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As palavras também fazem Amor

por José Luís Nunes Martins, em 28.08.12

Se é fácil concordar com a ideia de que as palavras podem fazer grandes males, por que razão não são vistas como precursoras do maior bem? Afinal, sendo leves como o vento e fortes como o mar, as palavras, e os silêncios entre elas, são capazes de trazer e levar Deus, de criar e destruir o Amor...

 

A palavra é a ponte que faz o encontro do homem com o mundo. Por vezes pesa montanhas e tem a espessura de rochas, outras vezes, é mais leve que o ar e transparente como um céu. As palavras expressam-nos e impressionam-nos.

 

São atos puros. Estabelecem verdades, criam-nas, alimentam-nas e também lhes põem fim. São, ou deveriam ser, ecos do que se passa de forma silenciosa nas profundezas da alma. As palavras mais ricas, não são necessariamente as literárias de Nobel, mas porque autênticas, as que trazem consigo luz, um sentido para a vida. Neste caso, são simples. Só o que conseguirmos dizer a uma criança pequena, sem equívocos nem adornos, é realmente verdade. Tudo o mais é... pior que o silêncio.

 

Há momentos em que explodimos, momentos em que a vida se ilumina por uma claridade de outro mundo. O amor aparece. Num olhar. Numa palavra simples, que traz consigo uma intimidade toda, que transforma o mundo e inaugura um novo futuro.

 

A palavra amor é utilizada para dar corpo a várias realidades, sendo que algumas delas não são mais que ilusões e embustes... tentando fazer-se passar pelo contrário do que são.

 

O conceito de amor é tanto mais definido e claro quanto mais sentimentos considerados vizinhos englobar, tais como amizade, esperança, fé, saudade, paixão, etc. mas que num amor autêntico se fundem numa só realidade. Um só sentir. Em mais do que um coração.

 

O amor também confunde, desordena e agita. Porque não é a regra, mas uma exceção. As categorias da normalidade, entre as quais se contam as palavras, não foram pensadas com base num cenário de luz e calor, mas num jogo de cinzentos frios por onde o mundo ora se mostra, ora se esconde. Aqui, o amor desconcerta e destrói essa lógica de ser no mundo. Parece uma loucura a quem o não conhece, ou o deseja sem sucesso. O amor verdadeiro é tranquilo como um céu azul, apesar de conter e palpitar trovoadas de esperança.

 

Todas as palavras são supérfluas se não vierem do fundo do coração, pois quando não trazem essa luz apenas aumentam a escuridão. A maioria dos desentendimentos entre pessoas deve-se às palavras, ou melhor, à estranha ideia que é do diálogo, e não do amor, que nasce o entendimento. Elas são um meio. Não o fim. Um meio do amor se prometer e aproximar do mundo...

 

Um detalhe. As palavras ditas distinguem-se das escritas. As primeiras parecem voar, as segundas ficam. A coragem de quem ousa escrever é compensada com uma honra desconhecida daqueles que não assumem o risco de se escrever. Há, no entanto, um restrito número de homens que vivem de acordo com valores mais altos, para quem a palavra dita tem ainda mais valor que qualquer escrita. Estes, sabem quem são, arriscam-se a sentir e a mudar o mundo, prometem-se em palavras, conhecem o seu valor... e o desvalor dos esquecidos e de todos os demais mentirosos.

 

O amor capaz de felicidade não é um desejo, porque não visa a sua própria satisfação, mas sim uma forma de ser. Sendo, simplesmente. Não busca capturar o outro para dentro de si, mas tão-somente conseguir que quem o sente seja quem é. Como se quem ama se desse conta que é apenas a metade da construção de um verdadeiro sorriso.

 

 

 

(publicado no jornal i - 25 de agosto de 2012)

ilustração de Carlos Ribeiro



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