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A pedagogia do desgoverno

por José Mendonça da Cruz, em 28.09.12

Convido os telespectadores dos vários canais a fazerem uma experiência: apontem quais foram as peças das primeiras meias horas dos vários telejornais e verifiquem, no fim, o que souberam de novo. Ou seja, se foram informados substantivamente sobre temas actuais que desconheciam em pormenor, ou se (como considero que acontece em 90% dos casos) apenas ouviram opiniões de pessoas com algum interesse ou envolvimento na matéria (sendo que os jornalistas recuaram para a mera posição de pés de microfone) ?

Quando vos falaram de fundações, ouviram: a) quantas são, quantas são aquelas que recebem verbas públicas para fins bastante opacos ou irrelevantes, quanto custam em dinheiro dos contribuintes, quantas e quais são extintas, quantas e quais permanecem, quantas permanecem embora inexplicavelmente, quanto custavam e quanto custam etc.; ou se b) ouviram o reponsável pela fundação para o estudo do calhau vulgar protestar pelos danos para o país que resultarão da menor subsidiação do estudo do calhau, se ouviram o presidente da fundação para o progresso da couve queixar-se de que a couve fenecerá a partir de agora, se ouviram o coordenador do estudo sobre as sete saias protestar contra a insensibilidade cultural do governo de Lisboa, etc.

Quando vos falaram de estradas, foram informados sobre a) quanto pagaremos até 2040 por estradas desnecessárias, quem decidiu a construção das estradas desnecessárias e porquê, que valor foi corrigido nos gastos com a estradas desnecessárias, que percentagem foi cortada nos gastos desnecessários e quando é efectivada a poupança, que outras soluções foram propostas e porque não fizeram caminho, ou se b) ouviram o autarca de Alguidares de Cima acusar o estado de negligência por não construir mais estradas, ouviram a misteriosamente legitimada comissão de utentes dizer que a estrada não só devia ser gratuita como ter 5 em vez de 4 vias, e ouviram defuntos políticos afirmar que, apesar de termos que pagar, a estrada é, a seu ver, absolutamente de borla.

Como bem nota, hoje, Vasco Pulido Valente, rara ilha de seriedade no actual Público, as fundações mereceriam dos «orgãos de informação» 1000 páginas em vez das 30 em que são tratadas. Mas não é verdade que em vez do retrato geral do abuso «fundacionista» o que temos, em vez, é a ausência de crítica à insuportável tibieza deste governo no corte dos abusos, e, ao contrário, o desfiar de choradinhos de quem deixa de reconfortar-se com o nosso dinheiro?

Ou, de outra maneira: porque será que é de comentadores e programas de debate que, afinal, colhemos as cruciais perguntas, os números crus, as duras críticas?     

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3 comentários

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De Pistotira a 28.09.2012 às 14:27

O que está a dar na "informação" a que temos direito, designadamente nos "telejornais", é um/a "jornalista" se plantar com o microfone à frente dos passantes e ouvir a douta opinião de quem obviamente pouco ou nada sabe sobre os assuntos, até porque ninguém proporcionou informação que se aproveitasse...
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De José Mendonça da Cruz a 28.09.2012 às 15:14

Ontem vi a modalidade ser levada a novas alturas: uma sondagem que inquiria sobre se as pessoas consideravam que havia mais ou menos casos de depressão. A sério! Não se havia mais ou menos casos de depressão, mas se os inquiridos achavam que havia mais ou menos casos de depressão. Não se investiga nem noticia a coisa; agora investiga-se e noticia-se a impressão sobre a coisa.
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De Maria a 28.09.2012 às 17:07

Raramente os jornais da noite me acompanham. É uma canseira e uma inutilidade. Há, num canal generalista, um telejornal que consegue ter a duração de 1h30, mas o pior é o tom moncórdico da jornalista de serviço. De fugir.

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