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Os fantasmas e a sustentabilidade

por henrique pereira dos santos, em 14.02.20

O movimento ambientalista, que na origem tinha os pés na terra e era muito cauteloso na fundamentação científica e técnicas das suas posições, procurando responder a problemas reais das pessoas comuns, tem evoluído para uma deriva mediática em que o activo central que procura valorizar é o medo do futuro.

Abandonou a solidez da base científica e técnica do que diz - a ciência é uma coisa chata que umas vezes confirma as nossas crenças, outras destroi-as sem dó nem piedade - e prefere lidar com fantasmas.

Tem mantido posições totalmente acientíficas, não são anti-científicas como as dos terra-planistas ou dos criacionistas, ignorando toda a produção científica que diminua o dramatismo associado a coisas como os eucaliptos, os fogos, o glifosato, os organismos geneticamente modificados, e muitas outras coisas.

E, para se manter na crista da onda, o movimento ambientalista, ou melhor, a componente dominante do movimento ambientalista, há outras componentes minoritárias que não funcionam assim, tem uma grande necessidade de saltar de drama em drama, que vai elegendo em cada momento.

Um bom exemplo disto é a estridência da sua guerra contra o glifosato, ao mesmo tempo que ignora, por completo, que a diminuição do consumo de glifosato, em Portugal, tem vindo acompanhada pelo aumento de consumo de outros químicos, menos mediáticos, mas ambientalmente mais agressivos. Nota: o consumo de químicos por unidade de produção tem diminuído bastante e, sobretudo, tem havido uma enorme alteração da sua natureza, sendo hoje usados químicos bem menos impactantes que há quarenta anos, portanto esta tendência que refiro não pode ser lida de forma totalmente linear, apenas serve para ilustrar como a atenção mediática concedida a um problema eleito como drama - o uso de glifosato - convive perfeitamente com o silêncio sobre problemas mais graves, mas menos úteis mediaticamente - a sua eventual substituição por químicos mais agressivos, mas menos mediáticos.

Vem tudo isto a propósito de uma pequena frase de David Neeleman nesta entrevista: "o mesmo avião já não consegue chegar tão longe se partir de Madrid ou de Paris, o que dá uma enorme vantagem competitiva a Lisboa, pois o A321 LR consome metade do combustível nessa viagem do que um A330, que é o avião que habitualmente é utilizado. Foi por isso que encomendei 19 destes aviões".

Ainda ontem tinha ouvido referências ao facto do crescimento em torno de 20% no números de passageiros no aeroporto da Portela corresponder a um aumento em torno de 1% no número de vôos, o que aponta no mesmo sentido: a aviação está a evoluir rapidamente no sentido de se tornar mais sustentável.

Ora a aviação tem sido um dos alvos preferenciais dos radicais ambientalistas, por causa das suas emissões e efeito nas alterações climáticas.

O problema é real, e merece atenção, sobre isso não tenho qualquer divergência com a generalidade do movimento ambientalista.

Pessoalmente nem viajo muito e, recentemente, tendo de ir a uma conferência em Barcelona, andei à procura de maneira de lá chegar de comboio. Acabei por decidir ir de carro, articulando com pelo menos mais uma pessoa e, eventualmente, com um bocadinho mais de esforço, ainda daria para apanhar mais algum espanhol pelo caminho. A diferença de custo não é muito relevante para os vôos directos, embora seja alguma para vôos com escalas, a diferença do tempo de viagem (contando horários disponíveis e tempos de aeroportos, incluindo atrasos) é gerível e a alternativa do comboio é incomparavelmente pior em tempo e flexibilidade. Mas tudo seria muito mais simples se fosse de avião (há um ano ou dois fui de carro, aproveitando para fazer férias, a Bordéus, para uma conferência para que me convidaram e, apesar de ter combinado que me pagariam o dinheiro do avião para abater nas despesas da viagem, a verdade é que para os organizadores seria muito simples terem-me pago o avião e, até hoje, acabei por nunca receber o dinheiro correspondente, porque as organizações não estão preparadas para lidar com modelos alternativos de financiamento de viagens).

Há muito trabalho a fazer para melhorar a sustentabilidade da forma como nos deslocamos, e uma boa parte desse trabalho é mesmo na aviação.

Mas insistir que a única maneira de ser mais sustentável é viajar menos de avião, não construir aeroportos e coisas que tais é muito pouco útil, excepto para a tal opção de dramatizar tudo o que for possível para reforçar o medo do futuro de que se alimentam as organizações basicamente reacionárias, como são grande parte das que fazem parte do movimento ambientalista dominante.

Dúvidas

por João Távora, em 14.02.20

Não é o direito de morrer que está em causa nas propostas da eutanásia. É outra coisa: é o direito de matar. Hoje, matar alguém, mesmo que a pedido dessa pessoa, é sempre um crime. Com a instituição da eutanásia, deixaria de ser assim. As questões éticas e jurídicas daí derivadas, e não apenas para os médicos, vão muito para além do “direito” e da “liberdade” de um suicida, e merecem ser discutidas e esclarecidas. (...) A eutanásia é sobretudo mais uma frente na sua [dos progressistas] guerra ideológica contra o que, desde o jacobinismo, lhes ensinaram ser a grande dificuldade: as tradições, inspiradas sobretudo pela herança cultural do cristianismo, que foram sempre os obstáculos principais aos projectos de refundar a sociedade a partir do Estado.

Rui Ramos a ler na interga aqui

Abandonai toda a esperança...

por José Mendonça da Cruz, em 13.02.20

... vós que esperais um sobressalto perante a incompetência deste governo. 

Um cidadão com grave problema de saúde acorreu ao hospital de Lamego, uma Entidade Pública Empresarial, e depois de esperar 6 horas morreu sem ser atendido.

Apesar do estado caótico em que os fingimentos do governo precipitaram o SNS, apesar do funcionamento criminosamente incompetente desse tipo de hospitais que os socialistas preferem, para não haver nem privados nem liberdade de escolha à vista, apesar de tudo, a família -- cuja dor me merece o maior respeito, e cuja inteligência não me merece nenhuma -- considera que se trata de um caso de negligência médica.

Pode seguir a propaganda e a incompetência.

Temos aquilo que merecemos

por João Távora, em 13.02.20

Cristina Ferreira.jpg

Disseram-me que a Cristina Ferreira promoveu esta manhã na SIC um "debate" sobre a eutanásia em que os convidados eram todos a favor da dita - deve ter sido uma amena a cavaqueira, uma autêntica acção de promoção. Será que a intenção da entertainer era convencer das virtudes da antecipação da morte a sua audiência de reformados retidos em casa ou em lares de idosos, condenados a ver programas imbecis? É evidente que o debate está viciado, as cartas estão marcadas.
E todos os idiotas úteis que teimam em abster-se nas eleições mas agora vociferam indignados com a previsível vitória da eutanásia num parlamento com quase 2/3 de “progressistas”, da próxima vez lembrem-se que a participação cívica é algo mais que perorar nas redes sociais. Agora queixem-se!

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O Público de hoje traz um ataque feroz de Manuel Loff a Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, por causa duma controvérisa havida no Teatro Municipal, o Rivoli dirigido por Tiago Guedes.

Ler Loff — graças a Deus é quinzenal — ou vê-lo na rtp2 é um esforço olímpico de paciência para com as ideias dum totalitário empedernido, que agita a liberdade e a democracia a torto e a direito como bandeiras úteis mas tem zero de tolerância para quem não se alinha com a sua bitola política. Esse esforço de paciência é que é verdadeiramente democrático, e eu jamais pediria que alguém cortasse a voz deste que garbosamente se assina como historiador, o que já por si parece bastante para causar grave suspeição, na medida em que dificilmente se encontra naquilo que ele escreve — livros incluídos — uma réstea de contraditório ou de debate de ideias ou justaposição dialéctica de factos. É reconfortante ver ou ler a verdade dura e crua do totalitarismo em todo o seu «esplendor». É até vacinante!

Talvez por consideração a quotas ideológicas e políticas, jornal e televisão acolhem Manuel Loff, mas o benefício — «importa dizê-lo com frontalidade», como dizia o outro, que  foi quase o mesmo — para quem o lê ou ouve é extremamente reduzido. Talvez Loff sonhe, ainda!, com uma ditadura soviética no Porto (a felicidade livre na terra sob sol radioso), porém o seu ácido desespero por ver tão distantes esses admiráveis desígnios, que a cidade tarda em acolher desde tempos imemoriais, levou-o agora a uma acusação a Rui Moreira que vai para lá de todos os disparates: «o problema de Moreira é esta megalomania monárquica que afecta tanta gente na gestão do que é público.» Seria bom que nomeasse essa «tanta gente», como seria razoável que fosse honesto o suficiente — mas seria já pedir-lhe demasiado — para reconhecer que no exercício das suas funções institucionais o presidente da CMP tem sido absolutamente discreto quanto à sua preferência na chefia do Estado (como aliás seria razoável que fizesse). Mas aí está: acusá-lo de monárquico tem logo um adicional de negativo, que fica por explicar.

Continue, Manuel Loff, continue. A Liberdade agradece-lhe, mas não como julga...

Vasco Rosa

Não vos passa um arrepio na espinha?

por João Távora, em 12.02.20

O Estado, esse grande educador das massas, qual polvo cuja cabeça descomunal reside em meia dúzia de ministérios em Lisboa, consegue saber aquilo que precisar sobre a vida de cada um de nós: onde estamos, o que fazemos, de que padecemos, e (principalmente) o que pagamos... com uma minúcia aterradora. É natural por isso que estejamos dispostos a delegar neles as regras e condições em que nos poderão ministrar uma injecção letal. Com isenção de taxa moderadora.

Hoje, um dia triste cá na terra

por João-Afonso Machado, em 12.02.20

FAMA BOYS.JPG

A equipa viajou até Lisboa onde foi derrotada no último minuto do jogo. A equipa encheu o peito para vencer o Benfica aquando da sua recepção em Famalicão. Empatou. Porque lhe subtraíram um golo mal anulado. Deste modo a meia-final não seguiu para bingo.

É assim a vida longe das grandes máquinas ditas desportivas. Muito carregada de ilusões, amargurada por outras tantas desilusões. O jogo de ontem traduziu com exactidão a velha realidade da águia imperial trucidando os pequenos reinos livres que não prescindem da sua liberdade.

(Uma águia - imperial - que vem voando da Roma antiga, em círculos sobre o poderio germânico e a imensidão russa, com uma cria futebolística abandonada em Benfica.)

A hoste azul e branca famalicense fez o que pode. A lembrar os velhos ricos-homens de Ribadouro, ou mesmo as populações minhotas sublevadas... contra a águia de Napoleão.

No camarote de honra o tirano Vieira protestava, no maior desprezo pelo seu homólogo e anfitreão. Por pouco, um adepto não lhe pôs as mãos no gasganete - não fora a intervenção do dito anfitreão e homólogo...

Perder com mais dignidade não é possível. Em outra batalha contra as oligarquias que são as repúblicas cesaristas. Pelas nossas ruas não corre vergonha alguma: somente tristeza e talvez alguma revolta, afinal pelos dedos de quem o sonho não se tornou realidade?

Acidez 2 - mandem os liberais à frente

por José Mendonça da Cruz, em 11.02.20

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Se a esquerda, que é profissional, for inteligente, apoiará em bloco a proposta para a eutanásia de autoria da Iniciativa Liberal, a força parlamentar que também quer a morte, mas mais burocrática e solene. Por um lado, manchava a imagem de um inimigo da tirania estatal e do coletivismo; por outro, dava uma boa lição a amadores e maximalistas, que nestas coisas são o mesmo.

Acidez 1 - organizem-se que eu sigo-vos

por José Mendonça da Cruz, em 11.02.20

Parece que falhou a tentativa de domesticar o Ministério Público e de passar a meter na gaveta as coisas que possam incomodar corruptos. Depois de magistrados, juízes, juristas, media, comentadores e opinião pública se indignarem e pararem a manobra, é bom ouvir o senhor presidente da república quebrar o silêncio para congratular-se. 

Talvez agora que a Igreja se pronunciou, e se ouvem muitas vozes claras e críveis contra a eutanásia ; talvez agora que, ao contrário do que os «fracturantes» esperavam, a eutanásia não passa à sorrelfa, por entre cobardia e silêncio; talvez agora o senhor presidente da república possa ter também sobre isso alguns valores e uma opiniãozinha.

Antes que uma grande tragédia aconteça...

por João Távora, em 11.02.20

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Quem ingenuamente julga que a questão da violência das claques e da delinquência no futebol é um problema exclusivo do Sporting, está muito enganado. Porque será que o Estado que se quer meter em tudo, até na nossa vida privada, assobia para o lado nesta matéria tão urgente? Temo que o problema só seja encarado com seriedade quando acontecer uma grande tragédia - o monstro é incontrolável e se não for enfrentado, depois de matar alguém irá matar o futebol.
Aqueles que de boa-fé julgam que o problema do Sporting é Frederico Varandas deveriam pensar se haverá alguém com vontade e qualidades profissionais e humanas para o substituir, sabendo de antemão que se vai confrontar com os mesmos problemas da actual direcção: um clube em guerra civil e recursos tragicamente limitados para ombrear com os seus rivais. A reedificação dum Sporting vencedor (como o que existiu até aos anos 60) é um trabalho de hércules que exige não só um líder extraordinário (que não estou a ver de onde surja), mas de estabilidade para implementar uma estratégia vencedora (atravessar o deserto). Entretanto deixem a actual direcção terminar o seu legítimo mandato. Se no final tiver dominado as claques, devolvido o Sporting aos adeptos e as famílias poderem voltar a frequentar pacificamente as bancadas, já terá valido a pena.

Imagem - Heysel, Bélgica, 29 de maio de 1985 

Post publicado originalmente aqui

Catarinas e Joacines: o calendário da vida

por João-Afonso Machado, em 10.02.20

Foi à saída da missa, ajoelhando ao caciquismo. Assim mesmo, a antecipar comentários eruditos dos fieis da maquinaria urbana.  Num tema pleno de actualidade e em vésperas de ser discutido (e aprovado...) pela República, no seu lugar onde mastiga e devora o alheamento dos portugueses - no Parlamento.

Então redigi imediatamente a minha assinatura: eutanásia - não!!!

Evidentemente o tema é complexo. Toda a gente tem o direito de querer morrer. Como é óbvio, esta vontade tem de ser avaliada cuidadosamente e, mais cuidadosamente ainda, é necessário saber quem pode matar quem.

Não me proponho reflectir sobre o tema. Não me chamo Catarino, nem Joacino, nem Costa, o augusto, ávido de palmas senatoriais.

O meu apontamento é só este: ante o já confronto de opiniões, nesse tal senado (de opiniões menos axiológicas do que jurídicas, para não variar), a extrema gravidade do assunto já ficou atrás - na manipulação das Catarinas e das Joacines, na benção do Costa do castelo eleitoral.

Exemplificando: se por acaso chegar a velho, e doente, nada me apetecem conselheiros da morte, "psicólogos" pró-socialistas a dissertar sobre o bem das minhas cinzas num arvoredo qualquer. Sendo certo, tudo é possível neste mundo em propriedade horizontal...

Daí, Senhor Abade, com a sua bênção, eu me dispenso de pensar, eu me dispenso de votar, assim não me deem cabo da cabeça com modernidades toiras, valha-me Deus, se me der para o suicídio aí vai bala (ou coisa que o valha). Grande é o Pai e a sua bondade.

A morte fica-vos tão bem...

por João Távora, em 10.02.20

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A lógica da eutanásia, mais que a do aborto ou outra medida fracturante que vamos involuntariamente assimilando como "direitos adquiridos", está directamente ligada à atomização da sociedade e ao desaparecimento progressivo das antigas comunidades de proximidade, nomeadamente a família alargada, coesa e solidária. O hiperindividualismo significa a total exposição da pessoa, "página em branco", deslumbrada com tanta liberdade e “direitos”, aos caprichos dum Estado omnipresente e voraz. E depois não digam que não foram avisados.

A propósito ide ler a maravilha de texto que é este

 

Meu querido diário (3)

por João Távora, em 09.02.20

caderno diario.jpg

Na minha modesta opinião, o CDS, não sendo um "partido monárquico" (designação que é uma contradição de termos), em respeito para com a grande maioria dos seus simpatizantes e a sua matriz conservadora, devia abster-se de apoiar qualquer candidato à presidência da república (no caso português uma instituição revolucionária e ilegítima) e declarar a sua simpatia pelo modelo monárquico e parlamentarista. Isso é que era coragem e autêntica diferenciação.

Domingo

por João Távora, em 09.02.20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Vós sois o sal da terra. Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se? Não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, onde brilha para todos os que estão em casa. Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».


Palavra da salvação.

O primado da vida

por João Távora, em 08.02.20
 

1- A vida tem, desde o seu princípio ao seu fim natural, a mesma dignidade absoluta que deve ser salvaguardada e protegida. Os grandes textos civis e sagrados, médicos e filosóficos que são a matriz das nossas sociedades, e formam a nossa consciência moral, recordam-no incessantemente. Ir contra o primado da vida é atentar contra a humanidade de todos os seres humanos.

2- Não é o primado da vida que tem de estar sujeito às circunstâncias (económicas, políticas, culturais, etc.) de cada tempo, mas sim as circunstâncias que devem estar ao serviço incondicional do primado da vida. A verdadeira missão que compete à política é o suporte infatigável à vida.

3- Nenhuma vida vale mais do que outra. Nenhuma vida vale menos. A vida dos fracos vale tanto como a dos fortes. A vida dos pobres vale o mesmo que a dos poderosos. A vida dos doentes tem um valor idêntico à vida dos saudáveis. Passar a ideia de que há vidas que, em determinadas situações, podem valer menos do que outras é um princípio que conflitua com os valores universais que nos regem. 

4 - O sofrimento humano é uma realidade do percurso pessoal, que pode atingir formas devastadoras, é verdade. Mas o próprio respeito devido ao sofrimento dos outros e ao nosso deve fazer-nos considerar duas coisas: 1) que temos de recorrer aos instrumentos médicos e paliativos ao nosso alcance para minorar a dor; 2) que temos de reconhecer que o sofrimento é vivido de modo diferente quando é acompanhado com amor e agrava-se quando é abandonado à solidão. É fundamental dizer, por palavras e gestos, que “nenhum homem é uma ilha”.

5 - Recordo o que me contou, emocionada, uma voluntária que trabalha há anos numa unidade oncológica: “O que me faz mais impressão é o número de pessoas que morrem completamente sós.” Devia-nos impressionar a todos a desproteção familiar e social que tantos dos nossos contemporâneos experimentam precisamente na hora em que se deveriam sentir sustentados pela presença e pelo amor dos seus. A solução não é avançar para medidas extremas como a eutanásia, mas inspirar modelos de maior coesão, favorecendo práticas solidárias em vez de deixar correr a indiferença e o descarte.

As nossas sociedades têm de se perguntar se já fizeram tudo o que podiam fazer para promover e amparar a vida, sobretudo a daqueles que são mais frágeis.

6 - Por trás da vontade de morrer subjaz sempre uma vontade ainda maior de viver, que não podemos não ouvir. Claro que a vida dá trabalho. Que o serviço à vida frágil, à vida na sua nudez implica muitos sacrifícios e uma dedicação que parece maior do que as nossas forças. Mas coisa nenhuma é mais elevada do que essa. Talvez em vez dos heróis que sonambulamente festejamos, as nossas sociedades deveriam colocar os olhos no verdadeiro heroísmo: o heroísmo daqueles que enfrentam o caminho do sofrimento; o heroísmo daqueles que se dedicam ao cuidado dos outros como testemunhas de um amor incondicional.

7 - As nossas sociedades têm de se perguntar se já fizeram tudo o que podiam fazer para promover e amparar a vida, sobretudo a daqueles que são mais frágeis.

8 - Os paradigmas de felicidade da sociedade de consumo são paraísos artificiais talhados à medida do indivíduo, que passa a preocupar-se apenas por si mesmo e que se apresenta como o seu começo e o seu fim. Em nome dessa felicidade assiste-se facilmente ao triunfo do egoísmo. Porém, a pergunta ancestral “onde está o teu irmão?” será sempre um limiar inescusável na construção da felicidade autêntica.

9 - Àqueles que, movidos pelos melhores sentimentos, veem na eutanásia um passo em frente da nossa civilização recomendo a leitura do conto de James Salter intitulado “A Última Noite” (Porto Editora, 2016). Tem razão quem escreveu que a literatura é uma lente para olhar o humano.

10 - Diga-se o que se disser, a vida é a coisa mais bela.

10 RAZÕES CIVIS CONTRA A EUTANÁSIA

José Tolentino Mendonça no Expresso

Nasci para ser radical

por henrique pereira dos santos, em 08.02.20

Claro que é absurdo estar a Assembleia da República a tomar decisões sobre projectos concretos de linhas de metro ou preços de alterações no cartão de cidadão.

Mas convém ser radical e ver onde está a raiz desta coisa absurda.

E a raiz está no facto de ser preciso discutir o financiamento nacional de linhas concretas de metro, ou preços de actos administrativos, no orçamento de estado em vez de termos um sistema racional que confia nas pessoas e nas instituições, dando-lhes liberdade e autonomia para tomar decisões, dentro de um quadro de regras abstractas bem definidas e escrutináveis, que incluem o princípio do utilizador/ pagador.

Claro que se se considera a descida (ou a eventual gratuidade) do preço dos passes sociais das duas principais áreas metroplitanas do país como uma reforma estrutural nacional e, ao mesmo tempo, se pretende financiá-la com decisões anuais contigentes, tomadas em sede de Fundo Ambiental (um fundo nacional para o qual todos contribuímos), o assunto, tarde ou cedo, acabará a ser decidido pelos senhores deputados, no orçamento de estado, quando acabar o tempo das vacas gordas.

O que se resolve de forma radical e simples: as áreas metropolitanas que façam a gestão que quiserem dos seus transportes, desde que tratem também do seu financiamento, deixando de passar o tempo a saquear o resto do país para resolver os seus problemas.

Nesse dia as decisões sobre o metro de Lisboa dirão respeito aos lisboetas (aqui entendidos como os que vivem na área metropolitana, e não os que vivem em Lisboa cidade) e deixarão de ser condicionadas por circunstâncias particulares da composição do parlamento nacional.

A geringonça está bem

por José Mendonça da Cruz, em 06.02.20

Está, portanto, aprovado um orçamento de Estado que carrega ainda mais nos impostos em cima da mais alta carga fiscal de sempre. Ninguém se importa nos partidos, e nos media ainda menos. Tem que ser assim quando o dinheiro dos outros começa a faltar. É preciso ir buscá-lo, já não onde o estão a acumular, mas onde ainda reste algum.

A geringonça está bem e de saúde, e o PSD andou a fazer figuras tristes com o IVA da electricidade para demonstrar o que todos já sabíamos.

O BE fará tudo em troca de uns dinheiros para que o PS não o tire do bolso, enquanto vai dizendo umas coisas tonitruantes e sem significado nenhum. A colecção de malucos e idiotas úteis que vota no BE pouco se importa. Tem sempre a evangelização do Louçã e a cópia da Catarina.

O PC fará sempre um arremedo de protesto, e, depois de enviar um sindicato qualquer para a rua, ordeiramente, alinhará. Pagará com menos uns décimos nalguma sondagem, porque nem toda a gente é distraída, mas muita é.

E o PS continuará a gabar-se de ter acabado com a austeridade, enquanto aperta as malhas dela e alarga a avidez da colecta. Desta vez, foi a propósito das energias renováveis, que afinal são boas é para o fisco e o teatro do superavit.

Continuaremos pobretes, mas os alegretes gostam assim.

 

6 de fevereiro

por João Távora, em 06.02.20

Faz hoje 14 anos que começámos e parece que foi há décadas. A morte dos blogues foi um manifesto exagero: a liberdade de expressão e pluralidade de opiniões são valores a preservar. Longa vida ao Corta-fitas, continuamos cá para cortar e às vezes para colar.

As pessoas e os planos

por henrique pereira dos santos, em 06.02.20

Esta discussão sobre a gestão de trânsito em Lisboa, em que me meti voluntariamente apenas na óptica da participação pública, e fui metido involuntariamente por causa do programa da rádio Observador em que passei a participar, acabou por me levar a um ponto interessante do conteúdo do plano.

No regulamento previsto, pode ser mudado porque ainda haverá uma discussão pública em Março, os taxis podem circular na área de exclusão, mas os Uber só podem se forem eléctricos.

Algures fiz um comentário a dizer que não entendia a lógica desta distinção, excepto na óptica da gestão política da execução do que se pretende: o que os promotores do plano gostariam seria tirar todos os carros do centro de Lisboa (eu também gostaria, num mundo ideal), não podendo, preferem restringir aos carros eléctricos, mas comprar uma guerra com os taxistas era um suicídio político e portanto aceita-se que entrem na zona de exclusão.

Um amigo contrapõe a esta minha visão cínica do assunto (já agora, os processos de participação pública, começando desde o início da discussão do problema, visam exactamente limitar interpretações como a minha, eventualmente resultante de má ou nenhuma informação, o que me impede de ver a racionalidade de tratar os Uber de forma diferente dos táxis) esquece que para ser taxista há todo um procedimento e custos que faz com que ninguém queira ser taxista só para poder levar o carro para o centro de Lisboa, mas é bem possível que muitos condutores se registassem como Uber para contornar a limitação de entrada na Baixa.

É possível que haja alguma racionalidade neste argumento (embora seja fácil contornar isto definindo outro tipo de critérios para o acesso, nomeadamente em articulação com as plataformas que registam todos os pedidos de serviços) mas o que esta discussão me mostrou foi que na verdade os taxistas têm todas as razões para apoiar fortemente este plano da Câmara: passam a garantir a quase exclusividade do mercado na zona de maior concentração da procura de serviços de transporte, apenas tendo de concorrer com autocarros, metro e as pernas dos seus utlizadores.

As discussões públicas abertas, desde estados iniciais, são excelentes para identificar ganhadores e perdedores em decisões públicas e, neste caso, os taxistas estão, de longe, entre os maiores ganhadores.

Nada contra (excepto os efeitos negativos que as reservas de mercado sempre acarretam para os consumidores e contribuintes), o que acho é que este tipo de coisas devem ser bem claras.

É mesmo estupidez, não tem outro nome

por henrique pereira dos santos, em 05.02.20

Na novela da taxação da actividade florestal (uma tolice sem nome e com efeitos contraproducentes) a única coisa que verdadeiramente me espanta é a facilidade com que jornais e jornalistas chamam isto "taxa das celuloses".
Não entro na discussão sobre se isto é uma taxa ou um imposto, mas seguramente não é "das celuloses" é de muito mais gente: "“taxa de base anual a incidir sobre o volume de negócios de sujeitos passivos de IRS ou IRC que exerçam, a título principal, atividades económicas que utilizem, incorporem ou transformem, de forma intensiva, recursos florestais”.

Perante um problema sério de ausência de competitividade num sector que atenua o gravíssimo problema do abandono e falta de gestão do território, lembram-se de aumentar os custos de contexto, com base numa ideia que a investigação sobre o assunto desmente cabalmente.

É muita estupidez, peço desculpa, mas não arranjo outra maneira de classificar isto de outra maneira.



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Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




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