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Mais um grande cérebro que nos deixou

por José Mendonça da Cruz, em 20.12.13

 

Há muito que gente do PSD e da direita vem tecendo agrestes críticas contra José Pacheco Pereira. Estranham o azedume extremo com que fala de qualquer membro, acto ou omissão da coligação governamental. Apontam-lhe o dedo por defender alternativas políticas e económicas que nunca explica nem expõe. Desconsideram-no por reincidir em processos de intenções. Acusam-no até de se entregar a raciocínios falaciosos e (reconhecem isso, ao menos) absolutamente indignos de si. Dizem que Pacheco Pereira perdeu a razoabilidade, que pôs a sua enorme inteligência entre parentesis, que está fora de si.

A realidade é, porém, infinitamente mais triste: Pacheco Pereira já não se encontra entre nós. Pacheco Pereira é um mero organismo possuído pela alma danada de Álvaro Cunhal. Há provas reiteradas disto que escrevo. São fortíssimos os indícios.

Ontem, ainda, no programa Quadratura do Círculo, pela boca material de Pacheco Pereira, o fantasma de Cunhal zurziu o PS por ter celebrado um acordo com o governo de direita a propósito do IRC. Não só insuflou alento num moribundo, dizia Cunhal, como subscreveu mais uma manobra deste governo para favorecer os poderosos e privar os trabalhadores.

A prova? Valendo-se do proverbial jeito para o desenho, Cunhal apresentou este gráfico que reproduzo e a que acrescento letras para maior facilidade de explanação:

 a é, segundo Cunhal, a riqueza nacional.

A riqueza nacional segue para b, que são os ricos, pela, digamos assim, haste superior

e para c, pela haste inferior, para o povo em geral.

Ora, a intenção deste governo, diz o espectro do defunto líder comunista, é entumescer a haste superior fazendo passar mais dinheiro da riqueza nacional para os ricos em b, e estreitar a haste inferior para que cheguem menos moedas ao c do povo. 

 

     

O próprio António Costa estava perplexo (António Lobo Xavier, ça va de soi, estava gelado). Mas eu, humilde espectador, eu não. Eu sabia que era Cunhal a falar. Já o intuía há muito tempo, não julgando inteiramente irrazoável que a concentração na escrita de uma biografia notável possa ter efeitos secundários paranormais. E firmara a certeza já em Novembro, quando, ao zurzir os que desvalorizam as manifestações da Intersindical, perdão, da CGTP, Pacheco Pereira, aliás, Cunhal, fazia, no seu Abrupto, perdão, no Abrupto do intruso Cunhal, o seguinte retrato da parte verdadeiramente genuína e progressiva do povo português:

«Os manifestantes da CGTP não são da classe social certa, não ambicionam ir tomar chá com Ricardo Salgado, ou ir comer aos restaurantes da moda, não são frequentáveis e, ainda pior, não se deixam frequentar. Têm, muitos deles, uma vida inteira de trabalho e de muitas dificuldades. Tem um curso, uma pós-graduação e um doutoramento em dificuldades. São velhos, um anátema nos nossos dias. Tiveram ou tem profissões sobre as quais os jornalistas da capital não sabem nada, foram corticeiros, mineiros, soldadores, torneiros, mecânicos, condutores de máquinas, pedreiros, ensacadores, motoristas, afinadores, estivadores, marinheiros, operários têxteis, ourives, estofadores, cortadores de carnes, empregados de mesa, auxiliares educativos, empregadas de limpeza, etc., etc. Foram e são cozinheiros e cozinheiras em cantinas, e não chefs. E foram ou são, professores, funcionários públicos, enfermeiros, contabilistas

 

Eu, humilde leitor-espectador, mais humilde bloguista ainda -- porém, atento e obrigado -- chamo para tão infausto sucesso a atenção dos nossos meios culturais, e dos meios políticos, e dos meios de comunicação social. Choremos, pois Pacheco partiu. Não nos cansemos de chorar. Perdemos um grande valor.

 


6 comentários

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De joshua a 20.12.2013 às 19:33

Cunhal tem estado igual a si mesmo! ;-)

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