Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Excertos do capítulo18...

Ouvimos, na primeira parte desta história moral, como Alcibíades cantou o conhecido tema Come to me, little bunny. O local era o karaoke do Atheneu e o tempo era algures no passado, no dia em que o grande cronista conheceu Adolfo Ernesto, o assunto principal deste folhetim, agora na segunda parte do seu capítulo 18.

 

O inteligente e vivo olhar de Alcibíades passeava pela lapela do meu fato. Estranhei, até perceber que o grande observador detectara uma mancha de gordura no meu casaco:

“O senhor Naves almoçou num restaurante indiano”, disse o cronista.

“Tem razão! Como adivinhou?”

“Essa nódoa não engana e não perdoa”.

“Está a dar-me uma má notícia. É o meu melhor fato. Na realidade, o único”.

“Por falar em nódoa. Sabe, senhor Naves, naquela noite em que conheci o Adolfo Ernesto, no karaoke do Atheneu, depois de cantar o come on, little bunny, descobri a minha vocação. Até aquele dia, sentira-me uma verdadeira nódoa como artista”.

“Sabe que eu vivo mesmo ao pé do Atheneu, sou praticamente vizinho”, interrompi.

“Interessante, de facto. Mas deixe-me contar a minha história. I’m not finish, não sou finlandês, gosto de terminar as minhas histórias. Dizia eu: Assisti ao resto do espectáculo e foi então que vi aquela beldade inacreditável, a mulher verde”.

“A mulher verde, senhor Alcibíades? Mas isso não é possível, não há mulheres verdes”.

“Tentarei explicar, meu impaciente amigo. Depois de ter cantado, sentei-me numa mesa, para beber um copo de cerveja, e o Adolfo Ernesto sentou-se a meu lado. Estava encantado com a minha exibição. Apresentámo-nos e ele disse, tratando-me logo sem cerimónias: ‘Alcibíades, tu és um clássico’. Numa só frase definia a minha própria essência. Sou de facto um clássico, senhor Naves. De certa forma antiquado, mas assente na tradição, da qual nunca me libertei. E o karaoke, como já lhe disse, era uma afirmação pós-moderna de democratização da originalidade, embora num contexto de clonagem. E, ao mesmo tempo, funcionava como a verdadeira negação do vazio, sendo que um clássico pode aceitar a contemplação do vazio, algo que um pós-moderno não consegue, tendo de preencher o tempo, no mínimo com espuma. Porque o meu amigo tem de compreender que o mundo contemporâneo é uma autêntica Operação Triunfo, no sentido de todos procurarem, através da interpretação do outro, a superação do eu e a respectiva anulação. Somos individualistas, mas num sentido comunitário, o que parece contraditório, não o sendo, como se houvesse a necessidade da imitação, ou seja, somos nós enquanto modelos do outro, candidatos à ascensão social através do estereótipo. Vivemos num universo karaoke, onde os políticos se imitam, chamando a isso a convergência; onde os artistas se repetem, chamando a isso a referência; onde as pessoas se igualizam, criando a ditadura da classe média. Estas eram as reflexões que me ocorriam, quando o Adolfo Ernesto me chamou a atenção para a cantora que subira ao palco, a mulher verde, acompanhada de um chinês gordo. ‘São os únicos que conseguem interpretar o conhecido êxito chinês ting-pong-ing. Tens de ouvir isto’, disse o nosso amigo comum, Adolfo Ernesto.”

“E o que aconteceu depois?”

“Para mim, aquilo funcionou como uma epifania, uma espécie de revelação. A música, senhor Naves, era indescritível, a voz de Vanda, pois era esse o nome da mulher-verde, parecia elevar-se como um coro de anjos, enquanto o gordo (um informático especializado em COBOL) a acompanhava com os graves. Foi magnífico, posso garantir-lhe. E, no final, ela veio sentar-se na minha mesa, sensual e lasciva, enquanto o Adolfo Ernesto ia preparar o número seguinte”.

“Mas a tal Vanda era mesmo verde?”

“Ela é uma corista de vaudeville e usa um creme verde para se pintar, pois no teatro interpreta uma cena em que faz de extraterrestre. A personagem é uma vampira de Marte, planeta onde, como toda a gente sabe, só há seres esverdeados. E ficámos ali a conversar sobre ficção científica, enquanto no palco surgia o Adolfo Ernesto, vestido de Elvis, para interpretar uma última canção. Isto, claro, foi antes de chegar a polícia...”

Assim falou Alcibíades, com a solenidade, o peso institucional de um Zaratustra da crónica contemporânea.

E eu fiquei a pensar o que teria aquilo a ver com a polícia?

 

Enfim, será tema para um próximo episódio deste espantoso folhetim, no seu capítulo 18...

 

Contributo para a figura do Adolfo Ernesto (Parte I)*

por João Villalobos, em 09.04.08
À altura tinha eu uma criada minhota com quem saía por vezes quando a rapariga amuava de tédio, sempre percorrendo roteiros onde fosse certo não encontrar alguém nem muito nem pouco «lá de casa». Numa dessas noites, entrámos na Tasca do Chico para uma retemperadora paragem antes de um jantar de perninhas dadas no Luso e dei de caras com o Tarzan Taborda, a Brigitte Bardot e um jovem com ar esgrouviado e boina à pastor de cabras na sua enorme cabeça.

Gerou-se um clima de alguma tensão: O Taborda olhava para a Vitória, a Vitória para ele e eu para a Brigitte que - indiferente aos efeitos de um decote tão generoso que dava bem para um ano de gorjetas no Tivoli – tentava cantarolar o refrão de um fado que lamentava a morte da Mariquinhas. Quanto ao jovem, com uns pelitos a fingir de homem na queixada de Cro-Magnon, estendeu-me a manápula suada e morna de cerveja e apresentou-se: «Adolfo Ernesto, um seu criado».

Ao ouvir a palavra, a Vitória olhou para ele com um desprezo da cor dos seus olhos azuis geneticamente enraizados nos visigóticos ancestrais e cuspiu-lhe, entre dentes por palitar: «Se é criado, traga-me uma taça de branco traçadinho e é já, que não vou para nova». O Adolfo nem tugiu. Mas mugiu um som que podia ser interpretado como concordância, enquanto levantava do banco o traseiro do tamanho de um Carocha. Nessa noite, não voltámos a vê-lo e a noite acabaria de uma forma dolorosa para as minhas costelas e o meu ego. Mas não tardaria muito para que as circunstâncias nos voltassem a reunir e juntos vivermos um episódio que vale a pena relatar um dia destes, depois das senhoras se irem deitar e quando os homens acenderem os seus charutos.

.

*Importante ressalva: Este texto e outros que serão publicados oportunamente foram-me enviados por um autor que deseja preservar o anonimato para a caixa de e-mail e não são fruto do meu génio literário.

Excertos do capítulo 18

 Teoria do karaoke (Primeira parte)

Neste meu inquérito aos fragmentos da vida de Adolfo Ernesto, chegou a vez de ouvir Alcibíades, o cronista. Infelizmente, esta não é uma personagem para se tratar em blogues, onde os posts se desejam curtos. Devia pincelar o grande homem em poucas frases e seguir em frente, mas dessa forma os meus leitores não poderiam compreender a natureza da testemunha.

Essa ideia dos posts de pequena dimensão é importante. A blogosfera devia ser mais paciente. Beneficia o pensamento curto e sintético e prejudica a largura do argumento, a respiração do texto...

(...não, não fujam, queridos leitores, prometo não voltar a fazer isto..).

Fui então visitar o Alcibíades numa tarde de chuva; ontem, para ser mais preciso. Corria água de um ribeiro pela rua inclinada e a calçada portuguesa tornara-se tão escorregadia como uma pista de tobogã.

Então, vi cair no chão uma velhinha que tem uma mercearia no quarto piso de um edifício que fica mesmo ao lado de uma casa muito engraçada que deve medir um metro e meio de fundo, só fachada e mais nada, até o sapateiro em frente me explicou que...

(...não fujam, leitores queridos, agora é mesmo a sério, não faço mais digressões inúteis para a narrativa que vos pretendo oferecer...)

Entrei no escritório do Alcibíades e senti de imediato o cheiro acre do tabaco holandês que ele põe no seu melancólico cachimbo.

Alcibíades triunfava, com ar tranquilo, na sala mal iluminada que, em vinte anos de pesquisas sobre a alma humana, transformou em covil de eremita; a sua biblioteca é semelhante a uma caverna filosófica, repleta de livros gigantescos (as estantes vergam-se sob um peso de séculos) onde o grande homem guarda os recortes da realidade que vai juntando à minuciosa colecção de pedaços de existências.

O cronista perfeito, que colecciona histórias, com a persistência do perito em taxionomia, a habilidade prudente do artesão, a argúcia serena do contabilista.

Expus o problema, o que me trouxera ali: a minha intenção de escrever uma série de textos folhetinescos sobre a intensa e preenchida vida desta fantástico amigo, o Adolfo Ernesto, cuja cabeça fundida confunde a esquerda com a direita sem jamais confundir o eterno sentido da justiça e da liberdade.

“Sobre o nosso amigo Adolfo Ernesto”, respondeu o cronista, como se acordasse de um profundo sonho, “posso contar-lhe muitas histórias, senhor Naves”.

“Como é que se conheceram?”, perguntei.

Ele sorriu.

“Num karaoke”.

Achei aquilo estranho. Imaginei o Alcibíades perdido numa caixinha de música. Devo ter feito algum gesto que ele interpretou como censura ou incredulidade, não sei.

“Não acredita, senhor Naves? Você é um jovem repórter, demasiado jovem para já ter perdido o cepticismo radical. Faz parte do seu método de trabalho, sem dúvida. Mas posso dizer-lhe que conheci o Adolfo Ernesto num karaoke e que esse nosso encontro é uma história cheia de moralidade para a compreensão do mundo contemporâneo”.

“O que quer dizer com isso?”, perguntei.

“O karaoke integra o espírito do tempo. Equivale a uma democratização da originalidade. É um testemunho pós-moderno, que condensa no interior as gotículas do indefinido”.

Fez uma pausa pensativa. Levantou-se, foi até a uma estante, retirou um volume largo e grosso. Abriu-o. E lá estava a fotografia do próprio Alcibíades, mais novo, de sobretudo e cachecol, com um coelho no braço.

“Foi o meu primeiro espectáculo. Tinha entrado no Atheneu por acaso e estava lá o grupo daqueles que seriam, mais tarde, os meus melhores amigos, incluindo o bom Adolfo Ernesto. Ele estava no palco a envolver-nos com uma canção de Frank Sinatra, você deve conhecer, My Way, que é uma das minhas preferidas. No final da interpretação, houve aplausos e o nosso amigo entregou-me o microfone e disse ‘cante, espante os seus males, forasteiro’ e eu fiquei ali no palco, a tremer; pedi que o karaoke debitasse a música daquela famosa canção; você, com a sua vasta cultura, conhece, certamente”...

Alcibíades transfigurou-se, em evidente alegria, e começou a trautear: “Come on, come to me, little bunny / don’t go yet, I wish I could be funny / It rains, I’m wet, but it feels sunny”.

Parou, olhou-me:

“Estou a entediá-lo?”

“Não, pelo contrário...”

“Quer ouvir o resto da história?”

 

Já adivinharam: eu disse que queria ouvir o resto da história e o Alcibíades pareceu tomar balanço para se recordar de cada detalhe. Em resumo, este folhetim continua...

 

O Casamento

 

As mulheres dão-nos cabo da tola e, como vocês sabem, eu tenho a cabeça já muito fundida. As mulheres são terríveis, cheias de manhas; não são como nós, seres descomplicados. Elas seduzem-nos, levam-nos por caminhos que não queremos percorrer, um pouco como acontece com o chamamento do desconhecido, da aventura, do mistério e da loucura.

…Sim, porque se trata de uma forma de loucura, quando deixamos de pensar por causa daquelas formas delicadas, por causa do perfume sensual que nos enlouquece, da pele doce e da redondez de um joelho ou de um ombro, e sobretudo quando nos deitam aqueles olhares de veludo, que nos desarmam, sim, aqueles olhares que, vistos de fora, são de carneiro-mal-morto, e vistos de dentro funcionam como o aquecimento global a derreter calotes polares…

Foi o que senti quando a Clotilde me convenceu a casar, um calor tipo aquecimento central.

…A minha Clotilde, que me enlouquece com um simples olhar, ou melhor, uma simples transição de olhares, de um olhar que não observa, mas trespassa, para outro que, não olhando, derrete.

E ali estava eu, perante os convidados da boda, vestido de noivo. E ela, radiante, triunfal, a lembrar uma estrela de Hollywood.

Deixem-me descrever a cena: um fotógrafo alucinado retratava os convidados, os meus muitos tios, e as tias dela, e damas de honor adolescentes, em vestidos brancos, entre um campo de flores, o sol brilhando, o relvado húmido, e a mesa enorme, com iguarias e promessas, o riso cínico da petizada (pois que todas as famílias têm sempre uns petizes que agora-andam-de-telemóvel e que adoram roubar os camarões no canto da mesa), embora desta vez tenha sido a minha tia Rosa, que se sentou em frente aos camarões e, quando um dos petizes roubou um rissol a meio da mesa, ela, que já passou os oitenta, atacou os camarões antes que alguém pudesse dizer ai ou ui, ainda estávamos a ser fotografados, e havia bandos de convidados das duas famílias à procura de uma cadeira, e a tia Rosa já estava toda besuntada e toda a gente investiu sobre a mesa ao mesmo tempo, como uma carga de cavalaria, bastara o grito de ataque de uma pacata cidadã sénior…

…A orquestra não fui eu que contratei. Estranhei, porque tocavam música muito triste e fui ter com eles (eram um quarteto de cordas) e perguntei porque não tocavam algo mais alegre e o chefe do quarteto disse-me que não estavam habituados porque costumavam tocar em funerais e só tinham repertório de funerais, pedi-lhes mesmo assim para tocarem algo mais alegre e o chefe disse que ia tentar, e aquilo surpreendeu-me porque a rapariga do violoncelo estava a chorar como uma madalena, como se tivesse morrido alguém.

A confusão começou na altura em que o meu tio Barnabé, que é matulão e solteiro, convidou para dançar a tia Alzira, uma viúva do lado da Clotilde, que ainda é considerada alegre e uma lasca. Houve uns primos da Clotilde que acharam um atrevimento e começaram a espancar um primo meu, que por acaso ia a passar, enquanto tentava deglutir uma asa de frango que lhe espalhara nódoas no fraque alugado, o qual ele tentava salvar dos salpicos de sangue.

Estava parte da minha família a elogiar assim os méritos antigos de partes da família da Clotilde, quando chegaram os dois tipos do fisco, que reconhecemos porque traziam aqueles barretes esquisitos e que eles usam para recolher moedinhas, como nas esmolas das igrejas. Tiveram pelo menos o condão de unirem as famílias desavindas.

Que queriam ver as facturas, disseram os fiscais. Estranhei, porque estas coisas de casamentos são íntimas e a Clotilde não me costuma passar facturas.

Mas os tipos não desistiam. Ainda tentei que comessem, que dançassem com a tia Alzira, mas eles olharam para mim desconfiados, a pensarem que os estava a subornar, o que estava.

Começámos a recolher facturas falsas (do padre, dos fotógrafos digitais, do copo-de-água, do hotel, dos táxis, da mercearia em frente), mas eles não pareciam satisfeitos. Abanavam os barretes, observavam a noiva, iam dizendo que assim o casamento não podia ir para frente, que era preciso facturas verdadeiras e que arriscávamos multas e que podiam até penhorar a noiva, à falta de melhor, porque penhorar o noivo, neste caso, não parecia ter grandes vantagens para o Estado…

Quando a situação já não podia piorar, chegaram os homens da ASAE, devidamente municiados, que começaram a desmantelar o copo-de-água, à procura de comida avariada. Foram eles que nos salvaram de um perigoso impasse, embora fosse demasiado tarde para a Tia Rosa, pois os camarões deviam estar estragados…

E foi nesse momento, quando entrou a tropa de choque das forças anti-liberais, que num assomo de dignidade, num impulso cidadão, num abcesso de frontalidade, coloquei um ponto final no meu casamento.

Acho que o Estado não tem nada a ver com a minha vida íntima. Com ajuda dos primos da Clotilde e do meu tio Barnabé, demos alguns pontapés naquela crise e umas murraças valentes, também, naqueles intrusos.

Não houve casamento, mas seguimos em lua-de-mel, eu e a minha Clotilde; ilegais, felizes, apaixonados…

Adolfo Ernesto

 

Entrevista espontânea

 

Um conhecido canal de TV convidou-me para uma entrevista espontânea, daquelas que agora estão na moda, para aparecer num programa sobre teoria política que passa às três da manhã.

Tal como combinado, a equipa de reportagem apareceu lá em casa, à hora certa, ainda a minha Clotilde, que estava muito enervada, não tinha terminado a toilette.

Eu esperara um repórter e um câmara; mas, para minha surpresa, veio um carro de exteriores, um produtor e a assistente, o realizador, com dois sub-realizadores, mais a jornalista, seis câmaras e oito ucranianos para transportar cabos e caixas e a parafernália toda destas entrevistas simples. Estava a esquecer-me da maquilhadora e do argumentista; esse último era um rapaz que eu conheci num curso de formação do centro de emprego aqui do bairro.

Sugeri uma entrevista comigo sentado no sofá e a minha Clotilde a meu lado, mas o realizador ficou fascinado com o cabelo esplendoroso dela (já lhes contei que é cabeleireira) e disse logo que tínhamos de ir filmar para um sítio onde houvesse vento, pois não tinham trazido a máquina de vento e a Clotilde ficava muito bem (mais interessante, disse o tipo, que era brasileiro), a olhar para o horizonte, com o vento a despenteá-la. Foi por isso que saímos de casa. Entretanto, a jornalista, muito simpática, deu-me o script, para eu ir lendo.

Entrámos todos no elevador: a jornalista, o realizador, o produtor, a Clotilde e eu, quatro dos câmaras e um ucraniano (que não sei o que estava ali a fazer).

Estávamos tão apertados, que a minha mão deslizou e ficou presa a alguma superfície fofinha.

A jornalista perdera o sorriso:

“O senhor Adolfo Ernesto tem a mão sobre a minha nádega esquerda”, disse ela.

A Clotilde deitou-me um olhar que parecia uma tia dela, a tia Hermengarda, no dia em que deu uma sova ao tio Felismino, que, coitado, teve de receber tratamento no centro de saúde, mas a urgência estava fechada e, enfim, essa é outra história…

Estava a tentar retirar a minha mão presa, o que levantou ligeiramente a saia dela, quando o elevador começou a cair a grande velocidade, derivado do excesso de peso.

Foi um grande pânico, registado por cinco dos seis câmaras (há uma arrepiante imagem da queda, vista de cima). Horrível e, afinal, o primeiro momento espontâneo da minha entrevista de TV. Gritámos, gritámos, enquanto a engenhoca caía no vazio. Até que, com um grande estrondo, o travão de emergência nos salvou.

Passado o susto e já na rua, onde começámos a entrevista espontânea, e quando a jornalista me estava a perguntar o nome, o realizador interrompeu, muito irritado:

“Minha estúpida, tens de dizer isso com ênfase. Não é ‘Como se chama?’, mas sim, ‘poderia identificar-se perante a enorme audiência que neste momento assiste a esta entrevista espontânea’?”

Aí, o argumentista, que era meu amigo, como já vos contei, interrompeu o realizador e apontando para o script, notou que no texto espontâneo, estudado e preparado ao longo de semanas, estava mesmo escrito ‘como se chama?’

O realizador, irritado, olhava para o céu e exclamava: “Não há condições!”

Foi então que o produtor sugeriu uma filmagem junto a um grupo de miúdos que jogava à bola num descampado, ali ao lado:

“O meu caro Adolfo Ernesto só terá de fingir que é o treinador dos petizes”, disse ele, enquanto mordia o magnífico charuto.

Poderão ver depois a cena, em que eu digo a um dos rapazes para não ir à bola, ir logo à perna: “Dá-lhe com mais força, meu”, gritei, para dentro do campo. Ainda pensámos meter um dos ucranianos em jogo, para ver se a minha equipa de miúdos conseguia marcar um golo, mas a Clotilde começou a fazer uma birra e exigiu que a filmassem, num grande plano.

É talvez a melhor imagem do programa e a Clotilde não se conteve e esteve a dizer para a câmara como é que faz para controlar a minha vida, que sou um bocadinho inútil e que, se não fosse ela, não havia comida na mesa…Enfim, o costume. Felizmente, não era suficientemente espontâneo e penso que o realizador mandou cortar.

Mas quem me estragou o dia foi o produtor, que esteve o tempo todo a conversar com a Clotilde, só sorrisos e mesuras, a dizer que a levava para Hollywood, que fazia dela uma estrela, a meter-lhe maluquices na cabeça...

Adolfo Ernesto

 

O líder

O líder da oposição vinha a descer a avenida, quando me viu (eu ia a subir).

“Finalmente, encontro alguém que gosta genuinamente de mim”, disse o líder, extremamente eufórico. “Como sabes, Adolfo Ernesto, e citando o John Wayne, ninguém gosta de mim”.

Achei que aquela era uma boa oportunidade para enriquecer os meus carnets de filosofia política. Mas foi ele a iniciar a interessante conversa:

“E como está a tua maravilhosa namorada, a ....”

“Clotilde”.

“Isso mesmo...”

“Tem andado bastante despenteada ultimamente, derivado das cambalhotas...”

“Mas ela é ginasta?”

“Não, é cabeleireira, mas adoro estragar-lhe o penteado”.

“Diz-lhe para votar sempre em mim”.

“Ela é bloquista”.

“Não faz mal”.

Achei a conversa boa, mas queria saber os segredos da actuação em oposição. Perguntei ao líder o que achava das últimas sondagens. Ele respondeu:

“Está tudo a correr bem. Estamos a desaparecer nas sondagens, como eu previa. Descemos dois pontos, o que já me parece bom, para começar”.

Fiquei perplexo com a afirmação. Questionei-o sobre aquela estranha estratégia.

“É simples, Adolfo Ernesto”, disse o líder da oposição. “Se o nosso partido desaparecer, garantimos a vitória do partido do Governo. Se, por outro lado, as pessoas não gostarem do Governo, vão abster-se. Ora, se abstenção atingir os 99%, conto com o apoio da tua Clotilde e com o voto dos meus próprios familiares. Tenho uma família alargada, suficientemente grande para, com essa ajuda, garantir que ninguém terá maioria absoluta. O truque é restringir o universo eleitoral”.

Comecei a ver o brilhantismo da ideia.

“Então, é por isso que a oposição não tem nenhuma ideia para o País”, disse eu.

“Claro. É preciso arrasar. Só a falta de ideias e de alternativas garante um universo eleitoral mínimo e a respectiva mudança de regime. A minha solução para o País é a absoluta falta de ideias e, portanto, de votantes”.

“Criando uma onda de abstenção radical...”

“E de mudança de regime, que passa por, diria mesmo, exige, o absoluto apagamento do maior partido da oposição, obra que, orgulho-me, estou a concluir com o maior êxito”.

“Mas não temes ser substituído na liderança?”

“É o maior perigo que corremos, ter um líder que queira genuinamente desafiar o Governo. Aí, o perigo espreita”

“Porquê?”

“Porque corríamos o risco de ganhar. Teríamos então de formar Governo e aquilo é uma chatice. Tínhamos até de fazer reformas no país e estes rapazes que estão no poder estão a fazer as reformas que sempre sonhámos fazer e nunca conseguimos, nomeadamente pôr na ordem os funcionários públicos e os tropas e os jornalistas e os professores e os sindicalistas. Temos de governar contra a nossa base de apoio e toda a gente se irrita connosco, garantindo derrotas a prazo. Um sarilho, como vês...”

“Mas na tua estratégia existe um problema”, disse eu.

“Qual é o problema?”, perguntou o líder da oposição.

“Os comunistas e bloquistas nunca se abstêm. Portanto, vão ganhar com maioria absoluta”.

O líder ficou de repente muito pálido.

“Não tinha pensado nisso”, admitiu, com genuíno desespero. “E, agora, como é que eu saio daqui, se ninguém gosta de mim, mas também não quer o meu lugar?”

Adolfo Ernesto

 

 



O Abrantes

Encontrei ontem o Abrantes, em São Carlos. Ele é o famoso bloguer que assina com a sua assinatura secreta e cuja defesa do poder tem revelado um herói que infelizmente continua anónimo e que me deu ontem um importante contributo para os meus carnets de filosofia política. O Abrantes não gosta dos holofotes e escondia-se na sombra do camarote ao lado do meu. Só o reconheci por ter resmungado quando alguém por erro abriu a porta do camarote onde se encontrava:
“Aqui, só com cartão do partido”, ordenou ele, antes da porta se fechar de novo.
Reconheci a voz. Aliás, sou o único bloguer que sabe quem é o Abrantes.
Cumprimentei através do tabique:
“Sabes onde está o FAL?”, perguntou o Abrantes, com maus modos.
“Não o vi”.
“Eu não dizia? É uma conspiração!”
Comecei a ler o programa. A ópera era de Mozart e contava a história de um líder benevolente, com maioria absoluta, cuja corte se envolve na intriga e na traição, tudo acabando com um gesto de clemência do bondoso dirigente.
“Vocês, no Corta-Fitas, continuam parvos”, disse o Abrantes.
“Porquê?”
“Recusam-se a ver a beleza da construção do poder e temos de vos pôr na ordem”.
“Achas que somos assim tão relevantes?”
“Pusemos na ordem os professores e os médicos e os funcionários públicos e os jornalistas e os sindicalistas. Vocês são umas formigas”.
Calou-se. As luzes apagavam-se. Começava a música.

Primeiro acto
No palco, um grupo de bajuladores tentava endrominar o chefe. Um lambe-botas ia tão longe que o imperador chegou a protestar, pois ninguém lhe dizia a verdade.
“É importante dizer a verdade ao chefe”, arrisquei, num sussurro para o camarote do Abrantes.
“Tu és muita burro, ò Adolfo Ernesto! E este gajo, o Mozart, não percebia nada de política! O importante é não dizer a verdade ao chefe. Se repetirmos mil vezes uma mentira, então ela transforma-se em verdade. Se só existir a nossa verdade, não haverá oposição. É preciso esmagar a oposição com a exclusividade do nosso ponto de vista”.
“Compreendo. Mas, e se a realidade for diferente?”
“Que queres dizer?”
“Por vezes, a realidade contrasta de forma chocante com as nossas fantasias”.
“Isso nunca acontece. A realidade molda-se ao desejo do líder. Por exemplo, a economia vai lindamente e melhorará”.
“Sem querer contestar, há quem fale em crise...”
“A crise é um estado de espírito e molda-se conforme os desejos do líder benevolente”.
“Mas a conjuntura internacional pode levar a um agravamento da situação”.
“O importante é que os números não o mostrem”.
“Pensei que o importante fossem as pessoas”.
“As pessoas importantes, que estão do nosso lado”.
Os sussurros estavam a incomodar a plateia, que nos mandou calar, com um shhhhh irritado.

Segundo acto
O primeiro impulso do imperador é punir os traidores, mas no último momento ele recua, mostrando humanismo e piedade.
“Sabes, Adolfo Ernesto”, murmurou o Abrantes, “o importante é nunca trair o chefe. E, para isso, devemos ter sempre boas notícias para lhe dar. É por isso que urge dominar os dissidentes e impedi-los de transmitir ideias que possam confundir o povo e ameaçar a maioria absoluta, a qual, como sabes, é a única maneira de governar”.
“Mas a tua função é controlar as notícias?”
“É essencial poder defender o indefensável com fanatismo, nem que por isso me transforme num pateta. Em última análise, quando não é possível controlar as notícias ou impor a nossa visão fanatizada, a minha função é desacreditar o mensageiro”.
“Mas isso não será pior do que aqueles coronéis...”
“É mais moderno...”
Não ouvi o resto desta importante reflexão porque a plateia protestou de novo, com um profundo shhhhhhhh.
No final, o imperador deixou ir em paz o seu amigo, que o tentou assassinar. Apagaram-se as luzes. Houve frenéticos aplausos.
O Abrantes não tinha gostado:
“Pareceu-me uma tentativa de descrever metaforicamente o actual poder. Mas o imperador hesitou em excesso, parecia o Guterres. Hoje em dia, isto seria impossível. Nós tomamos decisões...”
“Mesmo que estejam erradas.”
“Claro. É preciso não hesitar e tomar decisões. Pôr toda a gente na ordem. E há um erro fundamental nesta ópera, que é o facto de se partir do princípio de que a corte ama o seu imperador porque este tem grandes virtudes, quando o amor ao poder se baseia em interesses. A defesa de uma ideia sem ideias só se explica por haver interesses, por exemplo, um tacho.”
“É o teu caso?”
“Se não é, será”.
“Não achas isso demasiado simplista e até autoritário? Quero dizer: quando os assessores tentam limitar a liberdade de informação, isso não será um pouco perigoso?”
“O erro do imperador, nesta história, foi não ter impedido a conspiração inicial que o levou ao dilema de deixar ou não cair o amigo. E, aliás, sou assessor e não sou assessor. Parece paradoxo, mas não é. Afinal, assino com o meu nome no meu blogue, embora o meu nome não tenha qualquer significado e eu, de facto, não exista”.
“És uma personagem”.
“Sou uma personagem, mas tu também”.



Segundo prémio João Villalobos de falsa entrevista

Porque decidiu destruir o ensino da música em Portugal, senhor primeiro-ministro?
Tive um vibe, ou seja, uma vibração, e telefonei logo à senhora ministra da educação para acabar com o ensino de música.
Que tipo de vibe?
Parecia assim uma corda de violino a ser tocada por um iniciado de seis anos. Um som estridente e prolongado.
Compreendo. Deve ter sido horrível. E qual é o seu plano?
Disfarçar por um jargão burocrático o que estamos de facto a fazer.
Pode dar exemplos?
Usamos expressões como ensino supletivo ou integrado para confundir a opinião pública e ninguém perceber.
Mas, trocando por miúdos, o que vai fazer?
Comecemos pelos miúdos. Na prática, os conservatórios deixam de ensinar crianças com menos de dez anos.
Mas, senhor primeiro-ministro, com o máximo respeito deste seu admirador, isso vai impedir as crianças de aprender desde o início.
O que quer dizer?
Eu é que devo fazer as perguntas, mas a minha Clotilde tem uma sobrinha a estudar violino e começou aos sete anos.
E toca bem?
Eu é que faço as perguntas nesta entrevista, senhor primeiro-ministro. A sobrinha da minha Clotilde já consegue tocar na corda mi e fazer um pizzicato.
Magnífico, o nosso ensino é demasiado eficaz. Temos de o transferir para as escolas primárias sem condições, para o destruir. Imagine um sistema que produz milhares de criancinhas como a sobrinha da sua senhora a tocar na corda mi segundo o método suzuki.
Parece terrível. Mas estava a explicar o seu plano...
Se as crianças chegarem ao conservatório com dez anos sem saberem tocar, vão certamente desistir. Mas para termos a certeza, as escolas de música públicas serão especializadas, quero dizer, terão um currículo próprio, mais concentrado.
Mas isso não irá acabar com os amadores, aquelas pessoas que estudam música mas não querem ser profissionais?
Claro. E não corremos o perigo de produzir centenas de músicos, como faz a Rússia. Se não houver amadores, toda a gente acreditará que o mestre Emmanuel Nunes é mesmo um génio e não haverá contestação às nossas apostas estéticas. Por outro lado, as crianças talentosas já desistiram.
Estou a ver. Mas não teme que os pais evitem colocar as criancinhas no conservatório?
O que quer dizer com isso?
A meio da sua formação, a criança não poderá mudar de música para ciências e toda a gente diz que uma escolha aos dez anos é demasiado prematura...
É essa a ideia. Se não houver alunos, fechamos a escola e poupamos dinheiro. Foi isto que eu expliquei à senhora ministra, quando lhe enviei as minhas orientações políticas.
Ou seja, no fundo está a privatizar a música...
Você tem grande argúcia, ò Adolfo Ernesto, podia ser meu assessor...
Não recuso o convite. Gostei muito de o entrevistar e prometo admirá-lo muito, pelo menos enquanto o senhor tiver maioria absoluta.

Adolfo Ernesto


O provedor dos leitores do Corta-Fitas lamenta profundamente a publicação da falsa entrevista que pode ser lida acima e solicita ao conselho de curadores, com a veemência que se impõe, que este tenha maior prudência no futuro, evitando a publicação de textos como este, impedindo ataques torpes e cobardes à superior orientação política das autoridades.
Adolfo Ernesto



O bastonário da desordem

Desde que fui escolhido para ser o bastonário da desordem dos bloguers que não posso abrir a boca sem que caia o carmo e a trindade. O meu espírito crítico não se compagina com estas dificuldades.
Se falo na corrupção, sou logo chamado à Assembleia da República e os deputados gritam-me: “Nomes, queremos nomes, ò Adolfo Ernesto”.
Se menciono a paralisia política e o conluio entre os dois partidos únicos, logo sou chamado ao Largo do Rato e à São Caetano: “Nomes, queremos nomes, ò seu taralhoco”.
Se falo na crise económica dos portugueses, logo os banqueiros me gritam: “Como é que sabe? Então e o sigilo bancário, seu energúmeno? Queremos nomes...”
Devo dizer que fui eleito bastonário contra a minha vontade. A blogosfera é um meio complicado, mas a lista do JPP estava condenada porque ele nunca linka ninguém. Eu também não, mas sou um nome fresco nestas coisas. Além disso, (como sabem tenho a cabeça fundida e o hemisfério esquerdo misturado com o direito) sou uma ponte ideal entre bloguers como Daniel Oliveira e alguns dos Cortafiteiros, como o Duarte Calvão. Em resumo, fui um estrondo: em inglês, usa-se o termo landslide para descrever este tipo de vitória, o que pode ser traduzido como derrocada.
Mal fui eleito, pensei escrever um post onde pudesse sintetizar o meu pensamento sobre o nosso regime. Tal como a minha mente, Portugal é um país algo misturado: o pessoal de esquerda é conservador (nem lhes falem em mudar a Constituição!); e os conservadores afirmam a pés juntos que são muito liberais.
A mistura é total, no plano do tempo e do espaço. A política é decalcada da monarquia constitucional, mas sem rei: há dois partidos iguais, com líderes semelhantes e políticas plagiadas um do outro. Um sistema já amplamente testado no século XIX, mas com o aperfeiçoamento de dispensar espermatozóides com pedigree.
Aqui, os bancos privados costumam ter administradores públicos, nomeados pelo Estado. E o Governo quer gerir o Estado como se fosse uma empresa privada.
Lá fora, quando os políticos mentem, as pessoas ficam indignadas e começam logo a construir barricadas; aqui, onde somos mais avançados, a mentira é vista como um passo bem dado no avanço de uma carreira e as pessoas encolhem os ombros. A um político, o que se exige é dignidade e sentido de Estado, pois a verdade costuma ser incómoda, assim como uma espécie de dor de barriga. E ninguém com dor de barriga mantém sequer a dignidade.
Os portugueses querem “mudança” e “reformas estruturais”, mas de maneira a que isso seja para os outros e não mexa com a vida deles.
Podia ter escrito estas coisas como simples Adolfo Ernesto, ninguém se ia incomodar. Mas, quando o fiz como bastonário dos bloguers, houve um coro de protestos, pois alegadamente perdera a dignidade e o sentido de Estado.
Assim, venho por este meio apresentar a minha demissão de bastonário da desordem dos bloguers, com efeito imediato.
Conto, apesar de tudo, prosseguir a minha actividade como provedor dos leitores no Corta-Fitas.

Adolfo Ernesto




Argumentação

Agora, que a greve de argumentistas está a acabar, posso seguir a minha vocação sem o anátema de ser amarelo ou fura-greves. O meu amigo Cecil B. Demille (na foto) costumava dizer: "Adolfo Ernesto, nunca esqueças, dá-lhes emoção e, quando eles não puderem mais, dá-lhes mais uma vez, com emoção". A minha mais recente proposta para Hollywood foi um projecto de argumento que enviei para a cidade dos anjinhos, e que terá por título Emoções sem Limite, embora tenha hesitado, pois havia a hipótese de Explosões sem Limite.
A história é singela. Começa no MidWest, entre paisagens paradisíacas. Conhecemos "o excelente e confiável Jim Smith (Brad Pitt), que procura o pai ausente, Tom Smith (George Clooney) e se apaixona pela sensual Belinda Jones (Scarlett Johansson). Depois de uma escaldante cena de sexo entre os dois protagonistas, temos uma frenética perseguição de automóveis onde conhecemos o malvado Lucas Cheney (Tommy Lee Jones), que mata quatro transeuntes. Jim Smith é forçado a juntar-se ao exército e enviado para o Afeganistão (cena de combate inspirada em Platoon); ali passa algum tempo (nova cena de combate com destruição de quatro dos melhores cenários dos estúdios Paramount), e é no Afeganistão que reencontra o malvado Cheney, que está a vender armas aos talibãs. Mais combates, Cheney morre três cenas depois de ser abatido, Smith regressa aos states na companhia do seu companheiro e herói Johnny (Will Smith) que diz uma piadas, mas o Smith personagem acaba nos braços de Belinda Jones (cena de sexo, suspense, de súbito reaparece o malvado Cheney, que julgávamos morto, mas que afinal estava em pleno estertor), golpe decisivo do herói, vitória final. Triunfam os bons".
Parece-me uma boa história, equilibrada e com momentos interessantes, sobretudo nos tiroteios.
Entretanto, recebi um telegrama urgente, da Mosfilm, que dizia assim:
"Kremlin enviou para Sibéria todos nossos argumentistas. Cruise grave. Adolfo Ernesto, favor enviar argumento, mosfilm".
O Cruise era, afinal crise, mas com uma letra a mais. E foi com Tom Cruise na imaginação que concebi o argumento para a Mosfilm, tarefa difícil, porque eles não gostam de cenas com menos de 40 minutos. O título será Discussões sem Limite, embora A Balada do Soldado não me soe mal:
"O bom Ivan Denisovitch (T. Cruise) cresceu nas paisagens magníficas do Volga, mas apaixonou-se pela bela Tatiana (Zhanna Prokhorenko); ele busca o seu pai, mas enfrenta o cruel Pavlovitch (Vladimir Ivashov)". Aqui, pensei numa cena tipo doutor jivago, mas sem o bigode. "Após longo diálogo de trinta minutos entre Denisovitch e Pavlovitch, o primeiro é cruelmente enviado pelo segundo para o exército e, depois, para a invasão do Afeganistão", (ou ocupação, ou lá o que foi, mas não escrevo argumentos de filmes políticos, quero apenas sublinhar as emoções e as sensações. E, claro, a pirotecnia).
"Enfim, no Afeganistão, dá-se o confronto final entre D. e P., o duelo prolonga-se por duas rápidas horas e o nosso herói consegue regressar aos braços da sua Tatiana, e ainda tem tempo para descobrir o pai, que afinal era um antigo stakhanovista da União Soviética que morrera na heróica luta contra a deskulakização e era muito chegado ao camarada Estaline". É um final bonito e comovente.
Estava satisfeito com esta nova prova superada, mas não sabia que os meus problemas ainda não tinham acabado. Para meu espanto, recebi um telegrama de Bollywood: "Adolfo Ernesto. Crise de argumentistas iminente. Favor enviar argumento de filme de Bollywwod".
Dito e feito. Concebi uma obra e pensei logo num título magnífico: Canções sem Limite. Tudo começa nas margens do sagrado Ganges, onde o nosso herói, Ayodhya Ramayana (Salman Khan) terá de lutar pelo amor eterno da sensual Sara Patel (Aishwaria Rai), apesar dos obstáculos do maléfico Pervez (Shah Rukh Khan). Haverá fugas por toda a Índia, com muita cor e dança, e os dois heróis fogem na direcção dos Himalaias (mais uma dança) e, depois para o Afeganistão, onde são apoiados por Jim Smith, um místico ocidental (George Clooney), mas Khan consegue apanhar o trio (há uma bela cena de dança, com uma notável canção e um coro talibã). Finalmente, o bem triunfa, com ajuda divina que permite uma cena apoteótica. Pervez é derrotado e haverá ainda tempo para uma sensual, mas púdica, cena de sexo, apimentada com uma dança".
Enfim, nesta minha carreira também há a possibilidade de colaborar com as telenovelas brasileiras, mas esse será um enorme desafio, já que as histórias são muito mais complicadas.

Adolfo Ernesto




O sindicato

Não é só no Quénia ou no Paquistão que há violência. Assisti a um tumulto que rivalizou, por breves instantes, com situações caóticas típicas dessas regiões inóspitas.
Tudo aconteceu no restaurante onde se celebrava o almoço anual do sindicato dos gestores. O ambiente, já de si, era escaldante. Dada a minha fama de bombeiro voluntário, o senhor Silva, pacato proprietário do dito restaurante (ainda por cima chamado O Cavaco), pediu a minha comparência, com farda, para apagar qualquer fogo que viesse a surgir. Estava lá também para fazer cumprir as leis da república, embora apenas na condição de cidadão.
Foi já na fase dos discursos que a situação se agravou. Um homem obeso, com uma comenda na lapela, ergueu-se e deu as boas vindas aos 50 convidados:
“Ilustres gestores”, disse ele, “é com pesar no coração que vos recebo neste almoço comemorativo do aniversário da criação da nossa influente agremiação. Pesar no coração devido às palavras que o nosso líder transmitiu ao país, criticando os nossos salários, ou melhor, a diferença entre os nossos salários e os que recebem os nossos trabalhadores...”
“Apoiado...” ouviu-se na sala.
“Pelo contrário, ilustre sócio, não apoiado! Considero um escândalo que um dos pilares do regime nos critique. Temos salários altos? Sim, mas ainda não o suficiente. Carros de serviço? Chamar ao meu jaguar artilhado um carro de serviço é um escândalo. Ganhamos duzentas vezes mais do que os nossos funcionários... perdão, colaboradores? Retórica da esquerda! Críticas próprias do PREC! Um despautério, num órgão eleito. Toda a gente sabe que a diferença devia ser ainda maior.”
Houve uma pausa para lautos aplausos. E, depois, o orador prosseguiu.
“Se possuímos privilégios, é porque a nossa posição social assim o ditou. As quotas partidárias estão em dia, porque nos criticam? E mais, exigimos aumentos salariais, este ano, de 100%, porque a produtividade dos nossos trabalhadores só aumentou 3%, falhámos em toda a linha na elaboração de uma estratégia coerente para as nossas empresas e não criámos valor accionista. Por tudo isso, merecemos os privilégios de que gozamos, mais os chorudos prémios, as prebendas e bónus. Querem pauperizar a nossa classe? Mas não passarão, camaradas! Perdão, queridos confrades e consócios. Temos de nos erguer, indignados, contra as críticas às nossas benesses”.
Na sala houve um frémito de entusiasmo. Os gestores, galvanizados, ergueram-se em aplausos estrondosos.
“Viva o nosso sindicato”, gritava um dos gestores, muito gordo.
E seguiram-se palavras de ordem, das quais recordo as mais importantes:
“Descapitalizemos as nossas empresas!”
“Os barris de petróleo aumentam, os gestores não aguentam!”
“Vigésimo quinto mês, já!”
“Tragam mais champanhe!”
Embora houvesse copos pelo chão e algum tumulto na mesa, o almoço do sindicato dos gestores tinha até ali corrido de forma civilizada. Tudo descambou quando um dos gestores sacou de um enorme charuto. Ao que foi imitado pelos 50 gestores. De súbito, havia 50 charutos acesos naquela sala.
Na minha qualidade de cidadão bombeiro, não hesitei perante aquele nítido abuso. Puxei da mangueira de serviço e dirigi um poderoso jacto de água para aquela turba de poluidores-pagadores.
Houve um pânico, uma debandada. Em menos de trinta segundos, o capitalismo selvagem tinha ido por água abaixo.
Ainda recordo com nostalgia a figura pingada de um dos gestores que saía do restaurante do senhor Silva, numa indignação, o charuto apagado preso aos dentes. Olhou para a fileira de lindos topo de gama e disse:
“Isto de trocar de carro cada três semanas dá sempre nisto! Qual deles será o meu?”

Adolfo Ernesto

Ilustração: desenho de George Grosz (1893-1959)



As previsões para 2008


A minha Clotilde convenceu-me a consultar a Dona Rosa, conhecida em todo o bairro por acertar no futuro. A dona Rosa é uma espécie de professor Marcelo dos anónimos.
O consultório fica num primeiro andar com cheiro a mofo. É uma sala escura, de ambiente pesado. E a Dona Rosa surgiu de repente, através de uma cortina ao fundo, com uma vassoura na mão.
Fiquei impressionado porque ela já sabia que eu era do Corta-Fitas.
"Estou um bocadinho chateada com vocês, os rapazes do Corta-Fitas", disse a dona Rosa.
"Então, porquê?", perguntei.
"Não me elegeram rapariga das sextas-feiras".
Quase mencionei a verruga no queixo e a pele esverdeada, mas contive-me, não fosse o comentário influenciar o meu futuro.
A Clotilde explicou que estava preocupada com o seu amor e a dona Rosa tranquilizou-a:
"Terás este ano um grande amor com um homem musculoso e bom".
Correspondia ao meu perfil e perguntei se eu, o grande amor da Clotilde, também estaria apaixonado.
"Que eu saiba, Adolfo Ernesto, não és musculoso nem bom. Eu estava a falar do Arnaldo, da mercearia em frente ao cabeleireiro. A Clotilde tem ali uma boa hipótese, pela circunstância de Plutão estar em conjugação com Saturno, numa órbita perfeita que, ainda por cima, se harmoniza com a trajectória de Mercúrio. Além disso, o Arnaldo depositou mil euros na conta bancária dele, na semana passada. Disse-me o gerente, que também veio à consulta".
"Mas gosto é aqui do meu fofinho...", disse a Clotilde, que estava assustada. (E o fofinho era eu).
"Ah, este é um inútil. Deixa-o".
"Mas ele até escreve num blogue, e tudo"
"O Corta-Fitas? Aquela porcaria?"
A Dona Rosa desatou-se a rir.
"Em previsões, são um desastre. Olha-me para as asneiras que escreveram no ano passado sobre o que ia acontecer este ano". Ligou a bola de cristal e apareceram este e este posts. Mas havia outros.
"Vocês escreveram que a presidência portuguesa ia correr mal ao Sócrates". A Dona Rosa ria-se, numa histeria. E eu já estava a ficar incomodado.
"E, então, quais são as suas previsões para 2008? Certamente melhores do que as nossas", atirei. Ela nem hesitou na resposta:
"É fácil: O Bush será substituído; há eleições no Paquistão e, no fim, fica um general; o Sarko casa com a Bruni; o Gordon vai à sua vida, a Merkel vai ser rapariga da sexta-feira no Corta-Fitas. Seus pedantes!".
Desligou com raiva a bola de cristal.
"E em Portugal, o que vai acontecer?"
"São mais cinco euros".
Paguei. E a bruxa ligou de novo o interruptor da bola de cristal.
"A economia de pantanas; Berardo na Caixa Geral de Depósitos; Sócrates no Governo; não haverá mais festarolas europeias, vem a factura; fogos no Verão; a economia de pantanas (já disse); o Benfica perde mais uma vez o campeonato; a Clotilde fica com o Arnaldo; Sarko no Allgarve com a Bruni; Adolfo Ernesto apaixonado por uma beldade chamada Rosa".
Quando saímos (ar fresco!), a Clotilde vinha a matutar naquelas previsões.
"Podias ter-me dito que amavas uma Rosa", disse a Clotilde.
Era inútil dizer que não conheço nenhuma beldade chamada Rosa.
"Enfim, se não posso ficar contigo, talvez o Arnaldo não seja má ideia", suspirou a Clotilde.

Adolfo Ernesto



O espírito natalício


O pior aconteceu na loja onde estavam a vender caviar Beluga a 410 mocas. Houve assim um tropel de cavalos, com resfolegar e tudo, aquilo a que o comendador Joe chamaria um utle stampede da CVM, mas que envolvia cotovelos, golpes baixos e empurrões mais ou menos subtis. Caí, pisaram-me três costelas e partiram-me os óculos.
Volto um pouco atrás: não tinha nada a ver com o Beluga, mas andava à cata de um presente de menos de cinco euros (tenho um orçamento catita desde que ganhei umas massas a escrever crónicas aqui no corta-fitas) para oferecer à minha nova namorada, a Clotilde, que é cabeleireira. E bastante boa. Pensei em comprar-lhe um enfeite de cabelo, mas lembrei-me a tempo de que ela é cabeleireira... Teria sido ensinar o padre nosso ao cura... Depois, sem ideias, andava a passear no centro comercial, no meio de uma multidão desenfreada, quando transitei ao largo da loja dos belugas...
De súbito, sem aviso, houve alguém que gritou "vende-se a última beluga" e a multidão entrou numa espécie de transe, parecia correr-lhe na espinha uma voltagem eléctrica. E foi isso que, enquanto o diabo esfrega o olho, lançou a tal cavalgada, ou boiada, ou lá o que foi; parecia uma enxurrada humana, como se tivessem aberto os portões do campo pequeno para deixar sair os touros e as pessoas começassem a fugir. Mas era para dentro.
Um homem gritava que dava 500 euros, outro enfiou-lhe um murro, e uma velhinha, com ar de tia, guinchava como se a estivessem a apalpar nos finalmentes. Foi horrível, cento e cinquenta pessoas histéricas precipitaram-se para a loja onde estavam a vender o caviar Beluga e fui atropelado. A caixinha, coitada, levitava um metro acima de dezenas de mãos que se erguiam, vorazes. Depois, tombou, com um som de lata, que deixou todas as pessoas hipnotizadas.
O resto da luta já não vi porque os meus óculos jaziam no chão, falecidos e estilhaçados.
Nem deu para perceber quem tinha ficado com a última caixinha. Foi aliás o primeiro rumor de que começavam a esgotar os produtos de luxo. E aquilo iniciou o pânico no centro comercial, onde se acotovelavam dezenas de milhares de consumidores, naquelas frenéticas e derradeiras horas das compras.
O pânico de consumidores rapidamente se propagou à loja de vinhos raros e à ourivesaria ao lado. De súbito, corriam pessoas aos gritos (como se tivesse estalado um incêndio) sobre a escassez de Laffite 31; "Já só resta uma garrafa", dizia um homem de braços no ar, com ar desvairado. "Compro, compro", ordenava um empresário, que engolira pelo menos meio charuto.
Eu tinha os óculos tão partidos, que estava a ver tudo muito fragmentado e até desfocado.
Nisto, houve uma correnteza da classe média, que vinha em sentido contrário, vociferando contra a falta iminente de produtos desta classe menos endinheirada. "Esgotaram as canecas de louça com frases brejeiras", gritava uma mulher, visivelmente alarmada; "não há mais pares de meias para oferecer", dizia outra, olhos muito abertos.
Vira antes sinais de uma verdadeira crise capitalista, mas nunca assistira a um alvoroço de consumidores. Sei que, na véspera, certos banqueiros entraram em pânico ali perto do Marquês. Foram vistos alguns, aos gritos, porque se estava a derreter todo o seu dinheiro dentro da caixa-forte.
Compreendo os banqueiros. Isto de derreter dinheiro é coisa séria.
Também compreendo os terrores dos líderes da oposição. Foi avistado um, desvairado, com choque pós-traumático e martelo pneumático na mão, a gritar que ia demolir o estado em seis meses e partidarizar o que sobrasse. O stress natalício foi excessivo, pois não é suposto dizer-se mal de alguém. Para mais, quando um governo faz tudo aquilo que a oposição prometeu, não há mesmo solução. Vivemos em tempos estranhos: a esquerda e a direita estão fundidas numa só entidade, tal como o meu cérebro. Desaparecem as referências. O governo é a única oposição a si próprio. E os ricos agem como os ricos, enquanto os pobres, por inveja ou tontice, só sabem imitar.
Mas voltemos ao caso. Fui arrastado pela correnteza da classe média, entre cotoveladas, murros e calduços; lutei com um homem disfarçado de pai natal que me tentou passar uma rasteira; passei por várias lojas de telemóveis fashion, jaguares e roupa de marca, onde iguais tumultos estavam em progresso. Ao fundo, aproximava-se a polícia de choque, que começou a distribuir valentes bastonadas. Mas o mais horrível foi quando a multidão enfurecida começou a lançar contra os polícias frascos de perfume Chanel, à maneira de cocktails molotov. Parecia uma final porto-benfica ou um arraial de porrada dos santos populares. Ficou a devastação de belos presentes de Natal destruídos, todos dispendiosos, e as montras sistematicamente partidas, tal como os meus óculos.
Quando dei por mim, tinham-me roubado os cinco euros, certamente alguém se aproveitara durante os apertões. Fiquei sem dinheiro para comprar um presente para a Clotilde. Ainda pensei em levar alguns cacos do rescaldo dos incidentes, mas estava tudo em pedaços.
Pensei, pensei... E decidi oferecer à minha Clotilde um beijo daqueles e, depois, desfazer-lhe o penteado numas cambalhotas, enquanto lhe desejo um bom natal...

Adolfo Ernesto


Este texto inspirou-se numa excelente crónica, essa séria, de Eduardo Pitta, que pode e deve ser lida aqui



O mau jornalismo


Ia a passar pelo Marquês, quando vi o Naves, de chapéu e gravata. Além de gordo, o homem parecia mesmo irritado. Aproximei-me, um pouco a medo, não fosse ele ter uma fúria. Só depois de perceber que já não ia reagir mal à minha presença é que lhe perguntei o que tinha.
"Sabes lá, Adolfo Ernesto! Estou farto!"
Quando o meu amigo diz estas coisas, o melhor é não insistir. No máximo, esperar que ele explique.
"Fui acusado de pensamento único pelo pensamento pré-fabricado", explicou.
"E o que é isso?"
Contou-me que tinha estado na cimeira EU-África e, depois, na assinatura do Tratado de Lisboa, a fazer a cobertura jornalística para um conhecido diário.
"Que giro", disse eu, "também estive no Tratado de Lisboa, a servir à mesa, no banquete. Até tive uma conversa engraçada com um poderoso deputado. Isso foi antes de aparecer a brigada da ASAE, que mandou fechar tudo, porque não estava de acordo com os padrões de uma directiva comunitária. Levaram as travessas e ninguém comeu".
"Não sabia disso..."
"A imprensa anda distraída e não conta estas coisas..."
De repente, o meu amigo explodiu de irritação:
"Também tu, bruto!"
Só então explicou o problema: estava aborrecido com o que tem saído nos blogues sobre o trabalho da comunicação social nas questões europeias. Que ninguém explica o tratado, que os jornalistas são todos propagandistas.
"Até no Corta-Fitas me chamaram propagandista. Mas há uma data de blogues onde dizem abertamente que ninguém explica o tratado. Ora, explicar é o que eu tento fazer. Aquilo é muito complicado. Se escreves comprido, ninguém lê. Se escreves curto, não explicas nada. Mas como me limitei a contar o que vi nas cimeiras, sem opinar, vá de levar bordoada. Estas não foram as cimeiras do porreiro, pá, mas as cimeiras da porrada, pá. Vê por exemplo os do Bloco de Esquerda, como miguel portas . Ninguém explicou o tratado, afirma ele. Mas bastava ter lido o Diário de Notícias, o Público, o Correio da Manhã, o JN, a Visão ou o Expresso, entre outros. Eu, entre outros, ando há meses a explicar este tratado, e antes expliquei a Constituição, ouviste, Adolfo Ernesto?"
O Naves estava no meio do Marquês, a gritar a plenos pulmões. Apesar do trânsito, eu estava a ouvi-lo bem.
"Houve um blogue, de Miguel Vale de Almeida, segundo o qual a comunicação social estrangeira é que tinha os títulos correctos. Que a nossa estava toda errada. Não resiste a cinco minutos de análise. Se olhares com atenção, nós escrevemos as mesmas coisas que os nossos colegas espanhóis, franceses ou ingleses. Com uma excepção, na cimeira EU-África ninguém viu o Mugabe. Mas os ingleses só falavam no Mugabe".
"Uns hooligans, os ingleses..."
"Os que criticam os jornalistas são muitas vezes políticos e, portanto, têm uma agenda política. Se aquilo que os jornais dizem não coincide com aquilo que eles querem que os jornais digam, então, os jornalistas são propagandistas. Em vez do pensamento único é a opinião pré-fabricada. Quando alguém tem a nossa opinião, é um excelente analista. Quando se limita a contar o que viu, é um propagandista. Esta é a melhor maneira de criticar o jornalismo. Excluído este, ficam apenas as explicações parciais da realidade".
"Eu às vezes também sinto problemas com parcelas da realidade", afirmei, sagazmente. "É como que um ardor no estômago".
A minha longa experiência de acalmar feras (cheguei a trabalhar num circo) resultou. O Naves acalmou e até parecia um cordeirinho. Ele estava satisfeito com a minha afirmação convincente. Escondi-lhe que, na qualidade de cidadão, adoro ideias pré-fabricadas. Com um cérebro fundido, como o meu, quero é a papinha toda feita, incluindo opiniões fast-food que possa ruminar no próximo jantar do Corta-Fitas.
"Ò amigão, faz-me um favor!", pedi eu, já na despedida.
"Se puder..."
"Isto dava uma boa crónica. Importas-te de pôr lá no blogue o meu textinho sobre esta conversa? Eu não posso, porque tenho a net toda arrebentada"
"Não me importo assim muito...".
Passei-lhe o papel para a mão, para ele copiar. Acenei ao Naves e fui fazer as minhas compras de Natal.

Adolfo Ernesto

Tratemos de Europa

O eurodeputado estendeu-me o copo, mas a princípio hesitei. Depois, inclinei a garrafa de Quinta dos Carvalhos 2004. Enchi o seu copo e ele ficou visivelmente satisfeito.
“Tu não és o Adolfo Ernesto?”, perguntou, com forte pronúncia da Saxónia.
“Sim. Mas não estou aqui como filósofo político. Estou aqui como empregado de mesa”.
Era a pura verdade. A cerimónia até foi bonita e observei tudo da varanda, onde esperava o banquete. Vi como a Europa deu um passo atrás e dois para a frente. Ou terá sido ao contrário, já não me lembro...
No claustro do velho convento, um cenário magnífico e multicolor. Estavam todos os famosos. Um clima excelente de confraternização.
“O que achaste dos tenores da Europa, Adolfo Ernesto?”, perguntou o poderoso dirigente, que entretanto engolira todo o tinto e pedia reforço. Inclinou-se, entaramelou os olhos, à espera da minha resposta.
Pensara ter assistido a uma assinatura de um novo tratado, mas esta informada pessoa esclarecera-me finalmente sobre a natureza daquele espectáculo de luz e som.
“Não cheguei a perceber bem”, ensaiei, com cuidado, pois não gosto de passar por ignorante. “Chamavam os tenores de cada país, mas nenhum deles cantava; limitavam-se a escrevinhar qualquer coisa no livro. Até pensei que estivessem a dar autógrafos. No fim, até houve uma canção, e ninguém votou nela”.
“Pudera, se a Dulce cantasse mais uma vez, havia uma crise europeia. Só o Sarkozy é que gostou da Dulce, com aquela touca de banho. Os cipriotas estavam prontos para sair da própria União”, explicou o meu interlocutor. “Felizmente, ela parou de cantar, o que impediu a ruptura das negociações”.
Enchi outra vez o copo dele.
“Mas julgo que não entendeste bem o que se passou aqui”, insistiu a personagem. “Mencionei tenores, mas não era de música. Designava os poderosos, a liderança, os que têm”.
“Ah! Mas então, não se diz tenores, mas possidónios, no sentido da posse”.
“Desculpa, mas a vossa maravilhosa língua portuguesa é tão difícil”, lamentou-se, com forte pronúncia da Saxónia. Depois, mudou de tema: “E o que achas desta nova Europa?”
“Tínhamos a tradição de dar 12 pontos à canção espanhola e eles davam 12 pontos à nossa. Era um arranjo simpático. Mas agora é mais difícil, porque há as coligações de países de leste, que competem contra nós pelos pontos. No fim, ganha sempre a canção irlandesa”.
Ele só dizia “wunderbar”. Bar tem a ver com vinho, chamei um colega, que é versado em coisas da bola e tinha na mão uma garrafa de branco, por abrir. E o meu colega meteu-se na conversa do seguinte modo:
“Na Europa, a competição entre clubes é feroz. É preciso evitar os grandes, ou não vamos longe”, disse. “É a sina dos pequenos. Não têm dinheiro para comprar bons jogadores ou bons árbitros e, depois, levam três secos. Mas estes gajos novos do leste são mais nabos e a gente consegue dar-lhes três secos a eles. E, no fim, ganham sempre os alemães”.
O deputado estendeu-me o copo, enquanto abanava furiosamente a cabeça.
“No fundo”, continuei, “há uma concentração de mercado vitivinícola no cabernet sauvignon, ou tendência para que este gosto se torne dominante, tornando invisíveis todos os outros. São as forças do mercado a funcionar, produzindo uniformização e massificação, onde devia existir sobretudo a diversidade. E, no fim, ganham sempre os franceses...”
“Cala-te, Adolfo Ernesto”, pediu o importante político, já convencido. “Pede à Dulce para cantar mais uma canção. Talvez ainda vá a tempo...”

Adolfo Ernesto

Não se admite

por Corta-fitas, em 13.12.07
A ausência do nosso Adolfo Ernesto num dia histórico como este.



Conversa em futebolês

Adoro discutir futebol, porque ninguém consegue ser racional durante uma discussão sobre futebol e, como sabem, tenho fascínio pelo irracional. Mas há sempre saborosas excepções. No bar futebolândia, onde costumo passar nas noites de derby, só há inteligentes análises e os utentes usam uma linguagem específica, o futebolês, nas suas sofisticadas conversas.
Também vão lá algumas pessoas que usam gel no cabelo.
Ontem, o Pedro e o Francisco estavam a discutir o seleccionador nacional e aquilo contagiou toda a gente. De súbito, não havia ninguém que não estivesse a discutir os méritos do senhor Scolari. Excepto eu, que estava sentado no bar, minding my own business, quando chegou um tipo (de gel na cabeça e cabelo espetado) que me perguntou o que eu pensava das tácticas do senhor Scolari.
“De facto, interessa-me mais a estratégia dele”, expliquei.
“Sem eggs no Hamlets, não acha?”
Fiquei calado, a saborear o meu uísque, enquanto ele desatava numa procastinação sobre acessibilidades, tecnicidade, a cobrança de cantos e a estatística de jogadas de cabeça.
“Acho fundamental poder encostar para o golo, reforçar o flanco esquerdo, mais talento e polivalência”, disse ele, com grande convicção. “Da primeira vez que tocou na bola, o senhor selecionador transformou um defesa de raiz num segundo poste, ainda por cima em crise de forma, apesar do remate forte e colocado. É preciso alavancar mais ataques e vitórias, não acha?”
“Se fala das clássicas vitórias morais, concordo”, respondi, para não parecer indelicado.
“E não teme que isso possa colidir com a nossa tradição da crítica permanente do sucesso?”, perguntou o desconhecido.
“A tradição evolui, como sabe”.
Ele ficou a pensar naquilo, com um ar muito sério.
“E o que acha do quatro, três, três?”
“Sou favorável... em princípio”
“Então, nesta questão, estamos os dois do mesmo lado. É preciso colocar mais unidades junto à baliza adversária, numa lógica de apostar em novos valores com grande categoria e confirmar a liderança com magia e individualismo”.
“Sim”, concordei, “numa palavra: Vencer”.
“Nesse ponto, discordamos. O importante é despedir o treinador”.
Bebi mais um gole (ou seria golo?) do meu uísque. Reflecti. Percebera, naquela conversa, que o sujeito não era adepto do meu clube favorito.
Ele deve ter percebido o mesmo e afastou-se, sussurrando um insulto irrelevante. Notei que tinha dois pés esquerdos, o tipo, além de gel na cabeça.

Adolfo Ernesto



O rapto

O Pedro Correia lançou aqui um rapto ao Luís Naves, para ele dizer aqui qual era a sua crónica favorita. Encontrei o Luís na rua, vinha perturbado, com aquela pança enorme. Falou-me do rapto:
“Sei lá qual é a minha crónica favorita? É o mesmo que me perguntarem qual é o meu livro favorito”, disse ele.
Tentei confortá-lo:
“Para mim, era fácil responder a essa pergunta. Como só li cerca de 15 livros...”
“Talvez tu possas escrever a prosa...”
Ficou logo ali combinado que seria eu a explicar aos leitores isto da arte da crónica.
O melhor cronista que conheço é o Alcibíades, um gigante (muito parecido com o Jimmy Stewart) que está a escrever a crónica desde país tristonho e melancólico, amargurado e sorumbático. Infelizmente, a obra dele ainda não está publicada. O meu amigo ocupa o seu tempo a recortar velhos jornais, na cave onde mora, que está atafulhada de pedaços de textos que ele depois cola e anota, para integrar na sua vasta obra.
(O Naves diz que ele se parece com o Joe Gould “tal como foi descrito pelo genial cronista Joseph Mitchell, na sua obra ‘O Segredo de Joe Gould’”. limito-me a reproduzir o que o Naves disse).
Mas regressemos ao rapto, como se fôssemos Miss Marple a perseguir o professor Moriarty.
O Alcibíades é homem de poucas falas. Quando lhe perguntei o que devia explicar sobre isto da crónica, ele fez um ar pensativo, severo, absorto, cogitabundo e até vagamente sorumbático.
“Há dez regras: sendo a crónica um género literário, é fundamental elevar a hipérbole e desenvolver a substância”.
Fiquei extasiado.
“E as outras nove regras?”, perguntei.
“As outras sete são o prolongamento do ego e a faculdade opinativa, numa perspectiva de realismo brutal”.
“E o que usas para observar a realidade?”
“Prefiro a teleobjectiva aos binóculos”.
O Alcibíades parecia um bonzo imerso em pensamentos cavados, profundos, abissais e desmesurados. Sem dúvida, sorumbáticos.
“Isso torna difícil compreender a verdadeira arte da crónica”, exclamei, verdadeiramente surpreendido, a tentar quebrar aquele solilóquio.
“Dizes bem, Adolfo Ernesto. Uma bela crónica é como uma mulher bela. Nós, homens, gostamos delas redondinhas e esfuziantes”. O Alcibíades perdera o seu ar sorumbático, “Foi por isso que me tornei cronista. A realidade numa crónica é como a curvatura de uma cintura feminina, a redondez de um ombro feminino, a hesitação do artista perante um adjectivo feminino, ou até de um sorriso feminino, enfim, numa palavra, a imprecisão indefinida, mas ao mesmo tempo física e absolutamente concreta”.
“E qual é a tua crónica favorita?”
“Gostei de uma crónica do Art Buchwald, que ele escreveu pouco antes de morrer: o cronista estava num aeroporto, onde esperava um avião para o céu, e transformava a sua crónica numa descrição da confusão dos aeroportos na época de Natal. Um hino à vida e coisa de mestre, com humor auto-irónico que ainda hoje me faz rir e pensar”.
“Então, Alcibíades, a crónica não tem de tratar sempre do efémero?”
“Pode ser fútil, sim, mas anda tão confundida com a opinião editorial que se banalizou, como se tornou banal a espuma na superfície das águas. E, apesar de tudo, pode ir até aos abismos da alma. Há quem consiga”.
Foi mais ou menos assim que ele falou. Confesso que não percebi metade, mas não sou cronista. Limito-me a andar pelo mundo, a relatar o que vejo, aquilo que imagino e o que poderia ser. É esta a minha visão, distorcida pelo meu cérebro com duas metades coladas uma à outra.
Despedi-me do Alcibíades e deixei-o com os seus recortes de jornais, sorumbático, a fragmentar o mundo. "Ah! E não te esqueças de um bocadinho de poesia, que é o mais importante", rematou ainda..."E como isto é uma corrente, passa a bola ao doce poeta lírico".

Adolfo Ernesto



O programa nuclear

O Hugo é um compincha, mas tem um feitio terrível. Começou a sua carreira como tenente-coronel paraquedista. Um dia, o salto correu mal e ele bateu com a cabeça. Foi aí que lhe surgiu a ideia de ser um típico caudillo latino-americano, porque tinha lido uma aventura do Tintim e aparecia aquele general Alcazar, que também é porreiro. Como o Hugo é voluntarista, dito e feito, agora é caudillo. A nossa amizade remonta ao tempo em que estivemos os dois exilados em Cuba, em tratamento. Ainda lhe chamo Huguito e ele trata-me por Che, que é uma forma de pá: “Tenemos lazos de amistad y hermandad antiimperialista, Adolfo Ernesto”, costuma dizer.
Hoje, o Hugo passou por aqui, em busca de almas gémeas, de companheiros de rota, como dizem os franceses. Fui vê-lo à sala VIP.
“Una viaje peligrosíssima, la antiaérea española intentó abater my avión. Soy el quinto exportador de petróleo del mundo”, estava o Hugo a explicar a um dos funcionários do SEF, que exigia um documento que provasse que o Hugo era quem dizia e não vinha para a emigração clandestina.
Exijo respeto para Irán”, exaltou-se o meu amigo, quando o tipo de SEF lhe perguntou para onde ia o presidente e a comitiva: “Para onde irão?”. Houve ainda uma acesa troca de palavras em torno dos conceitos de presunto implicado, mas tudo se regularizou quando o Hugo me viu. Foi uma grande festa, pá, com abraços e lágrimas. “Ay valores regulares”, dizia o meu amigo Hugo, enquanto me convidava para o visitar no seu país, onde lidera um processo político arrojado e inovador, muito apreciado pela esquerda moderna.
Tu vienes a mi país, para una estancia. Tengo hoteles de la revolución y un programa nuclear. Esse es un nuevo programa en television publica, donde yo soy el nucleo, pois hablo seis horas”.
Estava muito entusiasmado com estas inovações. O Hugo diz que quer transformar o seu, até agora, obscuro país num farol da revolução internacionalista, numa perspectiva dialéctica e de desenvolvimento sustentado.
Portugal será central para criar um eixo imbatível (América Latina, Portugal, Irão), para controlar a energia global e fazer uma finta ao império fascista do senhor Bush e do outro rapaz espanhol, de bigode, que já foi afastado e cujo nome me escapou entretanto.
Portugal es vital para mi estratégia”, explicou o Hugo, com um brilho nos olhos.
Eu já tinha posto o tipo do SEF em sentido, mas ele não desistia de querer controlar. Não se calava:
“Faço votos para que o senhor tenha uma boa estadia neste país”, disse o tolo do funcionário. O que foi ele dizer!
Por que no te callas? Votos? Falaste em votos, espécie de homúnculo pró-americano? Seu lacaio da burguesia putrefacta, seu eurocrata buxista, espécie de drácula da retórica. Eu, quando ouço a palavra votos tiro logo a minha pistola”.
Ainda tentou sacar a pistola, para abater o energúmeno, mas consegui a tempo evitar um novo incidente diplomático.
O Hugo entrara em parafuso, quase em órbita, numa irritação que só uma vez atingiu aquela dimensão tão épica e ciclónica, quando decidiu desmantelar a assembleia nacional, literalmente, pedra por pedra.
Já não há respecto por un idealista”, lamentou-se o Hugo, com um véu de melancolia naquele olhar solidário.
“Sim”, concordei, “Vivemos em tempos muito tristes”.

Adolfo Ernesto



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Eu sou uma das parvas que le tudo e ha' dias estav...

  • Anónimo

    Pereira dos Santos,Para mim, é sempre agradável lê...

  • Anónimo

    Mendonça da Cruz,Breve e limpo.Continua no post de...

  • Anónimo

    José Mendonça da Cruz,Muito bem. Os comentários co...

  • Anónimo

    "Merdia" portuguesa, um imenso , ignorante , mas p...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2008
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2007
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2006
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D