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Visto de Espanha

por João Távora, em 21.06.18

A falta de un sistema político en el que encaje su figura oficialmente, el pretendiente al extinto trono, intenta servir al pueblo luso a su manera, empleando su prestigio familiar para patrocinar causas benéficas -como la recaudación de fondos para los afectados por los incendios que devastaron al país vecino el año pasado- y promover la identidad portuguesa -con visitas regulares a las ex colonias del Imperio-. Para muchos lusos el noble es una especie de padre de la patria, respetado por ser descendiente directo de João IV (1604-1656), el heroico rey que restauró la independencia de Portugal tras 60 años de dominio español.

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Renascer das cinzas

por João Távora, em 18.06.18

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A convite do Ponto SJ, o portal dos Jesuítas em Portugal, discorro sobre a crise no Sporting Clube de Portugal, que por estes dias luta pela sobrevivência. Que o bom senso seja restabelecido e o próximo dia 23 seja o primeiro dia do renascimento desta vetusta instituição que é parte do meu ADN

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40 milhões

por henrique pereira dos santos, em 18.06.18

Já há uns tempos a QUERCUS tinha feito uns comunicados sobre o facto de haver 40 milhões de eucaliptos a sair de viveiro para serem plantados (o comunicado é também assinado por uma associação fantasma cujos orgãos sociais não se sabe quem são e cuja escritura de constituição é feita por uma pessoa, a sua ex-mulher com quem na altura estava casado e a sua empresa, portanto se não cito essa associação não é por distracção mas por não me parecer útil perder tempo com números de ilusionismo).

Hoje é João Camargo a voltar a falar nesse número como sendo uma coisa inacreditável, demonstrador da política de expansão do eucalipto.

O rigor de João Camargo a falar destes assuntos é o mesmo que apresenta a falar das suas qualificações, apresentando-se como investigador em alterações climáticas.

Meia dúzia de minutos chegam para qualquer pessoa, incluindo os responsáveis pelos jornais que lhe dão guarida e o apresentam como investigador em alterações climáticas, verificarem que se trata de mais um caso como o de Barreiras Duarte e tantos outros: João Carmargo, de acordo com o site do ICS (Instituto de Ciências Sociais), é um estudante do programa doutoral em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável e está a fazer um tese sobre "Adaptação às Alterações Climáticas, nova metanarrativa para a Humanidade?",

Está na página dos estudantes do ICS, não está, evidentemente, na página dos seus investigadores.

A QUERCUS ainda tem o bom senso de transformar estes 40 milhões de árvores em hectares, apresentando o número razoável de 35 mil hectares de plantação possível com estes 40 milhões de árvores (vamos agora esquecer os vários factores que nos fazem ter a certeza de que na realidade o valor de área plantada é menor, e usemos este número como bom), mas João Camargo nem se dá ao trabalho de fazer isto, usa 40 milhões como evidência de "muito", muito esse que demonstra a forte política de expansão do eucalipto.

Admitamos o eucalipto representa 13% da área ardida, como indicam as séries estatísticas longas e apliquemos aos cerca de 600 mil hectares ardidos em 2016 e 2017. Só em área ardida de eucalipto temos mais do dobro dos tais 35 mil hectares, o que desde logo indicia que os 40 milhões de árvores, provavelmente, nem chegariam para repôr o que ardeu.

Acontece que em 2016 e 2017 a geografia dos fogos acompanha muito mais a distribuição do eucalipto, e portanto a área de eucalipto ardida nesses dois anos é muito mais que os habituais 13%.

Vamos admitir que todo o eucalipto recupera após fogo e não é preciso substituir nada (não é bem assim, mas serve, a parte em que é assim, apesar de tudo, é bastante razoável). Se tivermos 850 mil hectares de eucalipto em Portugal (não anda longe), se forem explorados em três cortes espaçados por doze anos (também não é bem assim, mas tem o rigor mínimo para explicar o que pretendo), isso significaria que, só para manter a área de ocupação, seria preciso plantar mais de vinte mil hectares, por ano, ou seja, bem mais que metade da tal área horrososamente exagerada que é possível plantar com 40 milhões de árvores a sair dos viveiros.

O que me interessa aqui é apenas fazer notar a facilidade com que se usa um espantalho como 40 milhões de árvores (ena tantas!) para contrabandear uma ideia que até merecia uma melhor discussão porque tem elementos relevantes que é bom não perder de vista: a ideia de que há eucalipto a mais e que isso resulta de políticas comandadas por interesses económicos escondidos.

Não espanta que pessoas como João Camargo, que escrevem livros a explicar que Portugal arde mais que os outros países porque tem muito eucalipto, usando como argumento que os pinhais do Sudoeste de França não ardem tanto e que a área de pinhal tem diminuído ao mesmo tempo que cresce a área ardida (o argumento é tão surrealista que, para não ser acusado de estar a fazer leituras criativas do livro, cito: "A grande presença de pinheiro-bravo no território, apesar de ter características de elevada inflamabildiade, não é particularmente explicativa para a evolução histórica das últimas décadas, já que o declínio da sua área tem sido acompanhado do aumento da área ardida"), usem espantalhos destes para fazer avançar a sua agenda política, o que é verdadeiramente estranha é a facilidade com que um espantalho evidente (saírem 40 milhões de árvores dos viveiros, para plantação de uma espécie que tem a presença que o eucalitpo tem na paisagem, não indicia nenhum aumento brutal da sua área de ocupação, mas antes uma preocupante incapacidade de ultrapassarmos os 150 a 200 mil hectares geridos racionalmente de povoamentos da mesma espécie) se espalha e é acolhido pela imprensa como sendo um grande problema e um problema que ajuda a explicar a morte de pessoas em incêndios.

Custa muito perguntar: 40 milhões? E daí? Qual é exactamente a questão? E porquê?

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Leitura aconselhada

por João Távora, em 17.06.18

Ninguém se propõe a resolver o problema dos sismos

porque é uma idiotice, mas facilmente

nos propomos a resolver o dos fogos,

quando isso também é uma idiotice.

O fogo, tal como o sismo, existirá sempre

e está para além da nossa capacidade de o eliminar.


O nosso Henrique Pereira dos Santos em entrevista ao Ponto SJ o novo sitio dos Jesuítas, a ler hoje quando se assinala um ano passado sobre a tragédia de Pedrógão Grande. 

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Da gratuitidade

por henrique pereira dos santos, em 17.06.18

ARRAIAL-campolide-2018_1.jpg

 Na educação, em Portugal, temos três sistemas (em traços largos, há muitas subtilezas pelo meio):

1) O serviço é prestado directamente pelo Estado, que para o efeito contrata directores, professores, auxiliares, cozinheiras, canalizadores, transferindo dinheiro dos contribuintes individualmente para cada um destes privados. Neste sistema os utilizadores não pagam e todos os encargos são pagos pelos contribuintes;

2) O serviço é prestado por privados que cobram directamente aos utilizadores e devolvem ao Estado parte do que lhes é pago, sob a forma de impostos;

3) O serviço é prestado por privados, mas o pagamento é feito pelos contribuintes com base em contratos de prestação de serviços.

Está bom de ver que, para o Estado, o mais interessante é o modelo 2) porque é aquele em que o serviço existe e o Estado ainda lucra com isso, no fundo é o modelo normal da actividade económica, quer diga respeito a bens superfluos, como a produção e consumo de vinho, quer diga respeito a bens mais essenciais que a educação, como o pão.

Para garantir o direito universal ao pão o Estado não tem campos agrícolas seus onde produza o trigo, não tem moagens suas, não tem fábricas de pão e padarias do Estado, optando, em alternativa, por atribuir rendimentos adicionais aos que os não têm ou têm em tão pequena dimensão que o seu acesso ao pão não estaria garantido.

Triando uma franja muito marginal da sociedade que defende a apropriação colectiva dos meios de produção, nenhum dos partidos com um mínimo de representatividade tem hoje como programa político central a estatização dos campos, das moagens e das fábricas.

Se sairmos da educação e formos para a saúde, ou para os cuidados sociais, a situação é a mesma, embora com diferenças de peso dos sectores estatais, privados e contratualizados.

No entanto, nos sectores da saúde e da educação, em que se pretende garantir um acesso universal aos serviços prestados, ao contrário do que se passa na alimentação, há uma resistência enorme em aceitar que um negócio pode prestar serviços essenciais e que o acesso a esses serviços por parte dos que não têm recursos para os pagar (ou para os pagar totalmente) não implica forçosamente que os serviços sejam directamente prestados pelos estados, podendo haver contratos de fornecimento dos serviços por parte de privados, ficando o pagamento a cargo do Estado.

Nessas circunstâncias, o que há a discutir é a qualidade do serviço prestado (ou seja, é fundamental haver mecanismos sólidos de avaliação) e o preço a que fica esse serviço quando prestado directamente pelo Estado ou contratado a terceiros.

Estranhamente, sem qualquer avaliação séria, quer da qualidade, quer do custo, o Governo decidiu diminuir a contratação da prestação de serviços de educação em muitos casos, acabando por ter um serviço que nuns casos será melhor, noutros pior, por um preço mais alto e com menor satisfação dos utilizadores.

Já na saúde, tem resistido à insistência do PC e BE para impedir que os pobres tenham a liberdade de escolha no acesso a esses serviços, mantendo, para já, e, aparentemente, reforçando o modelo contratual de prestação de serviços.

São opções políticas legítimas, tal como é legítimo eu achar que um Estado que decide pagar mais por um serviço que deixa os seus utilizadores menos satisfeitos e que aumenta as assimetrias sociais e territoriais, é um Estado em quem não se pode confiar.

Se tivesse dúvidas sobre a natureza deste Estado (o que inclui os partidos da oposição que têm medo de dizer claramente que não existem saúde e educação gratuitas, o que existe são negócios de saúde e educação em que é preciso intervir para garantir o acesso universal) há um cartaz que vejo todos os dias, praticamente, e que me lembra que o mesmo Estado que acha inaceitável ter privados a ganhar dinheiro em sectores como a educação e a saúde, na medida em que forem mais eficientes que a concorrência estatal, acha perfeitamente normal que os impostos de todos, o que inclui os impostos dos mais pobres, sejam usados para pagar a Rosinha, o Quim Barreiros, o Herman José e o Toy (fora os outros em letra pequenina), para garantir o acesso de uma minoria a uma festa não essencial e que as pessoas sempre fizeram, e bem, na medida do dinheiro que estavam disponiveis para gastar no assunto.

Alguém me explica como chegámos a este ponto de, de Norte a Sul, milhares e milhares de euros de impostos serem estoirados em festas que nunca precisaram do Estado para existir e que, se deixarem de existir, não vem daí mal ao mundo?

O orçamento do Estado (seja central ou local) que é gasto em cada festa municipal daria bem para financiar uns bons dez projectos relevantes de gestão de combustível através do pagamento da gestão de serviços de ecossistema prestados.

Mas que fazer, o povo acha que os proprietários é que devem limpar os terrenos e os impostos devem servir para contratar a Rosinha, portanto, naturalmente, essa é a opção de quem depende dos votos do povo.

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Domingo

por João Távora, em 17.06.18

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

 
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «O reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga. E quando o trigo o permite, logo se mete a foice, porque já chegou o tempo da colheita». Jesus dizia ainda: «A que havemos de comparar o reino de Deus? Em que parábola o havemos de apresentar? É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra». Jesus pregava-lhes a palavra de Deus com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender. E não lhes falava senão em parábolas; mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos. 


Palavra da salvação. 

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Moisés e a privatização

por henrique pereira dos santos, em 16.06.18

Moisés Ferreira escreve hoje um artigo em que se insurge contra a visão da saúde como um negócio.

Sempre me fez confusão este argumento, porque um negócio é uma troca de bens, serviços ou capitais entre, pelo menos, duas partes.

Na saúde, como em qualquer outra actividade, trocam-se serviços e bens por pagamentos, portanto é inegavelmente um negócio.

Moisés é um pouco mais explícito, o problema é o saque dos privados. "Traduzindo, são mais de 3700 milhões de euros que são transferidos do SNS para privados ... para depois faltar dinheiro aos hospitais publicos para contratar os profissionais que necessitam (sic)".

Moisés Ferreira, actualmente, exerce a actividade profissional de representação política de uma parte da sociedade. Por essa actividade profissional recebe mensalmente um ordenado. Usando a sua análise do sector da saúde, são XXX euros que são transferidos da AR para um privado.

Note-se que antes desta transferência, o dinheiro é do Estado, que é obrigado a administrá-lo com regras bem definidas e com objectivos expressos na lei. Depois da transferência, Moisés Ferreira pode gastá-lo literalmente no que quiser e não tem de prestar contas a ninguém de o ter gasto a comprar as obras completas de Camilo Castelo Branco, numa EP para a Festa do Avante ou comendo uma matapa de siriciri, há inegavelmente uma privatização desses recursos que os contribuintes entregaram ao Estado para que os administrasse com probidade e para o bem comum.

Sobre esta privatização Moisés Ferreira parece não ter objecções, e com razão: as pessoas entregam dinheiro ao Estado (forçadas, é certo, mas não o suficiente para se revoltarem) para que existam recursos que permitam a correcta representação da vontade da sociedade na elaboração das leis.

Moisés Ferreira presta esse serviço nas condições que a lei determina e, justamente, é remunerado por ter prestado esse serviço.

Está, portanto, na exacta posição de um médico que presta um serviço e é remunerado por isso. Independentemente de quem é que paga ao médico ou de quem é o dono das paredes do hospital, o certo, certo é que no momento em que o médico recebe o pagamento pelo serviço prestado, o dinheiro que recebe, venha ele do doente, de uma empresa ou do Estado, passa a ser um recurso privado do médico que pode, se quiser e sem prestar contas a ninguém, ir comprar uma tela e tintas de óleo para se esquecer das agruras da vida.

No fim, de uma maneira ou de outra, todo o dinheiro do SNS é transferido para privados, sempre (excepto na parte que o Estado reserva para si sob a forma de impostos e afins).

Quando Moisés Ferreira diz que os 3 700 milhões euros que o SNS transfere para prestadores de serviços poderiam bem ficar nos hospitais públicos (Moisés Ferreira confunde o que é público com o que é do Estado, é uma confusão frequente) para contratar os profissionais de que necessitam, está a omitir que ao manter esses 3 700 no Estado, isso significa que ninguém prestou o serviço que os fez sair da esfera do Estado para o privado, ou seja, o Estado fica com mais 3 700 milhões de euros, é certo, mas porque ficou com o encargo de prestar o serviço anteriormente prestado por privados.

A menos que o Estado seja muito mais eficiente que os privados na prestação desses serviços, os 3 700 milhões não podem ser usados para o que actualmente faz falta nos hospitais do Estado, nomeadamente na contratação dos que fazem falta ou na melhoria dos equipamentos, porque são precisos para prestar estes novos serviços que os privados deixaram de prestar.

Ao contrário do que Moisés Ferreira pretende fazer crer, o dinheiro do SNS que sai para os privados não são donativos, têm como contrapartida a prestação de serviços.

O mais curioso desta ideia de que apenas o Estado pode garantir a prestação de serviços adequados é que a Assembleia da República, para garantir o direito à alimentação dos senhores deputados (e penso que ninguém negará que o direito à alimentação está, pelo menos, ao mesmo nível do direito à saúde) não fornece alimentos, contrata terceiros através de concessões.

Tal como para assegurar o direito ao pão, Moisés Ferreira não advoga a estatização das padarias, a estatização da moagens, a estatização da produção de cereal.

Ou, se calhar, advoga, não sei.

Em qualquer caso, uma coisa é negar que a saúde é um negócio, que me parece inútil porque acredito que é inútil negar a realidade, outra coisa que poderia ser bem mais produtiva, é discutir se há maneira do Estado fazer melhores negócios na saúde, isso sim, teria alguma utilidade para todos.

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A velhice e o prenúncio de uma tragédia

por João Távora, em 14.06.18

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A propósito do debate sobre a Eutanásia muito se falou do problema que o aumento da esperança de vida representa nos nossos dias. O enfoque no meu entender deveria coloca-se no drama da fracturação e decadência das estruturas sociais que sempre enquadraram afectivamente e apoiaram logisticamente a pessoa envelhecida. Refiro-me à família alargada e às pequenas comunidades (em que se inclui a Igreja) que tinham essa função. Ao contrário do que nos querem fazer crer, sempre existiram pessoas fragilizadas pela idade extremamente avançada. O "envelhecimento da população" é um fenómeno estatístico. Do ponto de vista humanista, ou seja, na perspectiva da pessoa idosa em si, esse problema tem pouca relevância: “os velhos” não são um corpo social com consciência própria, cada um é uma pessoa com a sua história na plenitude da dignidade que lhe é devida. A grande tragédia que nos ameaça está na quebra dos antigos laços de solidariedade por parte da comunidade atomizada, de uma sociedade utilitária que coloca os “direitos” de cada um acima dos deveres para com os outros. A realização de cada um pelo cuidado ao próximo até ao limite. Mais que um problema para o Estado, a assistência à velhice é um problema a ser assumido por cada um de nós para com o seu próximo. Mas acontece que o amor cristão (amai o próximo como a ti mesmo) foi descartado, substituído pelo conceito romântico que tem por base a conquista do desejo do “eu” a que agora se quer atribuir direitos sobre execução da sua morte. O caldo cultural da modernidade é a coisa mais difícil de resolver e compromete definitivamente os equilíbrios afectivos que estruturam uma sociedade saudável e solidária. Não há cuidados paliativos que disfarcem esta desgraça que deixamos como legado aos nossos filhos.

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Imprevisível

por henrique pereira dos santos, em 13.06.18

Um post curto para dizer que, a manterem-se as previsões que existem hoje (esta ressalva é fundamental para previsões meteorológicas a mais de três dias), aí pelo dia 18 abre a época das notícias sobre fogos, embora este ano fortemente prejudicada pelo mundial de futebol.

Em princípio não será nada de especial, apenas o suficiente para as notícias de fogos passarem do registo "a maior limpeza desde D. Dinis" para o registo "enquanto não prenderem os incendiários todos, isto não se resolve".

Mas como uma vez disse o imorredoiro Marta Soares, "nunca houve um incêndio que não fosse extinto", portanto podemos confiar.

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Mais escravidão

por João Távora, em 12.06.18

Filhos sem património são filhos deserdados. Gerações privadas da cultura que as precedeu são gerações órfãs. Assim, se a escola de Bourdieu se limitava a produzir ‘herdeiros’, o que fazem hoje as nossas escolas? A escola que resiste à transmissão da cultura mais não faz do que produzir gerações de deserdados. (...)

Os deserdados são a geração de jovens que não lê, que tem medo dos compromissos, fortemente individualista, que se deixa manipular facilmente, alimentada apenas de referentes efémeros e atraída por escassos slogans que preenchem de repente o desconforto do seu próprio vazio.

 

A ler na integra Margarida Miranda aqui

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Escravos de Catarina Martins

por João Távora, em 12.06.18

O chamado “anti-colonialismo” não é, por isso, uma ruptura com o colonialismo: é apenas a sua última fase, no sentido em que continua o velho etnocentrismo que um dia exaltou o “homem branco” como o agente da civilização, e agora o trata como o responsável por todo o mal do mundo. A expansão moderna, porém, não foi uma simples história europeia – pensar assim, é precisamente o primeiro erro etnocêntrico. Muitas das sociedades locais com que os portugueses se “encontraram” não eram compostas de nativos sossegados num idílio à Rousseau, mas impérios militares, também eles em expansão, com os seus escravos e as suas violências. Os portugueses escravizaram, mas — em menor escala — também foram escravizados, por exemplo pelos piratas argelinos que atacaram as costas portuguesas até ao século XVIII. Os Otomanos cativaram  imensa gente na Europa e, em conjunto com os árabes, terão tirado tantos escravos de África como os europeus. O que verdadeiramente distinguiu os europeus nesta história não foi apenas o uso de escravos na agricultura da América colonial, mas terem sido os primeiros a abolir a escravidão. A Arábia Saudita só a ilegalizou em 1962, o Omã em 1970 e a Mauritânia em 1980. Talvez os portugueses não tivessem feito o mundo melhor, mas também não o fizeram pior.

Catarina Martins parece muito infeliz por o passado não ser igual ao presente. Não foi, de facto. A essa diferença, chama-se “história”. E para a compreender, não há caminho pior do que o simplismo das glorificações e das criminalizações com pequenos fins políticos.

 

A ler na integra Rui Ramos aqui

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"Fui mesmo embarretado" por falso especialista

por henrique pereira dos santos, em 11.06.18

O título deste post era o essencial de um título do Dinheiro Vivo de 24 de Dezembro de 2012, notícia que dava conta de um comunicado do Expresso que dizia "errámos ao dar como adquirido que a informação que nos estava a ser prestada era fidedigna e não carecia de confirmação".

Este erro, que aliás não teve qualquer consequência para os que o cometeram, que se mantiveram na direcção do Expresso (sempre que um jornalista me fala da responsabilização dos decisores políticos, costumo dar este exemplo para perguntar qual é a autoridade moral do jornalismo português para pedir responsabilidades a terceiros pelos seus erros), é um erro muito frequente no jornalismo português, seja a propósito de coisas mais sérias, como a verificação da origem dos meios de fortuna de responsáveis políticos que se acredita que herdam fortunas misteriosas sem que ninguém se lembre de verificar os factos, até fait-divers como ter uma noção mínima de quem, e como, paga as contas do que é oferecido a jornalistas influentes, haja ou não envolvimento emocional nesses presentes caídos do Céu.

Lembrei-me disto a propósito das duas páginas de publicidade gratuita que o Público resolveu dar ao livro do falso especialista João Camargo e dos 15 minutos de tempo de antena que a RTP2 resolveu dar ao mesmo falso especialista ontem.

João Camargo é um burlão um pouco menos sofisticado e divertido que Artur Baptista Silva, mas o nível de mistificação que usa para vender a sua banha da cobra é o mesmo.

Daí não vem mal ao mundo e quem dá o que tem, a mais não é obrigado.

O que interessa é tentar perceber por que razão, e como, um simples burlão (em matéria de produção de opinião florestal, que é o que aqui está em causa, o resto não faço ideia) tem tanto acesso e espaço num jornalismo que deveria fazer a mínima das mínimas verificação de factos.

1) "O carácter invasor do eucalipto é óbvio", afirmação verificável e pelo menos controversa (há um enorme acordo científico em não o considerar como invasor, há um ou outro investigador que estudaram pouco o assunto que foge a esse acordo e há dois out três estudos sobre o assunto que demonstram que a capacidade de expansão natural do eucalipto é bastante menor que a do pinheiro, por exemplo, portanto estamos conversados sobre esta frase que justifica uma série de disparates consequentes sobre a gestão do eucalipto);

2) "O eucalipto tornou-se maldito, principalmente para o interior do país", basta olhar para qualquer mapa de distribuição do eucalipto, ou dar uma volta de carro, ou ter um mínimo de informação sobre o país para saber que o eucalipto está essencialmente no litoral, com entradas no vale do Tejo e na parte mais ocidental dos xistos centrais, o google images chega para perceber que esta afirmação é simplesmente falsa;

3) "O interior que foi ficando mais pobre por uma cultura de abandono que permitiu ao eucalipto tornar-se a espécie dominante da nossa floresta". Não é preciso saber muito sobre o país para saber que a expansão mais rápida do eucalipto se dá entre 1980 e 2000, e que o abandono rural se dá a partir do fim dos anos 50, portanto a afirmação feita não tem qualquer aderência aos factos. Acresce que essa expansão se dá, em grande medida, por substituição de pinheiro por eucalipto, o que fez o pinheiro diminuir de um milhão e duzentos mil hectares de ocupação para os 700 mil actuais, ou seja, a "narrativa" não passa de conversa de jacaré para pato, não tem qualquer relação com os factos;

Como isto ainda é só nos três primeiros minutos da entrevista, que dura quinze minutos, será escusado estar a comentar cada uma das muitas alarvidades que facilmente se desmontam se não se cometer o erro de "dar como adquirido que a informação que nos estava a ser prestada era fidedigna e não carecia de confirmação".

O que é estranho é que João Camargo não é especialista de floresta, não tem nenhuma formação sobre o assunto, nunca trabalhou no assunto, facilmente se demonstra que o que diz não tem pés nem cabeça, existem dezenas de especialistas no assunto que não só não corroboram o que diz, como acham que o diz não é apenas o atrevimento da ignorância, é mesmo desonestidade pura e dura, e qualquer pessoa que tenha um mínimo de contacto com o sector sabe que é assim.

Mesmo assim os nossos jornalistas acham normal permitir-lhe as duas páginas de pura maledicência que o Público publicou (sem verificar que parte do texto é uma cópia não assinalada de outro livro) e os 15 minutos de tempo de antena em que João Camargo usa uma técnica habitual para, por antecipação, se defender do facto de toda a gente que estuda os assuntos sobre os quais perora dizer que só diz disparates, argumentado que a academia está toda capturado pela indústria de celulose.

Ora esta acusação, a ser verdadeira, deveria ser levada a sério pelos jornalistas e, consequentemente, os jornalistas que gostam de ser embarretados por João Camargo deveriam estar a investigar seriamente a acusação, responsabilizando os académicos que falseiam as suas investigações a favor da indústria.

Mas se for falsa, como é, é simplesmente uma canalhice infantil igual à do menino que apanhado a roubar bolachas acusa o irmão mais novo de lhas ter dado e, nesse caso, é uma canalhice pelas quais os jornalistas embarretados são co-responsáveis, ao emprestar-lhe a credibilidade dos seus jornais e televisões.

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Um país que não aprende

por henrique pereira dos santos, em 10.06.18

Em 1759 os jesuítas eram expulsos de Portugal, por muitas razões, e ainda hoje se invoca, no ensino escolar, o carácter modernizador do ensino impulsionado pelo Marquês de Pombal.

O que é mais difícil de encontrar são referências ao efeito das políticas de ensino do Marquês de Pombal em Portugal: uma redução do número de alunos em qualquer coisa como 90% (não, não me enganei num zero, são mesmo noventa por cento, o que se pode dizer é que é uma estimativa que pode ter algum erro, mas a ordem de grandeza não deve andar longe), uma redução brutal na qualidade do ensino e um quase bloqueio do acesso ao ensino pelos mais pobres (com os jesuítas havia algum acesso dos mais pobres ao ensino, embora muito limitado como era corrente na época).

Portugal só voltaria a ter o mesmo número de alunos na escola por volta de 1930.

O país, não contente por destruir uma vez a quase totalidade do ensino, e em especial, o ensino de qualidade, em nome de ideias sobre um futuro muito melhor, resolveu reforçar a dose, embora de forma bastante mais limitada (porque também a influência dos Jesuítas já era muito menor no ensino em 1910), voltando a fechar colégios dos Jesuítas, fechando várias das melhores escolas do país, como o Colégio de Campolide ou o de São Fiel (que ardeu este ano, no meio dos fogos de Verão, depois de anos de abandono e incúria por parte do Estado).

Mais uma vez o que se destruiu em nome de um mundo novo no ensino não foi substituído, e só muito a custo, várias décadas mais tarde, já com o Estado Novo, parte da destruição do melhor ensino do país estaria sanada.

O país, não contente, está agora, a uma escala mais reduzida, numa nova campanha de destruição de escolas exemplares em nome de ideias certas, como a secularidade do Estado e coisas que tal.

Mais uma vez substitui-se ensino de qualidade por uma promessa de qualidade futura e um presente bem menos risonho, embora agora as consequências sejam, felizmente, muito mais limitadas para o país, mas, como sempre, tem nos mais pobres (aqueles que precisam mais de boas escolas e bons professores) os mais prejudicados.

Não me choca o fecho de escolas, não acho que exista qualquer direito de cada uma das escolas ter o Estado a garantir o seu funcionamento, mas choca-me que as decisões sobre o assunto, em especial, custos, qualidade pedagógica e resultados dos mais pobres e frágeis, estejam simplesmente ausentes de avaliações sérias das decisões tomadas.

Até hoje o Governo foi incapaz de demonstrar que o fim dos contratos de associação representam qualquer ganho para os contribuintes, qualquer ganho pedagógico e qualquer reforço da capacidade da escola reforçar a mobilidade social.

E, aparentemente, isso não é já, sequer, uma questão de debate político, caiu naquela zona cinzenta em que tomar decisões é uma prerrogativa arbitrária cujas consequências não é preciso avaliar e discutir.

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Dia de Portugal

por João Távora, em 10.06.18

Bandeiras.jpg

A razão por que um monárquico não poderá ficar indiferente à invasão desregulada de migrantes no espaço europeu é porque a coroa será a primeira instituição a ressentir-se duma fragilização do tecido social das velhas nações, como comunidades de história e língua.

Foi isso que me chamou a atenção na esplêndida série “The Crown” da Netflix que relata a história do reinado de Isabel II, com a exibição de imagens do início da década de 50, das viagens da Família Real para passar o Natal em Sandringham, em que se vê o povo a acorrer em massa às plataformas das estações para acenar à passagem do comboio real. Este entusiamo, que emana da pátria profunda, só é possível por uma sólida identificação da população com os seus monarcas, na cumplicidade dos acontecimentos partilhados desde os confins da História.

De facto, as nações europeias vivem em cima de uma bomba relógio com o prenúncio de uma crise demográfica que só vem sendo mitigada através do escancaramento das fronteiras, uma estratégia que deve pouco ao altruísmo, mas antes à cegueira economicista da burocracia que nos governa. Assim, sem tempo para a aculturação das novas populações que à Europa afluem com costumes e línguas muito diferentes, as redes comunitárias vêem-se ameaçadas, relativizando-se o chão comum, promovendo-se a desconfiança e acicatando-se veleidades nacionalistas.

Ironicamente, Portugal, histórico palco de cruzamento de povos e culturas diferentes, onde sempre prevaleceu uma assinalável capacidade de assimilação, se não escapa à crise demográfica, vai estando imune à invasão massiva de migrantes que aflige outros países europeus. Mas não evita a agressividade da massificação cultural deste mundo globalizado, razão que deve motivar os monárquicos portugueses a concentrar esforços na defesa da nossa língua, património cultural e histórico. Porque só uma casa com identidade e carisma próprios está capacitada para bem receber novos hóspedes e visitantes. E se é verdade que temos de nos preparar com inteligência para essa luta pela afirmação identitária, em bom rigor temos razões para nos orgulharmos do Senhor Dom Duarte e da Família Real, que se vêm afirmando resolutos defensores dos mais perenes valores da portugalidade. Aqui, no extremo ocidental da Europa, e nos quatro cantos do Mundo.  

 

O meu editorial para o Correio Real nº 17 em distribuição em Junho. 

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Domingo

por João Távora, em 10.06.18

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos 


Naquele tempo, Jesus chegou a casa com os seus discípulos. E de novo acorreu tanta gente, que eles nem sequer podiam comer. Ao saberem disto, os parentes de Jesus puseram-se a caminho para O deter, pois diziam: «Está fora de Si». Os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam: «Está possesso de Belzebu», e ainda: «É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios». Mas Jesus chamou-os e começou a falar-lhes em parábolas: «Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode aguentar-se. E se uma casa estiver dividida contra si mesma, essa casa não pode durar. Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não pode subsistir: está perdido. Ninguém pode entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar: só então poderá saquear a casa. Em verdade vos digo: Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e blasfémias que tiverem proferido; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: será réu de pecado para sempre». Referia-Se aos que diziam: «Está possesso dum espírito impuro». Entretanto, chegaram sua Mãe e seus irmãos, que, ficando fora, O mandaram chamar. A multidão estava sentada em volta d’Ele, quando Lhe disseram: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura». Mas Jesus respondeu-lhes: «Quem é minha Mãe e meus irmãos?». E, olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse: «Eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe». 


Palavra da salvação. 

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O Forno de Jales

por henrique pereira dos santos, em 09.06.18

O meu post anterior parece que incomodou algumas pessoas que se sentem injustiçadas por ninguém lhes pagar aquilo a que acham que têm direito por viver em zonas de baixa densidade populacional.

Resolvi por isso ser mais explícito falando do Forno de Jales, o restaurante do Toni, em Vreia de Jales (aqui num video de um dos projectos sobre alimentação e gestão de paisagem, não no dia a dia do restaurante).

O Toni resolveu fazer um restaurante no cimo de uma serra, longe de grandes concentrações populacionais, mas em vez de abrir uma porta como estivesse em Campanhã e depois passar o tempo todo a queixar-se da falta de condições, desenhou o restaurante para as condições que tinha, longe de tudo e com produtos de muito boa qualidade, boa parte deles de produção própria.

O restaurante não está aberto, só serve por marcação, o que imediatamente limita os custos fixos (o Toni e a família têm muitos outros afazeres na sua exploração agrícola e o restaurante é complementar).

Mas o Toni foi mais longe, embora possa receber grupos bastante grandes, decidiu que só abre para um grupo de cada vez, um mínimo de dez pessoas, é certo, mas uma vez feita a marcação, considera o reataurante cheio, apesar de poder acolher mais de cem pessoas à larga.

Ou seja, o Toni ofereceu uma coisa que é difícil aos restaurantes de porta aberta, movimentados, oferecer: privacidade a cada um dos grupos que vão ao seu restaurante.

E ao fazer estas escolhas, o Toni consegue não só reduzir os custos fixos, como consegue servir pratos de cozedura lenta, como o javali no pote, porque sabe com antecedência quantas pessoas vai servir, quando e o que vão comer.

Isto permite à sua exploração subir na cadeia de valor e vender as suas galinhas pica no chão a um valor bastante mais alto que o que conseguiria se as vendesse como é tradicional.

E era isto, um mero exemplo de como um empresário desenha o seu negócio para as condições que tem e é capaz de criar, em vez de passar o tempo a queixar-se da injustiça de não ter as condições que existem no centro de Nova York.

Com isto o Toni cria riqueza, cria algum emprego, aumenta o preço de venda do seu produto e a distância ao Porto, de onde vêm muitas vezes os seus clientes, deixa de ser uma dificuldade inultrapassável para ser uma vantagem relativa quando uma empresa resolve fazer o jantar de Natal difernete do habitual, no Forno de Jales.

É claro que tudo isto só funciona porque se come muito bem no Forno de Jales.

O meu post anterior era só sobre isto, sobre as possibilidades que existem e a inutilidade de chorar o facto de Alcaravela não ser Aveiro.

Questão diferente, sobre a qual, aliás, escrevo frequentemente, é a do pagamento da gestão de bens difusos que o mercado tem dificuldade em remunerar, como é, por exemplo, a gestão de serviços de ecossistema.

Tal como é diferente a questão do Estado desviar os recursos disponíveis para apoiar a coesão territorial para Lisboa e Porto, com o argumento de que a economia circular é muito importante.

Tal como é diferente a questão do Estado resolver colocar grande parte dos seus serviços nas grandes cidades em vez de os localizar nas cidades intermédias.

Tudo isso são questões que merecem atenção e discussão, mas nenhuma delas, nem todas elas, justificam a cultura de calimero que está instalada no "interior" do país, como o Forno de Jales bem demonstra.

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Não há mal que sempre baste

por José Mendonça da Cruz, em 08.06.18

Assisti serenamente a mais uma demonstração do jovial servilismo dos media, quando o governo inventou mais um imposto, agora sobre os plásticos, e rádios, televisões e jornais acorreram, atentos, venerandos e obrigados, a dizer que o plático é um ho-rrrrr-rrroooorrr, e que até uma baleia coitadinha, morreu porque ingeriu plástico, a pobre, plástico mau, que tudo polui. Inventaram até que a União Europeia também está a taxar o plástico, que não é só cá, embora nós (eles) estejamos (estejam) na vanguarda da «modernidade». 

Ora eu, que já sabia muito bem -- e até achava curioso -- que os media portugueses sempre defendem o seu governo, nunca os cidadãos leitores (embora paradoxalmente se queixem de que já ninguém lhes liga, e roguem algum subsídio por parte daqueles a quem servem) ora eu, dizia, senti, ainda assim que faltava qualquer coisa, uma adenda, um complemento, uma convergência, uma unanimidade qualquer. Ontem, ela chegou: Rui Rio acha muito bem mais impostos de plástico, e, para não ficar atrás da ideia, até sugere a urgência de outros: taxem mais o açúcar, o sal, os doces, os fritos, taxem a vida, taxem o sol, a chuva, o gasto dos passeios, o ar, taxem tudo para que os «cidadãos» (a gente) aprendam a comportar-se.

Rui Rio tem sempre esta forma engraçada e dinâmica de demonstrar a sua própria inutilidade. Mas, tirando isso, que é um mero apontamento, resta o importante, que é o facto de estarem todos unidos contra o contribuinte, ou seja, nós. Dizem que é por bem, que querem mudar a nossa forma de vida -- que é má (eles é que sabem) -- embora secretamente prefiram que mudemos o mais tarde possível para entretanto enriquecerem taxando a nossa falta de virtude. E eu, que já recentemente simpatizei com o PCP a propósito da eutanásia, vou fazer como o PCP outra vez, e denunciar um novo e sinistro grupo: ora aí têm mais uns fascistas que acabaram de revelar-se. 

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Deixem o interior em paz

por henrique pereira dos santos, em 08.06.18

Penso que terá sido a Frederico Lucas que ouvi, ou li, a frase que usei para título do post e lembrei-me dela a propósito de um colóquio cuja organização é da Montis, uma associação de sou presidente.

Na verdade não foi apenas a propósito desse colóquio, mas também da sessão sobre empreendedorismo a que fui falar no dia 5 de Junho, em Vila de Rei.

Há muitas pessoas a achar que se deve discriminar positivamente o interior (não vou discutir o conceito de interior, que me parece razoavelmente absurdo e que só uso aqui por facilidade de comunicação) e eu confesso que não vejo a menor utilidade social em investir milhões em economias ineficientes, dar benefícios fiscais para sustentar empresas não competitivas, e por aí fora.

Quer isto dizer que não vejo utilidade social em ter uma gestão de áreas marginais socialmente mais útil que a que fazemos agora e que rejeito qualquer papel do Estado nessa melhoria? Não, não quer dizer isso, quer apenas dizer que não é atirando dinheiro para cima de um problema que ele desaparece (ele, o problema, o dinheiro de maneira geral desaparece mesmo).

E foi ao pensar nessa sessão sobre empreendedorismo, em que alguns (não todos, sejamos justos) dos presentes se achavam no direito de ser pagos para viverem no interior, que olhei para o programa do colóquio e no seu efeito nos agentes económicos e sociais da região em que ocorre, e me lembrei da frase do título.

Não há razão nenhuma para beneficiar os residentes no interior: têm uma qualidade de vida melhor, têm casas mais baratas, têm acesso a melhor alimentação e mais barata, se quiserem, têm um acesso a boa parte dos serviços públicos que é muito melhor que os que vivem nas maiores cidades, e têm, também, outras coisas em que os habitantes das grandes cidades estão mais bem servidos.

No essencial, estamos ela por ela.

Há menos emprego, é certo, mas isso é uma questão menor: ou há razão para supôr que deve haver mais gente nos territórios de baixa densidade, e é preciso explicar que razão é essa, ou não há, como penso que não há, e a gente que lá está é o que é, nem bom, nem mau.

O que é um problema é o facto de haver uma gestão do território modelada pelo abandono, que tem efeitos positivos (os nossos sistemas naturais estão em franca evolução positiva) mas tem grandes efeitos negativos, quer na produção de riqueza (o risco de fogo diminui muito a competitividade de várias actividades económicas), quer nos custos sociais em mortes, destruição de infra-estruturas, diminuição da amenidade do território, etc..

Isso não se resolve com mais gente, resolve-se com mais gestão, o que não é a mesma coisa.

É aqui que entra o tal colóquio: o tema é exactamente a gestão da transição dos matos para os carvalhais, aumentando a diversidade e utilidade social dos territórios, e os palestrantes são do melhor do país nas suas áreas de trabalho: Carlos Aguiar é seguramente dos melhores botânicos e ecólogos que temos, António Salgueiro das pessoas que melhor usam o fogo controlado, Aldo Freitas é reconhecidamente do melhor que se encontra no uso da engenharia natural, Avelino Rego tem um trabalho notável de gestão do baldio de Alvadia com gado e a Mossy Earth é uma boa ilustração de como uma start up internacional se pode interessar pelo assunto e trazer recursos para a gestão.

Dir-se-ia que as pessoas que estão no tal interior e que reclamam recursos de terceiros para fazer não sei que benefícios sociais para todos, estariam interessadas em discutir o assunto, ver o que poderiam eles próprios fazer pela gestão do território em que vivem, etc..

Não, não é assim: uma boa parte destas pessoas especializaram-se em fundos europeus e projectos de financiamento, a sua verdadeira actividade (as autarquias são exímias nisso) é a captação de recursos de terceiros para manter em funcionamento uma economia e uma sociedade que reclama o direito divino a viver onde está, sustentada por terceiros.

E é aqui que está o busílis da questão: do que o interior precisa (e até tem em muitos exemplos, a que infelizmente o "interior" dá pouca atenção) é de pessoas que se especializem em contar consigo próprias, que inventem soluções sustentáveis para a sua vida.

Mas para quê fazer este esforço, para quê meter-se nesse caminho de pedras, incerto, trabalhoso, quando é tão fácil reclamar mais e mais estatuto de excepção que canalize recursos de terceiros para as regiões?

Do que o "interior" precisa é de menos paternalismo de quem lá não está, e menos choraminguice de quem está.

Do que o interior precisa é de pessoas que saibam e, sobretudo, queiram, fazer empresas competitivas que não têm medo de vender em qualquer parte do mundo, não é de apoios a modos de produção e gestão que, objectivamente, prolongam uma agonia económica que se justifica com mitos sobre o passado e sobre as injustiças do passado a que o "interior" foi sujeito.

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A luta de raças

por João Távora, em 07.06.18

Os sujeitos racializados negros vão continuar a afirmar com autonomia e determinação a escolha do momento de fala. E a força e as circunstâncias do seu aparecimento no espaço público são, efetivamente, uma posição política clara de luta pelo reconhecimento do seu direito à palavra, o seu direito ao lugar na sociedade portuguesa. Mais do que objetos de uma condição histórica determinada apenas por outrem, assumem-se como sujeitos políticos que lutam pela sua afirmação.

 

Mamadou Ba no Público

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Despotismo

por João Távora, em 05.06.18

No entanto, esta pequena elite que pratica o ultra-feminismo semântico não pode ser menosprezada, porque tem uma influência significativa junto do poder político. O clube de Isabel Moreira, da CIG, das Capazes, mais respectivos amigos e amigas, tem uma presença parlamentar e mediática de peso, e está sustentada numa poderosa moda internacional que passa os dias em universidades e jornais a colocar cordões sanitários à volta do vocabulário de cada um, com o mesmo desvelo com que a Santa Inquisição escrutinava os sussurros dos cristãos-novos.

 

João Miguel Tavares a ler na integra aqui

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