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A propriedade das paredes dos hospitais

por henrique pereira dos santos, em 10.04.18

Frequentemente vejo comentarios deste tipo (é um comentário real, não verifiquei os factos, mas isso é irrelevante para o essencial do que é dito no comentário): "Por outro lado, os hospitais privados também vivem pendurados no Estado. Mais de 50% das receitas vêm do SNS e ADSE. E nos laboratórios de análises privados a dependência do Estado é ainda maior, mais de 70%. Portanto, esta iniciativa privada também tem muito pouco a ver com capitalismo ou economia de mercado."

É esta ideia que leva o PC e o BE (e a ala bloquista do PS) a estar sempre a fazer propostas de nacionalização de todos os cuidados de saúde (todos, não, em rigor defendem que quem pode pagar que escolha, os outros que sejam obrigados a recorrer a hospitais cujas paredes são do Estado).

Há neste tipo de comentários um erro de base: o Estado não faz donativos aos prestadores de serviços de saúde, o Estado paga cuidados de saúde a pessoas concretas.

Se esses cuidados de saúde não forem prestados em hospitais cujas paredes são de privados, terão de ser prestados em hospitais cujas paredes fossem do Estado.

Para as pessoas concretas, é-lhes completamente indiferente de quem são as paredes dos hospitais em que estão, o que querem é ser tratadas.

Para os funcionários, é-lhes completamente indiferente quem é o dono das paredes do hospital, o que lhes interessa é que tenham condições para trabalhar e o seu trabalho seja justamente remunerado (ou, ao menos, se for injustamente remunerado, ao menos que seja a favor do trabalhador).

No caso da saúde, vindo os recursos, de uma maneira ou de outra, dos contribuintes, parece mais ou menos óbvio que mais vale o Estado ter os seus próprios hospitais, evitando pagar os custos de capital e os lucros dos privados.

Isto é verdade, isto é, se o que o Estado está a pagar é o mesmo que pagaria e ainda mais os custos de capital (os privados, de maneira geral, financiam-se a taxas mais altas que o Estado porque representam um risco maior para quem empresta) a que se somam os lucros que remuneram esses capitais, não faz o menor sentido pagar a privados o que de qualquer maneira tem de ser pago pelos contribuintes.

O erro deste raciocínio está em considerar-se que a eficiência no uso dos recursos é sempre igual, o que está longe de ser verdade, isto é, os ganhos de eficiência de gestão podem ser maiores que os custos de capital e os lucros dos privados, acabando numa factura global mais baixa.

Há um erro secundário que consiste em pensar que a gestão privada é sempre mais eficiente que a gestão pública. De maneira geral isso é verdade, mas na condição do privado ter o risco de perder dinheiro, porque quando o Estado gera rendas sem riscos para privado (o que tipicamente aconteceu em muitas PPP rodoviárias, mas não nas PPP da saúde), o privado gera uma gestão tão ineficiente como a generalidade da gestão estatal, tal como uma gestão estatal que consiga limitar o princípio de que uns comem os figos e aos outros rebenta-lhes a boca (que é o princípio geral de quem toma decisões sobre o dinheiro dos outros), pode ser tão eficiente como uma gestão privada.

Eu sei que tudo isto é básico para qualquer economista, mas achei que valia a pena lembrar aos que não percebem nada de finanças, nem consta que tenham bibliotecas, como eu, que a discussão sobre prestação de cuidados de saúde por privados ou pelo Estado é uma discussão de custos relativos em cada momento e para cada tipo de interacção entre trabalhadores de saúde e doentes.

Pôr a tónica da discussão em quem é o dono das paredes do hospital só atrapalha no momento de decidir as melhores opções para, por esta ordem, os doentes, os trabalhadores de saúde e, já agora, os contribuintes.

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O acusado inocente

por henrique pereira dos santos, em 10.04.18

Numa pequena troca de argumentos sobre as garantias do julgamento de Lula, uma advogada argumentava que era inconcebível que fosse preso quando ainda existem recursos pendentes, apelando a que quem discordasse se pusesse na posição de quem, sendo acusado, é inocente.

Seria bom que a discussão sobre aplicação da lei (vale sempre a pena vincar que os tribunais não administram a justiça, apenas aplicam a lei) em Portugal fosse razoavelmente mais racional e menos emocional, sobretudo quando o apelo emocional é feito em função do eventual acusado inocente, esquecendo que o centro da justiça é a vítima, e não o acusado (culpado ou inocente).

O exemplo de Armando Vara e do processo Face Oculta, descrito nesta peça do Observador, demonstra como a ideia, generosa, de que todos os recursos devem estar gastos antes da prisão de alguém, se traduz na prática numa grande falta de respeito pelos direitos das vítimas.

Tal como a rapidez de que a justiça brasileira tem dado prova (não, não é perseguição a Lula, desde 2014 a Lava Jato já investigou e deu origem a condenações em julgamento de 69 pessoas) por comparação com o que temos conseguido em Portugal em matéria de corrupção, nos deveria levar a olhar seriamente para a delação premiada como um instrumento válido de protecção das vítimas e não necessariamente como um abuso dos direitos de eventuais inocentes (que podem ser assegurados por muitas outras vias).

O triste espectáculo das dezenas de recursos de Sócrates sempre, sempre indeferidos (com excepção de um, decidido por um juiz acusado, noutros processos, de "vender" sentenças) é uma boa demonstração de uma das piores entorses criadas por uma justiça tão centrada em evitar condenar inocentes que esquece os direitos das vítimas: a existência de uma justiça para ricos, como Sócrates, que podem gastar rios de dinheiro em advogados e custas judiciais com recursos que não servem para mais nada se não retardar o seu julgamento; e uma justiça para pobres, os que não têm dinheiro para manipular passos e prazos processuais a seu favor.

Só que nada, rigorosamente nada, do que possa estar a correr mal no sistema judicial autoriza acusações gerais de perseguição política ou de estratégias complexas, por exemplo, para impedir Sócrates de ser Presidente da República, ou Lula de ser candidato, ou Puigdemont de ser Presidente em estados de direito e democracias maduras, como são as de qualquer dos três países citados (com todos os defeitos que tenham).

Em relação a processos ou decisões concretas todas as dúvidas são legítimas e todo o escrutínio é bem vindo, mas quando entramos na argumentação que implica a existência de estratégias concertadas por parte de todo o sistema judicial, tenham lá paciência, durmam sobre o assunto antes de dizer tanto disparate, só porque gostam do réu.

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Uma espiral de loucura

por João Távora, em 09.04.18

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Como se tem visto nos últimos dias Bruno de Carvalho entrou numa espiral neurótica de total descontrolo emocional, e parece querer afundar o Sporting Clube de Portugal consigo para o inferno em que se enredou. O problema está em saber como se lida com um homem tresloucado, com muito poder destrutivo, e como se poderão minimizar os danos deste tumulto até que se vislumbre uma solução, que só pode ser encontrada através da convocação de eleições e numa nova liderança do clube. 

Também acho estranho como não haja à volta do presidente quem o confronte com a realidade. A doideira já se vem revelando há algum tempo, pelo menos desde a inaudita convocação da última Assembleia Geral. O amor ao clube, ou o brio profissional, deveriam ser razões mais que suficientes para a demissão dos actuais Corpos Sociais. E o que é que nos tem para dizer o director de comunicação Nuno Saraiva sobre catástrofe comunicacional, um verdadeiro caso de estudo, que se vem revelando o seu exercício de funções?
Resta-me aqui elogiar Jorge Jesus que vem demonstrando um enorme sentido institucional, afirmando-se neste momento como uma peça fundamental de bom senso e equilíbrio no meio de tanto desconchavo. Quem diria.

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De Monsanto a Lula

por henrique pereira dos santos, em 08.04.18

Há já alguns anos, o movimento anti-transgénicos resolveu fazer campanha a favor de um coitado de um agricultor que teria sido impedido pela Monsanto de usar as suas próprias sementes.

Como no fulcro da história estava uma decisão de um tribunal canadiano, estranhei: na minha visão das coisas, dificilmente a Monsanto conseguiria levar um tribunal canadiano a decidir em função dos seus interesses, se eles fossem ilegítimos.

Não porque eu tenha qualquer ideia de que um juiz é por definição impoluto (seria sem dúvida fácil à Monsanto comprar um juiz, ou meia dúzia, não tenho dúvidas), mas porque o sistema judicial, exactamente por partir do princípio de que a natureza humana é o que é, tem uma série de mecanismos de protecção dos mais frágeis que tornam a qualquer pessoa difícil comandar as decisões de vários juízes (a dificuldade da Monsanto, ou seja de quem for, não é comprar meia dúzia de juízes, é conseguir pôr esses juízes todos a decidir nos processos que lhe interessam, com exclusão de todos os outros).

No processo em causa, o coitadinho do agricultor perdia todos os recursos, em todas as instâncias, de forma esmagadora.

Tive então uma longa discussão com a principal dinamizadora do movimento anti-trangénicos em Portugal, que me obrigou a ir ler todas as decisões do tribunal (estavam todas on-line, muito facilmente acessiveis, num inglês suficientemente simples para eu perceber, sem rodriguinhos nem palha gongórica) fortalecendo, a cada leitura, a minha convicção de que se tratava de um caso em que um vulgar burlão se servia dos bons sentimentos anti-OGM para passar a perna à Monsanto, conclusão a que, muitos meses depois, o movimento anti-OGM aderiu, deixando cair o seu mártir acidental.

Muito tempo depois, no auge do processo Freeport (declaração de interesses, estive envolvido no processo de decisão da avaliação de impacte ambiental até ser substituído por outras pessoas), um amigo meu, sólido e importante militante do PS, fundamentava a sua posição (a de que havia uma cabala, etc.) com a ideia de que se recusava a acreditar que seria possível ter um primeiro-ministro corrupto no país onde vivia e que era o seu.

Foi nessa altura que percebi o que me separava da quantidade de amigos meus mais activisitas e mais militantemente esquerdistas (as duas coisas não se sobrepõem, há muitos activistas da mais extrema direita, tal como há muitos esquerdistas que não partilham desta visão instrumental da justiça, o processo mental é que os aproxima e não o posicionamento político) que sistematicamente questionavam a justiça quando as suas decisões se afastavam do que defendiam ser o bem comum: eu acho que o sistema de justiça pode falhar, e falha, com certeza, mas a probabilidade de haver um político que actua fora da lei é muito mais alta que a probabilidade de um sistema de justiça (não falo de um julgamento, falo do conjunto do sistema, que incluem os recursos para tribunais de diferentes instâncias) ser política e economicamente manipulado e comandado.

As minhas razões não se prendem com qualquer superioridade moral da justiça em relação à política, mas com o facto de um político ser ele só, e poder tomar decisões sozinho (se aceito ou não uma contrapartida para tomar uma decisão será sempre uma decisão individual), enquanto o sistema de justiça está estruturado de forma a que o escrutínio exista de forma sistemática, sendo a decisão formada pela decantação de muitas decisões individuais, todas elas bastante escrutinadas.

Por isso o advogado de Lula se vê obrigado a dizer que a questão é uma questão corporativa (os juízes protegem-se uns aos outros) e outras coisas que tais, que possam justificar, aos olhos dos convertidos, como é que Lula é condenado em duas instâncias judiciais não havendo qualquer sombra de prova.

Só o recurso a teorias de conspiração mais ou menos elaboradas, mais ou menos credíveis (dizer que os tribunais são corporativos é razoável, porque é parcialmente verdade, dizer que Rajoy é um ditador é simplesmente estúpido), permitem o sistemático clamor de cada vez que um herói da esquerda é apanhado nas malhas da justiça (alguém se lembra do menor murmúrio com a prisão da ex-Presidente da Coreia do Sul ou de Sarkozy?). Tal como não se ouvem os protestos, que seriam mais que justos, sobre a ampla liberalidade do sistema de justiça brasileiro em relação à quantidade astronómica de pessoas abrangidas por foro privilegiado, essa sim, uma crítica realmente relevante ao sistema de justiça brasileiro.

Sempre haverá pessoas, como eu, que não pondo as mãos no fogo nem por mim, darão mais crédito a sistemas de decisão complexos, com maiores contrapesos, necessariamente mais lentos e burocráticos, e sempre haverá pessoas que a com a pressa de chegar a um mundo melhor, seguirão homens providenciais.

E sempre haverá tensão entre estas duas crenças base sobre a melhor forma de nos organizarmos colectivamente.

O que me preocupa é ver tanta gente inteligente, informada e séria a dar tanto crédito às teorias de conspiração que justificam por que razão e de que forma "eles" controlam tudo e a facilidade com que actualmente qualquer caudilho que seja um fora-da-lei (e o facto de ser um fora-da-lei não diz nada sobre a nobreza do que tenha feito antes pelo mundo e pelos mais frágeis) consegue levar atrás de si uma multidão de pessoas dispostas a prescindir da separação de poderes e do respeito pelo sistema de justiça, só para que "um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá".

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Domingo

por João Távora, em 08.04.18

Leitura dos Actos dos Apóstolos 


A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma; ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. Os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder e gozavam todos de grande simpatia. Não havia entre eles qualquer necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e traziam o produto das vendas, que depunham aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se então a cada um conforme a sua necessidade. 


Palavra do Senhor. 

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Novela 1 - Lula

Os portugueses estão a viver intensamente a evolução do processo judicial do Lula da Silva. Os telejornais acompanham ao minuto, choram com os apoiantes do Partido Trabalhista (de esquerda, claro). Os comentadores nem tentam disfarçar que são independentes na análise. São verdadeiros activistas contra os tribunais e a favor da libertação de Lula. A maioria da esquerda (UGT até fez um comunicado) portuguesa sofre genuinamente com a condenação do ex-presidente do Brasil, membro do partido trabalhista (de esquerda, claro). Pedem que a lei não seja cumprida. Isto é, que Lula da Silva não seja preso após o julgamento de todos os recursos na segunda instância. Estão revoltados contra a decisão do juiz federal Sérgio Moro que deu um prazo até as 17 horas desta sexta-feira, dia 6, ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para se apresentar "voluntariamente" à Polícia Federal em Curitiba, que é a polícia encarregue da investigação da Operação Lava Jato.

Tudo porque o Luiz Inácio Lula da Silva alegadamente "tirou milhões de pessoas da pobreza durante seus dois mandatos como presidente do Brasil" (esquecem-se de dizer que foi tudo a crédito bancário). Mas Lula é o herói dos trabalhadores. No entanto também comandou um dos governos mais corruptos na história do país. Mas isso a esquerda prefere não acreditar.

Lula foi condenado (e bem) a 12 anos e um mês de prisão no processo do caso triplex do Guarujá. Ou seja, a justiça provou que Lula recebeu cerca de 3,7 milhões de reais em subornos da construtora OAS, num triplex do Guarujá, num esquema relacionado com a empresa brasileira Petrobrás, sendo a primeira condenação do ex-presidente no processo Lava Jato.

Os portugueses gostam muito de sofrer com os heróis dos descamisados, mesmo que sejam bandidos. Roubar aos ricos, nem lhes parece mal.

 

Novela 2 - Letizia

A outra novela que move os portugueses é o vídeo de Espanha em que se vê a Rainha Letizia a impedir (de forma irritante) que as suas filhas tirem uma fotografia com a avó, a Rainha emérita Dona Sofia. Os espanhóis não gostaram da forma como a Rainha de Espanha tratou Dona Sofia, a monarca emérita, à saída da Missa de Páscoa, em Palma de Maiorca. Mas não são só os espanhóis, não há português que não esteja irritado com a Rainha de Espanha por causa da sua pouca educada atitude para com uma Senhora mais velha.

Aquilo pareceu-em uma ciumeira da Rainha Letizia face à sogra. Claro que se os espanhóis dizem mata, os portugueses dizem esfola. Vivem a novela como se Letizia fosse Rainha também de Portugal (os portugueses não ligam nenhuma à família real portuguesa, mas vibram com a espanhola). Claro que sendo a Letizia plebeia e tendo vindo de uma família mais pobre, o seu gesto é aproveitado para a menorizar.

É para mim mais do que óbvio que aquela cena de Letizia a pôr-se à frente das filhas para não deixar a avó tirar uma fotografia com as netas, não tem nada a ver com o seu background social. Já vi cenas de igual nível em pessoas de todos os meios. Mas claro as pessoas  aproveitam as suas circunstâncias para a menorizar. Foi malcriada? Foi. Mas quem diz que se tivesse nascido condessa, não podia perfeitamente, em situação de irritação, fazer o mesmo? O que não falta para aí são pessoas a perder as estribeiras e a ter atitudes grotescas com outras que não gostam, não querem gostar ou deixaram de gostar. Nem tudo é determinado pelo meio social.

Ironia: os portugueses adoram o filho do povo Lula, mas odeiam a filha do povo Letizia. Conclusão. Uma mulher que ascende socialmente é imperdoável. Um homem que ascende socialmente é um herói. Pode até dar-se ao luxo de ser corrupto. "Rouba mas faz", diz a voz popular.

E ainda vêm com igualdade de género e outras ideias feministas. Poupem-me.

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Quotas

por João Távora, em 06.04.18

A igualdade de "género" tem de ser garantida através do estrito cumprimento da lei, sempre no respeito das diferenças entre os sexos (haverá sempre tarefas e profissões tendencialmente mais masculinas ou mais feminina), não através de medidas despóticas que significam o reconhecimento do falhanço do Estado na regulação deste tema. Sobre a deriva da ditadura da igualdade aconselho a leitura deste artigo do Nuno Lobo no Observador

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Eu sei que já disse isto

por henrique pereira dos santos, em 06.04.18

Ou melhor, não foi bem isto, o que disse foi o essencial disto, mas a propósito da ideia do governo pegar nos dinheiros do Fundo de Coesão e os investir nos metros de Lisboa e do Porto, isto é, pegar nos dinheiros que a União Europeia disponibiliza (os contribuintes europeus, para ser mais preciso, o que nos inclui a nós) para diminuir o fosso entre regiões mais pobres e mais ricas da União, e investi-lo nas regiões mais ricas do país.

Agora o que está em causa já não é o Fundo de Coesão, mas o Fundo Ambiental (o tal que paga meio milhão de euros para os festivais de música ficarem mais verdes e, para ficar feita a declaração de interesses, também entregará qualquer coisa perto de 50 mil euros a uma associação de que sou presidente, sob a forma de Prémio ICNF de conservação).

O Governo resolveu pegar nos dinheiros do Fundo Ambiental, nomeadamente do que antigamente era o Fundo de Carbono, e comprar carruagens de metro.

Primeiro a questão de linguagem: o Governo pega no dinheiro dos contribuintes, entrega-o ao Metro e diz que o Metro vai gastar 210 milhões. Saltemos por cima deste fait-divers.

O Ministro anuncia isto na Assembleia da República e, aparentemente, daí não resultam imediatamente perguntas da oposição (pelo menos os jornalistas não deram por isso) sobre as razões para, havendo recursos públicos para investir na descarbonificação da economia, o Governo optar por aumentar a macrocefalia do país, investindo onde estão os votos, e também a riqueza, em vez de investir nas economias que poderiam gerir o problema dos fogos, a conservação da biodiversidade e a criação de emprego nas regiões mais pobres.

Não vale a pena argumentar que não existem, ou não são possíveis essas economias, porque existem e o seu potencial de crescimento é grande, uma vez que lhes sejam pagos os serviços de ecossistema prestados, como demonstraram anteriores opções na aplicação dos fundos de carbono.

O que está em causa é uma verdadeira opção política: o Governo prefere investir em Lisboa em vez de pagar os serviços de ecossistema e depois persegue judicialmente as vítimas desta opção.

E é uma opção política com larguíssimo suporte político porque, tirando o Partido Comunista de vez em quando, não se ouve um pio das restantes forças partidárias, com medo de perder os votos dos utilizadores de metro de Lisboa e Porto.

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O problema não é Catarina

por henrique pereira dos santos, em 05.04.18

Catarina Martins tem hoje uma entrevista de várias páginas no Público que terá tido também um reflexo extenso na Renascença.

Em si, isto não me levaria a escrever um post, quer porque Catarina fala todos os dias, quer, o que é mais importante, o que diz tem muito pouco interesse e rara aderência à realidade.

Catarina, previsivelmente, diz: "Temos um problema na Saúde, na questão das PPP: neste momento, o que existe é um monstro que está a sugar serviços do SNS e a negar condições de acesso à saúde a toda a população. O SNS está em risco de ter falta de profissionais, de falta de meios, porque o Estado está a alimentar o monstro que o suga, que é a saúde privada."

Que o diga é irrelevante, como seria irrelevante se dissesse que a terra é plana, o que não é irrelevante é que os jornalistas que a ouvem não se preparem para estas tiradas demagógicas, documentadamente falsas, neste caso, e não a confrontem com os números que existem de avaliação dessas PPP e que desmentem por completo esta parvoíce.

O que permite a Catarina falar todos os dias, sobre todos os assuntos, a dizer as maiores barbaridades, como esta, sem que isso se reflicta na sua reputação e credibilidade, é exactamente o facto dos jornalistas que a entrevistam não perderem dois minutos a confrontar o seu discurso com os factos.

E isso é absolutamente lamentável.

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Ide roubar p'rá estrada

por João Távora, em 04.04.18

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Aqui há uns anos valentes um fulano chamado Manuel de Sousa copiou quase integralmente um livro do meu pai, o “Dicionário das Famílias Portuguesas", que com um nome sugestivo fez publicar aos milhares numa "elegante" edição cartonada para ser vendido com o Correio da Manhã. Por isso foi posteriormente condenado à revelia em tribunal, fruto de um processo que lhe foi imposto pela minha família. O biltre, que provavelmente fez outras intrujices, permanece até hoje a monte, incontactável, fui informado há dias oficialmente. Talvez seja o mínimo dos castigos que o malandro se veja impedido de andar às claras e de cabeça erguida na sua própria terra. Tudo isto só para dizer que considero o plágio, tirar proveito abusivo do labor alheio, um dos mais velhacos crimes que conheço, e que o realizador João Botelho deve muito mais que um pedido de desculpas a Deana Barroqueiro, autora plagiada pelo realizador no filme Peregrinação. E já agora, perceber a posição que assumem as entidades publicas ou privadas que subsidiaram esta indignidade.

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Deixemos por ora os factos de lado, porque não interessam à teoria

por henrique pereira dos santos, em 04.04.18

Retirei o título de um comentário de Ana Cristina Leonardo, que será uma citação de Rousseau (citado de cor e não verificada por mim porque agora não me interessa nada para post que a citação certa não seja, eventualmente, esta).

Quando li o comentário vi que me tinha caído no colo o título de um post que estava a magicar e que não sei se é uma característica portuguesa (eu tenho sempre muita dificuldade em atribuir à cultura de um país este tipo de características, acho sempre que somos todos basicamente iguais, reagimos é a estímulos diferentes) ou se é da natureza humana.

O post surgiu de uma pequena (e interessante) conversa sobre um bom artigo de Nuno Palma no ECO.

Nessa conversa, despreocupadamente, surge um dos argumentos clássicos da conversa sobre a evolução da educação durante o Estado Novo: "No ensino primário o EN até teve a originalidade de fazer de Portugal o único país da Europa onde a escolaridade obrigatória passou de quatro para três anos, para as meninas.". Noutros pontos da conversa surgem repetem-se os argumentos clássicos sobre o Estado Novo e a educação.

O ponto onde queria chegar é este: todos nós aprendemos na escola que o Marquês de Pombal foi um reformador do ensino e que no Estado Novo havia uma política deliberada para manter o analfabetismo em Portugal.

Há um ror de anos que repetimos exaustivamente estas ideias (no caso do Marquês, há mais de duzentos anos).

E no entanto, o Marquês reduziu a população escolar em 90% (só se retomando a população escolar de meados do século XVIII em 1930, já com Salazar), e Salazar escolarizou em 20 a 30 anos a quase totalidade da população em idade escolar, partindo de valores miseráveis, em torno dos 15 a 20% no fim da primeira república.

Deve ser esta nossa vontade de jamais deixar que os factos influenciam as nossas opiniões que tornam tão fácil ao actual Governo manter, no essencial, a política do Governo anterior (as diferenças, para além da propaganda, são essencialmente na calibração dos impostos, mudando impostos directos para impostos indirectos) ao mesmo tempo que todos os dias o espaço público está cheio de demonstrações de que o Governo anterior, ao contrário do actual, tinha uma política horrorosa, de cortes cegos, que levavam à emigração, à destruição do Serviço Nacional de Saúde, à asfixia da cultura (da cultura, Senhores, há lá coisa mais perversa que cortar na cultura e não haver um ministério da dita), sem que o facto dos valores da emigração serem basicamente os mesmos, dos cortes de investimento serem basicamente os mesmos, das dificuldades do Serviço Nacional de Saúde serem, pelo menos, os mesmos, ou da penúria na cultura ser a mesma, afecte minimamente a narrativa oficial.

No fundo, no fundo, nós gostamos mesmo de ser aldrabados, os factos são uma coisa demasiado chata para se perder tempo com eles.

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CR redime-nos? Não. É pior.

por José Mendonça da Cruz, em 03.04.18

A acomodação à cepa torta, o gosto pela cepa torta, nem no domínio do futebol descansa. Quando um jogador foi grande, há comentadores que dizem que foi «humilde».

Não há ponta, nem gota, nem vestígio, nem rasto, nem sinal de humildade no golo de Cristiano Ronaldo contra a Juventus, aos 64 minutos do jogo da Champions`. Há, sim, outra coisa: excelência. Tanta que a multidão da Juventus, numa espontaneidade de fair-play, apaude o adversário.

Bom remate de dia para os portugueses? Talvez.

Ou então, talvez isto: vimos Centeno, do governo da maior carga fiscal de sempre, dizer que os impostos baixaram, perante a reverência de supostos jornalistas; vimos a reportagem babada sobre as alarvices dos finalistas (que finalistas? finalistas de quê?) em terras de Espanha; vimos as lágrimas e o rasgar de vestes que por aí vai porque artistas sem público querem mais dinheiro para continuar a dispensar o mesmo público (do mesmo passo que reivindicam a missão de educá-lo); lemos sobre a quantidade de dinheiro extorquido aos contribuintes para pagar as tropelias na Caixa de gente que fica resguardada pelo silêncio; vemos, o elogio do assistencialismo, do remendo, da acomodação, da cepa torta, em resumo.

Depois, vemos Cristiano Ronaldo, vemos o treino, o esforço, a dedicação, o orgulho, o mérito, a ambição, o trabalho, a rentabilidade, o lucro pessoal e da sua empresa... E pensamos: não, não deve ser português.

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A Eutanásia é Crime

por Vasco Mina, em 03.04.18

Não, a afirmação não é minha. Se fosse iria ter a caixa de comentários ao rubro. Quem tal assim considera é a deputada Maria Antónia Almeida Santos (do PS) e co-autora do Projecto que este partido vai apresentar na AR sobre a eutanásia. Segundo a mesma, o documento (agora nas mãos de Carlos César) “será mais garantístico e menos burocrático”. Ou seja, é crime mas vão facilitar o acto. Para o PS um crime será aceitável? Por outras palavras, o PS entende que os médicos e enfermeiros que praticarem a eutanásia estarão a cometer um crime! E vão autorizar? Sem mais comentários…

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Sidónio e 1917 - o tempo breve da esperança

por João-Afonso Machado, em 03.04.18

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As histórias pagam-se com a História. Depois de 1910, Portugal só sofreu. O ano de 1917 terminaria num natal de esperanças para todos os portugueses. Recorde-se, a nossa tropa morria aos milhares na I Grande Guerra. Contra a vontade dos seus próprios "aliados", a República decidiu entrar numa beligerância tolíssima, não fora o caso de assim a oficiliadade monárquica deixar de incomodar, e a conflitualidade interna se instalar além fronteiras.

Num golpe sem quase sangue, Sidónio escorraçou o Partido Democrático (ou Republicano), ordenou o regresso dos nossos soldados na Flandres (após a hecatombe de La Lys) e, politicamente, tentou instituir um regime presidencialista, um esgar de desdém ao parlamentarismo sob que viviamos em ditadura de Afonso Costa.

Em duas palavras foi isto. Em um livro, temos Sidónio Pais, Heroi e "Mártir" da República. De José de Carvalho.

É justo dizer, o Autor manifesta sem pejo a sua crença histórico-política.. Nada a opor-lhe, a ela, toda sidonista, perante tantas loucuras e facciosismos escritos pós retorno à nova República Velha.O resto são pormenores. Designadamente sobre a intervenção dos monárquicos.

Mas o livro conjuga três dados fundamentais: o fim da demagogia republicana; o novo regime presidencialista (de que, à socapa, Marcelo é continuador) e as aparições em Fátima. Siga, já agora, a costumeira diatribe sobre a religiosidade dos portugueses.

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Prunus cerasifera variedade Pissardii

por henrique pereira dos santos, em 01.04.18

Na universidade tinha um colega que em todos os projectos que desenhava punha Prunus cerasifera Pissardii (uma pequena árvore, aliás muito bonita) porque são vermelhas e as suas iniciais são PCP (nos planos de plantação eram as iniciais que constavam).

Este meu colega, dono de um agudo senso de humor, estava na sua plena e inteira liberdade de projectista ao ter este critério rígido de projecto, estaria nas mãos dos seus potenciais clientes aceitar ou não projectos com esse critério.

Já se o meu colega resolvesse prever a plantação das árvores com a raiz para cima estaria muito para lá da sua liberdade de projectista, estaria simplesmente a ser parvo, porque as árvores não se podem plantar com a raiz para cima.

Vem esta historieta a propósito de uma chamada de primeira página do Público a propósito de um manifesto que diz respeito à Catalunha.

Chama o Público na sua primeira página "BE, PS, PSD, CDU e PAN unidos num manifesto pela Catalunha", titula a peça não assinada no seu interior da mesma maneira e diz no texto de enquadramento da publicação do manifesto: "Manuel Loff, André Freire e Fernando Rosas conseguiram o que o Bloco de Esquerda e PCP não conseguiram na Assembleia da República: que elementos do PS e do PSD juntassem a sua assinatura, e consequente apoio, a um texto que exige liberdade para os presos políticos catalães".

Publicar um manifesto, qualquer que seja, está dentro da liberdade de escolha da imprensa, não referir as mentiras factuais do manifesto, é feio, mas está dentro da liberdade de escolha da imprensa, mas mentir descaradamente dizendo que porque Pacheco Pereira (o eterno candidato falhado a mártir do passismo) assina um documento isso quer dizer que o PSD se uniu aos outros para dar apoio ao manifesto, ou mentir descaradamente dizendo que na Assembleia da República não houve elementos do PS a apoiar uma coisa do mesmo tipo, está muito para lá da liberdade de escolha da imprensa, é semelhante ao projectista que pretende plantar árvores com a raiz para cima.

O que o Público fez hoje não é má imprensa, é uma fraude, é pretender enganar os seus leitores, é quebrar o vínculo de confiança com os leitores.

Espero que o Público tenha a hombridade de tornar pública a assinatura da peça e que não só assuma que errou (isso é fácil) mas que levante um processo disciplinar a quem for responsável por esta fraude: a imprensa não pode passar o tempo a pedir consequências para o facto de políticos e gestores tomarem decisões erradas, ilegais ou irresponsáveis e, ao mesmo tempo, passar o tempo com panhinhos quentes em relação aos seus jornalistas que fazem isto.

Dizer isto não é atacar jornalistas e a liberdade de imprensa, dizer isto é defender os jornalistas responsáveis que nunca fariam uma coisa destas e que, por causa dos que o fazem, correm um risco muito maior de desemprego por se quebrar impunemente o vínculo de confiança entre os leitores e o jornal.

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Domingo de Páscoa

por João Távora, em 01.04.18

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Fra Angelico (1395-1445) Fresco. Convento de São Marcos em Florença.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Marcos 


Depois de passar o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para irem embalsamar Jesus. E no primeiro dia da semana, partindo muito cedo, chegaram ao sepulcro ao nascer do sol. Diziam umas às outras: «Quem nos irá revolver a pedra da entrada do sepulcro?». Mas, olhando, viram que a pedra já fora revolvida; e era muito grande. Entrando no sepulcro, viram um jovem sentado do lado direito, vestido com uma túnica branca, e ficaram assustadas. Mas ele disse-lhes: «Não vos assusteis. Procurais a Jesus de Nazaré, o Crucificado? Ressuscitou: não está aqui. Vede o lugar onde O tinham depositado. Agora ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que Ele vai adiante de vós para a Galileia. Lá O vereis, como vos disse». 


Palavra da salvação. 

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A questão é de fé, discutivel não é

por João-Afonso Machado, em 30.03.18

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A procissão logo à noite será carregada de silêncio. Nas ruas o mesmo, por muita que seja a preocupação das mães com as asinhas dos seus anjinhos. Agora mesmo são três da tarde e o som lamuriento das sirenes dos bombeiros ouviu-se longamente, a furar a cortina de chuva caindo, o breu do céu. Digam lá o que disserem, hoje é um dia lutuoso.

E solene, diferente dos outros. Por cá é assim, e, por assim ser, mais me convenço de que Cristo subiu realmente o Calvário com uma cruz às costas, na qual foi depois pregado. Competirá, entretanto, ao mundo demonstrar que valeu a pena...

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Paixão

por João Távora, em 30.03.18

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Salta-nos aos olhos a incapacidade da sociedade do bem-estar por estes dias em acompanhar com um mínimo de profundidade a densa questão filosófica que emana da inquietante Páscoa de Jesus Cristo. Tudo se resolve: com uma escapadela turística refugiamo-nos de qualquer convite ao questionamento da nossa essência e razão de existir, à inquietação, ao espanto. A geração mais bem preparada de sempre mal disfarça a inaptidão de questionar a existência para além do superficial e do plausível – uma hipnótica série de televisão resolve facilmente o tédio de tanto bem-estar. De resto, como referiu a estrela pop Stephen Hawking, "a Filosofia está morta", hoje não é mais do que um caricato e inútil capricho de una quantos excêntricos (e não foi sempre assim?). É um paradoxo: a Salvação vem perdendo procura na medida em que nos vamos dissipando na precariedade do entretenimento, infantilizados no apoucamento da nossa humanidade.

Hoje celebra-se a vitória do cinismo, tarda a ressurreição da esperança – até Domingo.

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As reformas da esquerda

por Maria Teixeira Alves, em 30.03.18

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 O Governo desta geringonça de esquerda não é tido como muito reformista. Os governos reformistas foram, quase sempre, de direita e foi durante os governos de direita que se fizeram a maior partes das grandes reformas (como por exemplo a reforma fiscal de Cadilhe com a criação do IRC e IRS). 

Mas ao atual Governo não faltam as chamadas reformas "gauche", como este disparate, que faz capa do Expresso desta semana.

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Ainda me lembro do que os partidos de esquerda disseram quando as entidades estatísticas competentes vieram dizer que o défice das administrações públicas em 2015 foi de 4,4% (7.893 milhões de euros), por causa da operação de resolução do Banif que provocou um agravamento do défice de 1,4% do PIB em 2015, mais do que o inicialmente estimado que apontava para 1,2% a 1,25% do Produto Interno Bruto (PIB). E que por isso nesse ano Portugal terá fechado o ano nos 4,4%, um número pior do que inicialmente esperado. Isto com a resolução do Banif a contribuir para este desfecho.

"O anterior governo PSD/CDS “mais uma vez não cumpriu os objectivos do défice que se propunha atingir, apesar de todos os sacrifícios impostos aos portugueses”, algo que aconteceu “sem surpresa”, apregoaram.

Agora a recapitalização da CGD eleva défice de 2017 para 3% e a esquerda vira-se (e o Ministro das Finanças que é Presidente do Eurogrupo, pasme-se, veio dizer que o Eurostat estava errado) contra o gabinete de estatística. 

Os 3.944 milhões de euros que foram injectados no banco público serão totalmente reflectidos no défice do ano passado, elevando-o para 3% do PIB. É um erro, diz a esquerda.

A esquerda o que diz? Diz que se excluirmos esse efeito o défice foi de 0,9%, abaixo da meta do Governo revista em Outubro que apontava para 1,4% de défice. Agora já conta o argumento que antes não contava para o Governo de Pedro Passos Coelho. Os contributos one-off já não são importantes.

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