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Carnavais

por João Távora, em 13.02.24

Onde estava o Ventura e a maioria dos seus apaniguados "anti-sistema" de agora, quando uma boa parte de nós, há décadas, estava a lutar contra o socialismo, no cuidado com os mais desfavorecidos, pela liberalização da economia, pelo auto-governo, a dar a cara e arriscar a sua pele e carreiras profissionais na luta pelos princípios da civilização cristã? Contra o aborto, pela tradição, contra o relativismo e pela família natural, base da comunidade concelhia e nacional?

A maior capacidade do Ventura tem sido dividir famílias, gerações e amigos. A favor de polícias, agricultores, reformados, naturalmente frustrados.

Definitivamente os fins não justificam os meios. E o meu sangue é muito velho para acreditar nas balelas de um vulgar oportunista.

Os 30%

por henrique pereira dos santos, em 13.02.24

Quando, a propósito de 70% das pessoas viverem em casa própria, disse que a subida dos preços das casas aumentava a riqueza da generalidade da população, apareceram alguns comentários completamente tontos (como argumentar que a subida do preço de um bem que eu não tenho nem vou comprar aumenta a minha pobreza, ou, mais ridículo ainda, argumentar que quem vende uma casa por 300 mil euros tem de ir a correr comprar outra igual por 300 mil euros, num país em que 63,2% dos alojamentos familiares estão sublotados) e outros comentários que são apenas ignorância: a de que o problema são os outros 30%, a de que existem encargos brutais com a habitação a subir por causa das taxas de juro e afins.

Vou esquecer as patetices sobre a compra de casa por estrangeiros, em especial de vistos gold (os estrangeiros, na melhor das hipóteses, representam 10% das transacções anuais, e metade são da União Europeia, portanto não são vistos gold com certeza) e vamos lá falar seriamente (para quem quiser ver a fundamentação, é dar um salto a este relatório, que já está disponível há algum tempo mas que os jornalistas portugueses que escrevem sobre habitação tendem a ignorar).

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Pouco mais de 60% destes proprietários não têm encargos com a sua casa, portanto, não são afectados pelas subidas das taxas de juro, e dos restantes quase 40%, o que pagam distribui-se da seguinte forma:

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Ou seja, menos de 30% têm encargos superiores a 400 euros e menos de 9% têm encargos superiores a 650 euros.

Ainda é muito gente, claro, e, sobretudo, é gente mais nova e com menos rendimentos, mas está muito longe de se poder falar de uma situação de aperto generalizado.

Agora sobre os 30% que na realidade não são 30% mas apenas 22,2%, como se vê aqui:

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Estarão estes 22,2% da população em risco de perderem a sua casa por causa dos aumentos de renda?

Treta, há uma percentagem pequena de pessoas, com contratos relativamente recentes, em que isso acontece, mas é um franja muito pequena da população (não, não inclui muitos avós).

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O problema diz respeito aos cerca de 65% dos 22,2% que têm contratos com menos de dez anos, os outros estão todos protegidos.

Só que, para além dos 2% de habitação social estatal (faço questão de escrever habitação social estatal porque a esmagadora maioria da habitação social que existe em Portugal é feita pelos senhorios privados a quem o Estado impede de cobrar rendas justas) a verdade é que olhando para as rendas que se pagam, o problema não está num T1 com 1500 euros de renda, existem, provavelmente, mas são completamente marginais no mercado.

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Surpresa, não só existem mais rendas de menos de 20 euros mensais (4%) que de mais de 1000 euros (2,2%), como cerca de 70% das rendas são abaixo dos 400 euros mensais e mais de 90% são abaixo dos 650 euros (estou a assumir que há um erro no gráfico e falta o escalão entre 500 e 649).

Existe um problema de acesso à habitação no país para as pessoas que precisam de mudar de casa agora, por qualquer razão, mas isso está longe, muito longe de ser um problema generalizado a toda a população, como foi no tempo em que as grandes cidades se encheram de barracas e de periferias de construção ilegal.

Debates, debatentes e «arroseurs arrosés»

por José Mendonça da Cruz, em 12.02.24

(hoje no Observador)

Os debates eleitorais têm interesse. Os debates eleitorais têm audiência. Já o «achismo» dos comentadores, não sei…

Gosto dos debates eleitorais nas televisões. Gosto mesmo dos debates eleitorais nas televisões.

Gosto, primeiro, porque nos chegam sem filtros, e, por isso, são informação em estado bruto. Cada participante diz o que quer – sem que aquilo que disse seja truncado, ou treslido com alguma adenda escrita ou em voz off.

Foi assim, por exemplo, que, em dois debates, soube mais sobre o programa de governo da AD do que em semanas em que a comunicação social se esforçou por omitir informação sobre ele, ou sobrepor-lhe notícias menores (a casa de Espinho, a presença ou ausência de Passos Coelho, a presença ou ausência de outra figura da AD).

Foi assim, por exemplo, que vi expostos a clara luz o programa e as intenções do Bloco de Esquerda. Não as vozes maviosas, nem as expressões condoídas, mas o verdadeiro programa e as reais intenções.

Foi assim, por exemplo, que compreendi que Pedro Nuno Santos não tem uma ideia. Aliás, tem uma. O papagaio de Samuelson, que tinha dois neurónios, tinha dois motes: oferta e procura. Pedro Nuno Santos, que só tem um (mote, quero eu dizer) só sabe dizer Estado-Estado-Estado.

Gosto, em segundo lugar, por serem esclarecedores, não apenas no que é dito, mas na linguagem corporal, na linguagem facial.

Foi assim, por exemplo, num notável momento de televisão – desses em que a imagem vale mil palavras – que vi Mariana Mortágua, descomposta pela argumentação de Montenegro, encerrar uma fraca réplica com um sorriso que era um arreganho raivoso. Como nas Novas Andanças do Demónio, «saía-lhe fumo pelos intervalos do riso».

É assim que – lamentando o que vejo – vejo como o olhar de Rui Rocha não pára de deambular por pessoas e cenários, num sintoma de insegurança que deveria corrigir depressa.

Foi assim, por exemplo, que vi as inegáveis qualidades de tribuno e polemista de André Ventura, a exuberância e o tom categórico que tanto atrapalham os adversários, virarem-se contra ele, e porem várias propostas em dúvida.

Gosto, em terceiro lugar, porque os participantes estão sozinhos na função, não podem contar com a ajuda de plateias fiéis, profissionais de relações públicas, ou jornalistas simpatizantes (sobre a ajuda de comentadores, lá iremos). Nos debates, eles estão sozinhos.

Vejo, por exemplo, como as aparições de Pedro Nuno Santos – não apenas nos debates, mas sobretudo nos debates – relembram dolorosamente um historial de governação lamentável, e põem em cruel evidência a impreparação pessoal e política. Terão notado como – não apenas por causa dos debates, mas sobretudo por causa dos debates – as classificações enlevadas de «enérgico» e «carismático» com que era habitual virem adornadas as notícias sobre PNS, pois bem, terão visto como esses adjetivos fugiram espavoridos de cena.

Depois, há os comentadores televisivos dos debates eleitorais.

Não gosto nada dos comentadores televisivos dos debates eleitorais – os quais, aliás, passei a abster-me de ver.

Não gosto, em primeiro lugar, do esforço vão de originalidade que os leva a «achar» coisas extraordinárias. Uma das coisas extraordinárias que os comentadores «acham» é que os participantes nos debates (citação literal:) «falam para os convertidos». Estes comentadores «acham», portanto, que os participantes nos debates deviam, mais do que expor as suas ideias e programas, dissertar sobre, sei lá, as promessas da nanotecnologia, a situação política no Iémen, as nuvens cúmulo-nimbo e a aviação civil, os segredos da jardinagem.

Não gosto, em segundo lugar, mas acima de tudo, do enviesamento ou da cegueira. Não me incomoda que na sua confrangedora fidelidade Neves ou Pratas incensem PNS. Mas aflige-me que perante as mentiras descaradas de Mortágua (e deve-se sublinhar que «mentira», neste caso, não é ausência de verdade, mas o exato oposto dela), perante aldrabices gritantes, a generalidade dos comentadores a imagine triunfante.

Por fim, e tal como os comentadores, também eu vou «achar» coisas. Eu acho que os comentadores dos debates televisivos estão a fazer nascer um sentimento geral de que a sua intervenção é, não apenas inútil, mas sobretudo prejudicial. Eu acho que isso é péssimo para eles. Eu acho que este é mais um caso clássico do arroseur arrosé. Mas eu acho que eles lá sabem…

Falemos de habitação

por henrique pereira dos santos, em 11.02.24

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Esta é uma fotografia da Avenida de Roma, a partir do portão do Júlio de Matos, por volta de 1940 (fui buscá-la a uma página sobre Lisboa Antiga há uns tempos, por isso não sei atribuir-lhe a autoria).

Nessa altura o mercado de arrendamento para habitação era totalmente controlado no que dizia respeito a contratos antigos (eram válidos para a eternidade e chegavam a incluir os herdeiros, passando de geração em geração).

Como a inflação não era alta e o dinamismo social era muito, era possível arrendar casas com alguma facilidade, sendo certo que muita gente não conseguia arrendar casa, havendo milhares de pessoas a viver em quartos (por vezes sub-arrendados, antes desta altura era comum as casas de classe média terem um quarto com porta para a escada, para facilitar este esquema que permitia dividir despesas de arrendamento com estranhos), gente a viver em casas sem quaisquer condições de habitabilidade, casas mais que sobrelotadas, criadas a viver em casa dos patrões, etc..

Para além disso, embora de forma limitada, o Estado Novo fez alguns bairros sociais que albergavam muita gente em casas minúsculas, numa espécie de urbanismo que declinava a ideia de casa portuguesa de Raúl Lino (alguns destes bairros são hoje zonas muito valorizadas, com as casas a ser vendidas por preços muito elevados e as minúsculas divisões interiores a serem modificadas para responder à procura actual).

Note-se que no período imediatamente anterior ao da fotografia, Lisboa tinha passado de cerca de 200 mil habitantes em 1864 para cerca de 600 mil em 1930, ou seja, em menos de setenta anos, tinha triplicado a sua população e a Avenida de Roma, ainda assim, era o que a fotografia mostra.

Este gráfico, da wikipedia, mostra a evolução da população de Lisboa.

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Claro que o que é evidente no gráfico, e é do conhecimento comum, não impede Mariana Mortágua de afirmar, convictamente, que foram os vistos gold que esvaziaram as cidades portuguesas, porque haverá sempre terraplanistas para quem "a verdade é um prurido pequeno-burguês", como bem nota José Miguel Cardoso Pereira num comentário a este artigo que escrevi para o Observador.

O que aconteceu em Lisboa para passar dos cerca de oitocentos mil habitantes nos anos 60, 70 e 80, para os actuais 550 mil, inferiores à Lisboa cuja Avenida de Roma era como mostra a fotografia?

Aparentemente, enquanto se contruía brutalmente entre 1930 e 1970, e a inflação era baixa, o centro ia ficando degradado, física e socialmente, porque o congelamento das rendas não permitia investir na sua modernização, mas a construção no resto do concelho ainda compensava o investimento e o dinamismo social compensava o processo de destruição de valor associado ao congelamento das rendas.

O problema foi quando a inflação se instalou, a partir do primeiro choque petrolífero em 1973: de 1947 a 1973 a taxa média de inflação andava nos 3%, mas de 1973 a 1992 andava acima dos 18%.

Com rendas congeladas e taxas de inflação deste nível, o parque habitacional existente degradou-se rapidamente por impossibilidade dos senhorios investirem em obras de manutenção, o centro esvaziou-se e guetizou-se em bolsas de pobreza ocupadas por pessoas que não tinham recursos para viver em condições mínimas de dignidade habitacional e o mercado de arrendamento novo simplesmente desapareceu.

A única forma de arranjar uma casa nova era comprá-la, o que só podia acontecer em edifícios novos porque os contratos de arrendamento passavam de pais para filhos, com rendas irrisórias (ainda hoje, 70% das rendas em Portugal são de menos de 400 euros e 30% são de menos de 200 euros), o que bloqueava o mercado de compra e venda de habitações existentes.

Com o parque habitacional a degradar-se rapidamente, a forma de ter casa em condições era abandonar o que existia (ou deixar lá os mais velhos da família) e comprar casas em novos edifícios, frequentemente nos concelhos limítrofes de Lisboa.

Para os mais pobres a alternativa era viver em barracas, também elas maioritariamente na periferia (os centros históricos caminhavam em passos largos para o abarracamento, por falta de obras de manutenção que as rendas pudessem financiar, dado o seu valor irrisório).

A situação foi ficando insustentável e o primeiro governo a mexer alguma coisa a sério no assunto (todos os governos e câmaras foram fazendo casas sociais, mas em quantidades evidentemente insuficientes) foi o governo de Cavaco Silva, que actuou de duas maneiras: 1) fez um programa de realojamento especial, juntando promotores privados e autarquias; 2) acabou com a transmissibilidade dos contratos de arrendamento, uma medida que só teria efeito a prazo, à medida que os inquilinos mais velhos iam morrendo.

Paralelamente, o Estado adoptou políticas sistematicamente mais restritivas no processo de promoção imobiliária com o objectivo de garantir, por via administrativa, uma qualidade que faltava, por razões económicas, agravando o problema da promoção imobiliária, sem grandes resultados do lado da qualidade das casas que se pretendia aumentar.

É este o contexto que leva o Partido Socialista, a troica, o governo de Passos a dar passos para melhorar o mercado de arrendamento, tornando-o mais flexível, mais dinâmico, menos dual, do que resulta mais disponibilidade de casas, embora a preços mais altos.

Acontece que 70% dos portugueses são donos da casa em que vivem, portanto, o aumento do valor da habitação corresponde a um aumento de riqueza para 70% da população.

A isto há quem chame legislação cruel.

Apologia da pouca honestidade

por João-Afonso Machado, em 10.02.24

Eis que principia o debate. Intervenientes o irrequieto Pedro Nuno e a salobra Inês. PS versus PAN. Dada a palavra ao primeiro, Montenegro, um ausente, é a bola que logo corre no relvado. A pivot impôs contenção, felizmente, iamos já não sei onde.  Talvez na veneranda questão do aeroporto... (Que raio de desporto, a porcaria da política!) Prosseguimos. Com a ferrovia, tema candente, tão quão imobilizado. Ponto primordial no articulado: então a Linha da Beira Alta? Está para quando o comboio? Aos costumes (ficção), o ex-ministro ficou calado!

Depois o debate avançando para o lítio e o lobo ibérico. Golo do PAN! Vantagem para a região transmontana. Não sem que o cosmopolita Santos não demonstrasse atrapalhação. Mas em República reina o PS. Obviamente na vacuidade de opções.

Prosseguem os ataques à AD. Não, não, a arguente é do PAN, relembremos sempre. E há outro tema, o da carga fiscal. O discurso prossegue entre dizeres genéricos que nada explicam. Intervalo sem golos socialistas.

Assim também no que toca aos profissionais do Ensino. Negociações, negociações... A menina Inês ataca nos animais, pouca obra demonstrada. Concordo, eu aficionado da tauromaquia; dono de cães quase filhos. (No mundo solitário em que tantos vivem o bicho, cão ou gato, é a famíla...)

Por fim, o SNS e a política ambiental. Tudo vai mal, nem os portugueses admitiriam ouvir o contrário. Mas a culpa é do PSD, pormenorizadamente. Por acaso - o PSD - ausente do debate, logo impossibilitado de se defender. O vídeo-árbitro anula a jogada suspeita.

Funciona assim a "ética republicana". A quem agradeço imenso pela confirmação do que sempre pensei e acreditei. Sem ajudas tecnológicas - o fora-de-jogo é evidente!

A vingança

por João Távora, em 10.02.24

É a tentação revolucionária latina que paulatinamente nos direcciona para a mediocridade e pobreza. Um círculo vicioso que só é possível quebrar com nobreza nos principios e preservança nas acções. A política é a arte do possível.

A tentação do radicalismo pode proporcionar um prazer imediato de vingança. Mas ao longo da nossa história significou a nossa desgraça. Não é por acaso que as monarquias só sobrevivem nos países que resistiram aos extremismos, onde prevaleceram consensos. Civilizados.

O Declínio e Queda da Extrema-Esquerda

por Miguel A. Baptista, em 09.02.24

Um dos aspectos interessantes das sondagens é que a extrema-esquerda, ou esquerda radical se preferirem, tem intenções de voto relativamente baixas. 

Haverá várias razões para explicar o fenómeno, a guinada à esquerda do PS de Costa e Pedro Nuno será uma delas. Já agora, acredito que, nos dois líderes, tal aconteceu por motivos diferentes. O encostar à esquerda é convicto por parte de Pedro Nuno, e com Costa foi meramente oportunista ou instrumental, pois para preservar a sua carreira política Costa ter-se-ia encostado a qualquer lado. 

Mas terá sido a formação da geringonça que assinou a inexorável decadência da extrema-esquerda, que pode ser a quase sentença de morte do PCP, ora vejamos como. 

Antes de mais, em termos históricos, o PS e o PCP eram inimigos figadais. A afirmação do PS fez-se combatendo o modelo comunista soviético, preconizado pelo PCP, e em defesa do modelo de democracia liberal, do tipo ocidental, em que nos inserimos. O sentimento dos comunistas para com os socialistas era semelhante ao que benfiquistas e portistas nutrem entre si. Esse pacto, visto por muitos como contranatura, quebrou um fortíssimo interdito mental. 

Mas penso que não terá sido essa a razão principal, esta terá sido o contacto com a realidade. O que é que quero eu dizer com isso? Pois bem, a extrema-esquerda vende sobretudo ilusões de paraísos não atingidos. São amanhãs que cantam que, quando colocados em prática, inevitavelmente se transformam em pesadelos. O modelo comunista sempre deu errado, mas há a constante ilusão de que desta vez irá dar certo. É um pouco como meter a mão molhada na tomada, esperando que desta vez não dê choque. 

Pois bem, situando-se o raciocínio comunista como algo fora da realidade, terá sido com alguma decepção que se assistiu à participação do partido na realidade, no caso no governo da geringonça. Os comunistas terão sido obrigados a concluir que a sua participação no governo não altera grande coisa, que não existe nenhum "toque mágico" comunista. A participação comunista só teria sido justificada se tivesse ocorrido um "salto quântico", e este não aconteceu, era óbvio que só em mentes fantasiosas é que poderia ocorrer. 

Com o seu mundo a desabar, muitos partiram em busca de novas ilusões, que, curiosamente, vários vão acalentar do outro lado do espectro político.  

O não assunto

por henrique pereira dos santos, em 09.02.24

Está uma campanha eleitoral a decorrer.

Essa campanha tem um monte de debates.

Um dos intervenientes diz que em dois desses debates, não vai ele, vai outro da sua coligação.

Durante mais de não sei quantas horas há não sei quanto tempo mediático cheio de questões sobre esta questão simples, desde os que se indignam com a mudança de regras, aos que extrapolam para a falta de credibilidade da palavra dada, até aos que fazem propostas infantis sobre putativos debates.

Na sala, permanecem dois adultos, o primeiro, que diz que não vai perder tempo a comentar, recomentar e recomentar os recomentários dos outros sobre um assunto que não interessa nada à generalidade das pessoas, e o secretário-geral do PCP que diz que por ele, façam como quiserem, se não for o chefe de um lado, do lado do PCP irá alguém, com certeza, mas não o chefe do PCP.

Esta história e a histeria dos jornalistas à volta deste não assunto parece-me uma excelente demonstração do desfasamento entre o mundo da comunicação social e das pessoas comuns e ilustra bem as razões pelas quais os jornais e os jornalistas ficam tão espantados com os resultados eleitorais.

Debates

por henrique pereira dos santos, em 07.02.24

Nem pensar em ver todos os debates e muito menos os debates sobre os debates eleitorais.

Mas vou vendo quando quero ou me aparece diante dos olhos.

O mais extraordinário é ver comentadores dizerem, por exemplo, sobre o debate entre Mariana Mortágua e Luís Montenegro (espero que Mariana Mortágua, na improvável hipótese de me ler, não fique ofendida por a designar primeiro que ao homem com quem debateu, como faria com qualquer mulher), que Mariana Mortágua apareceu muito combativa, ou preparada, e outras apreciações do mesmo tipo.

O que me mais me impressionou foi vê-la a mentir descaradamente sobre o conteúdo das avaliações do Tribunal de Contas às PPP da saúde e, sabendo perfeitamente que estava a mentir, reforçar que estava a fazer citações, citando meia dúzia de factos escolhidos que não relevam especialmente para as conclusões inequívocas do tribunal de contas e que são contrárias ao que ela estava a pretender dizer que eram essas conclusões.

Acharia normal que esta facilidade em mentir descaradamente, usando técnicas sofisticadas de mentira, fosse uma das traves mestras da apreciação do desempenho de Mariana Mortágua.

Estranhamente há muito quem nem sequer refira isto e, dos que referem, que ainda são alguns, o façam frequentemente como se fosse um pecadilho sem centralidade no desempenho de Mariana Mortágua.

Depois queixem-se da falta de qualidade dos debates quando mentiras desta dimensão, conhecidas e reconhecidas por todos, pesam tão pouco na apreciação global do desempenho de um político.

Da criação

por João Távora, em 06.02.24

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Li por aí que se calcula terem já habitado a Terra cerca de 108 biliões de pessoas, considerando o ponto de partida há 50.000 anos, com o “casal inicial”. Para se chegar a este número foram usados dados históricos e arqueológicos, bem como estudos da ONU sobre o aumento populacional ao longo da história. Mais curioso para nós leigos, é que o método usado pelo demógrafo Carl Haub do Population Reference Bureau não tenha sido aquele que aparentemente seria mais lógico regredindo nas gerações e somando todos os ascendentes de cada um dos 7 biliões de seres humanos actualmente vivos. A formula usada foi o de uma pirâmide com início no ano 50.000 a.C., a partir do "casal inicial" da nossa espécie (Adão e Eva?), e cujos descendentes se multipliquem até chegar aos actuais 7 biliões.

Se a demografia é uma matéria fascinante, atrai-me mais conjecturar sobre a questão existencial que o assunto levanta. Ou seja, por este estudo semicientífico (porque segundo leio implica alguma especulação) já viveram na Terra 108 biliões de pessoas como eu, como cada um de nós, seres únicos e irrepetíveis, cada vida uma história particular, cada um com o seu drama, tragédias, alegrias e tristezas, dores e consolos. Como é que é possível que esta criação não possua um sentido existencial superior é algo que parece não fazer qualquer sentido. É ilógico reduzir-se a humanidade a um mero acaso. A consciência de nós mesmos, o anseio de liberdade, o desejo de amor e de beleza, multiplicado por tantos indivíduos únicos e irrepetíveis que alicerçam a nossa História, reclama um sentido superior à nossa existência. Jesus Cristo afirmou-o e lançou o mote para a modernidade: “E quanto aos muitos cabelos da vossa cabeça? Estão todos contados” (Mateus 10:30). Cada pessoa como templo único e irrepetível de Deus.

Mais memórias para esta campanha eleitoral

por henrique pereira dos santos, em 06.02.24

Numas arrumações, encontrei o Público de 19 de Julho de 2017.

Já antes tinha encontrado o de um mês antes, onde tinha o artigo que fiz que talvez seja o cúmulo da minha influência na discussão pública, não porque seja o melhor, mas porque quando os que sabem muito mais de fogos se recusaram a escrever ou falar sobre Pedrogão em cima da tragédia, por respeito pelas mortes ocorridas, eu desalinhei e escrevi, por respeito pelos potenciais mortos do futuro (no Chile, por estes dias, morrem mais de 100 pessoas em fogos, é bom lembrar, para não se pensar que o que aconteceu em 2017 não volta a acontecer).

E no meio de tanta gente, a começar por Marcelo Rebelo de Sousa, insistia na tecla de que tinha sido uma tragédia apesar de se ter feito tudo o que era possível fazer, o que escrevi na altura desalinhava e dizia que não, não era verdade que fosse imprevisível (como continua a não ser verdade que não estejamos a caminhar para outra tragédia, lá por 2030, mais ano, menos ano, esperando-se que dessa vez morra menos gente, ou mesmo não morra ninguém, apesar da dimensão dos fogos que irão ocorrer, não sabemos quando).

Mas é do Público de 19 de julho de 2017 que quero falar.

Uma das manchetes da capa diz, em letras bem gordas: "Portugal vai ter menos eucaliptos após cedência do Governo à esquerda". Em subtítulo, ainda na primeira página "Parlamento aprova hoje parte da reforma da floresta. Maratona negocial seguiu noite dentro. Destaque, 2 a 5".

Comecemos por fazer notar que os jornalistas do Público, os que escrevem sobre o assunto, mas também os responsáveis editoriais, acharam mais relevante afirmar que Portugal ia ter menos eucaliptos depois da cedência à esquerda, que dar informação consistente sobre que reforma da floresta era essa que ia ser aprovada.

Logo na tal página 2, a grande fotografia do destaque é o grupo parlamentar do Bloco de Esquerda, com Catarina Martins a intervir no parlamento, o título é peremptório "Está decidida a redução do eucalipto - plantação só com autorização prévia" e no lead finalmente alguma informação relevante: "Governo só fechou acordo sobre a floresta com o PCP e Bloco minutos antes da votação. Ao primeiro cedeu no cadastro retirando do banco de terras os terrenos sem dono, e ao segundo na diminuição do eucalipto".

Aparentemente os jornalistas do Público acreditam no pensamento mágico de que uma alteração de uso do solo, como o eucaliptal, aumenta ou diminui em função de decisões administrativas e não em função das decisões concretas dos gestores de terras, legais ou ilegais.

A realidade bem demonstra que a área de eucalipto continua, paulatinamente a aumentar, que nem por isso os jornalistas do Público, os deputados do Bloco de Esquerda e os muitos que apoiaram essas decisões políticas e administrativas irracionais, alguma vez vão admitir que realmente mais valia decidir mais racionalmente e com menos confiança no pensamento mágico.

Na página 5 encontro a razão de eu ter este jornal num monte de papeis velhos: um artigo de página inteira escrito por mim.

Depois de uma longa explicação sobre o que me parecem ser as raízes do problema, sugerindo um conjunto de respostas aos problemas que identifico, pergunto-me se o governo nesta reforma tinha decidido deixar de capturar os recursos existentes para a gestão do sector, transferindo parte do dinheiro disponível para o mundo rural do apoio à produção para pagar os serviços de ecossistema.

E acabo a responder a mim próprio.

"Não, o Governo resolveu inventar um problema de propriedade, como se não fosse a falta de competitividade que conduz à ausência de dono, e não a inversa, resolveu inventar um problema com uma das fileiras mais competitivas, a pretexto da sua relevância para a existência de fogos (o eucalipto representa 13% da área ardida, portanto 1% menos que as áreas agrícolas, que representam 14%), resolveu embrulhar-se em discussões bizantinas sobre planos e competências administrativas, bancos de terras cuja viabilidade económica ninguém discute, repisar o problema da dimensão da propriedade quando a maior parte do valor acrescentado da floresta é produzido na região de minifúndio, etc., etc., etc..

Como ao Estado não lhe convinha fazer o que estava perfeitamente ao seu alcance, em matérias que lhe dizem respeito, resolveu mandar os proprietários fazer o que convinha ao Estado, dizendo que estava a fazer a reforma de uma floresta que não lhe pertence.

A probabilidade disto tudo ter qualquer utilidade deve ser mais pequena que a de eu ganhar o Euromilhões, mesmo sabendo que eu não jogo".

Seis anos e meio depois, a jornalista que assina a peça ainda escreve no Público, portanto poderia perfeitamente avaliar se a razão era sua quando resolveu dizer que Portugal ia ter menos eucalipto graças ao Bloco de Esquerda, ou se realmente a chamada reforma da floresta foi "um esforço inútil, um vôo cego a nada", como diria o Reinaldo Ferreira e como previa eu nesse artigo de opinião.

Mas não, a jornalista, o jornal, os outros jornalistas, e todos os que os apoiarem neste fronda, raramente se dedicam a esta tarefa de avaliação do seu trabalho, para ganharem experiência e não se deixarem enganar facilmente porque qualquer demagogo.

E não precisam de ir tão longe nesta análise como eu fui neste post, poderiam fazer o que fiz um destes dias, por mera curiosidade pessoal.

Tenho evitado fazer comentários sobre a Iniciativa Liberal antes das eleições, para além dos que já fiz, mas fui verificar se o que eu tinha influenciado fortemente no programa anterior do partido tinha ficado no actual programa para estas eleições o que me serve para ilustrar o potencial informativo que advém do respeito pela história.

Sem surpresa, parte foi ficando, parte desapareceu e o sentido geral tem coisas que ficaram (a ideia de uma política de conservação mais contratual e menos regulamentar) e coisas que ou desapareceram, ou foram fortemente limitadas, como o pagamento dos serviços de ecossistema, dos quais, aliás, eu falava nesse artigo, ainda anterior à Iniciativa Liberal.

De trave mestra do programa anterior - o pagamento de serviços de ecossistema - em matéria de conservação da natureza e floresta, passou a nota de rodapé em que depois de se dizer que o que compete ao Estado é produzir indicadores e acompanhar a execução de planos de áreas protegidas, até se concede que "Nas circunstâncias onde o justifiquem, pode ser o próprio Estado a pagar diretamente aos proprietários pelos seus serviços de ecossistema" (e nem falo da ideia anti-liberal de permitir "às entidades de gestão cobrar serviços de ecossistema pelo seu usufruto", que atribuo à opção de pôr a garotagem, sem experiência concreta dos assuntos, a fazer programas eleitorais).

O relevante aqui não é a evolução da Iniciativa Liberal, mas o potencial informativo que existe na comparação dos diferentes programas políticos que são apresentados, pelos partidos, a diferentes eleições, bem como a avaliação dos resultados concretos de políticas executadas, neste caso da putativa reforma florestal.

Sem memória, todo o discurso sobre o futuro é vazio e, aparentemente, o jornalismo tem estado mais focado em prevêr o futuro a partir de borras de café que em o discutir a partir dos resultados concretos das políticas executadas.

Os derrotados dos Açores

por José Mendonça da Cruz, em 05.02.24

Em vésperas de eleições nos Açores, o Expresso publicou uma sondagem sobre voto nacional em que concluía pelo grande sucesso do Chega, e colocava uma fotografia triunfal de André Ventura atravessado na página. O Chega subiu a votação e conseguiu 5 deputados nos Açores, mas a vitória foi da AD. Se era um prognóstico para as eleições regionais, o Expresso perdeu as eleições nos Açores.

A Sic abriu o telejornal das 13, hoje, dizendo que a AD ganhou, mas a governação depende do PS. Em peça separada, pouco adiante, a Sic garante que «o PS pode ser a chave». Por entre manipulação de dados - que só pode ser considerada desonesta, para evitar dizer que é vã e estúpida (nem com Bloco e IL o PS formaria governo) - a Sic perdeu as eleições nos Açores.

A Católica disse à RTP e ao Público, em sondagem sobre as eleições nos Açores, que o PS ia ganhar com 39% (teve 35,9 e perdeu dois deputados) e a aliança PSD/CDS/PPM ia perder com 36% (teve 42% e elegeu 26 deputados). A Católica, a RTP e o Público perderam as eleições nos Açores.

A CNN/Tvi abriu o jornal das 13, hoje, com o interrogatório a Madureira, o «Macaco» dos dragões, e os protestos da Polícia. Sobre as eleições nos Açores - ao fim de vários minutos, por fim - garantiu depois que «há dúvidas sobre a governabilidade», e que «o PS deixa tudo em aberto». A CNN/Tvi não consegue engolir que perdeu as eleições nos Açores.

A sondagem da Aximage para o Açoriano Oriental e a Rádio Açores TSF deu um empate técnico entre PS e AD: 36,6% (foi 35,9%) contra 33,5% (foi 42%). A Aximage, o Açoriano Oriental e a Rádio Açores TSF perderam as eleições nos Açores.

Aguardam-se mais erros de avaliação, manipulações e dislates.

P.S. (salvo seja) Entretanto, na Sic como na Tvi, os comentistas -- já sem sequer repararem, como rabos escondidos com o gato de fora -- continuam a perorar sobre as eleições dos Açores exclusivamente pelo ponto de vista do PS.

O mito do voto anti-fascista

por henrique pereira dos santos, em 05.02.24

"No pasarán!" é uma frase de que a esquerda que "vai sempre amanhã matar o velhote inimigo que morreu ontem" gosta muito e usa como amuleto anti-fascista.

Não só raramente sabem que a frase não é da Pasionaria, apenas foi adaptada por ela para efeitos de propaganda a propósito da batalha de Madrid, como ignoram a realidade subsequente e a resposta de Franco quando as suas tropas tomaram Madrid, "hemos pasado" (esta última parte também eu desconhecia, li-a através de Ana Cristina Leonardo e confirmei em fontes independentes).

A realidade, para esta esquerda folclórica, é apenas um pormenor que não deve ser levado demasiado a sério, e portanto, a propósito de qualquer ameaça fascista, reagem como se estivessem nos anos 30 ou 40 do século passado, gritando que o fascismo, que morreu em meados dos anos 40 do século XX, não passará.

É com base neste tipo de pensamento mágico que se inventou e se difundiu o mito de que a maioria absoluta do PS nas últimas eleições resultava da concentração do voto anti-fascista que tinha como objectivo impedir o acesso ao poder do Chega.

Nada na realidade permite dar alguma substância a essa alegação (está-se mesmo a ver que os eleitores comunistas que se passaram para o Chega estavam danadinhos por resuscitar a PIDE e que os eleitores do BE que votaram no PS estavam mais preocupados com o Chega que com a vitória da direita que lhes quer cortar o 13º mês), mas ainda que houvesse alguma hipótese desse mito ter qualquer virtude explicativa dos resultados das últimas eleições, os resultados de ontem, nos Açores, acabam com qualquer dúvida nessa matéria.

O Chega aumenta para o dobro, ao mesmo tempo que o PS e o BE perdem votos (fui corrigido, com razão, o PS teve mais 837 dos mais de 11 mil a mais que houve nestas eleições), criando uma situação em que a melhor maneira de levar o Chega ao poder é o PS aliar-se ao Chega para impedir a existência de qualquer governo e obrigar à repetição de eleições até que as tendências actuais acabem por dar uma maioria ao Chega.

E a melhor maneira de evitar o Chega no governo é deixá-lo a falar sozinho, como tenciona a AD fazer, deixando ao PS a decisão de se abster, viabilizando o governo da AD.

A alternativa é o PS coligar-se com o Chega para o derrubar o governo da AD e, de caminho, reduzir a base de apoio desses dois partidos, reforçando a AD (o PS e o Chega parecem estar na famosa situação de se correr o bicho pega, se ficar o bicho come).

Nas redacções dos jornais, onde a influência destes mitos da esquerda é esmagadora, deve andar tudo a tomar comprimidos para a dor de cabeça, com o esforço que têm estado a fazer para perceber que afinal o mundo não está na primeira metade do século XX e os eleitores estão é preocupados com a sua vidinha.

Memórias

por henrique pereira dos santos, em 03.02.24

O Facebook tem um sistema de registo que, para uma pessoa desorganizada, que escreve muito e organiza pouco o que escreve, tem uma virtude inestimável, a de tropeçar de vez em quando em coisas divertidas.

Púrpuro acaso, dei hoje com dois posts que poderiam ter sido escritos (alterando as circunstâncias) para estas eleições, o primeiro, mais sério, responde à conversa antiga e popular de pôr os ricos a pagar a crise (por exemplo, a tolice do Chega, de que nunca mais se ouviu falar, sobre criar taxas especiais sobre a banca para pagar aumentos de pensões), tem oito anos e corresponde ao início das gerigonça. A realidade de hoje demonstra ter sido uma análise bem acertada.

O segundo, de há seis anos, sobre corrupção ou, mais precisamente, sobre a corrupçãozinha.

"André Silva, do PAN, deveria aproveitar a sua posição singular para se afirmar pelo rigor do que diz (concorde-se ou não com o que diz, eu concordo com algumas coisas e discordo de muitas outras, discordando dos fundamentos centrais da sua posição política), ao contrário do que faz aqui:

"André Silva confirmou a intenção do executivo de agravar impostos sobre a banca, carros e combustíveis: “Para chegar aos valores do défice estrutural está a pensar nessas medidas extraordinárias – o que no fundo acaba por ir buscar esses valores aos setores mais lucrativos e não àquilo que são os impostos sobre o rendimento do trabalho das pessoas”"

A banca em Portugal está a dar prejuízos há anos, e quanto menos rentável for, mais dificuldade se cria ao financiamento da economia, mais dificuldade se cria ao investimento e mais dificuldade se cria à criação de emprego, a principal questão social que o país tem de resolver.

Do mesmo modo o sector dos combustíveis tem um efeito sistémico socialmente assimétrico: os que menos têm são proporcionalmente mais afectados pelo custo da mobilidade e pela inflação induzida que os que mais têm e podem desviar rendimento para a poupança, quando os preços sobem.

Há anos que defendo a transferência de carga fiscal do trabalho para o consumo e, em especial, para o consumo de energia, sobretudo num quadro de neutralidade fiscal, mas isso é muito diferente de ter aumentos de carga fiscal que, essencialmente, poupam a classe média e afectam mais os que menos têm, sobretudo quando esse aumento da carga fiscal é feito para financiar o aumento de ordenados de um dos grupos sociais menos afectados pela crise: a classe média cujo emprego ou pensão é assegurado pelo Estado".

Agora o segundo, o tal que fala da corrupçãozinha e que serve para lembrar que não, não são eles que são uns malandros do pior, somos nós todos, incluindo eles, que somos não só complacentes para com a corrupçãozinha, como estamos imensamente disponíveis para achar que é normal um Ministro pedir dois bilhetes para o futebol, não preparando as instituições para se blindarem em relação a este tipo de pequenas tropelias.

"Caramba, nunca pensei em perder tanto tempo à volta do assunto dos bilhetes de futebol, mas a insistência em teses comuns sobre a pouca importância da pequena corrupção e a violência que existe em alguém aceder a documentos administrativos que, por definição, são públicos (os emails oficiais de quem exerce funções públicas não são correio privado), acabam por prolongar esta minha diatribe contra a complacência perante o efeito corrosivo que a pequena corrupção tem na sociedade e na confiança dos cidadãos nas instituições.

Dizem-me: "Continuo sem perceber qual foi o fundamento para a suspeita de crime do Centeno, muito menos o da busca. Espero que o Henrique nunca seja alvo de uma arbitrariedade e violência igual."

Respondo: "A probabilidade de eu ser investigado por pedir bilhetes para o futebol, ou coisa do género, é baixa. Mas saltemos por cima disso e a questão é simples: Facto 1: há um pedido de bilhetes para o futebol por parte do Ministro das Finanças, através de um seu assessor; Facto 2: uma semana depois há um email de um filho do presidente do clube que acedeu ao pedido de bilhetes a agradecer ao pai o empurrão na resolução de uma questão fiscal; Facto 3: há um jornal que levanta a suspeita de que as duas coisas estam ligadas.

O Ministério Público entende que os dois primeiros factos acima descritos caem na definição legal de três crimes, pelo que existe uma suspeita que exige a verificação da existência de crime.

Para isso faz meia dúzia de diligências normais (avalia o processo fiscal referido e vai ver os mails profissionais das duas pessoas envolvidas na troca de mails sobre os bilhetes de futebol, isto é, o dito assessor e o chefe de gabinete do ministro para verificar se há a mais leve dúvida sobre o facto 2 se relacionar com o facto 1.

Qual é a violência?

De acordo com a lei todo o correio (incluindo o electrónico e qualquer suporte documental) trocado por pessoas no exercício de funções públicas é público, excepto notas pessoais e coisas que tais.

Eu sei que ninguém liga nenhuma a isso e o sentimento geral é o de que a troca de mails, documentos, notas, etc., no exercício de cargos públicos é pessoal, mas exactamente esse tipo de confusões entre as dimensões públicas e pessoais da actividade das pessoas que exercem funções públicas faz parte do caldo de cultura em que cresce a pequena corrupção e facilita a grande corrupção.

Resultado final? Tudo resolvido, não sobra a menor sombra de comportamento ilícito (embora eu perceba que o Ministro não goste que as pessoas saibam que anda a pedir pequenos favores a terceiros, mas a maneira de resolver isso não é desqualificar o poder judicial, é o Ministro deixar-se de comportamentos inaceitáveis para quem exerce o cargo que exerce)."

E pronto, aqui ficam dois contributos do meu passado para a actual campanha eleitoral, ide votar em que desconsidera, sistematicamente, o formalismo dos processos de decisão públicos e depois vinde cá queixar-se dos resultados.

Como um atleta chegado do Olimpo

por João Távora, em 02.02.24

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Acabou finalmente, por alguns meses, a ruidosa especulação à volta da venda de Viktor Gyökeres. Foram mais de seis semanas de entretenimento de muitos comentadores remunerados, nos jornais e televisões, com o intuito de esmifrar o publico em lucubrações numa não notícia. O fenómeno percebe-se: o jornalismo, vivendo uma profunda crise, não poderia deixar de explorar o filão duma potencial transferência que esteve longe de acontecer. Afinal, a “não notícia” reunia o interesse do grosso dos adeptos do universo da bola: por um lado afligindo os sportinguistas incautos, e por outro alimentando expectativas aos seus adversários. Foram litros de tinta e horas de sagazes cometários que se irão desvanecer rapidamente na espuma do esquecimento. Afinal também foi para isto que se fez o 25 de Abril.

Mas a mim interessa-me principalmente o fenómeno Gyökeres em campo. Serão certamente lugares-comuns os adjetivos a aplico à arte com que o jogador nos surpreende a cada jornada. A força brutal aliada à técnica refinada e resistência resulta mesmo um caso raro. Vê-lo, quase ao fim do jogo, fazer um sprint para recuperar uma bola na defesa, ou esgadelhar-se para marcar só mais um golo é um deleite para quem gosta de futebol. Dou Graças a Deus de ter vindo para o Sporting, e da felicidade que transparece pela experiência. O seu sorriso ao final de cada partida bem-sucedida denuncia um entusiasmo benignamente infantil. Dizem-me que já arranha a língua de Camões e que a namorada é portuguesa.

Finalmente, Gyökeres evidencia uma estampa politicamente incorrecta que me apraz de sobremaneira: aparentando uma escultura clássica, sem ostentar no corpo tatuagens ou outros artifícios, transmite sobriedade, a contrariar a imagem de decadência do europeu médio. Como um atleta chegado do Olimpo.

Rezo para que a sua experiência seja muito feliz entre nós.

Publicado originalmente aqui

Infantis, sim

por henrique pereira dos santos, em 02.02.24

"Não é um risco o discurso político do regresso às PPP, tendo em conta uma espécie de trauma que ficou no país?

Com aquelas parcerias publico-privadas. O problema não é o modelo  das PPP, o problema é o abuso pelos agentes políticos"

Isto é um bocadinho de uma entrevista feita pela Renascença e o Público a Pedro Reis, um dos coordenadores do programa da AD. Trata-se de uma entrevista que demora mais de uma hora na Renascença e com base na qual o Público publica uma página.

É claro que quando se reduz mais de uma hora de conversa a uma página, muita coisa tem de ser deixada de fora, e a escolha do que se inclui, ou se omite, é uma responsabilidade editorial do jornal e uma responsabilidade da jornalista.

Começo pelo bocadinho que transcrevi no início, que aparece na sequência de uma conversa sobre saúde, portanto, as PPP referidas são as que dizem respeito à saúde.

Sobre essas, o que é objectivo e factual é que eram PPP que estavam a funcionar, saíam marginalmente mais baratas ao Estado que a situação que resulta do seu fim, tinham indicadores melhores de desempenho que a situação actual, havia maior satisfação dos seus trabalhadores e havia maior satisfação dos utilizadores quando essas PPP estavam a funcionar.

Sobre isto, que é objectivo, factual e verificável, a jornalista não diz nada, e faz uma afirmação impossível de confirmar e, nesse sentido, ajornalística: há uma espécie de trauma no país com PPP, ou seja, ignorando a informação objectiva que existe e tomando como certa uma ideia sem qualquer base empírica verificável, a jornalista resolve perguntar se um ponto concreto do programa da AD não será um risco político.

Eu não entendo este tipo de jornalismo e acho confrangedora a frequência com que tropeço neste tipo de jornalismo em que os factos são ignorados, sendo substituídos pelos preconceitos do jornalista, sempre com a justificação de que esse preconceito do jornalista é uma ideia geral que existe (e até pode ser que exista, na sua bolha social, mas não se consegue demonstrar).

Como a pergunta me parecia completamente tonta, na forma como é feita, e a resposta evidentemente truncada, resolvi ir ouvir a parte da entrevista directamente no original.

Verifiquei que Pedro Reis deve ter achado o mesmo que eu e fala na infantilização da discussão. Imediatamente percebe que fez uma coisa que qualquer político deve evitar (acham os tipos da comunicação mainstream, eu não acho, Cavaco não achava, Ventura não acha, e com bons resultados para eles), que é criticar os jornalistas e corrige imediatamente dizendo que não é o caso, está a falar em abstracto.

Uma das jornalistas enfia a carapuça, não gosta e, depois de uma longa explicação de Pedro Reis sobre as virtudes e problemas das PPP, que o Público omite na sua transcrição da entrevista, resolve elevar a infantilidade a um nível estratosférico (ver a partir do minuto 48:30 da entrevista na Renascença): "O PS acusa a AD de querer privatizar tudo e a AD acusa Pedro Nuno Santos de ser um estatizante e querer nacionalizar tudo, e portanto também há alguma culpa da AD quando põe a discussão nestes termos" (vale a pena ver o vídeo porque a linguagem corporal da jornalista neste momento "quem diz é quem é" a propósito da infantilização do debate é muito, muito elucidativa).

Eu conheço a jornalista pelo que escreve no Público e sei que não se pode pedir às pessoas mais do que o que podem dar, sendo toda a sua participação nesta entrevista sempre no mesmo registo pequenino e mesquinho que caracteriza grande parte do jornalismo político do Público (e não só), mas caramba, o entrevistado até é fácil, afável, fala com alguma profundidade das propostas do programa político da AD e do que o distingue do programa do PS (mobilizar os privados, removendo obstáculos à sua contribuição para a sociedade, diz a AD, melhorar e reforçar o papel do Estado, sendo mais selectivo na forma como incentiva os privados a produzir para o bem comum, diz o PS) e as jornalistas o que querem saber é se a direcção executiva do SNS é para manter, quando é que tomam decisões sobre o aeroporto ou se existe risco político com base no trauma do país com PPP?

Se o jornalismo não entrega o retorno à sociedade que era suposto entregar, por que razão nos devemos preocupar com o seu futuro?

Mártires da Pátria

por Daniel Santos Sousa, em 01.02.24

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"Mas o pior crime que a República cometeu foi o de abalar pelo esquecimento a fidelidade monárquica. E a Coroa não pode nem deve ser um sinal de divisão, ou uma sigla de partidos. Mas sim o cristal em que todos os portugueses possam encontrar a sua imagem. O cristal é frágil. E não sei até que ponto, quando se quebra pode readquirir o seu brilho e a sua transparência. Não irei àquela cerimónia fúnebre que todos os anos se repete na Praça do Município. E se fosse, iria de gravata preta, porque acto tão triste, ali, só pode ser para que não esqueça a memória de um rei e de um príncipe vilmente assassinados."

 

(Francisco Sousa Tavares, Outubro de 1991, crónica reunida no livro "Uma Voz na Revolução, testemunhos e causas de Francisco Sousa Tavares"). 

 

"Se eu te contasse"

por henrique pereira dos santos, em 01.02.24

Ontem li um artigo de opinião de um cronista do regime, mas independente.

Estranhamente os orgãos de comunicação social em Portugal estão cheios de políticos com agendas políticas perfeitamente definidas, e a quem nunca ninguém ouviu qualquer palavra que não fosse para reforço dessa agenda, mas há, em minoria, também há verdadeiros cronistas, isto é, gente que pensa de forma razoavelmente livre.

Dizia o cronista que a corrupção seria uma questão central na votação do próximo dia 10 de Março e daí fazia uma série de considerações sobre os erros de Montenegro (é um desporto nacional falar dos erros de Montenegro, como era um desporto nacional falar do esgotamento político de Passos Coelho, quando era o chefe da oposição a António Costa).

corr.jpg

Este boneco ilustra a única divergência de fundo que sempre tive com Carlos Guimarães Pinto, a sua frequente referência política à corrupção.

Esta divergência não é bem em relação ao efeito corrosivo da corrupção numa comunidade, mas diz respeito à sua relevância política.

Se a corrupção tivesse o peso eleitoral que se lhe atribui, o PS não teria hoje intenções de voto nas sondagens em torno de um terço, Isaltino (e muitos outros) nunca ganhariam eleições e por aí fora.

A corrupção é políticamente útil ao Chega, não porque alguém ache que um governo do Chega seria imune à corrupção, mas porque reforça a única coisa que interessa ao Chega como mensagem política, passar a ideia de que é um partido anti-sistema para mobilizar o voto de protesto.

A Iniciativa Liberal, que tem um discurso tão anti-corrupção como o Chega (ou o Bloco de Esquerda, o PC alinha menos nestas infantilidades), não retira grande benefício político dessa conversa (o PS e o PSD, os partidos de poder, a falar abstractamente contra a corrupção tem a mesma credibilidade que a Cicciolina a falar dos benefícios do recato).

Note-se que isto não é nenhuma novidade, as grandes forças políticas anti-liberais da primeira metade do século XX, fascistas, nazis, comunistas e afins, tinham um fortíssimo discurso contra a corrupção e a plutocracia das democracias (mesmo o discurso anti-semita dos nazis era, na origem, um discurso contra a corrupção e plutocracia, com frequentes identificações entre banqueiros e judeus, sobretudo nas suas fases ascensionais destes grupos políticos), independentemente da sua prática, uma vez atingido o poder, ser tão corrupta como eram as democracias plutocráticas.

A impressão que tenho é a de que o eleitor comum tem um razoável conhecimento da natureza humana e sabe que o poder corrompe, que a ocasião faz o ladrão, e por isso não liga muito à ideia de que uns grupos ocupam o poder de forma impoluta e outros não.

Protesta contra a pouca-vergonha, contra a ladroagem, contra uma justiça para ricos e outra para pobres, não porque a corrupção seja uma questão central, mas porque identifica poder com privilégio e protesta contra o abuso de poder, seja ele de que tipo for, quando as coisas lhe correm mal (quando lhe correm bem, não quer saber).

O eleitor comum vota em partidos de protesto, como o Chega ou o Bloco de Esquerda, não porque se identifique com os seus programas políticos (toda a gente desconhece os programas políticos de toda a gente, e por boas razões, todos sabemos que os programas falam de situações ideais e a política diz respeito ao que é possível) mas porque quer votar contra o sistema, a casta, o privilégio, radicalizando-se quando o centro, que tendencialmente ocupa o poder, deixa de lhe dar esperança de que a sua vida mude para melhor.

Nem de propósito, vinha hoje a ouvir uns jornalistas a falar sobre a prisão de um senhor das claques do Porto, alguns espalhando a sua superioridade moral referindo que finalmente, e não se percebia como não tinha sido antes, a justiça tinha olhado para o mundo do futebol (como se o mundo mediático não tivesse responsabilidade na forma como lida com o mundo do futebol) e outros, sensatamente, a falar dos seus amigos e familiares, que são pessoas razoáveis, sensatas e etc., até porem o cachecol do seu clube.

Um dos jornalistas dizia que não entendia o silêncio de várias pessoas politicamente relevantes, e que fazem parte do Conselho Superior do Futebol Clube do Porto, a propósito do que se tinha passado na Assembleia Geral do Porto e do vandalismo subsequente que ameaçou André Vilas Boas.

A colega responde-lhe, numa cândida demonstração da responsabilidade da comunicação social no que se passa no mundo do futebol: "se eu te contasse as cenas que vi no estádio do Porto por parte desse tipo de pessoas...".

That's all folks, todos nós sabemos que a política, o futebol, a finança, o jornalismo, a academia, as famílias, as empresas, etc., etc., etc., são mundos sujos, feitos por e para pessoas normais, e todos nós votamos em eleições com base em critérios razoavelmente estreitos sobre o que achamos que pode ser feito num futuro próximo, a partir desses resultados eleitorais.

Raramente, muito raramente, há quem acredite que o seu voto serve de purificador desses mundos humanos, demasiado humanos, que serão, doravante, regidos por critérios de pureza moral (felizmente).

Não, a corrupção não é um grande influenciador de votos, serve apenas para sinalizar a minha posição dentro ou fora do sistema, pouco mais.

Assim vai....

por José Mendonça da Cruz, em 30.01.24

A Agência Portuguesa do Ambiente, que autorizou a modernização da base do Montijo para servir de aeroporto complementar ao de Lisboa, retirou a autorização de  modernização da base do Montijo para servir de aeroporto complementar ao de Lisboa, porque «as circunstâncias» se alteraram. Conviria que ficasse claro que «circunstâncias» foram essas que tanto se alteraram, não vá a gente pensar que a APA está apenas a fazer um frete à ânsia socialista de construir mais um elefante branco.

Manifs

por João Távora, em 30.01.24

No sábado passado, inadvertidamente na Almirante Reis, cruzei-me com a manifestação organizada pela plataforma Casa Para Viver. Confesso que, enredado no meio daquela fauna raivosa, até fiquei com saudades das manifestações revolucionárias dos anos 70 e 80, com homens de barba rija e mulheres de peito feito a reclamar a Ditadura do Proletariado. Com tantos malucos à solta a manifestar-se por causas absurdas (provavelmente fascistas da mesma laia dos que queimaram o cartaz do Chega), custa-me entender que haja gente tão preocupada com ciganos e imigração de muçulmanos. Acontece que a maior ameaça à civilização, hoje como ontem, está entre os “nossos”.


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