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A felicidade das tristezas essenciais

por José Luís Nunes Martins, em 06.05.13

Será que alguém pode ser feliz num mundo no qual o mal se manifesta de forma tão evidente?

 

Há quem procure a felicidade longe da tristeza... mas, claro, não a encontra porque a angústia é parte da essência deste mundo. Onde há mundo, há sofrimento... É esta a nossa realidade.

 

Há quem procure a felicidade nas alegrias instantâneas... mas, claro, não as encontra aí, porque nunca uma ilusão pode ser caminho para qualquer realidade, menos ainda para a verdadeira felicidade.

 

A adversidade, o sofrimento e a morte são verdades que não podem ser ignoradas por quem procura a plenitude... mas serão, por si só, obstáculos a uma vida feliz?

 

A felicidade não pode ser um estado de quietude, na medida em que vida humana comporta dimensões perante as quais, não é possível manter uma paz de espírito, uma contemplação imperturbável, uma espécie de absoluto sossego... talvez seja a felicidade de uma pedra, mas não a de um ser humano.

 

A nossa existência tem uma estreita relação com as emoções, talvez até mais do que com as ideias, mas, ainda assim, a felicidade não surge pela ignorância a respeito da verdade dos factos. Ninguém pode deixar o seu coração sorrir diante da evidente miséria das condições humanas, e desumanas, deste mundo.

 

Mas, perante as injustiças é possível fazer muito mais do que admirá-las... não se deve querer acabar com todo o mal do mundo de uma só vez, num só gesto... Nem, tão-pouco, querer que as nossas lutas mereçam a atenção ou a ajuda dos nossos semelhantes. A maior parte deles, não são suficientemente corajosos para reconhecer a ousadia de um qualquer gesto cujo fim ultrapassa o seu autor. Depois, há também de ter em conta que a ânsia pela reciprocidade do amor acaba, na maior parte dos casos, por matar o próprio amor. Devemos lutar contra o mal, como se tudo dependesse apenas de nós... sem esperar grandes coisas dos outros. Muitos se afastarão assim que sentem que a presença de uma angústia... como se fosse contagiosa e fatal... como se não fossem, também eles, humanos... como se não sentissem o valor de quem se dispõe, de peito aberto, a partilhar uma dor.

 

Há que aprender a escutar o que os outros não dizem; o silêncio dos seus vazios...

 

Estar presente e partilhar a tristeza de alguém não nos deixa iguais. Edifica-nos. Estrutura-nos e engrandece-nos. Prepara-nos para algo maior.

 

Quem foge da tristeza, furta-se à vida... não será feliz porque não aceita a condição humana. Vive de sonhos que são tristes ilusões de um mundo que não existe... enquanto, realmente, se afunda mais e mais no único mundo em que nos é dado viver.

 

Podemos ser felizes, sim. Mas sem negar as adversidades, os sofrimentos e a morte. Entregando-nos de forma generosa, e na boa teimosia do amor, à luta contra o mal, com um sentimento puro que não implica nem reciprocidade nem satisfação de si.

 

Amar é dizer: Vai!  Só mediante uma renúncia de si mesmo podemos compreender o problema do mal e combatê-lo, amando.

 

Amar alguém é dizer-lhe: Vai! Abrir mão... promover o bem do outro... permitir-se ao esquecimento próprio... rasgar a normalidade dos egoísmos e desferir um golpe certeiro na essência do mal...

 

A verdadeira felicidade é mais profunda que qualquer tristeza, é a esperança que subjaz às dores mais profundas.

 

Que saibamos abrir espaços nas tristezas para que a felicidade nelas se manifeste. Um amor, uma paz dinâmica, que permitirá que a alma amanheça... não para uma vida paradisíaca, mas para uma existência com sentido. Apesar de tudo.

 

 

(publicado no jornal i - 4 de maio de 2013)

 

ilustração de Carlos Ribeiro



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