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Anthony Bourdain em Lisboa

por Luísa Correia, em 16.01.13

Gostei imenso da Lisboa velha, nocturna, intimista, que Anthony Bourdain nos apresentou no seu programa sobre viagens gastronómicas - um programa que, aliás, vai muito além da gastronomia.
Mas não gostei igualmente de tudo o que vi e ouvi. Começando logo pela primeira amostra das tradições alimentares alfacinhas, uma interminável procissão de camarões, lagostins, sapateiras, búzios, ameijôas, percebes e outros mariscos graúdos, que estão longe de me falar aos olhos e ao paladar.
Depois, achei excessivo o negrume do quadro pintado por António Lobo Antunes sobre o tema do nosso passado pré-abrileiro. Às vezes, parece que Lobo Antunes esconde, por detrás da sua expressão de pesada e pedante indiferença, uma assanhada teatralidade. Ao seu lado, Carminho puxava das cordas vocais em sentidos arrancos e Bourdain, aplaudindo, dava nota do estudado desinteresse do escritor... (Cumpre, neste passo, esclarecer que a minha herética antipatia pela criatura não é extensível às suas criações).
Teria ainda dispensado a cena de pesca no Tejo, com o chefe Avillez. Faz uma vítima, o mais inteligente cefalópode do planeta, adiante devorado com cruel apetite.
De regresso ao capítulo musical, Bourdain revela-nos a nova coqueluche da cidade, uma tal banda Dead Combo, na companhia da qual se ataca a umas lascas de atum em conserva. Dos Dead Combo conservo eu a lembrança de uma lúgubre sonoridade subterrânea, bastante coerente com o seu nome.
Bourdain desloca-se, por último, ao Clube do Chinquilho, jogo que anuncia ser uma das nossas mais representativas tradições. Não gostei. Não gosto, em geral, de me confrontar com a minha ignorância. Também desconhecia o papel tremendo das túberas do touro bravo no desenvolvimento das nossas artes culinárias... Informação de um reputado chefe jugoslavo.
Enfim, com as reservas assinaladas, foi uma visita muito amável a uma Lisboa muito calorosa. Uma Lisboa a que Bourdain já estava lisonjeiramente rendido quando, a meio do programa, empunhando, no Arco do Bandeira, uma ginginha, insistia com um sorriso largo: "Adiamos o resto das filmagens para amanhã?"

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1 comentário

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De JdB a 16.01.2013 às 10:08

Tenho pena de não ter visto o programa mas ler o seu post mitiga a frustração. Percebi, se "esta" estatística fosse uma ciência exacta, que a proporção do seu gosto/não gosto é óbvia. O seu texto tem sete parágrafos, e só o 1ª é elogioso. Reflecte o que sentiu na generalidade?
Como eu percebo o que diz do Lobo Antunes e do seu (dele) "estudado desinteresse"... De facto não é fácil simpatizar-se com ele. Há algumas semanas vi uma entrevista dele à Clara Ferreira Alves no RTP memória e contorci-me, sobretudo quando diz (e cito de cor) que gostaria de receber o Nobel, não por ele, mas para oferecer ao Pai e aos irmãos...
(desculpe, afastei-me do tema).  

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