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A banalidade do mal

por Maria Teixeira Alves, em 09.10.13

Fui ver o filme Hannah Arendt, sobre a jornalista que em 1961 foi destacada pela revista The New Yorker para cobrir o julgamento do Nazi Adolf Eichmann, em Jerusalém. O filme é bastante maçador o que impede de estarmos focados no essencial. O tom monocórdico da língua germânica também deve ajudar a isso.

Mas voltando ao essencial, o filme aborda as pressões que a jornalista sofreu por ter posto em causa a atitude de alguns judeus que denunciaram os seus (eventualmente como acto de cobardia para salvar a própria pele). Hannah Arendt, que era filósofa também, transformou a cobertura jornalística do julgamento num tratado sobre a Banalidade do Mal. 

À medida que Hannah Arendt vai relatando o julgamento torna-se cada vez mais evidente a sua linha de argumentação: trata-se de um homem banal, trata-se de actos banais, trata-se da banalidade do mal, trata-se de obedecer ao Estado, trata-se de ser humano sem questionar, trata-se de manter um status social. 


O mal é banal. É banal e reveste-se das mais variadas formas (na cobardia, na obediência, na submissão, na inveja). O tratado sobre a banalidade do mal é a constatação de que o mal é praticado diariamente pelo Homem normal, pelo Homem comum. O mal é banal. E o bem? Será também o bem banal?

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34 comentários

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De Anónimo a 09.10.2013 às 11:32

Haver medida, ou não haver medida, that is the question. Senhora, é "À medida" e não "Há medida".
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De Maria Teixeira Alves a 09.10.2013 às 13:29

Já respondi a outro comentário. Este erro resulta de eu ter copiado um excerto de um artigo oficial sobre ela. Daí o itálico. 
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De ALICE SAMORA a 09.10.2013 às 12:00


" medida que Hannah Arendt vai relatando..." não leva "H". Não é do verbo haver.
Não devíamos banalizar este erros.
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De Maria Teixeira Alves a 09.10.2013 às 13:27

Tem razão. Esta frase em itálico foi copiada de um artigo oficial sobre ela, daí o itálico. Já corrigi.
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De ptc a 09.10.2013 às 13:20

Cara Maria,
O filme não é, de facto, um blockbuster saído de Hollywood para estourar receitas no primeiro fim de semana, é um filme que nos obriga a pensar e a sair das nossas muitas e variadas zonas de conforto. Mas maçador não é com certeza. Eu não achei e as pessoas que conheço e que o viram tambén não. Talvez porque já estivesse minimamente informada sobre Hannah Arendt (recomendo o livro "O Último Encontro", de Cathérine Clément), não ia  à espera de concessões nem de facilidades. Só de matéria para reflectir.
Por outro lado, Hannah Arendt não era jornalista mas sim professora universitária, escritora, pensadora, quiçá filósofa. Agora jornalista é que não era.
Se atentar na trama do filme, Hannah Arendt - personalidade conhecida e reconhecida nos USA de então - oferece-se para fazer a cobertura do julgamento de Eichmann, que havia sido capturado pela Mossad na Argentina (leia-se, a propósito, o livro "Eu persegui Eichmann") e subsequentemente levado para Israel para ser julgado.
Hannah quer confrontar-se com um nazi - ela mesmo o diz quando dita  acarta que vai dirigir ao editor da New Yorker - , algo que não tinha conseguido fazer aquando dos julgamentos de Nuremberga.
Percebe-se que a abordagem que ela vai fazer no artigo que vai escrever não é jornalística: ela não (se limita a) relata(r) os factos, analisa-os, disseca-os com uma enorme profundidade crítica e também com distanciamento suficiente que lhe permite equacionar as duras e incómodas verdades que geraram a controvérsia na comunidade judaica.
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De ordens são ordens a 09.10.2013 às 15:05

As "indústrias da morte", para serem "eficazes" ,precisam de burocratas dedicados que lhes mantenham as engrenagens afinadas e oleadas.Burocratas atentos não precisam de ser fanáticos.Provavelmente Himler,o chefe fanático de Eichman,não
teria a "competência" burocrática deste,apenas foi o inspirador(com outros).Mas essa 
"banalidade" do extermínio e tortura sofreram-na a leste,na concorrente União Soviética",os milhões que passaram pelo "Arquipélago do Gulag",pela sede da
polícia política comunista na Lubianka,sob a direcção de outros chefes banalíssimos e "eficacíssimos": Yejov e Lavrenti Beria ,subordinados aos planos
de outro chefe banal--Estaline.
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De escudo-cplp a 09.10.2013 às 19:50

A desmoralização do mal, ou a grande revolução onde o Estado na sua demanda pela totalidade anexa a moralidade de uma sociedade, e burocráticamente decide sobre o bem e o mal.

Hoje já não precisamos do terror experimentalista dos totalitrismos estaliniosta e nazi, porque hoje os Estados já detém o controlo de instrumentos que lhes permite definir como dominante o que é bem e mal...
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De Floriano Mongo a 09.10.2013 às 16:10

 

O filme sobre Hannah Arendt é sublime. Um relato conciso e fiel da vida de uma das maiores pensadoras do século 20, centrado no caso Eichmann. A sua obsessão foi explicar o mal. O grande mal e os pequenos males quotidianos. E não é possível falar do mal sem referir esses dois totalitarismos que marcaram o século 20 e que Arendt colocava no mesmo tribunal - o nazismo e o comunismo – em que em ambos as forças cósmicas interagiam para maximizar a morte.

 

Ela viu banalidade do mal num burocrata habituado a não pensar preocupado apenas em cumprir as ordens, os perigos da irreflexão como sinal da alienação da realidade.

 

Adolf Eichmann era um pateta de aspecto comum que pertencia a uma máquina ideológica assassina. Ele era a face rotineira do horror. As cenas dão-nos a desproporção entre o tamanho do crime e a mediocridade do criminoso. Se ele fosse “apenas um monstro” a sua loucura dar-nos-ia respostas imediatas e definitivas para os seus crimes hediondos. O que nos horroriza, é que ele não era “um monstro” como os concebemos, mas um homem comum, o vizinho da porta ao lado.

 

Os seus matavam como quem diz “hoje está bom tempo”, maioritariamente judeus, mas também ciganos, homossexuais, deficientes, liberais, comunistas, os fracos. A grande Hannah Arendt conseguiu captar a dimensão mais profunda e perigosa da intolerância.

 

Sem uma sociedade onde as escolhas individuais não sejam substituídas por escolhas colectivas, a possibilidade de cada um dizer “isto não!” - justificamos qualquer coisa.  A banalização do mal é aceitá-lo sem dilemas morais como algo exógeno, involuntário que não nos deixa qualquer escolha.

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De Maria Teixeira Alves a 09.10.2013 às 19:45

Gostei muito deste seu comentário. 
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De escudo-cplp a 10.10.2013 às 07:35

Os fracos, ciganos, homossexuais, deficientes, liberais, comunistas? Não são os fracos! Todos esses grupos criminalizados, a questão não está se realizaram qualquer crime, mas porque o estado totalitarista tem esse poder de nomeação. Mas não apenas o poder, quase divino, de nomeação, mas também porque o direito de resposta é também monopólio do nomeador. O judeus só são criminosos porque não se poderam defender.

Será o mal explicavel, ou neste caso a conclusão é que se tentou erradicar esse conceito, passando a moral para o controlo do estado e já não nas mãos da tradição, da religião ou das elites.
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De JPB a 09.10.2013 às 16:24

Já reduzir o Nazismo ao 'Mal' sem conhecer os vários elementos em que assenta, não é banalidade, é ignorância.
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De escudo-cplp a 09.10.2013 às 19:45

Hanna Arendt nunca reduz o nazismo a uma simples esperiência do mal. Embora a determinada altura no "As Origens do Totalitarismo" ela dá a entender que tal era o esprírito experimentalista que num campo de concentração num dia são mortos milhares de pessoas e o resultado final parece ser que deus não existe, pois não se revelou depois de uma tal barbarie.
Uma das questões centrais da pesquisa de Hanna Arendt e tentar perceber como pessoas normais conseguiram realizar tarefas tão infames, pois não podemos de forma nenhuma aceitar que milhões de nazis fossem todos deficientes mentais ou sádicos sanguinários.

Eu não vi o filme mas seu que neste processo Hanna Arendt estará de forma muito directa contra o formato formato da acusação e a forma como é formulada toda a retórica de acusação. A acusação inplica a total vitimização dos judeus, negando existência juridica às vitimas não como actores num processo mas reduzidas a meras vítimas, e apaga ainda por completo o comportamento de muitos rabis e lideres das comunidades judaicas que arbitáriamente decidiam quem vive ou morre, assim como muito dos delatores que são também parte do processo.

Para Hanna Arendt o Julgamento de Eichmann apaga a memória dos que morreram às suas ordens, pois torna a história pessoal destes e até os seus nomes invisíveis no relato final.

A riqueza do pensamento de Arendt é tão complexa e interrelativa que tem de ser entendido no cosmo em que as frases são escritas. Quase todo o seu trabalho enquadra-se numa teia gigante de pensamento, muito no seguimento da Escola de Francoforte exilada nos EUA.
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De DF a 09.10.2013 às 19:04

Com que então jornalista...
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De Maria Teixeira Alves a 09.10.2013 às 19:58

Hannah Arendt

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

(...) Trabalhou, entre outras atividades, como jornalista e professora universitária e publicou obras importantes sobre filosofia política. Contudo, recusava ser classificada como "filósofa" e também se distanciava do termo "filosofia política"; preferia que suas publicações fossem classificadas dentro da "teoria política".
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De DF a 09.10.2013 às 20:15

Citar a Wiki também não ajuda a provar nada... Que digam muitos alunos do ensino superior:)
Em qualquer mini biografia, (fui só ali confirmar nos livros dela, também), ou em artigos que a mencionam, nunca se fala em jornalismo, daí que tudo isto seja um bocadinho estranho.
Fui ali ver a Wiki EN, que normalmente é mais acertada e menos .BR, mas nunca confiável ao ponto de se citar (seja para o que for, quanto a mim), não aparece nada que indique jornalismo. Parece que o "tradutor" da versão BR deu asas à imaginação:)

cumprimentos.
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De Anónimo a 09.10.2013 às 22:59


A Hannah Arendt não era jornalista, Maria, toda a gente sabe isso. Ter como fonte a wikipedia é muto pobrezinho.
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De Maria Teixeira Alves a 10.10.2013 às 00:30

Se a Hannah Arendt foi cobrir o julgamento a pedido da The New Yorker esteve a desempenhar o papel de jornalista. Não estou a dizer que tinha carteira profissional. Mas apesar de eu saber que era filosofa, política, etc, isso não impede de escrever como jornalista sobre um tema, e a wikipédia diz que ela foi, entre outras coisas, jornalista.
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De JSP a 09.10.2013 às 21:02

 "O Século XX esquecido" , Tony Judt.
Conviria ler o artigo sobre Hannah.
E, já agora, todos os outros...
Cpmts.
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De Amilcar Barca a 12.10.2013 às 00:43

Conviria à Maria ler tanta coisa...
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De Maria Teixeira Alves a 12.10.2013 às 02:35

A mim e a toda a gente :)
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De tric a 09.10.2013 às 21:21

A Banalidade do Mal acontece quando se atribui aos Israelitas o poder de definir o Mal...quando estes tem uma História com muito sangue nas suas mãos e é branqueado!! Revolução Francesa...Comunismo...Primavera Arabe...
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De jo a 09.10.2013 às 22:31


A banalidade do mal é também pensar que o caminho para a prefeição passa pelo empobrecimento dos mais pobres e pelo desporteger dos desfavorecidos para garantir bons retornos de capital e "bons" investimentos.
No fundo é considerar que as pessoas são números e não sofrem.

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