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O Plano B

por Corta-fitas, em 13.01.07


Li e ouvi algumas análises sobre a nova estratégia da Casa Branca para o Iraque e, na maioria dos casos, surgia uma curiosa lenda: os Estados Unidos comportam-se de forma tão estúpida que nada daquilo faz sentido.
O pressuposto aparece em comentários tão díspares como o de Pulido Valente, no Público (sem link) ou nas reflexões de Daniel Oliveira, no Arrastão. Também já se ouviu na TV.
A meu ver, a teoria da estupidez americana impede uma boa análise dos factos e, acima de tudo, confunde erros políticos com acções descabeladas. Os EUA falharam o seu plano A para o Iraque e já estão a combater o plano B, que tiveram de improvisar. Ou seja, estamos perante o caso clássico de um império que tenta reparar uma situação aparentemente desesperada.
Em primeiro lugar, é preciso compreender o essencial. A estratégia americana visa desde o início criar um ambiente favorável aos interesses ocidentais na região do Golfo Pérsico. Que interesses são esses? O suave fluxo de matérias-primas energéticas. A Civilização Ocidental depende inteiramente do petróleo do Golfo: A Arábia Saudita produz nove milhões de barris diários, o Irão mais seis milhões e o Iraque tem potencial para cinco ou seis, embora produza menos de três milhões. Há mais países na região a produzir gás natural e petróleo. Enfim, a zona é responsável por 25% do abastecimento mundial de petróleo e, dentro de dez anos, algo próximo de um terço.
Claro que, no plano retórico, o Iraque devia tornar-se uma radiosa democracia. Mas esta era uma espécie de cereja em cima do bolo.
Saddam Hussein começou a sua carreira como nacionalista árabe, foi depois um combatente da Guerra Fria. Em ambos os casos teve enorme sucesso, no entanto nunca se adaptou à nova ordem mundial, nos anos 90. Em vez disso, tentou tornar-se um líder hegemónico na região. Talvez devido a excesso de confiança ou por temerem genuinamente as ambições do ditador iraquiano, os EUA decidiram abandonar a sua política tradicional para o Golfo, que se baseava na manutenção de um sistema de equilíbrio de poder entre três potências, com pelo menos duas pró-ocidentais. Arábia Saudita, Iraque e Irão deveriam manter-se mais ou menos idênticas, sem nenhuma delas a conseguir ameaçar as duas outras, e sobretudo sem coligações de duas hostis à América.
O sistema funcionou até ser perturbado por um Saddam que acreditava poder ser o dono da região.
Como os três últimos anos comprovaram, ao removerem o ditador iraquiano, os EUA não conseguiram manter o sistema de três potências. Este foi o erro político.
É à luz desta lógica que podemos interpretar os actuais desenvolvimentos. O Iraque vai desaparecer e a estratégia americana é já a de conseguir que essa fragmentação ocorra com o mínimo de derramamento de sangue e, sobretudo, que ela não perturbe o normal fluxo de petróleo do Golfo.
A entidade curda funciona já de forma praticamente independente. Terá petróleo, mas também o problema do isolamento geográfico. Penso que irá depender de uma boa relação com a Turquia e com os Estados Unidos.
A entidade xiita, a sul, está em formação. Precisará dos americanos para não cair totalmente nos braços do Irão. Tem petróleo. Será uma teocracia governada pelos Ayatollahs mais respeitados.
A entidade sunita está ainda indefinida. Poderá nascer radicalizada ou regressar a uma ditadura do partido Baas. Tem pouco petróleo e precisa de uma boa ligação à Síria, pois não me parece que lhe sirva a protecção da Arábia Saudita.
O Plano B, a fragmentação do Iraque, parece assim ser pouco favorável aos interesses americanos e ocidentais, mas o problema é que não existe outra possibilidade.
Será difícil que a partilha ocorra sem grande derramamento de sangue. Mas, se a divisão for rápida e sangrenta, como querem os democratas dos EUA, os soldados estarão de volta a casa dentro de um ano. Isso, claro, também dependerá do Irão e da Arábia Saudita.



9 comentários

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De Anónimo a 15.01.2007 às 10:40

É óbvio que a Margarida tem razão!
Os interesses dos EU não se confundem com os dos outros países ocidentais máxime os europeus.
Basta ouvir com atenção os geoestrategas e comprovar as posições da França e da Alemanha para verificar que tal é verdade!
A intervenção Americana no Iraque foi, antes de mais, uma acção anti-Europeia ou melhor anti economia europeia. Apenas visou controlar os fluxos de petróleo do Golfo que, via Turquia, podiam chegar á Europa por pipeline. Não é a Turquia candidata á UE?!!!!
Resumindo o que os EU-Bush quiseram foi colocar a UE na sua depemdência energética!!!! Esta é a verdade nua e crua que os Durões e outros sabujos formados em Georgtown querem disfarçar!!!!!
A invasão do Iraque é uma afirmação clara e ostensiva de Imperialismo Americano visando expressamente a economia europeia...
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De cinderela-dos-pes-grandes a 14.01.2007 às 19:40

Margarida, tem razão: quem paga é sempre, em primeiro lugar, o MEXILHÃO!... :(
Mas os factos acabarão por se sobrepor à propaganda, nos States, acredito, e isso terá consequências para os reponsáveis... espero!
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De Margarida a 14.01.2007 às 19:31

E já que por aqui se discute Iraque, petróleo, corrupção, chamo a atenção para este actualizadíssimo artigo de Stephen Foley, “Shock and oil: Iraq's billions & the White House connection” publicado no The Independent em 14 Janeiro 2007.

http://news.independent.co.uk/world/americas/article2152438.ece
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De AChata a 14.01.2007 às 15:34

O plano C já está a ser implementado:

Future of Iraq: The spoils of war
How the West will make a killing on Iraqi oil riches

By Danny Fortson, Andrew Murray-Watson and Tim Webb
Published: 07 January 2007

Iraq's massive oil reserves, the third-largest in the world, are about to be thrown open for large-scale exploitation by Western oil companies under a controversial law which is expected to come before the Iraqi parliament within days.

The US government has been involved in drawing up the law, a draft of which has been seen by The Independent on Sunday. It would give big oil companies such as BP, Shell and Exxon 30-year contracts to extract Iraqi crude and allow the first large-scale operation of foreign oil interests in the country since the industry was nationalised in 1972.

30 anos? Granda contracto!

Agora só há uns problemazitos (ou não) a resolver:

Le pétrole finance la guerre civile en Irak

GEORGES MALBRUNOT.
Publié le 21 décembre 2006
Actualisé le 21 décembre 2006 : 07h30

Dans un pays en pleine déliquescence, le marché noir du brut, de plusieurs milliards de dollars l'an, nourrit la corruption des officiels et alimente la guérilla.

e

'The jihad now is against the Shias, not the Americans'


As 20,000 more US troops head for Iraq, Ghaith Abdul-Ahad, the only correspondent reporting regularly from behind the country's sectarian battle lines, reveals how the Sunni insurgency has changed

Saturday January 13, 2007
The Guardian

One morning a few weeks ago I sat in a car talking to Rami, a thick-necked former Republican Guard commando who now procures arms for his fellow Sunni insurgents.
...
Rami was no longer involved in fighting, he said, but made a tidy profit selling weapons and ammunition to men in his north Baghdad neighbourhood. Until the last few months, the insurgency got by with weapons and ammunition looted from former Iraqi army depots. But now that Sunnis were besieged in their neighbourhoods and fighting daily clashes with the better-equipped Shia ministry of interior forces, they needed new sources of weapons and money.
He told me that one of his main suppliers had been an interpreter working for the US army in Baghdad. "He had a deal with an American officer. We bought brand new AKs and ammunition from them." He claimed the American officer, whom he had never met but he believed was a captain serving at Baghdad airport, had even helped to divert a truckload of weapons as soon as it was driven over the border from Jordan.
...
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De Margarida a 14.01.2007 às 14:47

Sinónimos? Se o meu vizinho recebe uma herança quer então dizer que eu lhe posso exigir metade?
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De luisnaves a 14.01.2007 às 13:31

obrigado pelos vossos comentários, cinderela e margarida. Em relação ao que escreve, margarida, tenho uma pequena discordância. Acho que interesses americanos e interesses ocidentais são sinónimos. podemos um dia destes discutir isso...
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De Margarida a 14.01.2007 às 08:55

Ora bem, cá se fazem, cá se pagam. Oxalá... mas entretanto quantos milhões tiveram que pagar na pele pelas ambições alheias, quantas centenas de milhares já foram mortos e quantos mais terão de morrer?
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De cinderela-dos-pes-grandes a 13.01.2007 às 21:08

Mais uma vez se prova que uma asneira leva a outra... Isto de brincar aos deuses exige alguma POTENCIALIDADE supra-humana! Não é milagroso quem quer, e a história não se dobra assim com duas cantigas.
Ou, em resumo, quem semeia ventos colhe tempestades... cá se fazem, cá se pagam!... :|
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De Margarida a 13.01.2007 às 17:17

Ao ler que escreveu que a “estratégia americana visa desde o início criar um ambiente favorável aos interesses ocidentais na região do Golfo Pérsico” bateu-me na testa que possivelmente desconhece o discurso de Bush de 10 de Janeiro. É que às tantas, nesse discurso ele diz “We are also taking other steps to bolster the security of Iraq and protect American interests in the Middle East” e nem uma única vez se refere a interesses ocidentais mas sempre e somente aos interesses dos próprios Americanos.

As coisas são de facto muito mais cruas do que muitas vezes as imaginamos. Por isso e para ver que as coisas são mesmo (infelizmente!) assim deixo-lhe o link para esse discurso do Bush:

http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2007/01/10/AR2007011002208_pf.html

PS: E não tenha ilusões que nem republicanos nem democratas querem estar de volta a casa dentro de um ano, como escreveu. Já reparou que mais de 60 anos depois ainda continuam instalados na Alemanha, na Itália e no Japão e que cinquenta anos depois também não saíram da Coreia do Sul? Eles só saem quando são derrotados. Como aconteceu no Vietname e no Laos. E no Iraque como é que poderiam garantir o petróleo se saíssem? O que eles querem é manter a segurança mínimo no Iraque para que possam sacar de lá o petróleo, coisa que espero nunca consigam fazer, pois que o petróleo é dos iraquianos e de mais ninguém.

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