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Uma topmodel com cauda, orelhas interessantes, olhos assombrosos
e nariz especial. Nem ooooohhhhhhs, nem aaaaaahhhhhhs, nem óscares.
Vi ontem pela primeira vez (em gravação, porque não tive paciência para ver até ao fim quando passou na TVCine) o Avatar, de James Cameron. Fiquei muito bem disposto.
Este cozinhado de misticismo de saldo, ambientalismo histérico do tipo be one with nature, auto-suplício civilizacional, serôdio remorso pela chacina dos índios, condimentado com um mea culpa a cada minuto, cheio de alienígenas virtuosos e gente horrível como nós - esta incrível bambochata com os cordelinhos todos à mostra, teve, há um ano, se bem me lembro, um número recorde de nomeações para os óscares; afinal, ganhou apenas óscares marginais (o dos efeitos especiais, por exemplo, julgo que por causa dos cordéis). Foi seguramente porque os juízes fugiram a sete pés desta sopa, e entregaram, à pressa, os óscares a outro, que calhou ser The Hurt Locker, pouca coisa, mas bem melhor.
Nem a topmodel azul com voz de bagaço, olhinhos mal mortos, derretida de paixão ou assanhada como uma gata, aos beijos ou aos pulinhos, nem o regenerado herói/traidor, conseguiram fazer o que a cena patética na proa do Titanic fez. Nem ooooooohhhhhs, nem aaaaahhhhhhs, nem óscares.
A próxima cerimónia de entrega dos óscares, vê-la-ei, portanto, confortado. Ao contrário do que dizem alguns críticos cinematográficos, a Academia tem bom gosto, facilidade em identificar a contrafacção, e a sua sabedoria é grande.

De como o desconcertante Mark Zuckerberg, um génio bilionário hoje com vinte seis anos, é biografado para o cinema oito anos depois da criação do seu Facebook. Ou como a imparável marcha tecnológica na ausência de outras referências fomenta a ilusão de que vivemos um século num decénio. É essa voragem da história, do alucinante guião que Aaron Sorkin (Os Homens do Presidente) escreveu com base no livro The Accidental Billionaires de Ben Mezrich, que é projectada no cinema pelo gélido olhar do realizador David Fincher, num duríssimo testemunho sobre a intriga à volta dum grupo de estudantes de Harvard que disputam desregradamente as relações, o prazer e o êxito. Trata-se dum perturbante filme sobre os nossos dias e as trevas do nosso tempo, a vertigem do sucesso no desprezo pelos outros, ou do lado sombrio dum indivíduo centrado em si na criação da mais bem sucedida rede de partilha de impressões humanas.
Passa repetidamente nos canais de cabo TVCine um filme de 2008 realizado por um Julian Jarrold e intitulado Brideshead Revisited. O que a série de televisão fez de justiça a Evelyn Waugh, em tom, em qualidade literária, cinematográfica e de representação, este desentende, maltrata, ultraja a obra do grande escritor.
Onde, no livro, é retratada uma grande amizade masculina, cheia de contenção, silêncios e gosto, sendo que um dos amigos é homossexual, o filme dá-nos uma paixoneta maricas.
Onde no livro é mostrado o encontro entre uma alta burguesia serena e educada (Charles Ryder) e uma aristocracia culta, esteticamente exigente, afluente e excêntrica (Sebastian Flyte e a sua família), o filme não se levanta acima duma sucessão de encontros e namoricos tontos. Onde no livro há cumplicidades, no filme há uma rivalidade obscena entre irmãos na caça ao recém-chegado.
No livro, vemos uma família despedaçada pelo conflito entre desejo e fé. O pai, lord Marchmain, que escolheu a transgressão e se refugia com a amante em Veneza; a filha, Julia Flyte, que calcorreia «maus caminhos» sem nunca perder a noção de pecado e culpa; Cordelia, jovem e crente, distribuindo amor e inocência por quem a perdeu, família e amigos, porque é um anjo bom na história; a mãe, lady Marchmain, católica convicta permanentemente guiada pelo dever de trazer filhos e marido ao rebanho. E Charles Ryder, menos estruturado por enquanto, mas curioso, e amigo e amante.
Mas no filme - neste filmezeco desclassificado - o pai é um tonto devasso, a mãe uma tirana classista, Julia uma flausina fina, Sebastian uma bicha maluca, e Charles não é nada excepto um mau actor mal dirigido. Tudo no filme é vulgar, baixo, indigente, obtuso, histérico.
Oiço muito, em casos destes, que tem que ser assim para o grande público. Mas a série não foi assim. E, além disso, não é verdade. É apenas falta de talento. Porque filmes redutores como este não tornam obras acessíveis ao grande público. Antes, privam o grande público daquilo que faz uma obra grande.
Nem consegui ver o fim ao filmezeco vulgar e ordinário. Mas tenho a certeza que omitiu, por não poder comportá-la, a cena - que o livro nos vai fazendo antecipar amarguradamente - em que Julia se despede de Charles. Eis uma cena em que a contenção e a elegância tornam a dor mais afiada: «When at last we met alone it was by stealth, like young lovers. Julia said: "Here in the shadow, in the corner of the stair - a minute to say good-bye".» E Charles, que como nós, leitores, mais que pressentir, sabia: «So long to say so little.»
Um amor grande - e inevitável desde a primeira vez que os dois personagens se cruzam de raspão - é decepado. A dor desaba com uma frasezinha pequena. Por uma questão (será antiquada?) de valores e fé. Julia continuará a ser, como ela diz, «má». «Sempre fui má. Provavelmente serei má outra vez, serei castigada outra vez. Mas quanto pior sou, mais preciso de Deus. Não posso fechar-me à Sua misericórdia. Esse seria o significado; começar uma vida contigo, sem Ele.»
Livros assim têm que ser respeitados. Para filmes que lhes cospem em cima devia haver multas do calibre da bancarrota.
O Senhor Fredricksen arrastando Russel e a sua casa pelo ar.
Ronda a genialidade o pouco ortodoxo argumento da última grande produção da PIXAR, Up, (recentemente disponível para venda ou aluguer) traduzido para Altamente na versão (muito bem) dobrada em português: esta surpreendente aventura, a segunda da produtora protagonizada por humanos, tem como personagens principais um viúvo de 78 anos, o senhor Fredricksen um reformado vendedor de balões, e acidentalmente por um desajeitado menino, um escuteiro “amigo da natureza”, o inocente Russel que nunca saiu da implacável cidade, onde a sua frágil estrutura familiar se dilui. É na companhia desta improvável parelha que nos deixamos levar pelos céus das Américas, a caminho do Sul, das terras perdidas no tempo, as “Cascatas do Paraíso” a bordo duma casa suspensa em centenas de balões. Trata-se duma tão delirante quanto ternurenta aventura em que as cenas se sucedem imprevisíveis e desconcertantes: enquanto o hélio dos balões se vai esvaindo, o velho ranzinza inspirado em Spencer Tracy arrasta o pequeno escuteiro e a sua casa amarrada às costas, cheia duma história tornada tarecos, e recordações da sua amada Ellie: atravessa um deserto de rochas, ao encontro do sonho duma vida e inusitadamente do seu ídolo de infância, Charles Muntz, um mítico explorador desacreditado pela comunidade cientifica, que vive num enorme dirigível na vã tentativa de apresar um pássaro fantástico, Kevin, servido por uma matilha de cães que falam e pilotam aviões entre outras habilidades.
Esta é uma anacrónica história de amor e amizade, acompanhada a balões coloridos e duma magnífica banda sonora; uma lição de vida para toda família, com o requinte técnico e artístico dos produtores de Toy Story e Finding Nemo, realizado por Pete Docter o mesmo do não menos surpreendente Monstros e Companhia. De resto, um dos segredos do sucesso destas produções tecnicamente quase perfeitas, está na consistência dos guiões, das múltiplas "histórias" que correm em paralelo tendo como alvo diferentes grupos etários: atrai os mais pequenos pelas cenas de cor e movimento, atrai os jovens pelo humor e irreverência, e os adultos pela consistência dos personagens e sofisticação da história.
Por gosto e inerência das minhas funções de paternidade, há muitos anos que estou condenado a seguir muita da produção do cinema de animação. E garanto-vos que por entre o banal e a mediocridade ”a metro” desta indústria se encontram verdadeiras Obras de Arte. É o caso de Up da Pixar: um filme para ver de coração aberto, também para os que não têm filhos nem preconceitos; não têm desculpa: alugue um exemplar e delicie-se em casa com o que de melhor se faz no cinema de ficção moderno. Se é “bonecada”, para o caso é secundário. É bom, é altamente.
Um quarteto fantástico: Dug, Kevin, Russel e o Senhor Fredricksen
O odioso Maltazard
Ontem, como é costume duas vezes por ano, em Agosto e pelo Natal, levámos os miúdos mais pequenos com os primos da mesma idade para uma tarde de cinema. À falta duma produção de qualidade que pudesse ser vista por todos (duvidámos do arcaboiço dalguns para verem a nova versão dO Conto de Natal de Charles Dickens pela Disney), imprudentemente escolhemos o segundo da saga Artur e os Minimeus, A Vingança de Maltazard do realizador francês Luc Besson, fita que se veio a revelar uma verdadeira e dispendiosa burla: quando nada fazia prever, e após mais de uma hora de uma confusa mistura de “acção” Play Station e exaustivas explicações sobre o obscuro guião feitas pelos próprios protagonistas, a sessão é interrompida com a mensagem “Continua”, deixando os espectadores atónitos com o abrupto final. Tenho ideia que nem um episódio duma má telenovela acaba desta forma. De resto este precipitado desenlace, afinal veio a meu contento: este filme, que mistura imagens reais e desenhos computorizados, gnomos e insectos, uns misteriosos e gigantescos nativos africanos, os guardiães duma propriedade algures na América onde vivem os avós de Artur, pretende ser uma apologia à fantasia, ao amor à Mãe Natureza em geral e aos insectos em particular, uma prece ao Sacrossanto Ecossistema e à irreverência das criancinhas, em contraste com a imbecilidade dos pais em particular, e da civilização ocidental em geral. Nesta salganhada ideológica não é de subestimar a maldade encarnada, o terrível Maltazard, um horrendo insecto que exibe uma cabeça fundida numa espécie de mitra cardinalícia. Enfim, tudo afinal não passa de um chorrilho de lugares comuns suburbanos da moda, uma estúpida fraude para poluir as mentes confusas das criancinhas e entreter o burguês ignoto. Um conto do vigário a evitar.
Desde que conheci a minha mulher que por inerência sigo a carreira de Hugh Grant. A principio seria um tipo de "concorrência" que em nada me deveria afectar, e além disso, as suas comédias são divertidas e definitivamente gosto da pronúncia inglesa no cinema. Mas confesso que ultimamente o rapaz já me irrita um pouco: só eu é que envelheci nos últimos implacáveis anos. Mais velho que eu um ano, o rapaz continua um jovial sportsman e aquela guedelha rebelde enche-me de inveja. Uma tremenda e insanável injustiça.
O filme “Os Homens que Odeiam as Mulheres” de Niels Arden Oplev, o primeiro da triologia Millenium de do autor sueco Stieg Larsson (1954-2004) prova que o factor língua não conta no bom cinema, e confirma a importância de um bom argumento para o bom cinema de actores. A não perder, mesmo por quem leu a obra.
TODA A DOR DO MUNDO NUM OLHAR
Christine Collins existiu realmente. Mas não é isso que interessa. O importante é registar o seguinte: Christine Collins é desde já uma personagem fundamental na Sétima Arte. Clint Eastwood, no seu filme A Troca, elaborou um dos melhores retratos femininos das últimas décadas no cinema americano. Dando a Angelina Jolie, protagonista desta película inesquecível, o papel da sua vida.
Nas mãos de outro cineasta, A Troca não passaria de um docudrama banal, puxando à lágrima fácil, semeado de rodriguinhos. Eastwood, no seu classicismo depurado, segue o percurso oposto: expurga o filme de qualquer indício de ganga televisiva, centrando-o no retrato psicológico de uma mulher. O olhar, as dúvidas, a angústia, a contenção, a febre, as palavras e o silêncio de uma mulher confrontada com o pior dos cenários: o rapto de um filho.
Há uma banda sonora fabulosa – composta pelo próprio Clint Eastwood – a sublinhar o percurso desta mulher que viu a vida soçobrar por um inesperado capricho do destino. Desde os primeiros acordes, que acompanham as imagens de uma Los Angeles a preto e branco, num recuo temporal de oito décadas, pressentimos que esta toada musical, repassada de uma infinita melancolia, jamais nos abandonará até ao fim do filme. E mesmo depois de as luzes se acenderem permanecerá connosco. Porque o drama que abalou Christine Collins podia suceder a um de nós – é algo que acontece demasiadas vezes nos labirintos das nossas ruas.
Macabra ironia: tudo se passa na Cidade dos Anjos – Los Angeles, afinal habitada por mil demónios, incluindo as forças da ‘autoridade’, que utilizam métodos idênticos às corporações do crime. Questionar estes métodos, na América da Lei Seca e de Calvin Coolidge, poderia ser um passaporte para uma clínica de doentes mentais – cenário kafkiano caucionado por psiquiatras sem escrúpulos.
Christine passa por tudo isto – e muito mais. Vêmo-la sempre sob um intenso foco luminoso que contrasta com as superfícies negras que lhe emolduram o rosto quase imaterial. Eastwood dirige um verdadeiro bailado de luzes e sombras nas cenas capitais deste filme modelar, herdeiro directo do realismo crepuscular das velhas fitas da Warner Brothers. Tudo nos fala desse tempo irrepetível – automóveis, carros eléctricos, chapéus e penteados, numa irrepreensível reconstituição de época.
Mas o essencial do filme é Angelina Jolie, aliás Christine Collins, mulher que nunca voltará a ter um sono tranquilo na sua vida, assombrada pelo maior dos pesadelos. Despedimo-nos dela quando o filme acaba. Mas é uma despedida vã: o seu rosto dorido, trespassado de uma tristeza sem fim, há-de acompanhar-nos para sempre, como o de Ingrid Bergman em Casablanca. E continuamente nos interrogaremos como é possível concentrar toda a dor do mundo naquele olhar.
A Troca (The Changeling, 2008). De Clint Eastwood. Com Angelina Jolie, John Malkovich, Riki Lindhome, Jeffrey Donovan
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O José Mario Silva tem alguns posts sobre a compilação de "Crimes Perfeitos" de Max Aub. Um dos posts tem este vídeo que é uma adaptação cinematográfica de um dos contos. Verdadeiramente perturbador.
Disse aqui o que pensava, com todas as letras, do último filme do James Bond, que o distribuidor português nem se deu ao trabalho de traduzir. Houve quem contestasse, suspirando de amores por esta contrafacção protagonizada pelo canastrão Craig, um sucedâneo do Charles Bronson. Acabo de ler uma crónica de Manuel Hidalgo no El Mundo, na linha do que penso. "Bond, muerto" - assim se intitula esta excelente prosa de que passo a citar alguns excertos.
"Quantum of Solace es, com premeditación y alevosía, el asesinato de James Bond. La doble muerte de Ian Fleming.
Y también apunta el vislumbre de la muerte del cine que hemos conocido. Este año se ha hablado mucho de la muerte del cine, y el triste caso de esta película es uno de sus sintomas.
Vale que el cine anterior de Bond quedara lejos del Hollywood clasico - por no mirar hacia otros lados -, pero si la infantilización del cine y la apoteosis de la accion, los efectos especiales y el espectáculo han llegado a tal extremo de vacuidade que ya no se puede conservar nada del mundo interior, de la ironia y de las maneras del agente de Su Majestad, es que todo esta peor de lo que pensábamos.
Este Bond se podría haber llamado Perico el de los Palotes, y hubiera dado lo mismo. Es otro tio más empeñado en disparar, golpear, correr y saltar por los balcones entre llamaradas y explosiones. Vaciado de sangre, flema y sustancia gris es una marioneta que anuncia da definitiva llegada de la era de los muñecos e de las máscaras. El fin de las personas y hasta de los personajes en el cine de curso corriente. Si la industria del cine de masas no puede ni preservar la viabilidad de un arquetipo como el de James Bond, es que ya está en el más allá de la nadería."
UM SÉRIO PROBLEMA DE VISÃO
Mataram o James Bond. É verdade que a personagem se vai perpetuando de filme para filme, mas a febre da correcção política descaracterizou por completo o agente 007, roubando-lhe a aura imoral e cínica. A última película da série, recém-estreada, é um perfeito exemplo disso. Bond liofilizou-se, amansou, passou a beber os ares do tempo. Agora deu em odiar ditadores, abraçou a causa ecológica, trocou os cenários luxuosos pelo banlieu de Porto Príncipe e pelas tabernas mais ordinárias de La Paz. Faltou pouco para o vermos num comício de apoio a Evo Morales, o presidente-índio que proclamou o socialismo em versão andina. Deixou de dizer a frase que mais o celebrizou - "Bond, James Bond" - como se andasse em crise existencial. Trocou o sexo pelas mágoas de amor. Para cúmulo, despreza os atributos da bela de serviço, a esplendorosa Olga Kurylenko, com quem se limita a trocar um furtivo beijo. E já não bebe dry martini: sente um complexo de culpa quando empina uns copos nem ele sabe de quê.
Em suma: um verdadeiro enjoo. Há muito que não se via um Bond tão insípido. Salvam-se o fabuloso genérico e as cenas de acção, com inacreditáveis arraiais de porrada, mais devedores da banda desenhada do que do cinema. Aliás a cena de pancadaria mais emblemática decorre aqui num andaime, metáfora de um Bond que deixou de ter laivos aristocráticos para se tornar "operário". Mas talvez no próximo filme já isto nem exista: ainda havemos de ver um 007 a beber capilé por uma palhinha, de flores no cabelo, convertido ao hinduismo, leitor dos sonetos de Florbela Espanca e membro da Sociedade Protectora dos Animais. Vai uma aposta?
Quantum of Solace (2008). De Marc Forster. Com Daniel Craig, Mathieu Amalric, Olga Kurylenko, Gemma Aterton, Judi Dench, Jeffrey Wright e Giancarlo Giannini
Sempre que no meu espírito surge a vaga suspeita de que estou a ser objecto de manipulação fico
Posso até estar a cair na clássica presunção de que ao contrário do comum dos mortais sou imune às solicitações do marketing, mas acredito que não são as campanhas que me fazem abrir sempre uma excepção para ir ver um filme que afinal não faz o meu género.
É a força daquele ícone que está em causa, isso sim. James Bond, o homem que todos desejariam ser – e os que disserem o contrário mentem – está longe de mobilizar apenas as plateias masculinas. Na verdade, por elevar o estereotipo do macho-man ao paroxismo, o agente ao serviço de sua majestade faz também um servicinho às mulheres que é o de passear aos seus olhos as fantasias masculinas sem a menor subtileza.
Não sei ao certo o que se passa com as outras mulheres, mas eu acho uma inutilidade ver um 007 sem uma companhia masculina. Para mim faz parte do divertimento sentir, à medida que a acção se desenrola, uma estranha convergência de emoções entre mim e o parceiro do lado. Aquilo que os fascina é aquilo que me atrai
ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE MORRESTE *****
É, desde já, candidata a melhor película este ano estreada em Portugal. Na aparência, surge-nos como um thriller original, que decompõe as regras da cronologia, rodado em tons escuros e frios, acentuando as características formais de filme negro. Mas é, essencialmente, uma espantosa longa-metragem que nos fala da vertiginosa erosão dos valores morais no mundo contemporâneo, da progressiva dissolução dos laços familiares, que nenhuma engenharia social substitui, e nos mostra um mundo onde só o dinheiro conta - o mundo em que estamos mergulhados até à medula neste início de milénio que nada teve de redentor.
Neste filme em que não há bons, o menos mau é afinal o que no princípio nos parece pior, confirmando uma elementar regra do cinema (e da vida): as aparências iludem. A diluição da cronologia faz aqui todo o sentido - para vincar que todos somos prisioneiros do passado e que este por sua vez condiciona as nossas acções futuras.
Tudo servido por um quarteto de magníficas interpretações - do melhor que tenho visto de há muito - sob a direcção do mais veterano cineasta ainda no activo em Hollywood: mestre Sidney Lumet, com 84 anos de vida e acima de meio século de carreira. Estreou-se no cinema em 1957, com o fabuloso Doze Homens em Fúria, e continua a difundir arte de filme em filme com uma vitalidade que raras vezes vemos hoje em realizadores com idade para serem seus netos. O que é um motivo acrescido para merecer um caloroso e prolongado aplauso.
Before the Devil Knows You're Dead (2007), de Sidney Lumet. Com Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei e Albert Finney
Paul Newman (1925-2008)
De súbito, escuto uma espécie de lamento colectivo na redacção: as mulheres suspiram num sussurro magoado. Chego a pensar que José Sócrates está em queda abrupta nas sondagens. Mas não é isso: morreu Paul Newman. Os olhos mais azuis da história do cinema, como sublinha o obituário do El Mundo. Vêm-me à memória, como num caleidoscópio, tantos filmes dele: Marcado pelo Ódio, Vício de Matar, Gata em Telhado de Zinco Quente, A Vida é um Jogo, Hud - O Mais Selvagem Entre Mil, Cortina Rasgada, Dois Homens e um Destino, A Golpada, O Confronto, A Cor do Dinheiro...
Vem-me à memória, sobretudo, essa fantástica película que é Corações na Penumbra, baseada numa peça de Tennesse Williams. A legenda mais certeira nesta hora triste para todos os cinéfilos do planeta em que os olhos azuis mais célebres da tela se fecharam para sempre.
BRINCADEIRAS PERIGOSAS O
Respondi que sim. O meu tom, sem sombra de emoção, despertou de imediato a reacção de quem me acompanhou ao cinema. Fiquei então a ver, algo surpreendida, aquela reprise do filme a que tinha acabado de assistir, sublinhada pelos seus gestos eloquentes e exclamações. Fui comparando mentalmente as cenas, a tentar perceber se era a mim que me tinha escapado algo de essencial ou se toda aquela excitação não tinha grande fundamento. Mas não valorizei a dessintonia. Acontece tantas vezes.
O episódio registou-se há mais de uma semana. Como por um scanner, durante mais de uma semana correram pelos meus olhos milhares de imagens, mas aquelas têm sido estranhamente invasivas, o que não me sucedia há muito tempo com um filme. Reconheço quando me acontece: é o meu subconsciente a tocar as notas que me escaparam à primeira audição.
O subconsciente gosta de símbolos, por isso não são linhas de texto que me cruzam a memória, mas imagens: a de neve a cair sobre duas mãos sobrepostas, os biombos de vidro que separam vidas solitárias, os pés do ancião, já deitados, à espera da morte.
Coeurs, de Alain Resnais, uma adaptação da peça, do britânico Alan Ayckbourn, Private Fears in Public Places, fala-nos da oposição entre o eu social e aquela espécie de fantasma da ópera que vive clandestinamente dentro de cada um de nós. É um tema banal, daí o mérito ser maior quando se consegue, como é o caso, fugir ao lugar comum. Mais difícil ainda é fazê-lo através de personagens não estereotipadas, como neste filme.
Foi a subtileza da narrativa de Coeurs (em português, Corações) que me rasteirou e aquela gente – não actores, mas gente tão real como aquela mulher que estou a ver agora da minha janela – que me confundiu os sentidos. Não o percam. É de cinco estrelas e se alguém vos disser o contrário mandem-no ficar em pousio durante uns dias à espera de um sinal. Em caso de dúvidas que voltem à sala, antes que saia do circuito.
Morreu ontem o realizador de O Paciente Inglês, um dos filmes da minha vida. Esta obra perfeita, hipnótica e viciante foi o bastante para que o realizador britânico tivesse entrada directa na minha “gruta dos nadadores”, gruta onde só entra quem, como ele, consegue criar-me dependências tão boas como este filme, que não me canso de rever.
Se é verdade que quando morremos nos transformamos numa estrela, por esta altura Anthony Minghella já deve estar a brilhar algures no deserto.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.
Sim, pode acontecer, mas de maneira geral é o inve...
Já esteve mais à beirinha disso...
"...havia só um imposto e igual para tudo, um IVA ...
"operadores económicos que aprendem a conviver com...
e talvez seja bom reabilitar a ideia de caridade,...