por Luísa Correia, em 05.02.13

"Zero Dark Thirty" tem, desde logo, a qualidade de ser coerente com o seu próprio nome. São as trevas mais densas que - salvo caso de avaria técnica - já vi num ecrã, na circunstância para ilustrar o ataque ao complexo habitado por Bin Laden no Paquistão, iniciado às "zero e trinta" do primeiro dia de Maio de 2011. Felizmente, a cena vem pontuada de uns quantos "flashes" captados em dispositivo de visão nocturna, o que permite que, complementando as imagens verdes com algum trabalho de adivinhação, se acompanhe, não sem curiosidade, a sequência das operações.
Mas "Zero Dark Thirty" tem ainda outra e maior qualidade. É a de apresentar a pequena comunidade envolvida na caça ao demónio terrorista, desde os agentes da CIA que batem o terreno até aos "SEALs" que invadem o complexo, não como um conjunto de heróis frementes de ardores patrióticos, que honram a força e a magnanimidade da grande nação norte-americana, mas como um grupo de pessoas comuns, cheias de fragilidades, muito falíveis e capazes, naquele teatro de "guerra", de tanta crueldade, quanta delicadeza.
"Zero Dark Thirty" adopta o mesmo estilo seco de "Argo". Mas a neutralidade de Kathryn Bigelow fá-lo menos previsível; logo, bem mais interessante.