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DAQUI NÃO PASSA....

por Vasco Lobo Xavier, em 08.12.13

 

 

E não pode mesmo passar, que eu tenho aguentado calado mas chegou-me agora a mostarda ao nariz (ou “as especiarias”, como actualmente é traduzido em “Astérix e  Cleópatra”). Catherine Labey e Maria José Magalhães Pereira são as tradutoras escolhidas pelas Edições ASA para traduzirem para português o Astérix, de Goscinny e Uderzo, e assim se poder oferecer aos portugueses (pagando estes o preço de capa) o génio humorístico daqueles autores. Que pena!... De princípio pensei que eram apenas péssimas tradutoras. Depois pensei que não percebiam nada do que estavam a ler nem tinham qualquer ponta de sentido de humor. Agora percebi que aquilo que lhes falta é mundo, bagagem, e um mínimo de cultura, e que é por isso que são incapazes de traduzir o génio dos geniais.

 

Demonstrando, com exemplos acrescentados aos da mostarda. Não bastavam os péssimos novos nomes dos personagens, de que adiante darei inequívoco exemplo. Recordo agora o episódio em que que, em Astérix, gladiador, Obélix implora ao bardo que não vá ensaiar para a floresta porque a sua voz assusta os javalis. Este, furioso, riposta dizendo que os javalis apreciam melhor a sua música do que ele. Ao que Astériz responde: “é natural, pareces um leitão a cantar!” O diálogo foi agora traduzido por “Não admira! Cantas como um suíno!!!” Cantas como um suíno?!? Mas isto é coisa que se diga?? Isto tem alguma graça?? Isto sai naturalmente numa conversa de amigos?? Fará algum sentido? Porquê adulterar a naturalidade? Era o que vinha no dicionário? No tradutor google? Antes “como um singularis porcus”..., sempre faria mais sentido. Foi aqui que pensei que eram apenas péssimas tradutoras.

 

O tema das ‘comidas’ nem sempre é bem compreendido pelas tradutoras. Gaspacho y Migas, o célebre chefe da aldeia espanhola (em Astérix na Hispânia), chama-se agora Caldoverdon y Chouriçon. As delicadas tradutoras devem ter pensado que era uma excelente piada (que não percebiam) sobre sopas e resolveram atribuir ao chefe espanhol o caldo verde com chouriço português, que, como todos sabem, tem tudo a ver com Espanha.... E ainda devem ter julga doque faziam grande feito. A piada perdeu-se, diluiu-se, ficou sem sabor e sem se perceber. Sem se perceber a culinária, os costumes e a geografia. Destruiu-se a obra. Foi aqui que pensei que não percebiam nada do que estavam a ler nem tinham qualquer ponta de sentido de humor.

 

Mas agora foram fundo demais, ainda em Astérix na Hispânia. É célebre (menos de entre elas) o quadradinho em que Pepe, o filho do chefe espanhol (que por mera sorte não se chama na ASA “cozidus à lusitanius” ou “bacalhaus assadus”...), sustém o avanço de Júlio César e da sua guarda com o inequívoco “no passarán!”, de Dolores Ibárrui Gómez, La Pasinaria, às portas de Madrid, durante a guerra civil de Espanha. É um dos momentos mais conseguidos do livro, uma manifestação do génio dos autores e do seu excelente sentido de humor, revelador do conhecimento da realidade que tratam mas que não atinge as tradutoras. Pois estas senhoras traduziram o “no passarán!” (não sequer por “não passarão!”, mas) por “Daqui não passam!” Daqui não passam?!?... Daqui não passam?!?...?!?... Foi então que percebi que aquilo que lhes falta não é só qualidade na técnica da tradução nem apenas o facto de não perceberem patavina do que traduziam nem possuirem uma extraordinária falta de sentido de humor, mas sim falta de mundo, de bagagem, e de um mínimo de cultura, e que é por isso que são totalmente incapazes de traduzir o génio dos geniais.

 

Rasguei o livro, deitei-o fora, suspendi na banca a reserva dos livros da ASA distribuídos pelo Público e fui procurar nos alfarrabistas de BD uma versão com tradução decente para ter na modesta biblioteca. Mas ainda estou por perceber como é que na ASA ninguém se deu conta do disparate. Ninguém se apercebeu?!?... Ninguém disse “oh pá, não podemos comercializar esta porcaria....” E no Público?? – Que falta anda a fazer José Manuel Fernandes....

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12 comentários

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De Flic Flac a 08.12.2013 às 13:25

Se não arranjar num alfarrabista, compre no original. Sai mais barato e fica sempre a ganhar no humor.
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De Vasco Lobo Xavier a 08.12.2013 às 23:21

Grácias, tem toda a razão.
Abrçs vlx
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De PEdro a 08.12.2013 às 15:58

Vasco, a sua vida e trágica.
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De Anónimo a 08.12.2013 às 16:15

Chegou dez anos depois da polémica. Na altura até chegou a haver abaixo-assinados mas a Asa e a tradutora desculparam-se com a imposição da editora francesa que queria que Portugal seguisse a norma de que cada personagem tem um nome específico em cada língua. Claro que isso não justifica o resto das traduções miseráveis...
O melhor mesmo é ainda o original, principalmente a "Grande Collection" de formato maior e e nova colorização.
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De Vasco Lobo Xavier a 08.12.2013 às 23:55

De acordo com o que diz, a coisa é bem pior do que eu pensava porque eles não perceberam sequer aquilo que a editora francesa impunha. Uma coisa é o nome das personagens habituais (não concordo mas tenho de aceitar), outra é a dos personagens concretos: Gaspacho Y Migas chama-se Gaspacho y Migas porque é um chefe espanhol. Podiam chamar-lhe Paelha y qualquer outra coisa espanhola, mas nunca Caldonverdon y Chouriçon, a não ser que fosse um chefe português. Aportuguesar um nome de espanhol, numa história espanhola, passada em Espanha, num ambiente espanhol, é de imbecil, é não perceber o que se faz. Não acredito que, no original, que é em francês, a editora tenha alterado o original Gaspacho Y Migas para Vichyssoise et Champignons. Por sorte aqui não alteraram Cleópatra para Amália e Lutécia para Conimbriga. Esta gente é burra, ainda bem que falhei a dita polémica há dez anos atrás, que poderia ter sido desagradável ou, como me disseram há pouco, deselegante.
E isso, como dizia no seu comentário, também não desculpa as restantes traduções miseráveis. "Daqui não passam" é adulterar a versão original do autor, é estragar uma imagem deliciosa, uma mensagem engraçadíssima, um foco de humor brilhante. Se a editora francesa soubesse o que aqui foi feito, se imaginasse sequer, se os autores soubessem do estrago que aqui foi feito à sua piada, outro galo cantaria. E, ao contrário do que possam pensar as tradutoras, não seria o de Barcelos.


Espero que essas tradutoras nunca venham a traduzir O Iznogoud, que, na ideia delas, e muito provavelmente, seria o Énãobão, aquele que queria ser Califa no lugar do Califa (provavelmente traduzido para aquele que cria ser Califa no lugar do Califa).


Obrigado pela sua sugestão, que agradeço, mas tenho bons contactos nos alfarrabistas de BD. Mas a sua sugestão levar-nos-ia mais longe e a outras conversas. Se, para termos coisas de qualidade, temos de ir comprar antiguidades ou os originais, isso é sinal de que a qualidade e a cultura continuam acessíveis a poucas pessoas e a poucos conhecedores. E, no caso, pela falta de qualidade da tradução dentro de uma empresa de reconhecida qualidade como é a ASA. "Daqui não passam!" é coisa que não lembra ao diabo, é não perceber nada, e é, acima de tudo, adulterar o original. Nem é só estragar, é adulterar. Há marcas de automóveis que recolhem carros por defeito e muitas outras empresas o fazem: aqui não podia ser por menos. Ao menos uma errata, qualquer coisa!  
 Cumprimentos, apareça sempre, vlx








.  
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De Anónimo a 09.12.2013 às 18:38

Pois, o problema é que "Gaspacho y Migas" foi um nome inventado pelo tradutor da edição da Bertrand. O Original é mesmo "Soupalosnon y Crouton"...
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De Helena Figueiredo a 08.12.2013 às 21:11

Por essas e por outras prefiro ler no original. Agora, se fosse só nessas traduções... Era um alívio. É raro o livro traduzido em que não há erros crassos de tradução, que muitas vezes destroem o prazer de ler. Será que não há ninguém nas várias editoras que verifique?  SERÁ QUE OS AUTORES SABEM  que as suas obras são assim assassinadas?  É para isto que pagamos os livros caríssimos na língua portuguesa?????
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De Vasco Lobo Xavier a 09.12.2013 às 00:11

tem toda a razão, acabei de o escrever. Acho que eles não sabem, não fazem ideia do estrago que sofrem as suas obras. O exemplo que me deixou fora de mim é esclarecedor. Uma das imagens mais espectaculares daquele livro foi assassinada. Daqui não passam??? estas especialistas traduziriam o Ich bin ein Berliner por eu sou um lisboeta, ou portuense, ou conimbricense, ou o que fosse onde estivessem a fazer a tradução. Que gente... Abraços vlx
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De Dinada a 09.12.2013 às 12:14

Estive com o exemplar nas mãos com a intenção de o oferecer a um amigo. Abri e, ao primeiro diálogo em "acordês" devolvi-o ao estandarte e desandei da livraria :(
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De joshua a 17.12.2013 às 10:28

Efectivamente, deveria existir uma supervisão da tradução para que o humor de Astérix não vá pelo esgoto. Lamento-o.
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De Comunista a 17.12.2013 às 14:26

"Ao que Astériz responde: “é natural, pareces um leitão a cantar!” O diálogo foi agora traduzido por “Não admira! Cantas como um suíno!!!” Cantas como um suíno?!? Mas isto é coisa que se diga?? Isto tem alguma graça??"



 - tem.

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