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Ao sabor do vento

por Maria Teixeira Alves, em 09.08.13
Ver de longe o ritmo dos factos e dos comentários que os acompanham levam-nos inevitavelmente a rir dos paradoxos.
Até ao fim da Primavera, todos os discursos políticos e dos comentadores que lhes fazem eco era: "Mais uma previsão de Vítor Gaspar que falhou, o Ministro deve pedir a demissão". " Vítor Gaspar deve demitir-se do cargo até porque falhou todas as previsões”. Havia movimentos nas redes sociais a pedir a demissão de Vítor Gaspar de Ministro das Finanças. Os comentadores, claro, sempre atrás da moda, faziam eco e reafirmavam o "Ministro tem de se demitir porque falhou previsões". Vítor Gaspar demitiu-se e logo o discurso político mudou e o dos comentadores... também. Afinal o Governo ficou "fragilizado", quiçá mesmo condenado a cair, porque se demitiu o único Ministro credível deste Governo, “altamente considerado pelos credores internacionais”. "A saída de Vítor Gaspar (...) é um péssimo sinal", passaram a dizer os comentadores. Afinal "Vítor Gaspar é o responsável directo pela recuperação da credibilidade do país junto dos mercados e dos credores, os actuais, ou seja, a 'troika', e os futuros". "Vítor Gaspar não se devia ter demitido, a sua demissão fragiliza o Governo", passou a ser o discurso da moda. 

O mesmo se passou com Álvaro Santos Pereira. O ex-Ministro da Economia foi ridicularizado pelo discurso político, e claro está, ao mesmo tempo pelos comentadores, por causa das suas sugestões. Ficou aliás conhecido pelo Ministro pastel de nata porque defendeu um dia [e com imensa razão] que o caminho para a internacionalização das empresas portuguesas passa pela afirmação dos produtos nacionais, dando como exemplo os pastéis de nata, "Porque não existe um franchising de pastéis de nata?" Foi ridicularizado. Não faltam artigos na internet a gozar com a sugestão do Ministro para ajudar a equilibrar a balança comercial. Álvaro Santos Pereira "era o super-ministro mau", "pouco peso político", "deslumbrado", "não fazia nada na Economia", "não se dava por ele", "não tinha perfil para a pasta da economia", tudo análises profundas, claro. Era o eterno ministro remodelável para os analistas, comentadores e politiqueiros.
Álvaro saiu do Governo e o discurso dos 'opinion makers' mudou.  "Os portugueses ainda vão ter saudades de Álvaro Santos Pereira". Depois de sair Álvaro Santos Pereira é elogiado. "Foi o sacrificado". "Ficará nas fotografias que marcam o acordo de concertação social com a UGT. Ficará na fotografia dos investimentos mineiros, que tanto gostava, ficará na fotografia da redução das rendas da energia ou da nova Lei da Concorrência. Ou ainda da primeira vez que o serviço universal de telecomunicações não está no operador histórico. Ficará também para a história pelos apelos à reindustrialização e pela exportação dos pastéis de nata. Uma das suas últimas conferências de imprensa foi ao lado de Vítor Gaspar, que também já saiu do Governo, para anunciar o momento do investimento".
Franquelim Alves foi o Secretário de Estado maldito. Não havia político ou comentador que não o apontasse como um erro crasso de Pedro Passos Coelho. Um homem ligado à SLN. Culpado porque sabia de tudo na SLN e BPN. Não faltou a tradicional comissão de inquérito pedida pela esquerda, qual circo mediático, a pedir explicações "até às últimas consequências" sobre a escolha de Franquelim Alves para secretário de Estado do Empreendedorismo. É "uma vergonha" ter Franquelim Alves no governo porque foi administrador da SLN". Dizia-se a cada voz sobre o tema, por políticos e comentadores sempre alinhados em concordância. 
Hoje, já Franquelim Alves está fora do Governo, é um herói nacional em seriedade (a seriedade que foi posta em causa pelos mesmos, quando integrou a equipe de Álvaro Santos Pereira no Ministério da Economia). Afinal quem salvou Portugal dos swaps foi Franquelim Alves, então presidente do IGCP. Pois Franquelim Alves “chumbou” swaps para reduzir dívida e défice. Foi ele quem desaconselhou o governo de José Sócrates a contratar swaps que permitissem reduzir no curto prazo a dívida e o défice. 

 

É talvez utópico esperar ler opiniões que não sejam influenciadas pelo barulho político, que nunca se distraiam do essencial e que ignorem aquela que é uma das ideias mais enganadoras, e que justifica que as opiniões andem sempre ao sabor das intrigas políticas: Um problema político. O problema político é algo que não existe. É uma aparência. O problema político é o argumento que justifica pôr achas na fogueira das intrigas.

 

Ora "um problema político" não transforma o bem em mal, nem o mal em bem. Prefiro correr o risco de cair no maniqueísmo do que no relativismo. 

 

E sou como a Agustina. "Eu não gosto de modas, só quando me convêm"


P.S. Para já não falar das opiniões dominantes a pedirem eleições antecipadas, ignorando que isso nos levaria inevitavelmente a um segundo resgate.



4 comentários

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De p D s a 09.08.2013 às 15:16

Maria, 


finalmente uma afirmação sua, com a qual eu concordo plenamente:


          "Eu não gosto de modas, só quando me convêm"



ou seja, estou plenamente de acordo, e reconheço que a Maria, 
mais que maniquista, mais que relativista...é mesmo só o que lhe convem !


faça-se justiça e reconheça-se-lhe a honestidade e franqueza.
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De murphy a 09.08.2013 às 16:52


Neste caso, tenho de dar o "braço a torcer" e dizer que a comunicaão social, em ves de modas, é até bastante coerente... se não, repare: os “culpados” são sempre os mesmos… de acordo com a "maré" opta-se sempre pela perspectiva que desgasta o governo. 

A isto chama-se “Jornalismo de Inquisição”.
 
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De Anónimo a 09.08.2013 às 17:42

Maria, e se mesmo assim (como para mim vai acontecer) formos a um 2º resgate (mesmo que lhe chamem "assobio")? É que já andam às turras no COnselho de Ministros outra vez...Espere-se pelas eleições na Alemanha então.
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De Antónimo a 14.08.2013 às 20:35

A parte melhor é onde a grande repórter se revela uma Agustina: "Eu sou como a Cassandra Amarantina." Uma fofa, fica-se a imaginar em que parte do córtex.

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