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Avieiros

por João-Afonso Machado, em 04.10.13

A explicação simplesmente encantou-me. Avieiros!!! Eu não calculava, mas... gente oriunda da Vieira de Leiria, gente da pesca, necessáriamente. Parece que, ou por comboio - foi em finais do século XIX - ou mesmo via marítima, chegaram ao Tejo, onde se fixaram nas margens até à Azambuja. O que teria sido a passagem do Búgio a bordo! O mundo inteiro há-de ter sofrido... Eles também, é claro, registos de acidentes é o que falta para estabelecer o entoar próprio da migração. O certo é que a pesca não chegava nos logos meses do mar mais rebelde.

Os pescadores trazem consigo sempre as cores próprias do infortúnio e da esperança. Trazem devoção e esperança e uma vida parca. E habituados a uma existência madrasta, invocam santos e a Mãe Santa. E sobrevivem.

Fui encontrar os derradeiros vestígios desta saga na Póvoa de Santa Iria. Numa extensão da Lisboa cidade das fábricas e armazéns, algures entre dois mamarrachos, entre os caminhos bravos que levam ao silêncio do Tejo acossado. Como se um carreiro e uma transfiguração. Eles estavam lá!

No silêncio do cenáro fotografei. Amanhã poderá ser tarde. Tudo é tarde neste Portugal que desconhece a alvorada seguinte.

Agora, é um prazer saber que há ainda quem viva do rio. De um "mar" imenso que o juizo não garante se não transforme noutra imensa porcaria. Muito se pode fazer, porém. Até deixar que nada se altere...

Atentemos na sorte dos descendentes dos pescadores de Vieira de Leiria. Os avieiros.



9 comentários

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De antonio a 04.10.2013 às 14:26

Alves Redol. Avieiros. http://www.acmlp.pt/prof/wqmj/Textos/Avieiros.pdf
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De Anónimo Veneziano a 04.10.2013 às 14:41

Chamavam-lhes, não sei porque razão (nomadismo?), os "ciganos do Tejo".
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De David a 05.10.2013 às 08:07

Acho que se seguir um pouco mais para norte, em Vila Franca tambem os encontra. Ja agora, na Povoa, viu o Fernando Pessoa?
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De Anónimo a 05.10.2013 às 15:33

Existem aldeias de pescadores avieiros pelo menos até Santarém (Caneiras). As gerações mais velhas mantêm vivas as suas tradições da pesca do sável e da lampreia.
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De Mario Sousinha a 05.10.2013 às 16:04

Não vale a pena entusiasmar-se, meu amigo.
Todos as comunidades piscatórias deste o Porto até Vila Real de Sto. António vieram do Norte de Portugal e, sucessivamente, foram progredindo. Os pescadores da Vieira, antes de irem para o Tejo já provinham de comunidades do Norte.
Nalguns casos, viajaram nos seus barcos, mas os avieiros não o fizeram. Iam desde a Praia da Vieira até ao Tejo de comboio, de carroça ou até a pé. Começaram por ir para o Tejo no inverno, quando o mar era demasiado bravo para a pesca, e faziam a sua faina no alto Tejo, entre Ródão e Abrantes. Depois, foram descendo, atrás dos mercados e do peixe. Não há praticamente quaisquer registos de acidentes entre pescadores avieiros, pois as águas do Tejo não são o mar, com excepção de raros afogamentos de alguns que não sabiam nadar e caiam da embarcação (a maior parte por bebedeiras).
Foram os últimos a chegar ao Tejo. Séculos antes já milhares de famílias de pescadores da região de Aveiro dominavam a pesca fluvial do Tejo, bem como o sistema de transportes de pessoas e de mercadorias. Os da Vieira, mais tacanhos e introvertidos (por isso conhecidos como "ciganos do rio") não se conseguiram desembaraçar da sua condição miserável e foi essa inércia que os condenou a serem os últimos pescadores do Tejo. Os descendentes dos outros pescadores ascenderam socialmente, estudaram e podem ser encontrados em todas as profissões e até desempenhando funções em diversos cargos políticos nacionais. Dos avieiros, até hoje, ainda não há conhecimento de algum dos seus descendentes que tenha frequentado a faculdade. Efectivamente, até à década de 1970 a auto-exclusão deste grupo era tão grande que se negavam a ter filhos nos hospitais e, como não tinham casas, as crianças nasciam dentro das pequenas bateiras. Só depois de 1974 é que a maioria dos filhos dos avieiros passou a ir à escola mas raros eram os que completavam a instrução primária.
A comunidade avieira sempre foi conhecida pelas piores razões, pela má-educação, pela boçalidade, pela violência, pelos conflitos, pelo alcoolismo, pelos furtos de animais e de produtos agrícolas, e pelos maus tratos contra as mulheres e as crianças. Qualquer avieiro ainda poderá confirmar isto tudo e não terá vergonha de o dizer. Não é fácil ganhar a sua confiança, mas eu vivi ao lado deles muitos anos, frequentei as suas barracas e estive nas suas festas, onde só entravam os da sua "raça". 
As coisas são como são e não devemos romancear o que não é de outra maneira. 
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De João-Afonso Machado a 05.10.2013 às 17:41

Romancear, não romanceio, não é essa a minha intenção.
Mas confesso A minha desilusão. Esperava uma «saga» mais bonita.
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De Mario Sousinha a 06.10.2013 às 00:32

Caríssimo, não quis de maneira alguma desdenhar do seu escrito quando falei em "romancear". Queria apenas dizer que não vale a pena termos uma visão romântica por muito que gostássemos que assim fosse.Image
Infelizmente, as minhas aptidões para a escrita são muitíssimo inferiores às suas, como se comprova por não me ter conseguido explicar devidamente.
Um grande abraço de sincera admiração.Image
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De escudo-cplp a 06.10.2013 às 01:46

Sabemos que muito provavelmente os turtulos, proto-celtas orientalizados do alentejo sul, fundaram o Porto, sendo todo o litoral uma mestela de turtulos especializados. Esta história deve ser anterior aos romanos. Sabemos que os turtulos deveriam ter um sentimento de superioridade face aos vizinhos, galaicos e lusitanos.
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De escudo-cplp a 06.10.2013 às 01:39

Ferreira de Alcântara e Cedilho na Margem sul do Tejo já em Espanha foram aldeias povoadas por povos da região de Aveiro, sendo que Ferreira já existe desde a alta idade média. Malpica do Tejo tb tem a mesma origem, denota-se pelo tipo de construção das casas. Inicialmente as pessoas iam a pé, em vai-vens sanzonais entre a ovação da sardinha e epoca alta dos peixes do Tejo. É uma histórica épica do Portugal atlântico, que compromente os actuais conceitos de litoral e interior só muito recentemente inventados, e se prestarmos atenção às suas consequências, e à sua antiguidade reinventa a etnologia dos Portugueses, somos realmente um povo-nação!

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