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O Homem em busca da Verdade

por José Luís Nunes Martins, em 16.01.13

 

Existem dois grandes disparates intelectuais: aceitar o que é falso e não aceitar o que é verdadeiro.

 

Todos nos enganamos. Sim, todos nos enganamos a nós mesmos, mais do que o mundo ou os outros, como se a fraude só fosse possível com a colaboração de um cúmplice interno. Assim, será importante saber que existem no nosso pensamento conteúdos e mecanismos que podem funcionar de forma contraproducente. Talvez esta simples tomada de consciência possa, por si só, ser um antídoto eficaz frente à maior parte.

 

Mas, será pior acreditar na mentira ou não aceitar a verdade? Talvez seja mais prejudicial virar as costas à verdade do que abraçar alguma falsidade. Quando se acredita no falso, há uma certa adesão, como que uma vontade de verdade que se sobrepõe a outros elementos mais ou menos evidentes que poderiam ser pistas para desmascarar a falta de fundamento real... mas, quem não adere ao verdadeiro está a confiar mais em si que no real e, esta perda de inocência, pode revelar-se verdadeiramente desastrosa.

 

As pessoas que mais fogem da verdade têm uma forte determinação em recusar o mundo, o que de melhor e pior existe aqui. Uma alienação. No fundo, constroem para si, e só para si, embora tentem envolver outros, uma narrativa onde o funcionamento de tudo depende da sua vontade, como se fossem o deus único desse seu solitário mundo... o problema maior é que com o nosso tempo limitado, perder dias, meses e anos, longe do único mundo real, onde cumpre sermos felizes, é um pecado capital contra a nossa realização pessoal.

 

Todo o homem procura uma vida com sentido. O sentido pode ser construído ou aceite, revelado ou descoberto. Mas tem, de qualquer forma, as suas raízes bem firmes no real. Trata-se de um caminho que assume o seu ponto de partida - mais do que saber para onde vamos, sabemos bem onde estamos.

 

Quem sabe que rumo dar à sua vida aceita os sofrimentos inevitáveis associados a isso. Esta disponibilidade para o sofrimento só existe, se ele tiver um sentido, se fizer parte de um percurso maior. Quem sofre sem sentido sofre muito mais, até porque ainda sofre mais de se ver sofrer... sem sentido. Uma vergonha tremenda de não perceber sequer como caímos no fundo do poço. Outra coisa bem diferente serão as dores, misérias e amarguras de quem sabe como alinhar os seus dias para o futuro que deseja. Quando está em causa a felicidade, a verdade do ser, o preço a pagar nunca é alto. Por isso, há muitos que morrem por aquilo em que acreditam, na firme convicção que o caminho para a realização do seu ser é mesmo por ali.

 

Há no mundo muita gente de máscara. Mais do que enganarem os outros, impedem-se a si mesmos de ver a realidade de forma pura. Porque as máscaras perturbam seriamente a nossa capacidade de ler o mundo, impedindo-nos de distinguir bem as mentiras da Verdade.

 

Quem assim se afasta da Verdade, torna-se em quem não é. Foge de si. Nesses momentos, não acreditam no valor do simples e puro, na verdade do autêntico. Convencem-se que isso é pouco e querem mais... como se tal fosse possível.

 

Esta nossa atitude condena-nos a uma solidão medonha que acaba sempre tarde demais, porque se perdeu sempre tempo precioso, mas, paradoxalmente, sempre ainda a tempo de experimentarmos ser quem somos, o que, ainda que por breves instantes, vale quase uma vida inteira.

 

Quem sabe ser humilde percebe que há mais verdade no autêntico e simples do que em todas as grandiosidades do mundo; Que ser feliz é, antes e depois de tudo o mais: ser-se quem se é. De forma simples. Numa alegria funda que celebra o milagre de sermos tão valiosos quanto únicos e verdadeiros.

 

 

 

 

(publicado no jornal i - 12 de janeiro de 2013)

 

ilustração de Carlos Ribeiro

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