ele ia a passar e disse, como quem não quer a coisa, que me tenho enganado em algumas análises e opiniões, pois sou “demasiado taxativo”.
Acho que, apesar de tudo, a crítica inclui aquele pudor que tenta embelezar uma verdade incómoda.
De facto, bem vistas as coisa, sou demasiado taxativo e costumo enganar-me. A realidade faz sempre uma visita às previsões imprudentes. Se não acreditam, leiam com atenção textos mais antigos que escrevi. Sobre as eleições americanas há autênticos clássicos de nonsense. Pensei que Hillary Clinton seria a candidata democrata e nunca acreditei em Barack Obama, tornado vencedor após o colapso da Lehman Brothers (bolas, lá estou eu...).
Nem sequer tenho desculpa, pois li um interessante livro, o Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb, onde o autor faz uma demolição da seriedade das previsões económicas e políticas. Usando as ideias da teoria do caos, Taleb mostra a impossibilidade de se compreenderem os sistemas complexos e de antecipar a sua evolução. Tudo depende de tantos factores que ninguém pode verdadeiramente saber o que acontecerá a seguir. Veja-se, por exemplo, o que se passa com o clima, com a crise financeira internacional ou com o PSD.
Sabemos que as flutuações são cíclicas e que os sistemas complexos costumam encontrar uma solução qualquer para as suas crises, mas quando tentamos entrar nos detalhes, tudo se torna mais difícil.
Mas existe um truque feliz para não falharmos numa previsão taxativa: adivinhar o fim do mundo (parece que muita gente está a fazer isto, na crise financeira, no clima, no PSD).
Se o pior cenário não se confirma, podemos sempre dizer que ainda não foi desta, mas que será da próxima. Se acabar o mundo, lá estaremos todos para felicitar o autor de uma previsão bem feita.



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