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Óscares dos Filmes Estrangeiros

por José Mendonça da Cruz, em 26.02.13

A noite da entrega dos óscares de cinema foi uma noite estrangeira de celebração de filmes estrangeiros apreciados e galardoados segundo critérios estrangeiros.

Jean du Jardin, melhor actor em 2012, estava presente na plateia, mas, depois de ganhar o prémio e desde há um ano, desapareceu inteiramente de cena e da oferta de papéis. É a primeira peça do meu mau-estar com este lamentável fecho de Hollywood sobre si mesma.

Seth MacFarlane, o apresentador em má hora escolhido, fez-me recordar aquilo que os inimigos da América queriam dizer quando apodavam alguma coisa de «muito americana». A apresentação de MacFarlane foi «muito americana» no sentido politicamente correcto que tolheu umas piadas e impediu outras, foi superficial e complacente, foi entediantemente respeitosa (como a esquerda, Hollywood adora «desmitificar», mas suporta mal humor e crítica), foi utilitária e sem rasgo. Foi a segunda peça do meu descontentamento com os óscares.

Tendo partido do seu querido Obama a ordem para a caça final a Osama bin Laden, julgar-se-ia que um filme como O-Dark-Thirty, um belíssimo filme de acção e uma história verídica, pudesse dar-se bem nos óscares. Em vez disso, foi cuidadosamente ignorado. Hollywood não teve maneira de enfrentar as contradições: o bom trabalho dos odiados serviços secretos, agindo a mando do presidente amado, lançando uma operação pelos detestados militares, desaguando num final feliz que consiste no abate de um inimigo. A cartilha «liberal» amedrontou-se, Hollywood assobiou para o ar e olhou para outro lado - mesmo depois de a realizadora fazer um esforço para convencer-nos de que a tortura não ajudou na captura de bin Laden (o que é falso: foram as tentativas de vários torturados de iludir a importância do correio de bin Laden que levaram os interrogadores, a contrario, a centrarem-se nele). Mais: depois de ignorar este assunto desconfortável, Hollywood preferiu premiar um filme, Argo, em que o herói é o cinema (ou o fingimento de cinema) e os acontecimentos estão a confortável distância no tempo. Este comportamento fingido, incomodado e umbiguista foi a terceira peça da minha irritação com os óscares (além de achar que Ben Affleck tem a expressividade de um cepo).

Mas, não tentou Hollywood emendar a mão premiando o austríaco Cristoph Waltz? O prémio é mais de Tarantino, e Waltz não o merecia desta vez. Mereciam-no Philip Seymour Hoffman ou Joaquin Phoenix, não ele. E mais desconforto com um óscar errado. 

E, por fim, a «magia do cinema»... Há anos, um autor menor escreveu um livreco que se tornaria best-seller. Era sobre um tal Jonathan Livingston Seagull, ou Fernão Capelo Gaivota, uma gaivota destemida que ambicionava voar mais alto e mais depressa. O livrinho tresandava à parafernália com que se fazem as «fábulas» e as «parábolas» de fancaria, as histórinhas presunçosas cheias de vácuo e espalhafato significando nada. Era tal e qual como A Vida de Pi, o livro. Mas A Vida de Pi, o filme, essa inanidade vistosa, é de Ang Lee, e Ang Lee, embora defunto, continua a merecer de Hollywood agradecimentos perenes por ter levado a homossexualidade aos vaqueiros. E lá foi paga mais uma prestação dessa gratidão alegre. Pareceu-me o golpe derradeiro nos óscares. Assim atordoado, já pouco me importou ouvir Barbra Streisand (cantando mal), Catherine Zeta-Jones (cantando e dançando pesada e pessimamente) Shirley Bassey (cantando curto), o elenco d`Os Miseráveis (espremendo-se afligidamente), Seth MacFarlane (cantando um primor de mau gosto intitulado «I saw your boobs»), e Michelle Obama (colando-se).

Sobrou pouco, mas sobrou qualquer coisa; sobrou que viva Jennifer Lawrence, sempre, Viva Spielberg, eternamente, viva Daniel Day-Lewis, todos os dias, e viva Adele, que usa tão bem, tão bem, tão bem a voz divina que lhe deram.

 

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2 comentários

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De Luísa Correia a 26.02.2013 às 12:28

Concordo com tudo, José, até com a expressividade do cepo. Só que a um cepo não se pede realmente expressividade. Pedem-se outras coisas, digamos assim. Os mais vistosos actores do cinema foram e são, quase invariavelmente,  grandes cepos. ;-)
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De José Mendonça da Cruz a 26.02.2013 às 14:05

Gosto que lhes chame «vistosos», Luísa, e não «grandes», e nem esperaria outra coisa. Lembrou-me logo o Clark Gable, ou o Humphrey Bogart, ou o Robert Redford, esses canastrões insuportáveis. Eu vou mais pelos actores «low-key» (Robert Duvall, Seymour Hoffman), com uma excepção histriónica: Jack Nicholson. Há um filme (Estranhos na Cidade) em que ele contracena com Meryl Streep, ambos em papéis de sem-abrigo. E todo o tempo olha-se para a Meryl Streep e pensa-se: «Ai que bem que a Meryl Streep faz de sem-abrigo»; entretanto, o Jack Nicholson é um sem-abrigo.

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