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Uma gaiola bem fora da caixa

por João Távora, em 04.08.13

Boa malha é o filme "A Gaiola Dourada" de Ruben Alves, história centrada num casal de emigrantes portugueses em Paris, a porteira Maria (Rita Blanco) e o pedreiro José (Joaquim de Almeida); uma descomplexada comédia que luminosamente desmonta e parodia os clichés duma tão generosa quanto incompreendida (por mera inveja ou snobeira) diáspora portuguesa em França. 
Sem quaisquer pretensões a dissertação cientifica sobre o tema, o filme não cede à tentação dos estereótipos políticos do ressabiamento e da luta de classes a que o assunto tão bem se presta. É deste modo que o filme colhe o desprezo da crítica regimental, na exacta proporção em que se revela um sucesso de bilheteira.Também porque nos mostra despudorada ternura às coisas da Pátria, com caracteres generosamente pincelados em tons alegres (mesmo que artificialmente queimados por efeito de um qualquer filtro de lentes “vintage”), perspectiva talvez mais acessível a quem sendo um de nós, nos vê de longe como a uma paradisíaca paisagem do Douro. Apesar da história e apesar da crise, pois então.

Independentemente de diferentes enquadramentos ou análises, os clichés são sempre irrefutáveis pedaços de verdade. E só nos deveria fazer rir a confusão dos “patrões” franceses de José entre Oliveira Salazar e o general Alcazar, personagem das aventuras de Tintim. Assim como a eterna confusão que a generalidade dos estrangeiros sempre fará entre o vocabulário castelhano e português.
Mas acontece que em duzentos anos largámos a religião para nos entornarmos em prantos aos pés dos psiquiatras e dos sociólogos. Ao contrário do crítico António Loja Neves da revista Actual do Expresso que deve perceber de cinema como pouca gente, eu espero daqui a dez anos Ruben Alves, filho de emigrantes, mantenha intacto o orgulho nesta sua bem-sucedida estreia dedicada aos seus pais, afinal de contas feita com alma e coração - quase sempre factor determinante para uma boa realização. Ao que se saiba, sustentável do ponto de vista económico, que é para além do mais uma lufada de ar fresco e oxigenado, com a qual as carpideiras profissionais não se dão bem nem se conformam. O nacional negativismo é pior do que uma gaiola, é uma sufocante caixa fechada, mas só lá vive quem quer.


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8 comentários

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De Filomena Melo a 04.08.2013 às 18:39


O filme parodia, não paradoeia. A bem da língua-mátria ;)
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De luisa a 05.08.2013 às 11:30

Olá.
Tenho familiares em França há 40 anos. Tenho amigos portugueses em França há 50 anos. De cada vez que nos visitam é costume termos discussões que resultam do facto de eles teimarem em nos ver com os olhos de quando partiram e insistirem nisso. Por muito que se explique não entendem a subtileza das diferenças. A primeira grande diferença é entre o olhar de quem foi do norte de Portugal e o de quem foi do sul. Aqueles têm da pátria a imagem da sua aldeia e estes um pouco mais aberta, talvez pela grandeza da planície de origem. Se os levamos a restaurantes habituais, ao teatro ou ao S. Carlos dizem, irónicos,  '' já estão a viver cá muito bem''. Se falamos de ordenados e impostos, outro desencontro. Onde quero chegar? A isto: não tenho dúvidas de que os que partiram são os melhores (mais corajosos e intrépidos) de nós e são também mais orgulhosos da Pátria que nós, que ficamos. Há ainda um outro grupo entre os meus próximos que é o dos intelectuais: jornalistas, poetas, historiadores. Sentem-se rejeitados porque se  acham quase todos supra-Camões e ficam desiludidos quando as redacções ou as editoras não lhes abrem as portas ( escrevem bem em português, usam muitos galicismos, não admitem nem entendem correcções - falo com conhecimento de causa ). São todos ''estrangeirados'' e ''queirozianos'' : veem de fora e com lente convexa ( ou será côncava? ) a nossa realidade. Não aceitam que nós também sabemos qualquer coisa, também estudamos, também lemos, que lemos jornais e livros franceses - nem sempre a inversa acontece ! Ostentam uma superioridade chocante ... Por outro lado, se chegam (ou tentam chegar ) ao poder local, é briga pela certa com tudo quanto já existe. Querem mudar tudo e impor o seu ponto de vista e isso sem o menor respeito ou tentativa de entendimento das razões de quem está no terreno. Raramente são bons pedagogos, querem à força do ''eu é que sei, vi na França ou na Alemanha'' impor-se. Como nem sempre são bem sucedidos acontece que ficam ressabiados e frustrados com a pátria, que não os entende. Não são de cá nem de lá, apátridas tristes. Ainda não vi o filme, estou muito curiosa, mas receio que me faça ficar triste, pelos amigos ''perdidos'', que tanto amamos e não se deixam amar, e por não ser aquela a imagem real dos portugueses em geral. O realizador deseja que com o filme ''os franceses fiquem a conhecer melhor os portugueses''. Uma amiga francesa que vive entre Lisboa e Paris já o viu e diz que ainda não é desta que se resolve essa questão.  E que, apesar do filme, os franceses continuarão a ter de nós uma visão ''cinzenta'' ( quero dizer ignorante de como somos na realidade). Oxalá que o nosso jovem realizador continue a lutar pela causa, que acho digna. Mostremos quem somos, de facto.
Não sei se me expliquei bem, desejo que sim.
Cumprimentos,
Luísa
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De João Távora a 05.08.2013 às 11:44

Julgo que se explicou muito bem, Luísa. Estou convencido que o maior drama dos emigrantes é de facto que ao fim de algum tempo não são de cá nem de lá. De resto diga à sua amiga que deixe estar isso dos franceses entenderem os portugueses: não é plausível nem tem grande utilidade. 
Finalmente: o filme é apenas uma comédia de costumes, só isso - não resolve nada, não espere mais.
Cordeais cumprimentos, 
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De Fernando a 05.08.2013 às 15:27

É disto que precisamos! Bom filme para nos divertirmos (e até chorarmos), bons actores portugueses, franceses, e lusodescendentes (que até dizem cara..adas em bom vernáculo tuga). Excelente fotografia, melhor música (Rodrigo Leão), e uma história tal como ela é, bem verdadeira. Bom, e nos momentos finais, a paisagem arrebatadora do Douro faz mais pelo turismo nacional que campanhas milionárias por esse mundo fora! Recomendo vivamente!
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De luisa a 05.08.2013 às 16:03

corrijo: onde se lê:
'' escrevem bem em português '' deve ler-se : ''não escrevem bem em português''.
As minhas desculpas.
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De Anónimo a 07.08.2013 às 22:32

Primeiro dou-lhe os parabéns por tão digna análise/crítica deste filme franco-português - que ainda não vi, só pequenos excertos em anúncios na televisão que despertaram a minha curiosidade e certamente vou fazê-lo. Depois, dar duplamente os parabéns a este jovem realizador luso-português, que tendo nascido e vivendo e trabalhando em França ainda assim não se esqueceu do país dos seus pais. Ele não só presta tributo ao país e à sua família d'origem como sente orgulho nas suas raízes, o que só o enobrece. Parabéns ainda por ter ido buscar artistas portugueses para o filme,  sendo esta, como julgo que é, a sua primeira longa metragem.
Maria
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De Anónimo a 08.08.2013 às 03:28

Leia-se "...luso-francês", naturalmente.
Maria
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De Dolores a 31.10.2013 às 20:37

Gostava de saber, que este senhor crítico é na realidade: realizador de que? na actualidade.
Jornalista ou actor? Fico a perceber um certo envolvimento em tantas sítios que nada fica a prestar.
Salve  a Gaiola!!

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