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O Sr. P.

por Rui Crull Tabosa, em 03.10.12

O Sr. P. tem passado.

Nasceu pobre. Quando novo trabalhava arduamente no seu terreno, pouco extraíndo de uma agricultura principalmente de subsistência. Depois de também se dedicar à pesca, descobriu finalmente no comércio uma forma de enriquecer, vendendo aos vizinhos produtos cobiçados que comprava ou produzia noutras localidades, cujo acesso fácil só ele conhecia. Depois aconteceu o que normalmente acontece: os vizinhos descobriram-lhe o segredo e, sendo mais fortes e industriosos que ele (que gastara os lucros obtidos em artigos de luxo ou simplesmente desbaratando-os), cedo ou tarde aabaram por lhe roubar o exclusivo até quase o expulsarem de lá.

Já velho, sem forças, largou o comércio e abandonou os terrenos entretanto adquiridos, deixando-os a vizinhos poderosos ou ao deus dará.

Voltou-se, então, para o pequeno pedaço de terra natal. E que fez? Irrealista (quase parecendo senil), pedia dinheiro emprestado para multiplicar caminhos para lado nenhum e plantar flores de enfeite (principalmente cravos, primeiro, e rosas, depois) que contemplava, deleitado. Almoçava quase sempre fora, dava festas, comprava sempre o último grito da moda, para tanto usando o generoso plafond do seu cartão de crédito. Como tivesse dificuldade em pagar as crescentes dívidas, arranjava novos cartões para pagar os juros que entretanto iam caindo.

Até que chegou o dia em que os credores deixaram de lhe emprestar dinheiro como dantes, avisando-o de que só o voltariam a fazer, impedindo-o de cair na mais absoluta miséria, se o Sr. P. reduzisse - e muito - os repastos no restaurante, aceitasse substituir o roseiral por árvores de fruto e outras produções mais rentáveis e, finalmente, apertasse uns bons furos no cinto que se habituara a não usar.

E assim chegamos ao presente, em que o Sr. P. tem de escolher entre encarar as suas dificuldades com coragem e como uma oportunidade para mudar de vida ou, então, a não pagar o que deve, condenando-se a regressar a uma existência, quando muito, de subsistência.

Terá o Sr. P. futuro? 

Espero bem que sim, a pensar, principalmente, nos seus filhos. Nos nossos.



5 comentários

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De tric a 04.10.2012 às 00:58

"Voltou-se, então, para o pequeno pedaço de terra natal. E que fez? Irrealista (quase parecendo senil), pedia dinheiro emprestado para multiplicar caminhos para lado nenhum e plantar flores de enfeite (principalmente cravos, primeiro, e rosas, depois) que contemplava, deleitado. Almoçava quase sempre fora, dava festas, comprava sempre o último grito da moda, para tanto usando o generoso plafond do seu cartão de crédito. Como tivesse dificuldade em pagar as crescentes dívidas, arranjava novos cartões para pagar os juros que entretanto iam caindo.
.
O Sr. P é a Banca ? ou é o Estado ? uma coisa tenho a certeza, o Sr. P  Governa este país ...
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De Rui Crull Tabosa a 04.10.2012 às 09:02

Também. somos todos nós. É Portugal
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De p D s a 04.10.2012 às 10:30

Rui...


eu sou "Portugal"...como o rui diz.


Mas já agora, só para que saiba como é "este Portugal" que somos todos nós:


    - Não tenho Medico de Familia...(simplesmente não há, desde q sou "puto")...e obviamente a minha filha, tem o mesmo medico q eu: nenhum!


     - Tenho o mesmo carro há 12 anos, com + de 200 mil kms. e só rezo para que dure outro tanto.


     - A minha filha janta fora, quando eu ponho a mesa na varanda, depois de lhe cozinhar o jantar.


     - Fui a Tribunal, por conta da Regulação Paternal, paguei 630€ de custas. Tive de constituir advogado obrigatoriamente - eu não queria, mas eu julgamento, não me poderia defender sem um Advogado. Os honorários não se podem meter no IRS.


       - Tenho regime de GuardaConjunta, 50/50, em tempos e despesa. È Impossivel por estas despesas e a minha "descendencia", no IRS.


   - A Escola da minha filha, fez obras no Pavilhão de Ginastica. ficaram a meio, e agora pedem aos pais para "doar" o que falta para acabar as obras...entretanto, aulas no pavilhão, simplesmente Não Há!






( poderia continuar, mas já chega para que lhe pergunte:)


Em que parte disto tudo, q é a minha vida, é que eu devo o quê e a quem ?


Se isto é viver "acima das possibilidades" alguem que me explique o conceito de "reforma ao fim de dois mandatos" dos politicos por exemplo! 


Ou alguem me explique porque, metade da minha empresa, os Gestores, teem carro e gasolina paga (valores q não são abrangidos pelo IRS) , e eu com muito menos renidmentos absorvo todos os aumentos da gasolina ?




Sabe, Rui, quando é para pagar..."somos todos um"...quando é para "comer o bolo" já "uns" são mais que os "outros"....


uma COLOSSAL CAMBADA é o que é ! 
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De makarana a 04.10.2012 às 02:17

o problema foi quando sr p baseou a sua cura em(render os seus orgãos ou criando mais) do que fazer dieta.
Metáfora a parte, o problema aconteceu, quando o governo baseia a sua estrategia orçamental em aumentos de impostos , quando devia basear-se na despesa, sabendo que o pais tinha já uma carga fiscal insustentável
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De l.rodrigues a 04.10.2012 às 10:35

O credor aumentou o preço porque fez um juízo sobre a capacidade do Sr P. pagar e não porque o sr. P deixou de pagar. 
E ao fazer esse juízo e aumentar o preço o credor condenou o sr. P a não poder pagar, e condenou-se a não poder receber. 


E já agora falta uma flor nesta história que é a de laranjeira. Inebriado pelo seu perfume, o sr. P achou que podia viver suficientemente bem sem cuidar do seu pedaço de terra e sem investir em meios de melhorar a sua produtividade.

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