Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A educação do povo

por João Távora, em 06.03.10

 

 

No jornal I d’hoje num tão imbecil quanto pouco sério artigo “Mãe o meu namorado pode dormir em casa?” a jornalista Katia Catulo, através do testemunho de três mães, (que pelo texto presumo serem divorciadas) faz a apologia da virtude da permissividade quanto às filhas adolescentes para trazerem os seus namorados a “dormirem” em casa. Tão inevitável quanto tirarem as fraldas, presume-se...

E para dar um ar sério à coisa e  prevenir os casos em que a mãe possa ser despachada para o sofá da sala, não falta uma caixa com o título “Os pais também têm direitos”. Pura conversa da treta em papel de jornal. 

Mudam-se os tempos...

por João Távora, em 02.02.10

Antigamente, nos tempos do obscurantismo em que cresci, na escola ensinavam-se as criancinhas a fazer contas, os nomes dos reis e das batalhas, dos rios e das montanhas e... os Dez Mandamentos para acautelar as questões morais. Disso tudo hoje pouco sobeja. Ensina-se-lhes quase só truques: para fazer contas, para consultar mapas e para ir à wikipedia no Magalhães. Sem espinhas. Nas questões morais, catequizam-se os miúdos sobre "a solidariedade", a "roda dos alimentos" e o respeitinho pelo “ambiente”. O resultado é previsível: como sempre foi, sacaneiam-se uns aos outros, vendem a mãe por três gomas e um bolicau, enquanto circulam anafados em redomas automóveis entre a escola e as suas casas, o mais das vezes autenticas centrais de dispêndio energético de que ninguém prescinde. E o "mal", esse, vive algures entre os noticiários e as telenovelas.

Do preconceito à realidade

por João Távora, em 27.01.10

Não conheço o género, não sei a quem se dirige ou a quem se refere o António Leite Matos neste seu azedo trecho "à João Gonçalves" (enganou-me bem!). Confesso que não costumo encontrar ninguém de “perna cruzada” nas igrejas que frequento, a não ser algum dos meus filhos uns segundos antes de levar um safanão para se por em ordem e com atenção. 

De resto pergunto-me se, para embirrarmos uns com os outros, já não bastam as escolhas e convicções políticas mais ou menos profundas com que acicatamos uns aos outros. Nesse contexto qual será a importância real dos tiques e vernizes com que costumamos revestir a nossa precária condição?

Tempos perigosos houve neste país de revolucionários, em que era prudente disfarçar um nome sonante e era precavida uma pose “vulgar”. Hoje não é tanto assim, mas em vez disso vigora uma incómoda tendência de uniformização estética, simplista e segmentada por idades ou "públicos alvos". Esse igualitarismo que serve as oligarquias,  de pouco serve as pessoas: a desconcertante diversidade, a história, a complexidade esconde-se no interior do individuo e jamais deveria constituir uma ameaça para ninguém. Isto, caríssimo António é o que descobrimos para lá dos livros e dos gabinetes, para além das nossas convenientes muralhas e complexos sociais. De resto já o disse aqui uma vez: parece-me que os preconceitos só nos impedem de ver mais longe, de sermos mais livres. A verdadeira erudição nunca é preconceituosa. 

 

Nota: também não percebo o que faz uma fotografia de Sofia Loren de vestido de festa a ilustrar o post (o que confirma que o problema só pode ser meu).

 

A mulher e o "defeito da voz"

por João Távora, em 23.01.10

Os outros, não são defeitos femininos; são defeitos da espécie. Luísa.

Nós homens, eternos incompreendidos

por João Távora, em 13.12.09

 

 

Aos Sábados a coluna semanal de Marta Crawford preenche a quota de “revista Maria” do jornal I, um inalienável direito que os seus diligentes leitores já não prescindem. A cada semana, o bom conselho da sexóloga revela-se uma irresistível e atrevida lição de cidadania sexual, para bem e felicidade do povo ignoto.

Na sua mais recente crónica a psicóloga desvenda-nos a sua última descoberta, pura ciência descortinada no seu consultório, pelo testemunho dos seus doentes: afinal o “macho homem” não é o grunho egoísta que todos conhecemos, antes pelo contrário até por vezes se preocupa com o prazer da sua parceira: ele tem muitas erecções ao longo do dia sem que tenha necessidade imediata de sexo, ou fique "doente" se não puder ejacular,  afinal sabe muito bem gerir a sua excitação e, imagine-se, “quer” amar a sua parceira e que no fundo lhe desgosta o sexo ou o amor “vividos unilateralmente”. As coisas que se aprendem num consultório... 

Enfim, eu que como é bom de ver sou uma besta, confesso que pensava serem os homens saudáveis uns predadores insaciáveis, que só não ejaculam várias vezes por dia por limitações práticas ou morais.  Eu que pensava que um homem sadio, sendo capaz de praticar uns abnegados carinhozinhos,  jamais desperdiça umas fogosas cambalhotas se a coisa der. Espantoso é verificar como afinal nós os homens de tanto amar acabamos tão incompreendidos. Certamente para a semana Marta Crawford vai esclarecer-nos sobre o que é Amor, e pode ser que me surpreenda. 

 

Desapontamento cor-de-rosa

por João Távora, em 28.10.09

 

Num impulso nostálgico e a pensar na “cultura” das minhas criancinhas pus-me a coleccionar os DVDs da  Pantera Cor-de-Rosa de Friz Freleng que sai aos sábados com o Público. Na minha memória eu guardava o fascínio do personagem principal, a divertida banda sonora de Henry Mancini, os cenários geométricos em esquiço de cores garridas, e o sentido de humor da série delirantemente sarcástico. Não podia eu imaginar o nefasto efeito de indigestão causado pela visualização de inúmeros episódios seguidos, da repetição exaustiva do tema musical, da receita do humor sempre igual e dos os invariáveis e minimais grafismos: ao terceiro episódio, todo encanto e graça da Pantera, mesmo sendo Cor-de-rosa, esvaíra-se totalmente, e as minhas crianças olhavam para mim de soslaio insinuando uma imensa “seca”. Talvez pouco convincente, ainda lhes expliquei que antigamente era uma Graça caída dos céus, quando o canal único de televisão exibia um episódio avulso e acidental, entre um programa de agricultura e um telejornal chatíssimo sem facadas ou inconfidências da vida real. Não entenderam e voltaram insolentes para os seus computadores pessoais trocar mensagens, ficheiros mp3 e clips do youtube enfim, a interagir com o mundo. 

 

É que este amor incondicional (dos filhos) é uma espécie de conta que os filhos abrem em nome dos pais onde se vão acumulando palmadas, litros de sopa, brincadeiras, gritos, colos, presenças ou ausências. As contas, essas, eles fazem quando crescem. E é fácil perceber se o saldo é positivo: os filhos, quando crescidos, normalmente tratam os pais com a mesma dedicação com que foram tratados.

Excerto da (deliciosa) crónica de Inês Teotónio Pereira na edição de fim-de-semana do jornal I.

Do preconceito e xenofobia

por João Távora, em 24.09.09

A respeito desta brincadeira do Tiago, apetece-me dizer que também eu tenho os meus preconceitos sobre a estética, usos e costumes, dos mais variados nichos sócio-culturais coexistentes na nossa sociedade. Acontece que não me orgulho deles, nem faço disso alarde: reconheço que por uma questão de insegurança todos tendemos para uma certa xenofobia à qual a minha educação cristã se opõe radicalmente. Além disso a vida ensinou-me a descobrir que as pessoas são muito mais complexas e ricas do que os nossos rótulos e chavões. Mais uma vez, é o medo que sentimos pelo desconhecido que nos condiciona, diminui ou até... inspira ao ódio.

Tive o privilegio de crescer no seio de uma família lisboeta católica e tradicionalista (e culta, convém ressalvar), que nunca me protegeu “do mundo”: desde cedo tive bastante autonomia para enfrentar a rua e fiz a escolaridade integralmente em escolas publicas. Com isso hoje reconheço que ganhei uma privilegiada perspectiva de vida: aprendi que o preconceito e os constrangimentos sociais só nos impedem de ver mais longe, de sermos mais livres. Estou em condições de garantir ao Tiago que uma pessoa é muito mais do que os seus trejeitos e sinais exteriores, e que somos todos muito mais iguais do que aparentamos à vista desarmada. Aprendi isto em casa, com os meus pais e avós, e depois com a vida. 

 

 

Da mediocridade

por João Távora, em 05.08.09

Os portugueses dizem à boca cheia que a culpa do seu atávico conformismo e da sua proverbial mediocridade é da inveja (dos outros), sentimento que pelos vistos (os outros) são especialmente atreitos.
Ora, quanto mais ambicioso é um desempenho, maior será a “reacção” alheia (inveja) e essa coisa até poderá causar algum incómodo ou inquietação.
É assim que, como profilaxia ao conflito, o português prefere então não fazer nada: é usual escutarmos lamentos dos derrotados, vítimas da inveja. O fenómeno, que  actua nos portugueses como se de uma praga se tratasse, amputa-lhes pela raiz a quaisquer resquícios criatividade ou ambição. O sentido de responsabilidade é a cedência final da vítima, vencida pelos envenenados olhares dos seus colegas,  adversários ou concorrentes.
Sendo "a inveja", como "o ódio" ou "o amor", um inevitável sentimento humano, transversal a todas as raças ou credos, pergunto-me afinal como agem os indivíduos de outros povos mais bem sucedidos, onde a iniciativa, o empreendedorismo ou a excelência são propósitos vulgares e por tantas vezes compensadores? Presumo que o que os distingue de nós é o pragmatismo e a coragem com que se empenham nos seus projectos, em contraste com a nossa proverbial pieguice e... o nosso medo, o mais perverso dos sentimentos. O medo é que nos tolhe: afinal somos é uma cambada de medricas.


Em férias: texto repescado
daqui



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Vasco Silveira

    Caro SenhorEu infelizmente não estou com cagaço: e...

  • pitosga

    A nossa alma de soldador está nas viseiras de plás...

  • pitosga

    A ladaínha é longa como qualquer uma que se preze....

  • pitosga

    Vasco Mina,Simples. E como tal, muito bom.ao

  • Ana Pereira

    Subscrevo muito do que escreveu. Pergunto: Que se ...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2008
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2007
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2006
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D