por Luísa Correia, em 26.12.12

Li o "Hobbit" e "O Senhor dos Anéis" nos primórdios da minha juventude. Reli-os, com o mesmo entusiasmo, uns anos depois - numa edição inglesa, de "luxo", que me custou um vigésimo da trivialíssima tradução portuguesa - aquando da estreia de "A Irmandade do Anel", primeiro filme da triologia de Peter Jackson. Creio que foi pela familiaridade que já tinha com a "epopeia" inspiradora, verdadeira obra de culto de quem aprecia, na literatura, uma grande história mais do que um belo estilo, que gostei da adaptação cinematográfica - um pouco como quem prefere ouvir, em concerto, composições que conhece e vai trauteando em surdina a novos lançamentos. Mas mesmo tendo gostado, reconheci no trabalho de Peter Jackson aspectos de realização que me franjam os nervos de cada vez que acontece deparar-me com uma (re)exibição televisiva. Ninguém sabia quem era Peter Jackson antes da sua abordagem a Tolkien. Ousou fazê-la e colheu os frutos (compensadores!) da sua ousadia. Mas Peter Jackson era então um novato, e não resistiu à tentação de explorar, até ao tutano, o dramatismo dos momentos. O que redundou no que me parece pouco menos do que um espectáculo de carpideiras. A emotividade extremada das cenas (ressalvadas as de pura acção ou de guerra), expressa em morosos lamentos e declamações, em olhares e sorrisos parados e insondáveis, à Gioconda, em câmaras lentíssimas nos instantes de risco ou tragédia, e, em suma, numa confrangedora falta de naturalidade, é muito enjoativa. E o pior é que Jackson, no tempo que lhe tomou a triologia, evoluiu de novato para novato, e nunca corrigiu a trajectória da sua lamecha direcção de actores. Aí estão "As Duas Torres" e, sobretudo, "O Regresso do Rei" a comprová-lo. O sentimentalismo não terá sido, portanto, um erro de inexperiente, mas algo que tem entranhado na massa do sangue. Sucede que, para mim, é como diz Auberon Waugh: "Sentimentality is the exact measure of a person’s inability to experience genuine feeling." E quem não sente verdadeiramente, conseguirá ser mais do que fingidor e artificial? E agora, que faço eu - já tão enjoada nesta quadra pantagruélica - em relação ao recém-estreado "Hobbit"? Vejo? Não vejo? Espero pelo DVD?