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Ter ou não ter

por José Luís Nunes Martins, em 23.06.13

Nunca somos o que temos.

 

Neste mundo há a essência e a aparência. A primeira é profunda, sólida e é onde reside o ser; a outra, será superficial, efémera, funcionando como uma capa que se encontra no meio do caminho entre essências.

 

O ter é do domínio da aparência. Atingido um limiar de sobrevivência, que pode mais um homem esperar que os seus bens lhe tragam? Poderá acreditar que a felicidade lhe chega através da sua acumulação, mas, claro, nunca nada lhe chegará, porque sempre haverá algo mais que ainda não tem... razão pela qual essa diferença marca mais um sofrimento (desnecessário): o do desejo de obter o que se não tem... poucos percebem que os bens atrapalham mais que ajudam. Poucos homens visam ser mais e melhores.

 

A superficialidade de tanta gente é marca da sua maior miséria: a inautenticidade. Há quem venda a identidade ao ter, quem abdique do que é (ou podia ser) para o trocar por umas quantas moedas de prata que, cedo e mal, gasta, perdendo assim o ter e, mais importante, o ser – a sua essência. A vida não é, afinal, uma fome de coisas, mas um tempo para ser feliz.

 

O dinheiro nunca é nosso, somos apenas gestores das sempre pequenas partes que, em determinadas alturas da história, nos vão chegando às mãos. Só isso. Nada mais. A forma como administramos o dinheiro que chamamos nosso marca-nos o ser. Faz-nos. A uns servos, a outros... senhores... de si mesmos e dos seus bens.

 

Temos esta vida, e podemos ter muitas coisas, mas somos mais do que tudo isto. A nossa verdadeira riqueza não é deste mundo.

 

As máscaras nunca são belas. A beleza autêntica vem de dentro, do ser, a nossa face ao mundo é um espelho do nosso coração. As nossas lágrimas vêm dos sonhos e das esperanças que somos, a luz e o sorriso dos nossos olhos, também. 

 


(publicado no jornal i - 22 de junho de 2013)

 

ilustração de Carlos Ribeiro




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