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Sem fumo nos olhos

por João Távora, em 31.12.07
São muitas as vozes “esclarecidas” a vociferar contra a lei do tabaco que entra amanhã em vigor. Por vezes pressinto alguma caprichosa arrogância por parte dos resistentes fumadores, ameaçados na sua liberdade individual (?!) e cada vez mais entrincheirados no seu gueto.
Não pretendo discutir com os fumadores os malefícios ou virtudes do seu vício. Pela minha parte, como comprovarão os meus amigos viciados, sempre contaram com toda a minha "tolerância". Tenho cinzeiros em casa, e nunca troquei uma boa companhia à mesa por mais alguma sanidade atmosférica. É que, depois dos quase trinta anos que eu próprio dediquei à adição a fumos diversos, a minha consciência não me permite uma atitude discriminatória. Mas permitam-me aqui uma singela partilha de experiência.
Durante muito tempo a trabalhar na hotelaria habituei-me a gerir a (in) conveniência social do meu convicto vício de fumador. No entanto, chegado a meados de 2004 devido a uma reestruturação na empresa onde trabalhava, mudei de escritório e passei a partilhar um moderno e racional espaço comum. Ainda arranjei um cinzeiro "de pé" que eu próprio coloquei no patamar das escadas entre os elevadores. Estavam claramente comprometidos os meus rituais de prazer. Por exemplo, cada fugida para fumar, obrigava-me a interromper o que estava a fazer. Como se o “fumar clandestino” não fosse suficiente humilhação para um respeitável quarentão como eu, ali eu expunha-me democraticamente aos mais insolentes e bem intencionados reparos, por parte de toda a sorte de virtuosos colegas.
Sem argumentos válidos que justificassem o destrutivo prazer em visível decadência, cedi à “pressão social” e marquei uma data solene para a heróica mudança. Nas derradeiras semanas de contagem decrescente, fumei que me fartei! E foram tais as (más) expectativas criadas, que me surpreendi ao sobreviver aos primeiros dias de abstinência.
Durante quase um ano, fiquei com um feitio danado, quase me incompatibilizei com o mundo, com explosivas e injustificadas fúrias.
Agora tudo passou, e posso garantir que me sinto bem e que fiz o que havia a fazer. E confesso que há muito que o lado estético do consumo da nicotina me parecia no mínimo repugnante.
As consequências deste vício entraram-me pela vida a dentro, pois perdi os avós maternos ambos com enfisema pulmonar. Lembro-me dos obscenos e assustadores ataques de tosse que tornavam roxo o meu avô, ainda recém sexagenário. Morreu cedo e asfixiado.
Hoje em dia, quando acompanho a minha mãe nos seus pequenos passeios, deslocando-se lívida, em minúsculos e lentos passos, ligada por tubos a uma garrafa de oxigénio, sou capaz de me lembrar de alguns sagazes opinion makers da nossa praça. Quando vejo na cidade as inúmeras carrinhas de distribuição domiciliar de oxigénio, das empresas Linde ou Gazin, lembro-me desses que, levianos, reclamam o direito a infestarem-se de alcatrão e nicotina, da mesma forma como reclamariam outras fracturantes causas que a agenda da moda imponha. E com comprovada imaginação conseguem argumentar e justificar a sua funesta veleidade, como se de um direito se tratasse. O direito a morrerem lentamente, em profundo sofrimento e na total dependência dos outros.
Conheço alguns – pouquíssimos - sortudos que fumam descontraídos dois ou três cigarros por dia. Por compleição genética ou psicológica, são pouco vulneráveis a dependências. Mas esses felizardos não são regra e são os únicos que se podem alegremente rir de mim ou das minhas desventuras. Mas mesmo eles que o façam sem me atirar o fumo para os olhos.

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5 comentários

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De Anónimo a 01.01.2008 às 02:27

No entanto, o adultério será permitido.
Não é a ficção a tornar-se realidade.
Neste caso será a anedota a tornar-se realidade. Marido encontra mulher na cama com amante:" Ó querida, com essas modernices, qualquer dia ainda te apanho a fumar!".
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De Anónimo a 01.01.2008 às 02:23

Tenho verdadeiro receio que de futuro todas as habitações tenham, por lei,câmaras de vigilância.
Que vigiem se fumamos, o que bebemos, quantos banhos tomamos,que medicamentos emborcamos,o que vestimos ou não vestimos, o que comemos e, finalmente...tcharam... QUEM comemos e COMO comemos esse QUEM.
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De Julio Amorim a 31.12.2007 às 19:33

Como curiosidade, podem ver ao que os fumadores se sujeitam....

http://cidadanialx.blogspot.com/2007/09/paragens-do-sc-xxi.html

.....em outras paragens.

JA
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De JM Coutinho Ribeiro a 31.12.2007 às 19:19

Votos de Bom Ano Novo para todos os que fazem o Corta-Fitas! Com ou sem cigarros :-)
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De Anónimo a 31.12.2007 às 18:13

Caríssimo,

Se o seu Avô João foi casado com a Sra. D. Laura, então... Fui vizinho de toldo deles muitos anos em Monte Gordo.

Se assim não foi, queira perdoar a intromissão...

De qualquer forma melhores desejos de um Feliz Ano Novo.

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