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Combate desigual

por João Távora, em 06.08.19

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(…) Concebido assim, nenhum Rei é obstáculo. A nenhum ideal político o rei é oposto. A nenhum homem e a nenhuma ideia. Só ele é por si, um princípio de síntese, de integração histórica dos contrários no processo evolutivo da vida nacional. Só o rei, só o princípio real, contem a força política autónoma que o torna «indiferente». O Rei não precisa de partido porque não é votado; não precisa de propaganda porque não é efémero; não precisa de conquistar o poder porque está para além do poder.

O princípio da autoridade, que nele se contém é como o fundamento da participação de todos nós no mistério do poder. Nas grandes crises nacionais, nas épocas em que a Nação busca ansiosamente rumo, como é a nossa, só o Rei tem a virtualidade de se identificar com todos e com ninguém, de «servir», de realizar todos os ideais sem com eles se confundir, de consentir todas as esperanças sem que uma exclua ou mate necessariamente as outras. (…)
Não será necessário que a Nação viva livremente e que como outrora, da pujança nacional brotem gradualmente as formas genuínas da liberdade, da convivência e da política do homem português?
E quem garante a vida livre da Nação? Quem tem por si o dom de El-Rei, o dom da serenidade no poder, o dom de deixar, sem medo, brotar a liberdade?  (...)

 

Francisco Sousa Tavares in "Combate Desigual - Ensaios" 1960

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Domingo

por João Távora, em 04.08.19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 


Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo». Jesus respondeu-lhe: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?». Depois disse aos presentes: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». E disse-lhes esta parábola: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele pensou consigo: ‘Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’. Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

 
Palavra da salvação. 

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Mais um anito, Marco

por João-Afonso Machado, em 03.08.19

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Eles já pedalam outra vez e eu vi-te na televisão, finalmente, depois de anos seguidos apenas ouvindo o teu imenso anasalado saber - o que tu sabes, Marco!, essa tua enciclopédica torrente de esquemas tácticos e estratégicos, a geografia inteira do nosso Portugal, um cultura geral que impressiona pela sua latitude.

Mas estás mais velhote, de cabeça pelada e uns quantos sulcos na cara. Deixa lá, estamos todos... Há quantas décadas deixaste a prática velocipédica, Marco, depois de umas tantas Voltas ganhas e, se bem me lembro, de um ou outro escandalozinho com o doping?

Ficou-te a voz, a tua inesquecível voz, que tão bem vai com a musiqueta de sempre das reportagens televisivas sobre a prova e as imagens iniciais, antigas, pretas e brancas, vergadas ao peso das bicicletas, nada era como agora. Nem mesmo o público, proibido de se despir nas bermas das estradas. Mas numeroso, sempre, a Volta é um enigma, ainda não percebi porque gosto da televisão especialmente no tempo da Volta, e tudo seria diferente não estivesses lá tu, Marco, o mais famoso fanhoso nacional.

(Há um outro, também muito conhecido, mas nada percebe de bicicletas e, ao contrário de ti, é um grandessíssimo malcriado, dado a negócios menos limpos.)

Continua, Marco. Fala-nos todos os dias das «dorsais», das «fugas», do pelotão, dos «heróicos esforços» dos corredores. Temos-te para quinze dias! Manda um abraço ao Vidal Fitas, que com esse nome já ninguém o tira da História pátria. E diz-me, Marco, a edição deste ano volta a estar para os da W52/FCPorto... Sim?! Porreiro, pá!

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A qualidade do debate político

por henrique pereira dos santos, em 03.08.19

"Tu consegues mesmo ser a favor de um sistema em que, formalmente, alguém com média de 14 passe à frente de alguém com 15 apenas porque tem dinheiro?
Ó ..., tem juízo. O que fazes numa escola pública? Vai dar aulas numa privada, pá!"

Este comentário entre duas pessoas que se conhecem era a propósito da proposta do CDS sobre o alargamento da oferta pública do ensino superior com base no financiamento pelos utilizadores.

Pessoalmente não gosto muito da proposta e, não fora um bom texto de Alexandre Homem Cristo que enquadrava a proposta na realidade existente, e  seu esforço para encontrar racionalidade na proposta, talvez eu também a achasse absurda. Hoje penso que a proposta não é absurda - pode ser melhor ou pior, mas isso é outro nível de discussão - e prefiro de longe as propostas da Iniciativa Liberal sobre a matéria, em grande parte baseadas em contributos de José António Salcedo.

O que me interessa neste post não é tanto a discussão da proposta em si (não sei o suficiente sobre o assunto para dizer alguma coisa útil, limito-me a repetir argumentos que me parecem razoáveis e racionais), mas a qualidade do debate que permite passar-se de uma proposta política normal para o nível de argumentação acima (que está dentro da demagogia razoável que existirá sempre no combate político) ou, pior ainda, para o nível do artigo de Susana Peralta, ontem no Público, cuja seriedade pode ser bem avaliada pela rasquice do seu parágrafo final: "Já Cristas parece não ter pudor em avançar com uma ideia que só serve para ajudar meia dúzia de filhos e filhas de boas famílias como a sua".

Qual é a situação actual?

Quando um aluno não entra por não ter média, o aluno de catorze, com dinheiro, pode inscrever-se no ensino superior privado ou ir para o estrangeiro, e o aluno de quinze, sem dinheiro, não pode. Ou seja, a injustiça base que é feita aos mais pobres não é alterada com a proposta do CDS (a proposta poderia facilmente ser completada com um esquema de apoio público com base numa condição de recursos em que a Acção Social se substitui à família no pagamento da propina integral, como fazem muitos dos governos estrangeiros que apoiam os alunos estrangeiros que têm acesso ao que o CDS agora preveria alargar para os alunos nacionais, isso seria discutir racionalmente as fragilidades da proposta).

O que a proposta faz é alargar o leque de escolhas do aluno que pode pagar (não são meia dúzia de pessoas de boas famílias como demonstrou Alexandre Homem Cristo, até porque, se assim fosse, grande parte do ensino superior privado em Portugal não seria viável) ao mesmo tempo que permite alargar a oferta estatal de ensino, com base no financiamento pelos alunos e não pelos contribuintes (o Estado não tem margem para pedir mais dinheiro aos contribuintes e como anda entretido a enterrar dinheiro na TAP, em golas para sensibilizar pessoas, em festas ou em agendas caras pagas por fundos comunitários, naturalmente falta-lhe para o essencial).

Com esta proposta, a injustiça base não se altera, aumenta a escolha dos que já hoje têm escolha, diminui-se a iniquidade do Estado impedir aos seus cidadãos o acesso a um serviço nas mesmas condições dos estrangeiros extra-comunitários e reforça-se a possibilidade do ensino superior público alargar a sua oferta, diversificando e aumentado as suas fontes de financiamento.

Se eu acho a proposta boa? Não particularmente, acho-a demasiado orientada para melhorar ligeiramente sintomas em vez de procurar ir à raiz do problema, mas achar isto, argumentar sobre isto é completamente diferente de levar a discussão para a demagogia barata para que rapidamente o debate foi levado, com proclamações sobre o que deveria ser o Estado se não tivesse restrições de recursos, sem qualquer efeito prático na situação actual: os pobres acedem pouco e com muito mais esforço ao ensino superior público, porque a escola (desde os primeiros níveis de ensino) não está desenhada para os ajudar a cobrir o fosso socio-económico que os separa dos alunos de classe média e alta. Aparentemente (também tenho direito à minha quota parte de demagogia) isso não é grande drama desde que "formalmente" asr notas sejam tratadas de forma igual no momento de acesso ao ensino superior estatal.

É pena que o debate político esteja neste nível, que é o nível que permite aos estatistas defender o fecho de escolas, ou a restrição dos mais pobres a escolas reconhecidas pela sua qualidade e abertura social mas que, ó horror, não são do Estado.

Antes todos fora da escola (como os tais alunos de 14 e 15 do princípio do post), que soluções parciais que reconhecem o facto de haver desigualdades sociais e económicas, abrindo espaço para a discussão de como as resolver, em vez de se esconderem num formalismo igualitário que não vê o elevador social avariado.

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Luta de classes

por João Távora, em 02.08.19

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- Ah, então os senhores vão-se já embora amanhã? Passa-se num'estante, não é? Olhe, eu toda a vida não sei fazer outra coisa qué trabalhar. Aqui há atrasado, a minha filha, que está a fazer um mestrado no Hospital de Silves, arranjou-me lá um apartamento para eu ir passar três dias a descansar, e ao cabo de umas horas pus-me a virar o apartamento de cabeça para baixo a fazer uma limpeza a fundo. Nunca mais via a hora de voltar prá minha casa e pró meu trabalho...

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Experiência piloto sobre uma proposta de Miguel Poiares Maduro

por henrique pereira dos santos, em 30.07.19

Um destes dias, Miguel Poiares Maduro defendia a ideia de que os jornais deveriam ter editores para os textos de opinião, isto é, alguém que lendo um texto de opinião se encarregava de verificar a fundamentação das afirmações factuais.

Acho a ideia boa, mas tem o problema de deitar para o lixo grande parte dos textos de opinião, deixando os jornais sem opinião para publicar.

Exemplifiquemos com um texto ao acaso: "Pirómanos de fósforo na mão" do especialista em fogos Francisco Louçã.

"pode ser que só dentro de alguns anos uma pista fortuita nos permita conhecer com exatidão como começaram estes incêndios"

Facto: a investigação das causas de fogos é de muito boa qualidade e, em especial para os grandes fogos, é feita quase sistematicamente produzindo resultados em muito pouco tempo.

"num dos meses de julho mais frescos e até chuvosos de que nos lembramos"

Facto: Este mês de Julho até pode ter sido dos mais frescos e chuvosos de que nos lembramos (saberemos isso dentro de dias quando o IPMA fizer essa análise), mas isso não diz nada sobre o facto de alguns dos dias desse mês terem sido muito secos e com vento, as condições em que os fogos se desenvolvem facilmente.

"As populações a denunciarem fogo posto."

Facto: todos os estudos feitos sobre o assunto, quer em Portugal, quer em Espanha (na realidade, noutros países também) demonstram que a percepção do público sobre a origem dos fogos é substancialmente diferente dos resultados da investigaçao objectiva sobre a origem dos fogos, sendo o fogo posto tipicamente muito mais considerado na percepção pública que o que na realidade resulta da investigação objectiva.

"Os eucaliptocratas exigem helicópteros e aviões."

Facto: a menos que por eucaliptocratas se entenda os bombeiros, a protecção civil e as populações que, esses sim, exigem sempre mais helicópteros e aviões, a verdade é que os maiores produtores comerciais de eucalipto, que são a própria indústria, são os únicos que têm uma corporação de bombeiros florestais profissionais, pagas por si próprios, que têm 95% das suas intervenções fora das suas propriedades (não por altruísmo, com certeza, mas porque é a maneira mais eficaz de defenderem o seu património). E o que exigem, sempre, é gestão florestal e combate ao abandono, nunca os ouvi reclamar mais meios de combate.

"A floresta está tão abandonada, tão combustível e tão condenada como sempre esteve"

Facto: tem havido uma evolução, perfeitamente documentada, no sentido de um abandono crescente, ou seja, não é verdade que sempre tenha estado assim, o abandono tem crescido. Este aspecto é ainda ampliado pelos grandes fogos, responsáveis por homogeneizar a vegetação, potenciando os efeitos do abandono na disponilidade, continuidade e homogeneidade dos combustíveis.

"No fundo, todos sabemos que nada se modificará enquanto houver eucaliptos a mais"

Facto: foi recentemente publicado um estudo que avalia de forma abrangente a eventual relação entre a expansão do eucalipto e a evolução dos incêndios, sendo a conclusão diametralmente oposta à que Francisco Louçã escreve no seu artigo: não há relação relevante entre a expansão de eucalipto e a evolução dos fogos em Portugal.

"Como é que autarcas, que sabem que as populações denunciam as ações de quadrilhas de incendiários, não exigem resultados das perícias policiais, investigação cuidada das ignições e ação musculada contra o delito?"

Facto: existem anos de investigação da Policia Judicária e muita informação pública sobre o perfil dos incendiários e sobre o seu papel nos incêndios em Portugal. O que essa investigação demonstra é que não faz o menor sentido pretender que o problema dos fogos está nos incendiários, e que embora exista uma investigação cuidada e uma acção musculada sobre o assunto, a verdade é que isso é marginal para a gestão do problema.

"Como não sou o único a notar que há concelhos que parecem estar marcados para a repetição dos fogos, creio que a resposta é óbvia."

Saltemos por cima do facto do óbvio ser uma coisa muito subjectiva (por exemplo, para mim a única coisa óbvia é a ignorância sobre o assunto de quem escreve um texto como este) e fiquemos pelo facto menos óbvio, mas muitíssimo bem estudado e documentado, de que os dois factores que explicam a frequência e distribuição do fogo em Portugal são a meteorologia (esmagadoramente, penso que com qualquer coisa como 80%) e o tempo decorrido desde o último fogo. Na verdade os concelhos do centro, sem gente nem gestão, ardem menos vezes que os concelhos do distrito do Porto e Braga, o que têm é incêndios muito maiores, quando ocorrem (Mação tinha ardido em 2003 e 2005, voltou a arder em 2017 e 2019, agora irá voltar a arder lá para 2030/ 2035, mais ano menos ano).

Ou seja, embora a ideia de Poiares Maduro seja boa, percebe-se por que razão os jornais não a adoptam: ficavam sem estes comentadores que tanto os entusiasmam (note-se que a questão é geral, usei um exemplo, mas se pegasse em qualquer texto de Miguel Sousa Tavares sobre eucaliptos e o expurgasse das asneiras comprovadas pela investigação sobre o assunto, não havia texto para publicar nessa semana).

E, na verdade, as teorias de conspiração e o pensamento mágico - jornais continuam a publicar horóscopos, que admito que tenha sido a secção a que este texto estava destinado - vendem muito mais que o pensamento racional, de base científica, de maneira geral uma coisa bem menos excitante.

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Postais de férias 2

por João Távora, em 30.07.19

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Não há populismo mais descarado do que o daqueles que prometem, já não apenas salvar os portugueses, mas salvar o planeta. A primeira promessa é definitivamente uma completa utopia.

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Postais de férias 1

por João Távora, em 30.07.19

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Tive uma ideia: para ganharmos qualquer coisinha de vez em quando mudamos todos para o PS e formamos uma tendência. Talvez assim, o que é que acham?

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Tarefas delegam-se, responsabilidades não

por henrique pereira dos santos, em 29.07.19

O caso das golas nem é especialmente chocante nem sequer é o primeiro caso nebuloso à volta dos dinheiros da protecção civil.

Mais que isso, o que tem vindo a ser descrito é apenas o que toda a gente sabe que é a realidade da gestão intermédia na administração pública, em especial na administração que interage com as organizações do bem (segurança social, bombeiros, ONGs e por aí fora) e a administração que administra em permanente estado de emergência e urgência (protecção civil, fundos de apoio de emergência e por aí fora), em que as regras do Estado são preteridas em nome de um bem maior, seja por normas excepcionais, seja pela vulgaríssima prática da administração pública entregar dinheiro a organizações privadas (como bombeiros, ONGs, misericórdias, associações de solidariedade várias, SOS racismo, fundação para as telecomunicações, fundação da prevenção rodoviária, associações de desenvolvimento local, e tutti quanti) para que o gastem nos fins que o Estado pretende, mas sem o incómodo das regras que se aplicam aos gastos públicos.

"Veja lá se conhece mais duas empresas para consultarmos para lhe podermos adjudicar isto" é do mais trivial que se ouve no país inteiro.

E isto tem duas origens centrais: 1) uma lei que é estupidamente restrita nos formalismos, mas mais que deficiente na transparência e avaliação sucessiva; 2) uma cultura instalada de jeitinho que é praticada por responsáveis de todos os partidos, incluindo os que não têm partido nenhum (se dou este exemplo do PC não é porque o PC seja mais ou menos permeável a isto, é porque há muita gente que acredita na superioridade moral do PC nestas matérias, tal como há muita gente que é incapaz de ver a menor sombra de nepotismo no facto da filha de Francisco Louçã ser assessora do grupo parlamentar do BE).

Sócrates não foi o que foi por acaso, Sócrates foi o que foi porque compreendeu muito bem o contexto em que estava e sabia que o método é pegar num presidente de câmara, fazê-lo membro do governo, permitir-lhe que contrate um rapaz lá da terra que resolve problemas em vez de complicar e, se a coisa der para o torto, ainda serve de fusível. Lá mais para a frente se lhe pagará o favor de se manter calado.

Isto só é possível numa sociedade que desconhece que tarefas se delegam, mas as responsabilidades ficam com quem delega.

O PS funciona assim, e está em vias de ganhar as eleições, porque o país se reconhece, quer no rapaz esforçado e trabalhador que vindo de uma pequena vila do fim do mundo se consegue encaixar na corte, quer no cortesão que não esquece os amigos e o apresenta à corte, quer no rei que finge nada ver, nada ouvir e nada saber, "que o tipo pode ser intruja mas é esperto".

Cada voto no PS (e, já agora, em Rui Rio) é uma manifestação de confiança e contentamento nesta forma de ser, de olhar para a coisa pública e para os impostos.

A demisão do adjunto é apenas o resultado de alguma coisa ter corrido mal, ao contrário do habitual e será absolutamente irrelevante para o que vier amanhã.

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Um pedido de esclarecimento

por henrique pereira dos santos, em 29.07.19

É mesmo verdade que boa parte dos que embandeiram em arco (e muitos outros cuja omissão é um apoio que se pretende negar na altura propícia) com a possibilidade de Mário Centeno ir para o FMI se entretiveram a zurzir, metódica e audivelmente, o facto de Vítor Gaspar ir para o mesmo FMI?

Eu não acredito que a gente impoluta que escreve no Esquerda.net (apenas um exemplo, claro) ainda não tenha feito um artigo a explicar que Centeno ir para o FMI é uma recompensa pela sua submissão aos interesses do grande capital, reconheço que o facto de eu não encontrar qualquer referência nesse sentido deve ser só incompetência minha na procura que fiz.

O máximo que encontrei foi uma pergunta do senhor que para ter tempo para escrever coisas destas tem uma senhora que ajuda lá em casa (e que se dispôs a ter um lugar decorativo numa organização nada incapaz e agressiva, como o Banco de Portugal): "Então a pergunta que sobra é: por que carga de água é que alguém há-de querer ser o chefe de uma organização tão incapaz e tão agressiva?".

Que fofinhos.

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Domingo

por João Távora, em 28.07.19

Leitura do Livro do Génesis 


Naqueles dias, disse o Senhor: «O clamor contra Sodoma e Gomorra é tão forte, o seu pecado é tão grave que Eu vou descer para verificar se o clamor que chegou até Mim corresponde inteiramente às suas obras. Se sim ou não, hei-de sabê-lo». Os homens que tinham vindo à residência de Abraão dirigiram-se então para Sodoma, enquanto o Senhor continuava junto de Abraão. Este aproximou-se e disse: «Irás destruir o justo com o pecador? Talvez haja cinquenta justos na cidade. Matá-los-ás a todos? Não perdoarás a essa cidade, por causa dos cinquenta justos que nela residem? Longe de Ti fazer tal coisa: dar a morte ao justo e ao pecador, de modo que o justo e o pecador tenham a mesma sorte! Longe de Ti! O juiz de toda a terra não fará justiça?». O Senhor respondeu-lhe: «Se encontrar em Sodoma cinquenta justos, perdoarei a toda a cidade por causa deles». Abraão insistiu: «Atrevo-me a falar ao meu Senhor, eu que não passo de pó e cinza: talvez para cinquenta justos faltem cinco. Por causa de cinco, destruirás toda a cidade?». O Senhor respondeu: «Não a destruirei se lá encontrar quarenta e cinco justos». Abraão insistiu mais uma vez: «Talvez não se encontrem nela mais de quarenta». O Senhor respondeu: «Não a destruirei em atenção a esses quarenta». Abraão disse ainda: «Se o meu Senhor não levar a mal, falarei mais uma vez: talvez haja lá trinta justos». O Senhor respondeu: «Não farei a destruição, se lá encontrar esses trinta». Abraão insistiu novamente: «Atrevo-me ainda a falar ao meu Senhor: talvez não se encontrem lá mais de vinte justos». O Senhor respondeu: «Não destruirei a cidade em atenção a esses vinte». Abraão prosseguiu: «Se o meu Senhor não levar a mal, falarei ainda esta vez: talvez lá não se encontrem senão dez». O Senhor respondeu: «Em atenção a esses dez, não destruirei a cidade». 


Palavra do Senhor. 

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Do pessimismo...

por João Távora, em 26.07.19

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“A doutrinação é a pedra angular de toda a actividade politica, não só porque ela contém em si a garantia da expansão de princípios, como também porque só mediante ela é possível criar vontades decididas e convicções capazes de dar corpo aos princípios abraçados. É da adesão das inteligências mais do que das inclinações sentimentais, que há-de resultar a profunda transformação em geral desejada e considerada indispensável para a redenção de Portugal”.

Temo que esta coerente formulação de António Jacinto Ferreira, fundador e director do Jornal “O Debate”, o mais relevante órgão de comunicação monárquico que subsistiu com grande tiragem entre 1951 e 1974 quando após a revolução foi extinto pelo MFA, não passe afinal de um “wishful thinking”. Só isso justifica que toda a produção intelectual de uma excepcional geração de grandes pensadores e filósofos políticos do século XX português como Jacinto Ferreira, João Camossa, João Taborda, Francisco Sousa Tavares, Ribeiro Telles, Barrilaro Ruas, Mário Saraiva, António Sardinha, Hipólito Raposo, Pequito Rebelo, Almeida Braga, Alfredo Pimenta, e Alberto Monsaraz entre outros, tenha caído no quase completo esquecimento, e à qual urge fazer justiça num país que a cada dia mais se afunda no mais cínico niilismo sócio-existencial. Cada um por si tiranizado pelo curto prazo.

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Alexandra Domingos e o país

por henrique pereira dos santos, em 26.07.19

Este post não é sobre fogos, mas sobre bolhas sociais.

"Na tarde deste Sábado, dia 20, quando soaram as sirenes no centro do país, o Partido Socialista apresentava, em Lisboa, o Programa Eleitoral com o qual se apresentará às eleições de 6 de outubro.

...

Coincidências? Existem. Ainda assim fica a dúvida se por ora falamos de coincidências ou de clara intenção de apagar um momento mediático , de ofuscar e de colocar em causa o Governo de António Costa"

Nao inventei, não aparece no Inimigo Público ou na Imprensa Falsa, é mesmo a sério este texto da presidente da JS de Cascais e penúltima candidata a deputada pelo círculo de Lisboa.

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Vale a pena pensarmos o que andam a fazer os partidos e as respectivas juventudas partidárias quando uma militante, com relevância suficiente para ser presidente da JS de Cascais e candidata a deputada (mesmo no penúltimo lugar da lista), está tão ofuscada com o seu mundinho partidário e social que nem percebe o ridículo de escrever "centro do país" como letra minúscula, como se estivesse a referir ao centro geométrico e não a uma região, no mesmo texto em que escreve "Programa Eleitoral" com letra maíuscula.

Quanto à hipótese do fogo de Vila de Rei e Mação ter sido programado para ofuscar o momento mediático da apresentação do programa eleitoral do partido socialista, não tenho comentários a fazer, parece-me uma hipótese bastante provável e consistente com o que se sabe do comportamento do fogo. Só não percebi bem em que medida prender um incêndiário, num ponto do território distante, horas antes das cinco ignições destinadas a ofuscar a apresentação do programa eleitoral do PS, tem alguma relação com o assunto, mas com certeza sou eu que sou muito ingénuo e incapaz de ver que "isto anda tudo ligado".

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As pessoas livres são difíceis de controlar

por João Távora, em 25.07.19

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A razão porque a oligarquia ambiciona organismos intermédios frágeis e hostiliza comunidades naturais livres e robustas (a família por exemplo) é por medo de perder o controlo da agenda política que lhe convém. 

"Só o Estado construído sobre as comunidades naturais e sobre a radiação que elas difundem vê o seu poder referido à justa medida. Pelo contrário, todo o Estado sem sociedades é axiomamaticamente um Estado coercivo, policial, a armado de um arsenal de leis e regulamentos encarregados de dar sentido às condutas imprevisíveis do indivíduos. A sua tendência para o totalitarismo é directamente proporcional ao desaparecimento das comunidades naturais, à ruína dos costumes, ao desastre da educação."

Jacinto Ferreira - In Poder Local e Corpos Intermédios - 1983

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A destruição de valor como política de Estado

por henrique pereira dos santos, em 25.07.19

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Este mapa, produzido por Pedro Venâncio, representa o fogo destes dias em Vila de Rei e Mação, com os graus de destruição identificados por satélite, representando o encarnado mais escuro maior destruição e os amarelos menor destruição. A cor de laranja desmaiado estão perímetros de fogos de 2017.

O que o mapa mostra é o que todos os que sabem do assunto tinham antecipado: quando o fogo deste ano batesse na área ardida há dois anos, seria muito pouco provável que não fosse parado. Mas mostra ainda que na zona de contacto, o grau de destruição reduz-se imediatamente quando fogo entra em área ardida há dois anos.

À escala da paisagem, esta é a demonstração empírica do que dezenas de estudos, a teoria e experiências concretas têm referido: a redução da disponibilidade de combustível é o instrumento mais eficaz de controlo de grandes incêndios e uma das formas mais eficazes para fazer essa redução de combustível é o uso do fogo prescrito ou controlado, como lhe queiram chamar, embora fogo selvagem (gosto desta tradução imprecisa de wild fires) tenha também o mesmo efeito, só que com efeitos secundários negativos que me dispenso de descrever.

Sendo isto absolutamente consensual entre quem estuda o assunto (que não inclui, por exemplo, o presidente da QUERCUS, João Branco, que acha que "até as áreas ardidas em 2017 já estão em risco de novo, porque os eucaliptos já cresceram") seria normal que a política de gestão do fogo em Portugal tivesse duas preocupações centrais: 1) redução da carga de combustível à escala da paisagem; 2) adopção das formas mais sustentáveis, incluindo do ponto de vista económico, para conseguir essa redução.

Ora, nada disto se passa.

O Governo e os seus parceiros entretiveram-se a fazer a maior reforma florestal desde D. Dinis (que não consta que tenha feito nenhuma reforma florestal, portanto esta formulação era apenas modéstia, na verdade era a maior reforma florestal desde a última glaciação, pelo menos) que, espremida, espremida, se traduzia em perseguir a produção de eucalipto, baseado nas informações de grandes especialistas na matéria que descobriram que a falta de eucalipto na Alemanha não se devia ao mesmo tipo de razões pelas quais não se produzem bananas no Ártico, mas sim, por serem árvores muito perigosas (não estou a inventar, o argumento foi publicamente expresso quer por Francisco Louçã, quer pelo seu genro, João Camargo, dois dos especialistas em gestão florestal com que o Bloco de Esquerda tem contado para formular as suas propostas políticas na matéria, a verdadeira base da tal reforma).

Mas como uma boa reforma não se faz partindo do zero, o Governo aprofundou a opção que António Costa, então Ministro da Administração Interna, forçou em 2005: na sequência dos grandes fogos de 2003 e 2005 estavam em cima da mesa dois caminhos para lidar com o problema: 1) compreender e aprofundar a gestão do território que está na base da actual disponibilidade e continuidade de combustíveis, financiando os proprietários e gestores através do Fundo Florestal Permanente, expandindo o uso do fogo, etc.; 2) ceder à pressão dos bombeiros e dos sectores ligados ao combate para se aprofundar o que já vinha de trás, despejando dinheiro e recursos no combate aos fogos, perseguindo os proprietários por não gerirem deficitariamente os seus terrenos e criando uma complicado meandro burocrático que atirasse para as pessoas e a economia a responsabilidade de criar descontinuidades de combustíveis, de modo a que o Estado se ilibasse da responsabilidade financeira de garantir a segurança de pessoas e bens (uma matéria a que o Estado evidentemente é estranho, como todos sabemos) e se ilibassem os decisores políticos (deste e dos anteriores governos) da responsabilidade política de executar políticas sensatas de redução da disponibilidade e continuidade de combustíveis.

António Costa, ele mesmo, forçou a decisão do governo na altura, impondo uma derrota histórica ao seu colega da Agricultura, e condicionando tudo o que depois foi feito neste domínio, quaisquer que fossem os governos.

O resultado é o que conhecemos, continuando a haver uma forte corrente ideológica que defende que existe responsabilidade de gestão dos proprietários, mesmo quando não são responsáveis pelo crescimento da vegetação ou pelas condições meteorológicas, e a gestão seja deficitária.

Em termos práticos, há umas miríficas faixas de gestão de combustível primárias e secundárias em que o Estado impõem condicionantes que reduzem o seu potencial produtivo, diminuindo a receita (fazer plantações de pinheiros e eucaliptos em que as copas estejam dez metros afastadas entre si é uma estupidez de tal dimensão que até hoje não consegui perceber quem escreveu isso na lei, a única coisa que sei é que de todas as pessoas que conheço, e são muitas, com um mínimo de responsabilidade na matéria e que poderiam estar ligadas à redacção desse artigo, rapidamente me explicam que elas não tiveram qualquer influência nessa parvoíce), impõem obrigações que aumentam o custo de gestão sem qualquer utilidade prática e temos a REN, a EDP, as Infraestruturas de Portugal, as Forças Armadas, as autarquias, muitas outras empresas, fora os particulares, a gastar milhões de euros inutilmente, apenas porque os governos querem passar entre os pingos da chuva e poupar uns trocados que lhes são úteis para a compra de votos.

E não se pense que vale a pena argumentar que a REN ou a EDP têm muito dinheiro e portanto não há problema nenhum em gastar um bocado para que todos vivamos melhor: o que fazem não serve para nada do ponto de vista da gestão do fogo (se quisesse ser um bocadinho mais rigoroso e politicamente correcto diria que serve para muito pouco) e os custos são directamente transferidos para os clientes, é a economia e as pessoas que pagam este gasto inútil de recursos, não são as empresas directamente envolvidas.

Um exemplo prático: este ano uma associação de que sou temporariamente presidente fez um fogo controlado numa parcela de uma área que tem sob sua gestão. Qual era o maior risco desse fogo controlado? A faixa secundária de gestão de combustíveis em que o ICNF tinha gasto uns milhares de euros a cortar um giestal alto que ficou todo no mesmo sítio, potenciando enormemente o risco de incêndio ao criar uma faixa de combustíveis finos mortos e secos ao longo de todo o caminho.

Não, os milhares de euros gastos não foram só inúteis, eles aumentaram enormemente o risco.

Situações destas são aos milhares pelo país fora, e são ainda mais os milhões gastos recorrentemente debaixo de linhas eléctricas e ao longo de estradas que, mesmo não potenciando o risco de fogo, são estritamente dinheiro deitado à rua.

Alguém consegue ver as linhas eléctricas e as estradas neste mapa, alguém identifica essas linhas, secundárias ou primárias, usando o grau de destruição?

Por mim, estou realmente farto da conversa dos eucaliptos, dos incendiários, dos meios aéreos, do negócio do fogo, da responsabilidade dos proprietários, da dimensão da propriedade, do abandono do interior e toda essa conversa de treta em que se sustenta o apoio da sociedade a estas políticas de destruição de valor como instrumento para resolver um problema de competitividade na gestão do território.

Não, António Costa (e todos os outros, mas este tem uma responsabilidade histórica bem identificada, a das opções que forçou em 2005) não é responsável pelo fogo de Vila de Rei e Mação, nem pelo de Pedrógão, nem pelo de Vouzela, nem por qualquer outro individualmente.

Mas sim, é responsável sim (ele e todos os outros anteriores) pela adopção de políticas sem qualquer fundamento técnico, ruinosas e contraproducentes em matéria de gestão do fogo, usando a falácia da responsabilidade dos proprietários como escudo de defesa política.

Literalmente, ide pastar ou arder nas chamas do inferno, também somos nós, cada um de nós, que somos responsáveis pelo que se passa e passará e pesam-me na consciência os mortos futuros que resultam do tempo que perdemos a tentar demonstrar a responsabilidade dos proprietário e gestores pelo facto das plantas fazerem fotossíntese e da sua obrigação em estoirar recursos que nos fazem falta, só para mascarar a responsabilidade dos governos na adopção de políticas estúpidas e destruidoras de valor.

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O alinhamento dos lacaios

por José Mendonça da Cruz, em 24.07.19

O alinhamento das notícias faz maravilhas. Fogos trágicos em Portugal, fruto de incúria e más políticas, que, no entanto, distribuem vastos lucros? 

Segundo a Tvi, não. O que o jornal das 20 noticia é o seguinte:

1. Primeiro, Judite, naquele ciciar característico que tão bem imita o das dentaduras defeituosas, explica que os fogos «supreenderam» (como só aos burros) as populações em «locais de difícil acesso».

3. Depois, o telejornal recorda que o ministro Eduardo Cabrita responsabiliza os autarcas.

4. Seguidamente, é convocado Jorge Coelho que, por ser da Beirayalta e «ir muito ao interior» explica que tudo isto é natural.

5. A rematar, a tvi ostenta um fogo na Grécia (acontecido há um ano, mas a aproveitar enquanto sobra um país mais mal gerido), adornado com um daqueles textos que os jornalistas medíocres têm na conta de elegante e poético: «Quando o novo dia trouxe a luz apenas deixou ver a dor e o silêncio da tragédia. Mati acordou para uma dor nunca vista ou sentida», etc.

De forma que ficamos a saber : a cada vez que surja um problema que castigue os portugueses e comprometa o governo, a tvi já decidiu de que lado fica, com os socialistas, contra os contribuintes.

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Bestas quadradas

por henrique pereira dos santos, em 24.07.19

O título deste post é o título da crónica de ontem de Miguel Esteves Cardoso.

"É um choque descobrir que um acto humano de bondade básica - dar de comer a animais na rua - é proibido. ... O PAN decidiu tentar acabar com esta proibição não só porque é imoral e cruel e desumana, mas porque não faz sentido o esforço enorme que tem sido feito para esterilizar gatos de rua que assim podem continuar a viver em colónias".

Confesso que, para mim, é um choque ver pessoas cultas, informadas e cosmopolitas ignorarem o acto humano de humanidade básica que consiste em proteger os mais frágeis de doenças transmitidas e das agressões físicas provocadas pelas colónias de gatos, dos bandos de pombos, das nuvens de gaivotas, das matilhas de cães, para além de recusarem a protecção mínima que um bom coração humano dispensa aos pássaros e as lagartixas e as borboletas condenadas a ser estraçalhadas por garras dos gatos.

Quem se quiser documentar, pode ir à Caparica visitar as milhares de gaivotas que esperam pelos restos dos pescadores, ou o bando de gatos de tornou a entrada da Mata da Machada num deserto faunístico, ou à Fonte da Telha visitar a matilha de vinte ou trinta cães selvagens a que a Câmara de Almada não consegue dar destino porque tem os canis cheios da bondade que proíbe o seu abate, uma espécie de bomba relógio à espera de um ataque mais severo da matilha a quem por ali passe.

Ou pode informar-se em estrangeiro, se preferir: "They estimate that cats in the UK catch up to 275 million prey items a year, of which 27 million are birds" (Ler mais aqui)

E ignorarem a básica bondade humana que consiste em proporcionar aos filhos espaços públicos de qualidade e não esterqueiras que alimentam ratos.

E ignorarem a bondade humana básica que consiste em apreciar o desenvolvimento de sistemas naturais equilibrados, incluindo lagos com vegetações marginais diversas com espécies diferentes explorando nichos ecológicos diferentes, em vez de construir um mundo desertificado pelo excesso de patos mudos alimentados pelo milho trazido pelos bondosos que têm imensa bondade pelos patos que alimentam, e zero de empatia pelo mundo que nos rodeia.

Nesta história talvez devamos ter um longa conversa sobre quem são de facto as vítimas da bondade sem razão e conhecimento, e depois fazer o balanço de perdas e ganhos da alimentação de animais vadios.

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Dois Mundos

por José Mendonça da Cruz, em 24.07.19

Tdf2019.jpg

Quem tenha algum interesse por ciclismo ao mais alto nível e por turismo de qualidade, e disponha da funcionalidade de «Idiomas» no serviço da NOS, pode entreter-se, uma dessas tardes, com uma comparação engraçada entre o comentário português e o comentário inglês do Tour de France 2019.

De um lado, o português, terá boa disposição, apostas e piadas entre os comentadores, episódios e historiais de voltas e atletas passados, e informação puramente desportiva. Do outro lado, terá informação desportiva propriamente dita, mas também informação turística, geográfica, histórica, ecoómica e gastronómica sobre os pontos que a Volta vai passando (pois, por alguma boa razão, a transmissão francesa identifica os lugares, as regiões e os monumentos).

São, de facto, dois mundos.

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A democracia e os fascistas

por José Mendonça da Cruz, em 23.07.19

A redacção da TVi conseguiu inserir na notícia do jornal das 20 horas sobre a eleição de Boris Johnson, a propósito do novo primeiro-ministro inglês, os epítetos «racista», «xenófobo», «machista» e «homofóbico». Na véspera, num raciocínio tão articulado quanto hoje lhe é possível, Miguel Sousa Tavares disse em directo de Lagos que hoje em dia o que é mau é eleito, logo Boris Johnson seria eleito. Estes travestis de jornalistas e comentadores - ignorantes, boçais e preconceituosos - estão hoje à altura do melhor que se faria num jornal oficial do Burkina Faso ou da antiga Albânia. Parabéns. 

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Rabos de saia

por João Távora, em 23.07.19

rabo-de-saia.jpg

Feministas de todo o mundo, tende cuidado com o que desejam, a liquidificação do “género” igualitário pode mesmo realizar-se. Afinal os homens a usar saia e perfumes doces, peritos na roupa da moda, a arranjar as unhas, corpo deplilado e muito amiguinhos das mulheres é uma "construção cultural" que ameaça fazer caminho, na medida inversas em que a virilidade é amesquinhada e confundida com a grosseria. Excitante não é? Reprimidos dos seus impulsos amorosos os homens do futuro prescindirão de seduzir a própria mulher, não mais usarão Old Spice ou irão com os amigos ao futebol, obstados de falar grosso e beber umas imperiais numa tasca barulhenta. Rapazes, queredes mesmo viver afroixados num mundo comedido e harmonioso como uma música de Richard Clayderman ou um cabeleireiro de senhoras, em que o 007 será uma miúda assexuada e pacifista?
Não liguem, isto é tudo fruto da minha delirante imaginação, estava a brincar!

Fotografia daqui

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