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"Easy to do justice. Very hard to do right"

por Zélia Pinheiro, em 25.09.12

Sei que a genialidade de David Mamet como argumentista não oferece muita discussão desde O Veredicto (1982) e Wag the Dog (1997), a brilhante sátira sobre os bastidores das campanhas presidenciais americanas com Robert de Niro e Dustin Hoffman.

Só agora me deparei porém com o Mamet realizador, na adaptação ao cinema de The Winslow Boy, a peça de teatro sobre um processo judicial que abalou Inglaterra nas vésperas da primeira grande guerra, amplamente mediatizado na época através dos meios então ao dispor. 

Na origem do caso esteve a expulsão de Ronnie Winslow, um cadete da academia naval de Osborne, por alegado roubo de um vale postal no valor de cinco xelins. A peça conta a saga de um banqueiro reformado que decide empreender a defesa do filho nos tribunais,  acreditando nos seus protestos de inocência. Mamet parte da peça de Terence Rattigan e transforma-a num filme com o seu trademark enredo complexo mas preciso como um relógio suíço, e só posso resumir este The Winslow Boy como magistral. 

Nigel Hawthorne é Arthur Winslow, o pai que obsessiva e quase insensatamente empenha todos os seus recursos, materiais e físicos, para provar a inocência do filho. 

Depois de conseguir interessar pelo caso Sir Robert Morton (Jeremy Northam), o mais famoso advogado do tempo, Arthur Winslow inicia uma penosa escalada processual com o apoio e o sacrifício de toda a família. O irmão mais velho de Ronnie é forçado a abandonar dos estudos em Oxford e a irmã, Catherine, gasta o dote no pagamento dos honorários do barrister e vê o noivado cancelado porque a publicidade à volta do caso Winslow não é compatível com um casamento adequado.

Driblando todos os clichés, este é um filme sobre um processo judicial que não é um "filme de tribunal" nem tem uma única cena passada na sala de audiências.  Mamet pretende contar, mais do que a história de uma batalha na justiça, a da luta pelo bem. Quando finalmente vence o último recurso que lhe irá dar a vitória, num dos grandes diálogos do filme, o advogado  explica que o importante não é que tenha sido feita justiça, mas que tenha sido feito o que estava certo: "Easy to do justice. Very hard to do right". 

Em subplot, Mamet conta ainda a história da sedução entre Catherine, uma sufragista empenhada em causas sociais, e Sir Robert Morton, deputado do partido conservador, ostensivamente céptico em relação aos direitos das mulheres. Uma lovestory feita de olhares e subentendidos onde pontuam diálogos como este, que termina o filme: 

Sir Robert Morton: Oh, you still pursue your feminist activities? 

Catherine Winslow: Oh yes. 

Sir Robert Morton: Pity. It's a lost cause. 

Catherine Winslow: Oh, do you really think so, Sir Robert? How little you know about women. Good-bye. I doubt that we shall meet again. 

Sir Robert Morton: Oh, do you really think so, Miss Winslow? How little you know about men.

Um final à altura de um filme superlativo.



3 comentários

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De Maria Teixeira Alves a 25.09.2012 às 14:54

Obrigada Zélia, não vou perder. Bjs
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De Zélia Pinheiro a 25.09.2012 às 23:47

Não percas mesmo. Passou há dias no AXN Black, talvez ainda o apanhes com as gravações. Vais gostar de certeza. Bjos.
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De Anónimo a 27.09.2012 às 16:48

Vi o filme, e mesmo tendo-o achado apenas escorreito (o que nos dias actuais não é mau), apreciei o escopo do mesmo: fazer justiça é diferente do fazer o que está certo. e fazer o que está certo é mesmo difícil, quase quixitesco. Sendo da área, ainda estou a meditar sobre o tema.

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